O carrossel já terminou, os motores já aqueceram e até as luzes já começaram a apagar. O Campeonato do Mundo de MotoGP regressa este fim de semana, com o Grande Prémio da Tailândia, e a nova temporada traz muitas mudanças de equipa, uma luta titânica pelo título dentro das mesmas cores e uma ausência inicial de peso.
Depois de dois anos na Aprilia, Miguel Oliveira mudou-se para a Prima Pramac, que deixou a Ducati e está agora associada à Yamaha, e vai fazer dupla com Jack Miller para chegar ao objetivo de melhorar os registos das últimas épocas – muito marcadas por quedas aparatosas e lesões prolongadas que obrigaram o piloto português a falhar várias corridas e a complicar uma consistência que o acompanhou nos primeiros tempos no MotoGP.
Miguel Oliveira festeja 100.ª corrida no Mundial de MotoGP este fim de semana
Na dominadora Ducati, Marc Márquez é a grande novidade, depois de ter deixado a satélite Gresini, e parte para 2025 com o plano de chegar ao sétimo título. Para isso, porém, terá de bater o colega de equipa, Pecco Bagnaia, que depois de ter deixado escapar o último Mundial para Jorge Martín quer repetir a façanha de 2023 e voltar a sagrar-se campeão mundial.
Jorge Martín que, invariavelmente, é a grande ausência no Grande Prémio da Tailândia. O campeão mundial, que durante a interrupção trocou a Pramac pela Aprilia, sofreu uma queda grave num treino em Espanha e foi operado à mão nos últimos dias – resta saber se só falha este fim de semana ou se a defesa do título será comprometida por uma recuperação mais prolongada.
Certo é que a nova temporada de MotoGP – que conta novamente com o Grande Prémio de Portugal, em novembro, na penúltima etapa – já arrancou este sábado, com a vitória de Marc Márquez na corrida sprint a prolongar uma sexta-feira em que foi muito superior à concorrência nas sessões de treino e na qualificação. Álex Márquez e Pecco Bagnaia completaram o pódio, com Miguel Oliveira a não ir além do 16.º lugar depois de ter arrancado em 17.º.
▲ Piloto português vai cumprir a sétima temporada consecutiva no MotoGP
Eric Alonso
30 anos, o 100.º GP e a ambição de sempre: Miguel Oliveira volta a começar de novo o que já começou há muito tempo
Novo ano, nova aventura. Depois de dois anos difíceis na Aprilia, Miguel Oliveira voltou a mudar de cores e vai agora representar a Prima Pramac, a equipa satélite da Yamaha que decidiu mudar de fabricante depois de vários anos associada à Ducati – numa parceria que conquistou o Mundial de Construtores em 2022 e o de pilotos em 2024, com Jorge Martín.
Aos 30 anos, o piloto português prepara-se para começar a sétima temporada consecutiva no MotoGP. E se é certo que a ambição de Miguel Oliveira é sempre um dado adquirido, já que mantém a narrativa de que um dia poderá ser campeão mundial, também é certo que os melhores resultados começam a distanciar-se no tempo: a última vitória foi em 2022, na Tailândia, e desde então não voltou sequer a subir a um pódio.
As várias quedas nos últimos anos, algo que nem sequer lhe era muito familiar, originaram lesões e tempos prolongados de paragem que atrapalharam as classificações. Em 2024, foi apenas 15.º na classificação geral do Mundial – um registo distante do nono lugar de 2020 ou até do 10.º de 2022. Ainda assim, com uma nova equipa, uma nova mota e um novo parceiro, o objetivo de Miguel Oliveira passa naturalmente por regressar aos melhores dias da carreira.
O piloto português vai fazer dupla com Jack Miller, que deixou a KTM, e não será difícil imaginar que os dois são a maior ameaça a Álex Rins, que está ao lado de Fabio Quartararo na equipa de fábrica da Yamaha e que terá de apresentar resultados para segurar o lugar em 2026. Nas primeiras semanas com a nova equipa, ao longo dos testes que têm decorrido em Sepang e Buriram, Miguel Oliveira mostrou-se “entusiasmado” com a temporada.
“Juntar-me a esta equipa e começar esta aventura com a Yamaha representa uma grande oportunidade e um novo desafio que vou enfrentar com grande determinação”, explicou, recordando que arranca 2025 com a marca redonda do centésimo Grande Prémio de MotoGP da carreira. “Chegar a Buriram e celebrar o meu 100.º Grande Prémio torna este momento ainda mais especial. É um marco importante que me faz olhar para o meu percurso com orgulho, mas que, simultaneamente, me dá mais motivação para continuar a lutar no futuro. Estou pronto para dar tudo nesta nova temporada”, acrescentou.
Ainda assim, e já na antecâmara do Grande Prémio inaugural da nova temporada, Miguel Oliveira lembrou que ainda está a habituar-se à nova mota – e afastou desde logo grandes expectativas. “Estou a sofrer um bocadinho no ponto de travagem, que é onde não consigo extrair realmente o máximo da mota. Mas leva tempo. A mota tem uma técnica diferente, que não se apanha do dia para a noite, e esta é a pista mais extrema, onde passamos muito tempo nesse ponto de travagem. Diria que estamos o mais prontos possível para vir correr”, indicou, garantindo que será difícil passar diretamente à Q2 na primeira qualificação do ano.
“Posso dizer-vos o que não esperar da primeira corrida: seria muito irrealista, de momento, pensar em ir diretamente para a Q2 na sexta-feira e esse tipo de coisas. Ainda tenho de recuperar um pouco a diferença entre o grupo das Yamaha nesta pista, algo que acredito que consigo fazer, e depois estar no top 10 não será fácil. Para esta corrida, o novo objetivo realista é estar dentro dos pontos e depois retirar uma experiência base do fim de semana. Compararmo-nos com as outras motas, ver ou confirmar o que já sabemos em algumas áreas e otimizar outras”, detalhou o piloto, num cenário que acabou por se confirmar com o 17.º lugar na qualificação e o 16.º na corrida sprint deste sábado.
Na sétima época de MotoGP, depois de cinco vitórias, sete pódios e uma pole position, Miguel Oliveira entra para 2025 com o objetivo natural de voltar aos três primeiros lugares de uma corrida e de, com as condições certas de sorte, mérito e competência, poder mesmo regressar aos triunfos. Para isso, ainda terá de se habituar a uma nova equipa que também está, ela própria, a habituar-se a um novo fabricante.
Dois campeões do mundo na melhor equipa do mundo
É a grande história de 2025. A dúvida sobre a sucessão na Ducati alimentou a primeira metade da última temporada, com a certeza de que Enea Bastianini iria ser substituído por um nome forte para competir com Pecco Bagnaia. As opções, naturalmente, eram duas: Marc Márquez, seis vezes campeão do mundo que estava na Gresini, e Jorge Martín, que acabou por ser o campeão do mundo e que estava na Prima Pramac.
▲ Ducati juntou dois dos principais candidatos à conquista do Mundial de MotoGP
Getty Images
No início, parecia certo que a escolha iria recair em Jorge Martín. Para além de estar bem lançado para ser campeão mundial, o piloto espanhol competia na então equipa-satélite da Ducati e estava perfeitamente identificado com a mota, a equipa, os mecânicos, a marca e todos os valores associados a uma organização deste calibre. Afinal, tudo fazia sentido: era juntar a equipa principal do fabricante que tem dominado o MotoGP ao piloto que se preparava para dominar o MotoGP.
Depois do Grande Prémio de Itália, porém, tudo mudou. Em junho, surgiram as primeiras notícias de que a Ducati tinha mudado de ideias e tinha optado por contratar Marc Márquez. Magoado com a decisão da casa que representou desde que chegou ao MotoGP, em 2021, Jorge Martín aceitou o interesse da Aprilia e anunciou que iria substituir Aleix Espargaró, que terminou a carreira. Dois dias depois do anúncio do piloto espanhol, a Ducati confirmou que Marc Márquez seria o novo parceiro de Pecco Bagnaia.
Em resumo, em 2025, a Ducati conta com dois campeões do mundo que querem muito voltar a ser campeões do mundo. Pecco Bagnaia deixou fugir o título de 2024 para Jorge Martín, enquanto que Marc Márquez regressou aos seus melhores dias depois de um autêntico calvário na Honda e terminou a temporada com três vitórias. Agora, serão companheiros de equipa na marca que tem as motas mais rápidas da grelha – resta saber quem será o mais rápido em pista e até que ponto o excesso de competitividade não pode acabar por prejudicar as ambições coletivas.
▲ Jorge Martín foi campeão mundial em 2024, mas vai falhar o arranque da nova temporada devido a lesão
JOSE SENA GOULAO/LUSA
Jorge Martín e duas fraturas que podem complicar o sonho do bicampeonato
E se, por um azar, o atual campeão do mundo de uma modalidade não pudesse começar a defesa do título? É precisamente o que vai acontecer no MotoGP. Depois de ter sido mais forte e consistente do que Pecco Bagnaia para se tornar campeão mundial em 2024, Jorge Martín vai pelo menos falhar o inaugural Grande Prémio da Tailândia – e pelo menos porque muitos acreditam que o piloto espanhol só poderá voltar às pistas daqui a várias semanas.
O agora piloto da Aprilia começou por cair no primeiro teste de Sepang, passando depois por duas semanas de repouso e várias sessões numa câmara hiperbárica para ajudar à recuperação óssea na zona do pulso, mas tudo piorou com outra queda num treino de supermoto no kartódromo de Lérida. O espanhol de 27 anos sofreu uma fratura do rádio e outra do pulso e foi operado na última semana para colocar três parafusos, com a equipa a limitar-se a indicar que não está naturalmente disponível para o Grande Prémio da Tailândia.
A imprensa especializada, porém, garante que o período de recuperação de Jorge Martín pode mesmo ir das oito às dez semanas – algo que o deixaria de fora de competição até à quinta corrida do ano, o Grande Prémio de Espanha, e que pode obviamente colocar em causa a ambição de voltar a lutar pelo título.
O espanhol será o primeiro campeão do mundo de MotoGP a não iniciar a defesa do troféu desde Kenny Roberts, que em 1979 falhou o inaugural Grande Prémio da Venezuela na sequência de um acidente grave num teste no Japão, sendo que o norte-americano acabou mesmo por conseguir ficar no primeiro lugar da classificação geral no fim da temporada.