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Atualmente com 49 anos, o britânico garante que ainda não pensa em acabar a carreira
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▲Atualmente com 49 anos, o britânico garante que ainda não pensa em acabar a carreira

Eurosport/Discovery+.

▲Atualmente com 49 anos, o britânico garante que ainda não pensa em acabar a carreira

Eurosport/Discovery+.

"Não quero acabar a sentir que tinha mais para dar". Ronnie O'Sullivan, o amor maior do snooker que se desapaixonou pelo jogo

É sete vezes campeão, mas ainda não decidiu se vai ao próximo Campeonato do Mundo. Aos 49 anos, Ronnie O'Sullivan não esconde que perdeu o amor pelo snooker – mas é por isso que não acaba a carreira.

Ronnie O’Sullivan já não tem medo de abrir a porta do armário e deixar sair os esqueletos. Depois de anos de excessos, de uma infância marcada pela prisão do pai e da mãe, de ser um autêntico enfant terrible do desporto britânico e de criar legiões de fãs ao mesmo que reunia as críticas mais ferozes, deixou de ter medo. E quer usar a ausência de medo para se tornar num super-herói.

Aos 49 anos, ainda não sabe se vai marcar presença no Campeonato do Mundo de snooker que começa no final de abril, em Sheffield, no mítico Crucible Theatre. Sete vezes campeão mundial, um recorde conjunto da era moderna, diz que só vai decidir a dois ou três dias do início da competição – e a inédita ausência iria terminar uma impressionante série de 32 participações consecutivas na prova desde 1992, a temporada em que se tornou profissional e ganhou 74 dos 76 encontros que disputou.

“Ainda não sei, ainda não decidi. Não sei quando é o sorteio, não sei quando é o meu próximo jogo. Vou dar-me o máximo de tempo possível. Adorava conseguir jogar, adorava ter a confiança para pegar no taco e jogar. Preciso do máximo de tempo possível para ver onde estou, para ver se tenho a capacidade de ir”, explicou Ronnie O’Sullivan ao Observador, numa conversa motivada pela Eurosport com vários órgãos de comunicação social internacionais.

▲ Ronnie O'Sullivan conquistou o Triple Crown em 23 ocasiões, um recorde absoluto na história do snooker

Getty Images

Apesar de marcante, a revelação não pode ser uma surpresa. O britânico falhou vários torneios de relevo na atual temporada, entre o Masters, o World Grand Prix, o Open da Escócia, o Open da Alemanha e o Open do País de Gales, alegando sempre “razões médicas”. A última aparição competitiva foi já em janeiro, quando desistiu de uma partida a meio e já depois de partir o próprio taco. Contudo, como já não tem medo, Ronnie O’Sullivan nem sequer precisou de que lhe perguntassem o porquê de não ter certezas sobre a participação no Campeonato do Mundo.

“Não estou ótimo, não me sinto ótimo. Desde 2020 que não me sinto ótimo, os últimos quatro anos foram uma verdadeira luta. Tentei jogar através disso, tive momentos e instantes em que pensei ‘Ok, está tudo bem’. Mas três anos e meio dos últimos quatro foram terríveis para mim. E isso teve as suas consequências. Estou cansado, atirou-me ao chão. Ao ponto de ter perdido o amor pelo jogo. Também foi por isso que perdi as estribeiras algumas vezes, com mau feitio, com frustração. E não quero sentir-me assim. Estou a tirar algum tempo para tentar remendar o que acho que é o problema antes de jogar snooker a sério outra vez”, acrescentou o britânico, que tem a sonante alcunha de “The Rocket”, O Foguetão.

“Devemos estar sempre a reinventar-nos”: onde começa e acaba o génio e a loucura de um ícone chamado Ronnie O’Sullivan

As ausências de competições tão importantes, assim como a ideia de que há muito que não apresenta um nível capaz de lutar pela conquista do Campeonato do Mundo ou de outros troféus relevantes, começou a abrir a porta à possibilidade do fim de uma das carreiras mais bem sucedidas de sempre. Ronnie O’Sullivan, porém, deixa uma garantia: só vai deixar de jogar quando estiver novamente apaixonado pelo jogo.

▲ Em 2001, o ano em que conquistou o Campeonato do Mundo pela primeira de sete vezes

PA Images via Getty Images

“Cheguei a este ponto em que não conseguia mesmo jogar mais. Talvez demore um ano, dois anos, a tratar do que tenho para tratar. Mas é por isso que não estou a acabar a carreira agora. Vou dar mais dois anos a partir do fim desta temporada. Vou concentrar-me em jogar, porque quero jogar snooker de forma competitiva. Vai ser um processo lento, uma aventura lenta. Tenho de ser paciente comigo mesmo e quando me sentir pronto, quando sentir que tenho a confiança para voltar, assim farei. E vejo até onde consigo chegar”, disse.

O britânico natural de Wordsley, a cerca de duas horas de Liverpool, garante que responderia que era “impossível” se alguém lhe dissesse, há dez anos, que estaria onde está hoje. Ainda assim, assume a responsabilidade, assegura que os resultados “não são assim tão importantes” e recupera a ideia de que não pensa mesmo em terminar a carreira nos próximos tempos. “Nunca quis acabar a carreira em baixo e sinto que, se acabasse agora, estava a acabar em maus termos. Agora não é a altura. Não quero deixar o jogo a sentir que tinha mais para dar”, indica.

“Jogar é a coisa mais importante. É só isso que importa, foi tudo o que sempre importou. Se for para acabar a carreira, quero acabar a carreira numa altura em que estiver apaixonado pelo jogo. Se tiver uma fase de cinco ou seis meses em que me sinto bem, estou a aproveitar, estou a adorar estar no circuito, aí será a altura certa. Quero despedir-me quando estiver num sítio bom em relação ao snooker, com uma relação saudável com o snooker”, acrescenta.

▲ O britânico começou a jogar snooker com apenas oito anos, mas não demorou a dar nas vistas

Getty Images

Pais de três filhos, Ronnie O’Sullivan, avô desde 2018, diz, entre sorrisos, que o neto ainda não sabe o que faz e o que fez – “talvez saiba dentro de uns anos, quando começar a ver vídeos no YouTube”. A atual relação pacífica e quase tradicional que tem com a família, entre os filhos, o neto e Laila Rouass, com quem casou há mais de uma década, contrasta em larga escala com o que o próprio viveu quando era mais novo.

Quando tinha 16 anos, o pai, Ronald John Sr., que tinha uma cadeia de sex shops na zona de Soho, foi preso por homicídio e sairia em liberdade apenas em 2010. Anos depois, a mãe, Maria Catalano, natural da Sicília onde conheceu o agora ex-marido, cumpriu um ano de prisão por evasão fiscal. Além de ter de gerir os negócios da família, Ronnie O’Sullivan ficou também a cuidar da irmã, Danielle, de apenas oito anos. Apesar de tudo isso, cedo começou a dar nas vistas quando tinha um taco na mão e o foco na mesa: no seguimento da carreira prometedora como amador, tornou-se profissional em 1992 e logo no ano seguinte foi o mais novo de sempre a conquistar o UK Championship, tendo na altura 17 anos e 358 dias. E era apenas o início de tudo.

Em 1995, tornou-se também o mais novo de sempre a ganhar o Masters, com 19 anos e 69 dias. Muito tempo depois, bateu recordes ao contrário e passou a ser o mais velho de sempre a ganhar os três eventos do Triple Crown, conquistando o sétimo e último Mundial do currículo com 46 anos e 148 dias, o oitavo UK Championship com 47 anos e 363 dias e o oitavo Masters com 48 anos e 40 dias. Pelo meio, um pouco de tudo: depressão, ansiedade, alteração dos estados de humor, adição ao álcool e às drogas, um sem número de polémicas que levaram a que tivesse algumas paragens entre os momentos de maior fulgor.

▲ Em 2024, com dois dos três filhos, depois de ganhar o MrQ Masters Snooker no Alexandra Palace, em Londres

Getty Images

Entre tudo o que ganhou, acumulou passatempos. Estreou um documentário, escreveu romances policiais, dedicou-se à cozinha e teve receitas publicadas pelo jornal The Times, trabalhou numa quinta a cuidar de porcos, pintou muito e estabeleceu marcas interessantes na meia maratona e nos dez quilómetros. Ainda assim, deixa bem claro que não faz ideia como vai entreter-se a partir do dia em que largar o taco de vez. 

“Em janeiro quase não joguei e senti-me muito aborrecido. Só pensava: ‘O que é que vou fazer?’. Quando tirei um ano, em 2012, pensei que ia correr e que ia ao ginásio e ia fazer isto e aquilo com o tempo que tinha, mas percebi que não fiz nada. Fiquei só aborrecido. Como seres humanos, precisamos de um propósito, seja ele qual for. Preciso de encontrar alguma coisa para fazer. Não sei o que será, daqui a três, quatro, cinco anos. Posso criar um podcast, posso fazer corridas de carros, algo que adoro, posso tornar-me treinador. Quero manter-me próximo do mundo do snooker, é como uma grande família para mim. Acho que quando acabar a carreira irei gostar de trabalhar como treinador de um jogador que tenha a capacidade de ser campeão mundial”, revelou.

Ronnie O’Sullivan. “Se sou o melhor de sempre? É difícil dizer que não”

Com os tais sete Mundiais, oito Masters e oito UK Championship, num total de 23 Triple Crown que são um recorde absoluto, é difícil dizer que Ronnie O’Sullivan não é o melhor jogador de snooker de todos os tempos. Atualmente, porém, é o melhor jogador de snooker de todos os tempos que deixou de estar apaixonado pelo próprio snooker.

“A coisa mais importante para mim é mesmo tentar voltar a apaixonar-me pelo jogo. Mas continuo a aproveitar se for ao meu clube ou se estiver a jogar em casa com amigos, porque não há pressão. Se conseguir voltar a apaixonar-me pelo jogo e voltar a ser campeão mundial, ótimo. Se não, também não é o fim do mundo”, terminou. Resta saber se o jogo está pronto para se apaixonar de volta por Ronnie O’Sullivan.

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