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Rita Rato chegou ao Parlamento em 2009, com apenas 26 anos.

Pedro Rocha / Global Imagens

Rita Rato chegou ao Parlamento em 2009, com apenas 26 anos.

Pedro Rocha / Global Imagens

Rita Rato a futebolista que vai liderar o Museu do Aljube /premium

Rita Rato foi escolhida para dirigir o Museu do Aljube e entra este sábado em funções. Deixou o Parlamento em outubro depois de 10 anos sentada na bancada do PCP.

Quem não conhecesse a, à data, deputada do PCP Rita Rato até poderia estranhar o dia em que apareceu no Bairro 6 de Maio, na Amadora, depois de lhe terem ligado para a informar que as máquinas estavam no local para começar as demolições. “Conhecia cada uma das pessoas naquele bairro pelo nome e os miúdos também”, aponta um dos amigos de Rita Rato que acompanhou de perto a situação na Amadora. Para os mais próximos, este é só um dos vários exemplos da entrega que Rita Rato coloca nos projetos e assuntos em que está envolvida. Miguel Tiago, também ele ex-deputado do PCP, partilhou a bancada com Rita Rato durante vários anos e recorda ao Observador que durante os 20 dias de vigília das trabalhadoras da fábrica da Triumph, em Loures, ele ia “duas ou três vezes por semana ao local”, Rita Rato esteve todos os dias presente, ao lado das trabalhadoras.

Dois exemplos que, para quem lhe é próximo, espelham quem é a ex-deputada Rita Rato: uma mulher de “uma tenacidade absolutamente marcante” com “uma grande dose de humanismo”. Nascida em Estremoz, no início do mês de janeiro de 1983, já contou em várias entrevistas que foi a primeira da família a entrar na Universidade (onde tirou o curso de Ciência Política e Relações Internacionais), que se juntou à JCP em 2001 e depois ao PCP, e que se tornou funcionária do partido, profissão que tinha quando em 2009 foi eleita para o Parlamento, com 26 anos. Saiu no final da última legislatura, já com 36 anos.

Rita Rato com o secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, na manifestação da CGTP-IN a 10 de julho de 2019

Facebook/PCP- Partido Comunista Português

Mas quando chegou ao Parlamento, em 2009, foi colocada perante uma prova de fogo e saiu chamuscada. A imprensa pergunta à recém-chegada deputada por temas quentes para qualquer comunista português: o Partido Comunista Chinês, os erros do passado cometidos por alguns partidos comunistas do Leste europeu e os Gulags na ex-União Soviética. Rita Rato escolhe respostas, no mínimo, surpreendentes. Sobre a realidade na China, garante que “pessoalmente não tinha de concordar nem discordar”, já que não era “chinesa”, acrescentando que o partido não se imiscui na vida interna de outros partidos.

O maior estrondo, contudo, acontece na resposta sobre os gulags. A então deputada admitia que pudesse “ter acontecido essa experiência”, dos campos de trabalho forçados do regime de Estaline, mas afirmava também que não tinha capacidade para responder porque “nunca tinha lido nada sobre isso”. Foi a primeira e a última vez que se lhe ouviu uma declaração sobre o assunto que voltou a ser recuperado quando foi anunciado o seu nome para ficar à frente de um museu de resistência à repressão política, gerando um coro de críticas.

Historiadores contra escolha de Rita Rato para dirigir Museu do Aljube: “É uma vergonha”

O historiador e também fundador do partido Livre, Rui Tavares escreve que o problema na escolha de Rita Rato para o museu do Aljube é o facto de a ex-deputada ainda não ter “esclarecido declarações que podem ser vistas como minimizando a repressão política quando esta é feita em nome da sua ideologia”, algo que poderia pôr em causa as suas funções na liderança de um Museu que é um marco na vida política do país.

Já a historiadora Irene Pimentel foi das vozes mais críticas em relação à escolha de Rita Rato para o Museu do Aljube. Ao longo de sete publicações na rede social Facebook, a historiadora, autora de várias obras sobre a ditadura, Salazar e a PIDE, questionou a escolha da EGEAC (que não está efetivamente obrigada a concurso público) e expôs aquelas que considera serem as principais fragilidades da ex-deputada do PCP para o cargo. A começar no facto de, argumentou, Rita Rato não preencher as três preferências expressas no aviso de recrutamento, para ocupar o lugar: ter “formação superior adequada à função (preferencialmente na área de história política e cultural contemporânea); experiência em funções similares (preferencialmente na área dos museus) e experiência em programação e produção de exposições”.

Segundo fontes próximas da ex-deputada ouvidas pelo Observador, Rita Rato optou por candidatar-se ainda que não preenchesse os requisitos já que se tratava apenas de “preferências” e não de condições obrigatórias, algo que poderia ser superado pelo projeto que pretendia apresentar e que a EGEAC acabou por confirmar com a seleção.

Sobre a entrevista dada em outubro de 2009, os mais próximos justificam-na como fruto da “inexperiência” e não lhe poupam elogios na análise ao trabalho que desenvolveu no Parlamento nos últimos 10 anos. “É uma pessoa hiper humana, com formação política e humana certa, formação cultural e artística, imensa capacidade de ouvir e perceber tudo o que está à volta e de duvidar, o que é muito importante”, descreve ao Observador fonte próxima de Rita Rato destacando a capacidade que teve enquanto deputada de falar “com todos os movimentos e mais alguns, com paciência para toda a gente”.

Miguel Tiago diz, ao Observador, que a obra “Cultura Integral do Indivíduo” de Bento de Jesus Caraça é uma boa ilustração de Rita Rato. Alguém que tem uma “formação integral” nas várias áreas, com uma “grande experiência de vida e vivências” e que mantém um grande interesse por cultura.

A Rita precisa de alimentar as várias vertentes. É licenciada e autodidata, dedica-se às artes. Vejo-a num pouco de tudo, desde no teatro, a uma roda de samba. Recentemente dedicou-se a outras coisas, a escrever crónicas, e agora esta nova aventura no museu revela também isso, que procura novos desafios que a enriquecem e que ela também enriquece”, diz Miguel Tiago a propósito da escolha da ex-deputada para liderar o Museu do Aljube, que gerou muita polémica.

Uma polémica que os mais próximos dizem não compreender considerando o trabalho feito por Rita Rato ao longo dos últimos anos. “Podia ter feito um percurso clássico, ter saído para assessoria, tinha todas as condições para isso, mas rompeu e foi para outra coisa. Candidatou-se àquilo que será uma coisa que adorará fazer”, diz ao Observador fonte próxima da ex-deputada que acrescenta que a decisão de deixar de estar no Parlamento terá partido também de Rita Rato que procurava uma vida “mais regular” que lhe permitisse também dar “mais atenção ao filho”.

Há poucos anos, Rita Rato deixou de morar numa zona central de Lisboa e passou a viver no concelho da Amadora, algo que a limitaria em termos de horários da escola e atividades extra-curriculares do filho, que completará este ano o 11º aniversário e que é fruto do casamento, que já terminou, com Vasco Cardoso (membro do Comité Central do PCP). Tal como a mãe, que chegou a ser federada em futsal feminino, o filho de Rita Rato também joga futebol e as deslocações entre a escola e os locais do treino — sempre em transportes públicos — seriam difíceis de conciliar com os exigentes horários na Assembleia da República.”Era um inferno”, diz fonte próxima.

Foi jogadora federada de futsal entre 2001 e 2006, enquanto estudava na Universidade.

E a ligação ao futebol é tão grande, que há amigos que por brincadeira até a conseguem imaginar à frente do Sport Lisboa e Benfica: “Uma mulher, comunista, à frente do Benfica, ia ser giro”. Não é segredo para ninguém que Rita Rato é uma “grande benfiquista” — nas palavras dos amigos — e, no grupo de WhatsApp de amigos benfiquistas ia seguir o desafio em jeito de brincadeira para uma candidatura à liderança do clube da Luz. A prática de futsal federada terminou em 2006, mas Rita Rato já disse que, sempre que pode, pratica desporto. Na bancada do PCP deixou, pelo menos, mais uma jogadora, Ana Mesquita. Mas os amigos dizem que o tempo é tão pouco que nunca se encontraram em campo.

“Uma mulher, comunista, à frente do Benfica, ia ser giro”
Amigo de Rita Rato brinca com a hipótese de ver a ex-deputada à frente do Sport Lisboa e Benfica

Nos bairros na periferia da cidade de Lisboa é possível encontrar várias vezes Rita Rato. Miguel Tiago diz ao Observador que, por exemplo, na Cova da Moura a ex-deputada o PCP é uma pessoa “muito querida da comunidade” e que há uma “ligação muito concreta entre a vivência pessoal e aquilo que [Rita Rato] politicamente afirma”. “Liga-se aos assuntos sobre os quais se pronuncia, cria grande empatia com as comunidades afetadas e fala do que sentiu nessas comunidades. Nem sempre está na ribalta, o partido não lhe permite isso, mas não significa que não esteja a fazer um trabalho de estudo, de conhecimento e de solidariedade”, diz ao Observador destacando que “é também uma pessoa que está sempre com respeito pela organização que integra, mas sempre a tentar que outras preocupações incorporem a reflexão coletiva”.

Exemplo disso terão sido os direitos LGBT, que Miguel Tiago destaca já fazerem parte da discussão no partido, mas onde Rita Rato terá tido “um papel muito importante com um input muito valioso”. O ex-deputado diz ainda que mantém contacto frequente com Rita Rato uma vez que “é uma pessoa que preza a opinião e que ajuda a construir” também a sua. Sobre a saída do Parlamento — Rita Rato era cabeça de lista da CDU pela Europa, onde a coligação nunca conseguiu eleger — nota que nunca a ouviu “dizer que não voltaria ou que não queria saber mais da política ou de cargos políticos”, mas que terá sentido “necessidade de conhecer outras coisas”. Rita Rato mantém-se nas fileiras do PCP.

Para já, terá em mãos o desafio de liderar o Museu do Aljube Resistência e Liberdade, a partir de deste sábado. Uma das fontes ouvidas pelo Observador diz que a candidatura terá sido uma tentativa entre várias, já que Rita Rato estaria a procurar outros desafios depois de ter iniciado funções numa editora “entre dezembro e janeiro” e ter integrado também o conselho editoral do Le Monde Diplomatique. Não tendo fechado totalmente as portas a um regresso a um cargo político, o desafio de dois anos para o qual arranca este fim-de-semana, poderá ser apenas um interregno ou o início de uma nova carreira.

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