“Alívio? Nem pensar!”. Foi assim que muitos ucranianos reagiram à notícia da retirada de dois contingentes militares russos que estavam junto à fronteira. Se para o resto do mundo uma guerra na Europa é cada vez menos provável, na Ucrânia o ambiente é bem menos otimista. Os planos de contingência mantêm-se: malas prontas, dinheiro distribuído, moradas dos abrigos de guerra bem à mão. Os ucranianos não só não acham que o pior já passou, como alguns acreditam mesmo que o pior ainda está para vir.
“Não há sentimento de alívio porque não há qualquer confiança no que a Rússia diz. Não é a primeira vez que anunciam a retirada de tropas”, diz ao Observador Olga Tokariuk, a partir de Kiev. A correspondente da agência EFE faz eco da reação do próprio governo ucraniano, que perante o anúncio de Putin disse: “Acreditamos quando virmos”.
“Temos de ver se isso realmente acontece. Só com provas de imagens de satélite, provas independentes que não venham do governo russo, de que as tropas realmente recuaram. Não há qualquer confiança nas palavras do Kremlin aqui em Kiev. Talvez se víssemos com os nossos olhos, de fontes independentes”, sublinha a jornalista.
Além desta desconfiança generalizada da Rússia — e, acima de tudo, do Presidente Vladimir Putin — há dois grandes novos motivos para o ceticismo ucraniano: uma proposta do parlamento russo para o reconhecimento da independência de duas regiões separatistas ucranianas, e um mega ciberataque ao Ministério da Defesa a três bancos.
Mas vamos por partes. Os deputados russos aprovaram na terça-feira um apelo para que Putin reconheça a independência de dois territórios separatistas pró-russos na região ucraniana de Donbass: passariam a chamar-se República Popular de Donetsk e República Popular de Lugansk. As duas regiões declararam-se independentes da Ucrânia em 2014, mas não foram reconhecidas como Estados soberanos por nenhum outro país.
Members of the State Duma voted for the draft appeal to the Russian President for recognition of Donetsk and Lugansk People's Republic
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— State Duma (@state_duma) February 15, 2022
“O parlamento russo iniciou um reconhecimento destas repúblicas, o que seria o primeiro passo da anexação de partes do território ucraniano. Como vê, uma invasão pode não ser iminente, mas a agressão está presente”, afirma Olexander Scherba, antigo embaixador da Ucrânia na Áustria. O diplomata prevê que a proposta da Duma seja aprovada por Putin, seguida de um referendo “sobre a reunificação com a Rússia e uma nova anexação”. “Não seria um verdadeiro referendo porque a maioria das pessoas pró-Ucrânia já deixou este território. Nem seria uma verdadeira votação porque não há observadores de outros países”, comenta, em declarações ao Observador. Quanto tempo pode levar este processo? “Bom, com a Crimeia, Putin só precisou de três semanas”, diz Scherba, sobre a península anexada em 2014.
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A possível anexação destes dois territórios é encarada como mais um meio de guerra à disposição da Rússia — e mais um meio de pressionar não só a Ucrânia, mas todo o Ocidente que se tem posto ao lado de Kiev. “O reconhecimento destas repúblicas como independentes significaria uma saída de Putin dos Acordos de Minsk. Se o Ocidente não fizer cedências, a Rússia vai reconhecê-las como repúblicas”, diz Olena Prokopenko, investigadora do ‘think-tank’ americano German Marshall Fund.
Outro sinal de que a guerra está longe de acabar foi o ciberataque de larga escala que atingiu, esta terça-feira, o Ministério da Defesa, dois bancos privados (Privatbank e Oshadbank) e o banco estatal.
“Não consigo aceder à aplicação do meu banco. Outras pessoas dizem que não conseguem levantar dinheiro. Isto acabou de acontecer”, descreve ao Observador Nika Melkozerova, diretora executiva do jornal The New Voice of Ukraine. Questionada sobre o culpado destes ataques de larga escala, a ucraniana não hesita: “É sempre a Rússia! A Rússia está sempre a lançar ataques.”
Concluindo, “são tudo meios de guerra”, sublinha Olena Prokopenko. “Achamos que uma invasão militar de larga escala ainda é uma possibilidade, mas dado o elevado custo dessa invasão [com a ameaça de fortes sanções], esse cenário pode ser menos provável”. A investigadora do German Marshall Fund diz que a possível autonomia do Donbass e os ciberataques são formas tão ou mais convincentes de “forçar a Ucrânia a fazer concessões”.
Pânico não, medo sim
Os relatos de uma vida “normal” em Kiev têm-se multiplicado pela imprensa internacional, mas quem vive na capital da Ucrânia garante que a calma é apenas aparente. Exaustos, nervosos e muitíssimos frustrados, os ucranianos não acreditam num alívio da tensão, nem em nada que Vladimir Putin possa dizer.
É verdade que vivem com a ameaça de guerra desde 2014, com a invasão da Crimeia, e já não deixam que o seu dia-a-dia seja virado do avesso: não há corridas aos supermercados ou às bombas de gasolina, não houve retiradas em massa de dinheiro do sistema bancário, lojas e instituições estão abertas nos horários habituais, os transportes circulam, as pessoas também, nas ruas nada de atípico salta a vista. Mas apesar de não haver pânico, há medo.
“Há um grande peso psicológico, estou muito cansada, exausta. Há muita ansiedade, até as crianças na escola falam disto. Recebi uma mensagem do diretor da escola da minha filha a pedir para discutirmos menos a ameaça militar porque as crianças só falam disso”, conta Olga Tokariuk.
Há também quem se tenha inscrito em cursos de primeiros socorros, para poder ajudar feridos num cenário de guerra, e milhares de voluntários, civis, que estão a receber treino militar aos fins-de-semana para poderem ajudar na resistência — o plano não é que sejam enviados para frentes de batalha, mas sim que defendam os locais onde vivem.
O governo tem sido sereno na abordagem e apelado à calma, mas Olena Prokopenko lamenta que não haja um reconhecimento de que as coisas podem escalar e de que as pessoas precisam de orientação sobre o que fazer. “Acho que isso gera uma certa desorientação”, comenta, dizendo que é comum, nos dias que correm, ter em casa um ‘kit’ de emergência e a lista dos abrigos de guerra — só em Kiev há cerca de 5.000.
Com toda a família em Kiev, Prokopenko chegou à conclusão de que fugir não seria uma opção. Mas, como todos os ucranianos, viu-se obrigada a fazer planos: “Tenho malas feitas com as coisas mais urgentes em caso de ter de fugir do meu apartamento à pressa. Repensei o meu plano financeiro e dividi o dinheiro que tenho no banco, de modo a ter algum em moeda estrangeira, outro em moeda ucraniana. Encontrei a morada do abrigo mais próximo — sei que fica perto da minha casa. Falei com a minha família sobre como nos devemos coordenar, onde vamos viver, como vamos comunicar em caso de as coisas piorarem. Não sabemos nada sobre o amanhã. Não sei se estes preparativos chegam”.
Descrições semelhantes foram feitas ao Observador por ucranianos em Kiev que, ainda que habituados a viver sob a sombra de uma ameaça, admitem que agora é diferente: antes a guerra era na Crimeia e no Donbass, agora pode ser mesmo ali, à porta de casa.
“Em Kiev nunca foi claro que havia uma guerra. Agora a guerra está na cabeça de toda a gente”, explica Nika Melkozerova.
Mas no Donbass, um dos pontos com maior concentração militar — quer mesmo junto à fronteira, do lado, russo, quer em território ucraniano com forças separatistas — o ambiente é até mais calmo. É pelo menos o que garante Maria Zolkina, analista da Ilko Kucheriv Democratic Initiatives Foundation e especialista na região.
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“As pessoas no Donbass estão prontas para ataques, estão habituadas a viver assim. Contrariamente ao que se possa pensar, as pessoas estão mas calmas”, afirma. Em 2014/2015 a região foi palco de confrontos militares, instigados pelas forças separatistas. Os bombardeamentos destruíram as linhas de comunicação: não ter eletricidade ou telefone tornou-se habitual.
“Os hospitais nas zonas da linha da frente funcionaram com geradores durante mais de um ano” e as pessoas refugiavam-se em ‘bunkers’ com regularidade, relata Zolkina. “Depois disso as coisas estabilizaram. Ainda há alguns bombardeamentos, mas pouco. Mas as pessoas que vivem na zona habituaram-se: têm abrigos, sabem que têm de ter comida armazenada para o caso de um ataque, sabem como comunicar com a família em caso de bombardeamento. Em Donbass as pessoas não estão em pânico. Psicologicamente e logisticamente estão preparadas”, explica a especialista ao Observador.
Adesão à NATO? Se acontecer a culpa é de Putin
Se Vladimir Putin tem sido claro na sua vontade de afastar a Ucrânia da NATO, os ucranianos garantem que o efeito é o oposto: nunca quiseram tanto pertencer à Aliança Transatlântica.
“O maior promotor da adesão à NATO é Vladimir Putin. O apoio antes da invasão da Crimeia era 15-20%, agora é 55-60%. É algo que as pessoas apoiam e está consagrado na Constituição. Hoje, se és pró-Ucrânia apoias a adesão à NATO. E nenhum político, neste ambiente, iria simplesmente desistir desse direito”, diz o antigo embaixador Olexander Scherba, que, ainda assim, admite “compreender que o Ocidente está assustado” e pode ter dificuldade em manter um braço-de-ferro com a Rússia para que a Ucrânia materialize esse desejo de adesão. “Nós temos essa coragem, mas sinceramente não vejo essa coragem no resto do Ocidente”, comenta.
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Esta mudança na opinião pública, à medida que a sensação de perigo no país foi aumentando, é repetida pelos vários ucranianos ouvidos pelo Observador. “Quem fez as pessoas quererem aderir à NATO? O Putin!”, critica Nika Melkozerova. “No século XXI temos um país, a Rússia, que diz que pode decidir por outro país e pela sua política. Onde é que isto pode acontecer? Como é que isto pode acontecer? A maioria da população ucraniana não aceita. Se a Ucrânia decidir não se juntar à NATO vai ser um suicídio político”, diz a diretora executiva do jornal The New Voice of Ukraine.
Por agora, na Ucrânia, vive-se em suspenso. A notícia do recuo de, pelo menos, algumas tropas pode permitir uma noite descansada para alguns, mas definitivamente não trouxe paz de espírito aos ucranianos. Olena Prokopenko diz que deixou de fazer planos para a semana — agora é um dia de cada vez: “Os próximos dias vão ser decisivos. Mas está totalmente fora de questão que a Rússia vá simplesmente deixar a Ucrânia em paz”.