No festival Walk & Talk a arte é para comer e experimentar /premium

19 Julho 2019

Um grupo de criadores mostrou em São Miguel, Açores, como pode a arte contemporânea falar de “crise climática”. Walk & Talk termina neste sábado.

Está tudo inventado. E começando pela naturezas-mortas que já na Grécia Antiga eram pintadas, até ao queijo Camembert das telas de Salvador Dalí, tantas vezes a comida foi objeto da criação artística. Simplesmente, Inês Neto dos Santos, lisboeta nascida em 1992, artista multidisciplinar radicada em Londres, cujo trabalho oscila entre a performance e a instalação, vem aprofundar esse diálogo, mais atual que nunca – na época em que fotos de comida dão conteúdos sensacionais no Instagram, chefes de cozinha são estrelas pop globais e uma consciência mais ou menos ligada à ecologia põe a alimentação no centro dos interesses de tantas pessoas. Lá iremos.

Para já, Lagoa das Furnas, zona este da ilha de São Miguel. Junto a uma fumarola onde as famílias açorianas vão fazer comida todos os fins de semana, a artista alinhou ao comprido, sobre uma mesa, frascos de vidro com alimentos que ela própria deixou a fermentar por uma semana: feijão verde, couve, cenoura, morangos, maracujá. E agora serve-os juntamente com pão de centeio, leite e açúcar a dezenas de pessoas que se abeiram, umas sentadas, outras de pé. Uma extremidade da longa mesa desemboca na fumarola e é por aí que três homens retiram da cova vulcânica o pão entretanto cozido em panelas e içado por meio de cabos numa abertura circular no tampo.

“A fermentação é uma metáfora de colaboração e convívio, é um processo de transformação da comida através de microrganismos, ou seja, é uma colaboração entre os alimentos e o meio envolvente e permite conservar a comida por bastante tempo”, resume a criadora, que se aconselhou com uma cozinheira e uma estudante de cozinha.

Fermentados de Inês Neto dos Santos (foto: Mariana Lopes)

Um dos fermentados assemelha-se ao kimchi coreano (couve em pickle com pimento picante) e as bebidas são descritas como tepache mexicano, a fazerem lembrar a kombucha de origem oriental, refresco probiótico à base de chá que agora é moda em muitos países.

“Placing What Surrounds Us Into The Inside Of Us”, título da gastro-performance de Inês Neto dos Santos, terá sido uma das propostas mais radicais do Walk & Talk deste ano, um festival de artes visuais, design, cinema, dança, teatro, arquitetura e música, uma vez por ano em São Miguel, geralmente no início do verão.

O Homem é o centro do mundo?

Foi longo o caminho até às Furnas, no domingo passado, quando as ruas de Ponta Delgada estavam cheias de bandeiras, flores e bandas filarmónicas para o cortejo religioso das Grandes Festas do Divino Espírito Santo – iniciativa que a Câmara Municipal recuperou há 15 anos, “símbolo identitário da população”, como escreveu no dia seguinte o “Açoriano Oriental”. Nessa tarde, à mesma hora, partem da cidade dois autocarros cheios de artistas, jornalistas e convidados do Walk & Talk, para um passeio de oito horas por montanhas, curvas, campos e descampados. Quatro da tarde à partida, meia-noite e pouco à chegada, Ponta Delgada, Fenais da Luz, Rabo de Peixe, Furnas e Nordeste – por esta ordem.

Todos os trabalhos apresentados durante a expedição artística Empatia - sete, ao todo - pretenderam oferecer uma reflexão artística sobre o modo como os humanos interagem com as outras espécies. Vivemos no Antropoceno, dizem académicos para descrever os efeitos nefastos da atividade humana sobre os ecossistemas, e arte deve ajudar-nos a pensar esse problema.

Também presente, a ministra da Cultura, Graça Fonseca, acompanha parte desta “expedição artística”, como lhe chamaram os organizadores, ou “Expedição: Empatia”, nome que constava no programa, um dos cinco circuitos do festival. Se o Walk & Talk, cuja nona edição começou a 5 de julho e termina neste sábado, 20, sempre procurou disseminar objetos artísticos pela ilha, ao mesmo tempo criando pontes entre artistas e identidades açorianas, desta vez, com esta expedição comissariada pelo coletivo The Decorators, ensaiou um salto maior, com “crise climática” em fundo. (A propósito: a mesa sobre a fumarola, feita de madeira escura queimada e coberta com uma camada de cinzas e pedras de lava pretas, chamava-se “mesa-buraco” e foi criada pelo próprios comissários para acompanhar a performance de Inês Neto dos Santos.)

Todos os trabalhos apresentados durante a expedição — sete, ao todo — pretenderam oferecer uma reflexão artística sobre o modo como os humanos interagem com as outras espécies. Vivemos no Antropoceno, dizem académicos para descrever os efeitos nefastos da atividade humana sobre os ecossistemas, e arte deve ajudar-nos a pensar esse problema, segundo Mariana Pestana, que fundou The Decorators em 2011 no Reino Undo, juntamente com os antigos colegas de estudo Suzanne O’Connell, Xavi Llarch Font e Carolina Caicedo.

“A nossa proposta curatorial aponta para noções que não cabem em discursos racionais, para aquilo que não pode ser medido ou compreendido. Por isso, escolhemos artistas que já tinham trabalhos anteriores sobre história, geologia, empatia”, explicou Mariana Pestana. “Acho que a maioria das obras que agora apresentámos é sobre a nossa posição enquanto seres humanos face à natureza, às outras espécies, aos elementos naturais. As questões que levantam são globais. Daí a crítica ao pensamento racional e iluminista, do Homem como centro do mundo. Percebe-se hoje que a noção de progresso e desenvolvimento que nasceu com a industrialização não basta, temos de mudar de paradigma.”

Viagem ao interior da Terra

The Decorators foram convidados pelo Walk & Talk em outubro do ano passado e os artistas que escolheram tiveram cerca de meio ano para desenvolverem os seus objetos, mas à distância. Isso explicará que algumas sinopses e alguns trabalhos parecessem de carácter experimental e não tivessem alcançado eco imediato junto dos expedicionários, mas a isso não será estranho o facto de se tratar de criadores em início de percurso e de o momento de apreciarão dos objetos ter sido condicionado pela visita de grupo.

Um dos pequenos espelhos de Prem Sahib, partidos na superfície como ecrãs rachados de telemóveis (foto: Mariana Lopes)

Veja-se, por exemplo, “Obsidian Mirrors”, do britânico Prem Sahib, conjunto de pequenos espelhos dispersos pela ilha, partidos na superfície, como ecrãs rachados de telemóveis, feitos em rocha vulcânica vítrea (a obsidiana). Aparente símbolo de oferenda religiosa, mas com legibilidade difícil. E o mesmo se diga, logo ao lado, também junto ao Farol de Santa Clara, de “Facsimile of a Breeze”, da taiwanesa Rain Wu, estrutura metálica assente no chão, com restos de materiais agregados, como se uma vela de navio tivesse sido levada pela força do vento. “O projeto desafia qualquer tentativa de medida e rejeita noções fixas de escala, propondo, em vez disso, uma irresolução evolutiva entre matéria e representação”, lia-se na sinopse de Rain Wu, fornecida num cartão-postal aos viajantes desta tarde de domingo (todas as obras estão descritas em cartões, que são entregues dentro dos autocarros momentos antes da chegada a cada localização).

“Os artistas deste circuito não fizeram residência artística, vieram através de convite direto”, acrescenta Mariana Pestana. “Eu e a Carolina, sim, estivemos aqui durante algum tempo, no fim do ano passado, e recolhemos histórias, dados, depoimentos, elementos em instituições da cidade, e partilhámos com os artistas, que pensaram os projetos à distância.”

O circuito faz-se também de propostas de Clementine Keith-Roach e do coletivo A Practice Architecture, ambos britânicos, e ainda do português Pedro Lino, que fechou a expedição, já perto da 11 da noite, com “Mistério Negros”, um filme em “zoom in” ao estilo viagem ao centro da Terra, com rochas, humidades e lavas, cada imagem comparável a uma escultura. A projeção decorre na piscina termal interior de um hotel das Furnas, na qual os aventureiros da jornada são convidados a entrar, com guitarra elétrica ao vivo por Philippe Lenzini, momento erótico sublinhado pela luz baixa.

As residências artísticas são uma componente identitária do Walk & Talk e a elas têm acesso criadores que se candidatam a concursos abertos ao longo do ano e outros que recebem convite direto. Nas artes visuais, Abbas Akhavan, iraniano nascido em 1977 e radicado no Canadá desde a adolescência, foi um dos selecionados deste ano e é provável que faça parte da programação em 2020.

Nos dias anteriores, o Observador tinha feito outros circuitos. Por exemplo, o quatro piso do centro comercial SolMar, na avenida marginal de Ponta Delgada, onde estavam três exposições sob o tema genérico “Deambulação Identitária”, com curadoria do arquitecto e crítico Sérgio Fazenda Rodrigues, resultado de residências artísticas.

Aí chamou a atenção “Timeshores”, da artista multidisciplinar Diana Vidrascu, da Roménia, instalação de fotos, som e filme de carácter documental, com testemunhos sobre a erupção do vulcão dos Capelinhos, na ilha do Faial, e imagens trabalhadas com cores quentes. Outra versão do filme, sob o título “Vulcão: O Que Sonha um Lago?”, irá a concurso na secção de curtas-metragens do festival de cinema de Locarno, que decorre entre 7 e 17 de agosto.

“Strata”, de Andreia Rodrigues, esculturas metálicas com provável eco de fauna subaquática, colocadas no fundo de uma piscina vazia (a famosa piscina desativada do SolMar, local de intervenções em anteriores Walk & Talk). E ainda “In(sul)ar”, de Mónica de Miranda, instalação com plantas envazadas e dispostas em prateleiras frente à projeção de um vídeo com personagens melodramáticas em cenário catastrófico e idílico ao mesmo tempo (esse cenário é o conhecido hotel Monte Palace, nas Sete Cidades, abandonado há quase 30 anos). As três exposições, talvez ainda em fase de desenvolvimento, pareciam evocar uma visão externa sobre a identidade açoriana.

Também no âmbito expositivo, e ainda com trabalho curatorial de Sérgio Fazenda Rodrigues, o Walk &Talk propôs, por exemplo, “Recetáculo”, da portuense Rita GT (comissária do pavilhão de Angola na Bienal de Arte Veneza de 2015), com o pitoresco de o espaço expositivo ser a igreja do Convento de Santo André, no Museu Carlos Machado, centro de Ponta Delgada. O trabalho incluía um momento de performance, a que o Observador não assistiu, e culminava numa sequência de vasos e talhas de barro frente ao altar, com vídeo alusivo ao momento da sua criação, o que provavelmente aponta para a ideia de fertilidade.

Estar enfadado ajuda a pensar

As residências artísticas são uma componente identitária do Walk & Talk e a elas têm acesso criadores que se candidatam a concursos abertos ao longo do ano e outros que recebem convite direto. Nas artes visuais, Abbas Akhavan, iraniano nascido em 1977 e radicado no Canadá desde a adolescência, foi um dos selecionados deste ano e é provável que faça parte da programação em 2020.

Soraia Gomes Teixeira trabalhou com o artesão Alcídio Andrade (foto: Mariana Lopes)

O trabalho dele compreende instalações e peças criadas em função do local de apresentação, com forte influência de formas vegetais. “Ainda não sei o que vou fazer depois desta residência”, contou-nos. “Tenho visitado jardins e apercebo-me de que toda a ilha é como um jardim, parece às vezes que estou numa estufa. Não sei sequer que materiais vou usar. Não há problema, sigo a intuição, o meu processo de criação é mesmo assim, vejo-me mais como velocista do que maratonista. A pesquisa passa por ouvir, ver e muitas vezes por me sentir enfadado, o que ajuda muito a pensar.”

Ao nível das residências, há ainda designers de produto, ilustradores e arquitetos cuja tarefa específica é a de colaborarem com artesãos açorianos. Trata-se da Residência de Artesanato da Região dos Açores — RARA, estabelecida desde há seis anos pelo Walk & Talk, com curadoria do designer de moda Miguel Flor. Convidou desta vez Filipe Alarcão e Soraia Gomes Teixeira para cruzarem uma visão possivelmente contemporânea dos objetos com a técnica e os materiais dos mestres Horácio Raposo e Alcídio Andrade.

O Observador encontrou-os na segunda-feira na Quinta do Priôlo, um espaço pedagógico para crianças, com plantas e animais, a poucos minutos do centro de Ponta Delgada, e aí viu um protótipo de cadeira de Filipe Alarcão – a madeira utilizada foi a criptoméria, material muito leve e comum na floresta açoriana – e recipientes em vime de Soraia Gomes Teixeira, que ela descreveu como “desconstrução do cesto comum de vime”.

“Há designers que vão por um caminho mais literal, no sentido em que fazem peças mais açorianas ou tradicionais e há outros que investem mais no design industrial ou em peças contemporâneas. Ambos os caminhos são importantes”, descreveu Miguel Flor. “Destas residências resultarão produtos para venda, com a marca RARA. Quando lançarmos a marca, iremos selecionar lojas dos Açores, de Lisboa ou do Porto, por exemplo. Já aconteceu peças que aqui fizemos serem encomendada para um hotel.  Os objetos continuarão sempre a ser feitos pelos artesãos locais, porque a ideia é mantermos as técnicas vivas, mas aplicadas a produtos novos. Os designers deixam todas as referências, para que os artesãos possam depois trabalhar sozinhos.”

Organizado pela associação cultural Anda & Fala, com direção artística de Jesse James e Sofia Carolina Botelho, o Walk & Talk é menos uma montra de arte contemporânea do que uma grande oficina de criação, dizem os responsáveis.

Organizado pela associação cultural Anda & Fala, com direção artística de Jesse James e Sofia Carolina Botelho, e financiamento global de 250 mil euros por parte do governo regional dos Açores e da Direção-Geral das Artes, o Walk & Talk programa alguns trabalhos em reposição, mas sobretudo estreias e objetos inéditos, muitas vezes de criadores emergentes. É menos uma montra de arte contemporânea do que uma grande oficina de criação, dizem os responsáveis.

No que se refere a espetáculos de palco, este ano apresentou-se a dupla Jonas & Lander no Teatro Micaelense, com “Lento e Largo”, que se estreou no início do ano durante o GUIdance — Festival Internacional de Dança Contemporânea de Guimarães. Concebido para ser visto de cima, em plano picado, e assim foi em Ponta Delgada, “Lento e Largo” encena seres anfíbios que entram e saem de uma piscina, representante do quotidiano da vida nas cidades, feito de rotinas exaustivas. Foi no sábado. Na sexta-feira à noite, a mítica discoteca Sempre em Pé, junto ao largo do Teatro Micaelense, acolheu a performance “Silent Disco”, do encenador Alfredo Martins, em cocriação com o bailarino Marco da Silva Ferreira. Este trabalho, apresentado em abril na bienal BoCA, em Lisboa, convoca o público para entrar na pista de dança com auscultadores através dos quais é debitado um manifesto “queer” sobre a noite e a dança enquanto “espaços seguros” para a “longa fila de bastardos que caminham nas margens”, ouviu-se dizer.

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