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Miguel Oliveira vai fazer a sétima temporada no MotoGP na Yamaha, depois de quatro anos na KTM e dois na Aprilia
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▲Miguel Oliveira vai fazer a sétima temporada no MotoGP na Yamaha, depois de quatro anos na KTM e dois na Aprilia

▲Miguel Oliveira vai fazer a sétima temporada no MotoGP na Yamaha, depois de quatro anos na KTM e dois na Aprilia

"Aos 30 anos, estou mais bem preparado que nunca": entrevista a Miguel Oliveira, piloto português do MotoGP

Novo projeto na Yamaha, o que ficou por fazer na KTM e na Aprilia, competitividade no MotoGP, família, a visita ao rancho de Rossi e o sonho de ouvir o hino em Portimão: entrevista a Miguel Oliveira.

Tem um simulador, mas não é o maior dos adeptos dos simuladores. Para alguns pontos em específico pode ser a ferramenta mais útil, como aconteceu agora no período de recuperação das fraturas sofridas no pulso, em que podia ir percebendo com o passar dos dias como estava a correr esse trabalho de regresso às pistas. Mas o que Miguel Oliveira mais gosta é mesmo andar nas pistas a testar os limites com o intuito único de ser cada vez melhor. Em relação às motos, igual. O português anda há mais tempo no MotoGP do que tem carta de mota, concluída no final de 2021, e preocupa-se sobretudo com as sensações da “sua” máquina e não tanto com aquilo que têm outras máquinas. A partir de 2025, a “máquina “será outra. Aos 30 anos, o piloto entra numa equipa campeã como a Pramac, mas que tem o objetivo de ser campeã com outros motores que não os da Ducati, sendo um dos pilares para a tentativa de ressurreição de Yamaha. A ansiedade já se nota.

Não é fácil “ser” Miguel Oliveira. Na última vez que passou por Portugal, e entre vários compromissos que estavam marcados na agenda, sobrava essa “notícia” de que voltaria ao país com alguma margem em… abril. Assim mesmo, abril. Até lá, há testes, há compromissos profissionais, há um início de Mundial de MotoGP, há uma terceira vida no principal escalão do motociclismo depois de uma ligação extensa com a KTM e dois anos na Aprilia. Entre altos e baixos, e num mercado de transferências particularmente ativo, ninguém tinha dúvidas de que o português teria um novo desafio e é na Yamaha que regressam os “objetivos altos”.

Apesar de um 2024 marcado por ausências por lesão em cinco corridas, depois da aparatosa queda na sessão de treinos do Grande Prémio da Indonésia, onde não foi além da 15.ª posição com o melhor fim de semana no traçado germânico de Sachsenring (segundo lugar na sprint, sexta posição na prova), Miguel Oliveira vai chegar com total motivação à nova aventura – e mantém a ideia à prova de bala de um dia poder discutir o título no MotoGP, como aconteceu por sete ocasiões com o ídolo Valentino Rossi, com quem esteve há duas semanas no rancho do transalpino que continua a deslumbrar todos aqueles que o visitam. Sabe que terá problemas, sabe que vai ser uma das chaves para encontrar soluções, sabe que existe potencial para fazer uma época de sucesso até pelas conversas que foi mantendo com o amigo Fabio Quartararo sobre o tema.

Para já, ainda em Portugal, Miguel Oliveira continua a ser Miguel Oliveira. Sempre com fãs mais pequenos e graúdos à espera de fazer uma fotografia com o piloto, sempre com mais uma fotografia para assinar. “Se tenho noção de quantos autógrafos dou por semana? Não faço mesmo ideia, mas são muitos, muitos…”, admite na conversa com o Observador, após a renovação de mais um contrato de patrocínio [Cofidis]. O português continua a mostrar que a margem para apoiar projetos que não o futebol mantém-se, sabendo que sem eles também seria complicado atingir o patamar onde chegou, ao mesmo tempo que sabe todo o “peso” que carrega por ser um modelo para muitos adeptos que olham para si como uma referência.

▲ Miguel Oliveira fez os primeiros testes pela nova Pramac Yamaha em Barcelona, começando no final da próxima semana mais um período experimental na Malásia

Eric Alonso

Começando por mais esta renovação de contrato, qual é a importância deste apoio de marcas? Sente que é relevante também pelo facto de ser um atleta que mostra que Portugal não tem necessariamente de ser só futebol?
Renovar com parceiros é sempre um bom ponto de partida para uma temporada, porque queremos sempre sair com confiança. Estou num desporto que se move muito pelo mundo, por vezes carregamos marcas e personificamos certos valores de marcas que nos patrocinam. É muito importante para mim poder contar com estes apoios, mesmo que seja um apoio distante fisicamente, mas é sempre bom. Sinto que de certa forma existe algo inegável, que é a dimensão do motociclismo em Portugal e por vezes o número de visualizações das corridas de MotoGP em Portugal. Tenho noção que isso em grande parte se deve ao facto de correr lá um português e isso deixa-me naturalmente orgulhoso, às vezes também surpreende. Eu olho as coisas de outra forma: sinto que podia ser ainda mais, sinto que ainda há um caminho a percorrer para que o motociclismo se torne num desporto ainda mais central na cultura portuguesa.

[Já saiu o sexto e último episódio de “A Caça ao Estripador de Lisboa”, o novo Podcast Plus do Observador que conta a conturbada investigação ao assassino em série que há 30 anos aterrorizou o país e desafiou a PJ. Uma história de pistas falsas, escutas surpreendentes e armadilhas perigosas. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube. E pode ouvir aqui o primeiro episódio, aqui o segundo, aqui o terceiro, aqui o quarto e aqui o quinto episódio]

E isso foi um ponto de partida ou de chegada?
Foi um feito inédito ter chegado ao MotoGP, mas não queria que fosse só isso, queria também que outros jovens conseguissem lá chegar. Não quero fazer disso a minha missão de vida agora, nesta fase da minha carreira desportiva, porque acredito que ainda tenho bons anos pela frente, mas sinto de alguma forma que as condições e todo o ecossistema que possa gravitar à minha volta possa vir a beneficiar os outros pilotos que venham a aparecer. É isso sobretudo que espero.

▲ Miguel Oliveira renovou este mês pela Cofidis, uma das várias marcas que têm apoiado o piloto português no MotoGP

Ainda agora mais um fã ficou espera só por um autógrafo e uma fotografia. Sente que é pelo papel que foste conseguindo ganhar no mundo do MotoGP ou porque há uma geração que olha para si como uma referência que começou de miúdo, foi vice-campeão de Moto3, foi vice-campeão de Moto2 e continua lá em cima no MotoGP?
Acho que é um bocadinho de tudo… Hoje em dia não seguimos pessoas simplesmente pelo que elas estão a representar no seu desporto mas também por todos os valores que estão inerentes a essas pessoas. Os valores que demonstram, o que conseguem passar para fora. Por isso acredito que seja um bocadinho das duas. Acho que no meu caso as fotos com os fãs, assinar um papel ou assinar um capacete, felizmente, é algo que não é novidade para mim. Posso gabar-me de ter este apoio saudável que é simplesmente fantástico.

Alguma vez pensou quantos autógrafos dá num ano?
Não, não consigo…

E numa semana, também não dá para ter essa ideia?
Não dá para contar, mesmo… Felizmente são muitos, as ocasiões também são muitas. Nos Grandes Prémios é natural, apesar de estarmos naquele ambiente de trabalho, mas mesmo fora torna-se cada vez mais habitual que as pessoas me reconheçam…

É um ídolo para muitos, mas também tem ídolos. Esteve agora na quinta do Valentino Rossi, imagino que nesta altura da época deve ser sobretudo um bom motivo de convívio, mas como é que se explica aquela aura à volta do Rossi? Porque é que Rossi vai ser sempre Rossi e não há maneira de passar essa “febre”?
É muito difícil pôr em palavras o que significa ou o que se sente por podermos estar ao lado do nosso ídolo de infância sem que se extravase sorrisos de energia. A única coisa que cruzou muitas vezes o meu pensamento durante o fim de semana em que estive com ele foi o privilégio e a sorte que os pilotos da academia têm em poder privar e estar com ele, as condições que têm para treinar, os meios que têm à disposição e sobretudo o know how que o Valentino lhes passa. É algo inigualável também porque ele é aquilo que mostra. É bem disposto, disponível, acessível, uma lição naquela mistura de rock star que está num patamar inatingível mas ao mesmo tempo super humano e super acessível. É um misto interessante. Depois ele arrasta multidões, arrasta muitos interesses e é fantástico. Ainda corri contra ele três anos, que foram as últimas três épocas que fez, mas poder privar com ele fora do circuito não tem nada a ver…

"Semana no rancho de Rossi? É muito difícil pôr em palavras o que significa ou o que se sente por podermos estar ao lado do nosso ídolo de infância (...) É bem disposto, disponível, acessível, uma lição naquela mistura de rock star que está num patamar inatingível mas ao mesmo tempo super humano e super acessível. É um misto interessante."
Miguel Oliveira, piloto português no MotoGP

Por um lado, a Pramac, que tem este novo desafio com a Yamaha, admite que dois meses pode não ser suficiente para colocar a moto no seu máximo. Por outro, as impressões que teve em Barcelona na estreia foram muito positivas em termos de rapidez de adaptação. Como é que podemos colocar o Miguel Oliveira em relação à próxima temporada de 2025?
Acho que não vamos estar em pé de igualdade com os nossos adversários porque começamos um bocadinho atrás, isso é natural. Houve agora alguns anos onde a Yamaha não conseguiu dar passos em frente no desenvolvimento da sua moto e encontramos-nos agora numa viragem do projeto onde a Yamaha vai fornecer motos oficiais a uma segunda equipa, uma segunda equipa que acaba de tornar-se campeã de equipas e campeã do mundo a nível individual com um piloto [Jorge Martín]. Por isso, a nível de estrutura humana, vontade, experiência, está lá tudo. Agora cabe também à Yamaha poder trazer passos significativos e positivos com a moto para termos as ferramentas para podermos começar a construir bons resultados. Para já é cedo para perceber o que é que podemos ambicionar. Existe um caminho que temos que percorrer e convém que seja sólido. Não interessa agora ter um excelente resultado e depois não aparecer.

E o que são bons resultados nesta temporada de 2025?
Temos de começar a construir as nossas oportunidades gradualmente, começar a gravitar posições interessantes dentro do top 10, depois dentro do top 5 e a partir do momento que estamos ali próximo vamos começar a conseguir batalhar pelas vitórias com mais regularidade. A Yamaha quer voltar às vitórias antes da viragem do regulamento em 2027 e acredito que isso pode acontecer. Acredito também que eu possa ser um fator contribuinte para esse sucesso.

Se apontarmos para um Miguel Oliveira no top 10 em 2025 para depois projetar uma vitória no Campeonato do Mundo nos anos a seguir, é arriscado?
Não é arriscado, no desporto e na vida tudo é possível, basta acreditarmos e termos os meios à disposição. A realidade dos últimos dois anos foi os melhores pilotos da Yamaha terminarem em décimo e 13.º na classificação geral dos campeonatos, por isso acredito que um top 10 seria um passo gradual e sólido…

▲ Miguel Oliveira prepara-se para fazer a sétima temporada no MotoGP pela terceira marca, com a Yamaha depois da KTM e da Aprilia

Eric Alonso

E um desses pilotos já foi campeão mundial…
Sim, um deles é um ex-campeão no mundo. O Fábio ganhou, fez segundo em 2021, depois foi décimo e 13.º. Acredito que terminar dentro do top 10 no campeonato seria um passo lógico e razoável de pensar numa ótica de olharmos e estarmos a andar para a frente, a progredir. Por isso sim, um top 10 no primeiro ano e depois no segundo perceber o que é que se pode fazer.

Olhando apenas para o MotoGP, a ideia que fica é que a melhor época em que faz nono lugar no Mundial foi na Tech3, que tinha como principal segredo a equipa, a estrutura, se calhar não tão grande mas com um espírito mais próximo e familiar. Isso é mesmo assim?
Sem dúvida que o ambiente da equipa é super importante, mas quer esteja numa equipa de fábrica ou numa equipa satélite, criar um bom ambiente é sempre possível. Consegui criá-lo também na equipa de fábrica da KTM, sentia-me muito bem lá. Mas colocaria 2020 como uma temporada quase incomparável. Corremos em circunstâncias muito particulares, corremos num ano onde a Covid-19 foi mais falada do que tudo o resto… Falar em competição naquele ano é um bocado estranho mas não deixou de ser um ano bastante positivo. Ganhei duas corridas, foi um ano de aprendizagem bastante positivo e consolidou também a minha progressão como antigo rookie na temporada anterior no MotoGP.

Depois da Tech3 há aqueles dois anos na equipa de fábrica da KTM, agora esta passagem pela Aprilia com a RNF e depois com o projeto da Trackhouse. Passado um ano, já está na Yamaha. Sente que há sempre alguma coisa que fica por escrever sobre essas passagens?
Em relação à KTM sinto que de certeza absoluta que sim, ficaram por fazer algumas coisas, nomeadamente no ano seguinte em que a moto estava bastante mais competitiva com grande parte do meu contributo e do meu feedback. Gostaria de ter pilotado aquela moto mas também ao mesmo tempo sinto que comecei uma boa aventura com a Aprilia. Acho que tecnicamente a Aprilia deu-me muito, tive muitas aprendizagens, adaptei bastante o meu estilo de condução, provei a mim próprio que era capaz de conduzir de outra maneira também. Por isso foram duas temporadas, apesar de difíceis, muito boas, mas com muitas mudanças, falta de apoio. Acabaram por ser temporadas tecnicamente muito desafiantes.

Quando chegou ao MotoGP era descrito como o piloto mais fiável de todos, aquele que podia ter a moto a andar melhor ou pior mas que terminava sempre as corridas. Depois em 2023 tem aquele início com o acidente de Portimão, nova queda em Espanha, ausência por lesão em duas corridas. Esses episódios são um exemplo de como o MotoGP está cada vez mais competitivo até com o aparecimento das sprint e que se vai gerando mais ruído na pista?
Acredito que as corridas sprint vieram trazer mais oportunidades para pontuarmos durante o fim de semana, que no final do dia é aquilo que estamos ali a fazer, pontuar. Os incidentes às vezes ao domingo acontecem, são naturais de acontecer também na sprint. Acho que 2023 foi também um ano de adaptação para todos, percebermos melhor tudo, tirar as medidas ao formato. Em 2024 vimos muito menos incidentes na sprint e em corrida do que no ano anterior. Todos precisámos de ter uma fase de adaptação de leitura do terreno. Em relação aos incidentes que tive logo no início de 2023, não os pude evitar, não estavam nas minhas mãos. As circunstâncias às vezes criam-se porque o desporto é assim, às vezes há pouco mais a fazer do que aceitar. Se isso me trouxe alguma aprendizagem ou não, não me trouxe nada, porque preferia estar a andar de moda do que estar em casa lesionado, mas o importante é andar para a frente e perceber se podemos melhorar.

▲ Miguel Oliveira teve uma época de 2023 mais acidentada mas foi em 2024 que teve o maior período de ausência na sequência da queda nos treinos na Indonésia

E como é que alguém que nunca tinha estado lesionado gere tantos problemas físicos?
É muito mais difícil psicologicamente, porque fisicamente vamos estar sempre cada vez melhores, mas o facto de não ter aptidão para montar a moto e experimentar, andar, é difícil. Há dias melhores, outros piores, mas faz parte do desporto e da vida.

Em 2025, além deste novo projeto, há sobretudo aqui uma viragem com as muitas alterações que houve a nível de pilotos, com a equipa campeã a mudar e o campeão também além de existir menos uma equipa. Olhando para essa competitividade, como projeta a nova época?
Acho que são mudanças positivas, todos os pilotos que vão subir da Moto2 também acredito que possam vir acrescentar alguma coisa ao campeonato. As mudanças do campeão do mundo [Jorge Martín] para a Aprilia, e do [Marc] Márquez para a Ducati oficial vão ser tudo ingredientes para ter uma temporada espetacular. O facto de muitos deles terem motos novas, como é o meu caso, como é o caso dos pilotos que rumaram a Aprilia, vai trazer mais igualdade, pelo menos no início. Vai depender de quem se adaptar melhor à moto.

E como será trabalhar com o Jack Miller, um piloto que parece ser diferente, mais aberto, mais extrovertido pelo menos na imagem que passa do que o Brad Binder, por exemplo?
É também mais experiente. Para as câmaras talvez seja assim, mas o Brad, porque neste caso falámos do Brad, também é muito aberto a nível de ambiente e de trabalho na boxe, nisso é muito semelhante ao Miller. Para já tivemos um contacto muito curto, apenas um dia de teste. Agora quando rumarmos à Malásia ainda em janeiro vamos ter um bocadinho mais de tempo para trocar impressões.

Tecnicamente a Aprilia deu-me muito, tive muitas aprendizagens, adaptei bastante o meu estilo de condução, provei a mim próprio que era capaz de conduzir de outra maneira também. Por isso foram duas temporadas, apesar de difíceis, muito boas, mas com muitas mudanças e falta de apoio
Miguel Oliveira, piloto português no MotoGP

E agora durante este período, vão falando?
Agora não, nada, nada…

Tem alguma relação mais especial com algum piloto, com quem vás trocando mensagens?
Não… Apenas talvez com o Fábio [Quartararo], sobretudo antes da minha passagem para a Yamaha falei muito com ele. Fui perguntando como é que as coisas estavam estruturadas dentro da equipa, qual era a missão da equipa, como é que estavam todos a abordar o projeto… Por vezes temos um feedback muito mais cru e real do piloto do que estar a falar com o team manager ou com o diretor da marca. Sinceramente, o Fábio também foi uma excelente influência para que pudesse tomar esta decisão.

Ganhou as primeiras provas, neste caso no Moto3, há exatamente há dez anos e e foram logo seis nessa temporada. Como é que vê todo este trajeto? Está onde achava que iria estar ou acha que naturalmente, se esteve a lutar pelo título no Moto3 e no Moto2, até duas vezes, também estaria no mesmo patamar no MotoGP?
Acho que as coisas na minha carreira desportiva desenrolaram-se da maneira que se tiveram de desenrolar, sempre no seu timing. Duvido que o meu palmarés desportivo nas categorias mais baixas pudesse ditar o meu futuro na categoria do MotoGP.

Mas já pensou alguma vez que gostava e esperava estar um pouco mais acima ou acredita que essa oportunidade ainda vai aparecer?
Pensei, já pensei nisso, mas, sinceramente, são energias perdidas. O meu palmarés é engraçado porque a minha carreira sempre foi sustentada nestes resultados desportivos, sem eles não poderia estar onde estou. Ao mesmo tempo, com os mesmos resultados desportivos, se tivesse mais apoio, se tivesse uma empresa muito grande atrás de mim, a fazer pressão, a patrocinar equipas, a patrocinar campeonatos e provas, as coisas eram diferentes, sim.

▲ Miguel Oliveira teve as primeiras vitórias no MotoGP em 2020, na Estíria e em Portimão, numa fase sem público. Sonho de 2025 passa por ganhar de novo em Portugal

Fala-se muito em Portugal na impossibilidade de ter um piloto nacional na Fórmula 1 a partir do momento em que o dinheiro começou a imperar. O MotoGP também é assim?
Naturalmente que estamos a falar de dois mundos cada vez mais elitistas. Poder ter a oportunidade de fazer uma temporada de karting ou fazer uma temporada de moto é dispendioso, isso tem de gerar interesse por parte de empresas, temos de ter patrocinadores para poder pagar essas temporadas. Acredito que agora também com a aquisição do MotoGP e dos direitos comerciais pelo grupo da Liberty Media, possamos dar mais um passo na direção certa da comercialização do desporto porque na minha modesta opinião temos o campeonato de desporto motorizado mais atrativo do mundo. Há poucos, pouquíssimos exemplos, de coisas tão apelativas como o MotoGP neste momento, a nível de espetáculo ao vivo e na televisão. Por isso, é uma questão de capitalizar tudo o resto que está à volta.

Voltando ao Miguel de há dez anos e agora, quais são as principais diferenças? Pode comparar-se o nível de preparação que tinha e tem hoje?
Nada a ver, nada a ver. Cada ano que passa fico cada vez mais completo, porque aprendo. Sou um tipo de piloto que não gosta de andar sempre a experimentar tudo, mas sou muito permeável a ideias e a perceber o que é que pode funcionar em mim ou não. Tenho uma boa equipa ao meu redor também para me ajudar, para me guiar, desde fisiologista ao preparador físico, para me ajudar também a decidir o que devo ou não experimentar, seja na parte da nutrição ou dos novos métodos para treinar. Nunca tive a mesma pré-temporada e agora com 30 anos estou mais bem preparado do que nunca. É surreal pensar nisto desta forma porque faz-me pensar que nos anos anteriores podia se calhar ter feito mais e não fiz, mas era o que sabia fazer de melhor até à altura. Acho que estou a ficar cada vez mais completo e agora é deixar que os resultados também definam um bocadinho o rumo do resto.

Sou um tipo de piloto que não gosta de andar sempre a experimentar tudo mas sou muito permeável a ideias e a perceber o que é que pode funcionar em mim ou não (...) Nunca tive a mesma pré-temporada e agora com 30 anos estou mais bem preparado do que nunca. É surreal pensar nisto desta forma porque faz-me pensar que nos anos anteriores podia se calhar ter feito mais e não fiz, mas era o que sabia fazer de melhor até à altura
Miguel Oliveira, piloto português no MotoGP

No meio disto tudo há aqui também uma parte difícil, que é a melhor, que se chama família. Como é gerir viagens com essa parte? Quando se é pai, olha-se para as curvas de outra forma?
Sei que consigo. Tive de primeiro segmentar muito bem aquilo que para mim a família pode significar, o que é que significam os filhos e depois o que é que eu quero enquanto piloto. Isso é um trabalho, é um processo mental que se faz, que demora algum tempo para encaixar, mas o que é certo é que não estou sozinho neste barco. Tenho a minha mulher, tenho os filhos e obviamente que não é mais um jogo individual, é um jogo e um trabalho de equipa. A gestão começa em cada fazer a sua parte. Consigo dividir bem o Miguel piloto e o Miguel pai, não me faz abordar as curvas de outra maneira. Pelo contrário, dá-me mais motivos para ser bem sucedido.

Consegue imaginar o cenário que mais gostava que se realizasse em 2025?
Sim, vencer a corrida em Portimão e ouvir o hino nacional cantado pelas bancadas todas em uníssono. Acho que continua a ser um dos meus sonhos que quero tornar realidade.

Chegou a temer que Portimão saísse do calendário ou achava que era só burocracia?
Não de todo, de todo… Sabia que havia interesse de ambas as partes, haveria sim uma parte de burocracia por causa da transição do governo que não foi fácil de gerir, mas ficou resolvido. Mais uma vez o próprio Autódromo esteve à altura dos desafios, portou-se muito bem e é uma excelente oportunidade para o país poder continuar a contar com o MotoGP.

É muitas vezes descrito como o “piloto da chuva”. Isso é um elogio ou uma ideia redutora?
Tomo um bocado uma medida de cada… Não sou só piloto de chuva como é óbvio, porque em 98% das vezes andamos em pistas secas, mas aqueles 2% em que andamos à chuva consigo sobressair. Não sei o que posso dizer mais… Quando as condições estão assim, as máquinas estão em pé de igualdade e faz sobressair mais a sensibilidade do piloto a guiar. Sou um piloto sensível nesse sentido, consigo ir ali no limite de andar rápida e não cair, é mais por aí…

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