Houve uma geração que viu David Beckham estrear-se no Manchester United, ainda muito loiro e sem o sete nas costas, até conquistar tudo em 1999. Houve uma geração que viu David Beckham chegar ao Real Madrid, de cabelo apanhado antes de o rapar, para fazer parte dos galácticos. Houve uma geração que o viu fazer as malas para os EUA, outra que o viu despedir-se em lágrimas em Paris, uma que o viu na Netflix a dançar enquanto arrumava a cozinha. Todas, porém, sabem exatamente onde estava David Beckham enquanto cresciam.
O antigo jogador inglês celebra esta sexta-feira, dia 2 de maio, 50 anos. Uma data redonda que começou a assinalar há cerca de um mês, com uma enorme festa em Miami, e que irá continuar a recordar com iniciativas de solidariedade associadas à Unicef. Certo é que, mais de uma década depois de terminar a carreira e agora ao leme do Inter Miami, David Beckham continua a ser famoso como poucos e adorado como quase nenhuns.
Casado há mais de 25 anos, com quatro filhos, tornou a família no verdadeiro pilar da marca que foi criando com base no apelido e que hoje em dia é um verdadeiro império. Se para uns é livres diretos e aquela Liga dos Campeões contra o Bayern, para outros é capas de revista e looks arriscados – mas ninguém fica indiferente ao primeiro jogador de futebol verdadeiramente global. Aos 50 anos, David Beckham continua a ser tão especial como sempre foi.
▲ A forma como o antigo jogador inglês cobrava os livres tornou-se uma autêntica imagem de marca
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Dos relvados de Old Trafford para as passadeiras – sempre em tons de vermelho
George Best não era propriamente conhecido por medir palavras. E confirmou essa ideia quando, nos anos 90, foi questionado sobre o rapaz loiro que por aqueles dias vestia a camisola 7 do Manchester United que um dia também tinha sido sua. “Não sabe rematar com o pé esquerdo, não sabe cabecear, não sabe fazer carrinhos e não marca muitos golos. Tirando isso, é bom jogador”, disse sobre David Beckham, que acabaria por se tornar um dos maiores ídolos das bancadas de Old Trafford.
Best, porém, não estava muito longe da verdade. Independentemente do talento natural e comprovado para bater livres diretos de uma maneira que nunca ninguém conseguiu reproduzir, David Beckham nunca foi um jogador extraordinário. Não tinha a eficácia de Cantona, os dribles de Giggs, as recuperações de bola de Keane ou a qualidade de passe de Scholes. Mais de uma década depois de ter deixado os relvados, ainda assim, é mais famoso do que todos eles – juntos.
Com 50 anos, mais de dez depois de ter terminado a carreira no PSG e quase 30 depois de ter conquistado tudo com o Manchester United, não é difícil dizer que David Beckham foi o primeiro jogador de futebol a tornar-se uma verdadeira celebridade a nível global. Michael Jordan já o tinha feito no basquetebol, Ayrton Senna teve a capacidade de o fazer na Fórmula 1 e Muhammad Ali juntou os feitos no boxe à luta pelos direitos civis para se tornar um ícone – o futebol, contudo, continuava a ter o handicap de não chegar tão facilmente à América do Norte, à Ásia ou à Oceânia, por exemplo, o que dificultava a globalização.
Mas Beckham não precisou de muito tempo para atalhar caminho. Filho de uma família de classe média dos subúrbios de Londres, tinha a história perfeita do rapaz que nunca quis mais nada da vida que não ser jogador de futebol. Chegou à equipa principal do Manchester United, correu o mundo com um golo marcado ao Wimbledon atrás da linha do meio-campo e não demorou a ser o preferido das jovens adeptas dos red devils que ficavam impressionadas com uma espécie de rebeldia tímida que ia despontando. Pouco depois, as mesmas jovens adeptas teriam o coração partido em mil pedaços quando a potencial estrela David Beckham começou a namorar com a enorme estrela Victoria Adams, a Posh Spice, que nos anos 90 tinha legiões de fãs em conjunto com restantes Spice Girls.
“O que é que eu pensava sobre o futuro nessa altura? Para ser honesto, tudo aquilo que eu sempre quis foi ser bem sucedido enquanto jogador de futebol. Claro que sempre fiz coisas fora de campo e fora da minha carreira que, na altura, já eram um bocadinho diferentes. Acho que agora é mais aceitável fazer algumas das coisas que fiz, algumas das capas de revista, das sessões fotográficas, dos acordos de publicidade. Mas acho que o meu foco continuava a ser apenas conquistar troféus, ser bem sucedido com o Manchester United e nunca deixar o clube. Tudo o que acontecia fora de campo era um bónus”, explicou o inglês, há alguns anos, numa longa entrevista à revista GQ.
A relação com Victoria levou-o para todo o tipo de eventos e abriu-lhe a porta do mundo da moda: depressa apareceram as tais capas de revistas e sessões fotográficas, as parcerias com as marcas mais luxuosas e os looks arriscados e inéditos, acompanhados por cortes de cabelo e dezenas de tatuagens que levavam Alex Ferguson à loucura. O casal perfeito, que muitos também achavam estar condenado logo à partida, tornou-se marido e mulher: e depressa chegaram os filhos, num total de quatro, numa imagem de família coesa e feliz que é ainda hoje um dos maiores trunfos comerciais de David Beckham.
▲ Desde que começaram a namorar, nos anos 90, que os Beckham atraíram multidões de fãs, jornalistas e paparazzi
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“Acho que nunca mudei a minha maneira de pensar, apesar de tudo. O meu ganha-pão sempre foi aquilo que eu fazia em campo e a razão de me ter tornado tão bem sucedido fora de campo era aquilo que fazia lá dentro. Na altura, não era normal um jogador de futebol fazer sessões com grandes fotógrafos, não era uma coisa de atleta. Mas eu sabia que, desde que as coisas fora de campo não afetassem a minha performance, eu podia continuar a fazer tudo”, recordou há alguns anos.
Pensar no pós enquanto o durante ainda acontecia. E torná-lo um império
De forma natural, e até porque também Victoria deixou a carreira musical para se tornar designer e fundar a sua própria marca de roupa, David Beckham não demorou a mudar a tal maneira de pensar. As “coisas fora de campo”, principalmente depois da saída do Manchester United e da ida para o galáctico Real Madrid em 2003, depressa se tornaram um lado importantíssimo da vida do antigo jogador. Beckham já não era apenas um atleta, era uma marca. E terá sido o primeiro jogador de futebol cujo nome se confundiu com uma autêntica entidade internacional ao ponto de ser título de filme de Hollywood, “Bend it like Beckham”, em alusão ao efeito que dava à bola quando batia livres.
Os cabelos, as roupas e as poses. O estilo dos Beckham ao longo dos anos e de 40 imagens
Quando decidiu deixar a Europa e ir para os EUA, em 2007, assumiu o desejo claro de ajudar a estabelecer a MLS e incluiu desde logo uma cláusula no contrato com os LA Galaxy que abria a porta à fundação da sua própria equipa norte-americana. Ou seja, ainda a jogar e sem imaginar que voltaria ao futebol europeu para acabar a carreira no PSG, Beckham já sabia muito do que queria fazer sem as chuteiras calçadas. E não passava por ser treinador, comentador ou mero adepto – passava por liderar todas as operações de um clube de futebol.
“A mudança aconteceu quando comecei a ver as coisas de maneira diferente do ponto de vista comercial, principalmente porque estava a gostar muito desse lado. Comecei a concentrar-me nisso e a olhar muito para o fim da minha carreira, para aquilo que queria fazer. Queria ter uma equipa, queria ser dono do meu próprio clube e ter o meu próprio escritório e controlar tudo aquilo que acontecia no meu mundo. Acho que isso aconteceu a partir dos 30 anos, quando comecei a reajustar-me”, revelou recentemente.
“Reajustar”, para David Beckham, foi deixar de ser uma vítima da comunicação social e da opinião pública para começar a controlar a comunicação social e a opinião pública. O nome do antigo jogador inglês foi uma das entradas mais pesquisadas no Google durante a primeira década do século XXI e em 2007, quando chegou a Los Angeles para jogar nos LA Galaxy, foi recebido por centenas de paparazzi e jornalistas no aeroporto, para além de ter uma festa de boas-vindas preparada no Museu de Arte Contemporânea com convidados como Tom Cruise, George Clooney ou Oprah Winfrey. Na NBC, surgiu “Victoria Beckham: Coming to America”, um programa inteiramente dedicado à mudança do casal, e a artista foi a convidada principal de vários talk shows norte-americanos logo na primeira semana a viver na Califórnia.
Depois dos empréstimos ao AC Milan e da última dança em Paris, enquanto uma das primeiras superestrelas do galáctico PSG, atirou-se definitivamente ao american dream. O Inter Miami, que entretanto tem Lionel Messi, Luis Suárez, Sergio Busquets e Jordi Alba no plantel e é treinado por Javier Mascherano, foi fundado em 2018 e estreou-se na MLS em 2020. Pouco antes, tinha entrado na estrutura acionista do Salford City, clube que compete atualmente na terceira divisão de Inglaterra, em conjunto com os antigos colegas Phil Neville, Gary Neville, Nicky Butt, Paul Scholes e Ryan Giggs – a chamada Class of ’92, todos formados no Manchester United e todos donos do treble conquistado em 1999 com Alex Ferguson no comando.
▲ De forma natural, David Beckham teve um papel preponderante na ida de Lionel Messi para os EUA e para o Inter Miami
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A grande movimentação comercial de David Beckham, porém, aconteceu há menos tempo. No final de 2019, anunciou que tinha decidido adquirir os 33% que Simon Fuller, até aí o seu braço direito e gestor comercial, detinha em todos os negócios do casal. A operação custou cerca de 40 milhões de euros e deixou David e Victoria com o controlo absoluto da David Beckham Ventures: que inclui toda a operação comercial dos dois, os direitos de imagem dos dois, todas as parcerias milionárias com marcas como a Adidas, a L’Oréal ou a Tudor, a participação no grupo hoteleiro Sands e ainda o Studio 99, uma empresa de conteúdos responsável pelo recente documentário da Netflix que voltou a colocar o inglês nas bocas do mundo.
“Agora tenho o meu próprio escritório, a minha própria equipa e construí algo que me levou para outro nível. Depois de tanto tempo com o Simon Fuller pensei que conseguia fazer isto sozinho. Os meus pais sempre trabalharam muito e sempre se rodearam de pessoas que trabalhavam muito. Acredito muito nisso. Inspiro-me em pessoas como o Magic Johnson e o Michael Jordan, atletas que tiveram carreiras bem sucedidas como empresários depois de acabarem as carreiras. Durante gerações, as únicas opções para antigos jogadores de futebol era serem treinadores, comentadores ou abrirem supermercados. Eu decidi ser dono de coisas, fundar coisas”, sublinhou, sem papas na língua, quando anunciou que ia passar a controlar tudo o que tem o seu nome. Depois de construir uma marca, David Beckham já está a construir um império.