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O bando dos quatro +1 no congresso de Costa. Afinal quem está mesmo na calha da sucessão

Congresso começou com quatro figuras alinhadas para o futuro e terminará com mais uma na lista, embora em condições bem diferentes e insuflada pelo último ano e meio. Pedro Nuno é único garantido.

De calças brancas, t-shirt por baixo do blazer e sapatos desportivos amarelos, Pedro Nuno Santos desceu pela coxia mais à esquerda do Congresso socialista meia hora atrasado. Descontraído mas não discreto, passou cumprimentando com uma palmadinha nas costas quem já estava sentado no palco, entre eles alguns dos seus supostos adversários de futuro. Mesmo num Congresso em que promete silêncio completo, Pedro Nuno não resiste a tomar o foco. E viu, nesta reunião, mais um nome a aparecer — ainda que noutra dimensão — para essa batalha do futuro (que Costa pode tornar longínquo).

Marta Temido foi a estrela do primeiro dia. Apareceu no ecrã gigante do Congresso a cada referência feita pelo líder, na sua intervenção de abertura, ao Serviço Nacional de Saúde, e o seu discurso recebeu a maior ovação de pé deste Congresso. Costa aproveitou precisamente esse momento para lhe entregar o cartão de militante do partido, depois de a ter convencido a inscrever-se, como havia de contar pouco depois ao Observador. Nessa entrevista, o próprio líder socialista não esperou sequer que a pergunta fosse formulada para deixar dito que, dentro de dois anos (os estatutos exigem-no), também Marta Temido poderia entrar na bolsa de sucessores.

António Costa. “Sim, Marta Temido pode ser sucessora. Daqui a dois anos, já tem tempo de militância suficiente para se candidatar”

É uma conversa que foi animando um Congresso sem sumo político. “Uma questiúncula”, chegou a dizer Costa à SIC, ao mesmo tempo que ia alimentando a chama que já ganhava alguma forma a cada aparição de Temido, que ainda agora entrou para o partido. No lado pedronunista, regista-se esta prática de Costa, ao mesmo tempo que se esvazia o papel que o atual líder terá no processo de liderança que se seguir a ele. Socialistas próximos de Pedro Nuno Santos dizem ser pouco relevante que se multipliquem os nomes porque, na altura, será “ele [Pedro Nuno] mais um que vai mudando”.

Os 4 foram colocados na mesma mesa: 1. Fernando Medina; 2. Ana Catarina Mendes; 3. Mariana Vieira da Silva; 4. Pedro Nuno Santos

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Mas, por agora, é o “bando dos quatro”, como já são chamados por alguns socialistas os quatro possíveis sucessores de Costa, +1. Marta Temido não está no mesmo plano e Costa atribui a sua popularidade neste congresso ao papel de ministra da Saúde neste último ano e meio de país mergulhado na pandemia. “É normal que o partido, como o conjunto da sociedade, reconheça o trabalho extraordinário que tem feito”, disse Costa ao Observador, reconhecendo que “a verdade é que o enfrentou, e com grande sucesso”. A ministra foi escolhida pela dupla Costa/César para estar sentada na Mesa do Congresso, as caras que o país socialista havia de encontrar sempre que procurasse novidades sobre os trabalhos em Portimão.

Mas a cadeira de Pedro Nuno esteve muitas vezes vazia. Fazendo jus à fama que tem de anos de trabalho da máquina partidária para povoar as estruturas locais do partido com tropas suas, o socialista circulou por todos os cantos da sala e, mal os trabalhos foram interrompidos para o almoço, viu-se tomado por uma onda de pedidos para selfies dos congressistas ali presentes. O tempo foi aproveitado para fazer aquilo que os políticos fazem nos Congressos: tomar o pulso ao partido.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

A verdade é que Pedro Nuno Santos foi o único dos apontados que, até agora, assumiu sem reservas que tem a ambição de ser líder. Aliás, há três anos, no Congresso da Batalha, foi tão expansivo nesse posicionamento que ouviu um ralhete público de Costa. Há quem, no partido, veja neste jogo de Costa em apontar sucessivas possibilidades para o pós-Costismo, uma vingança continuada aos excessos que Pedro Nuno cometeu na Batalha. Neste congresso ainda passou pela SIC, à noite, e, quando questionado sobre se tinha levado a mal o atraso da manhã do seu ministro das Infraestruturas, desvalorizou ao mesmo tempo que sugeria: “Ou furou um pneu, ou adormeceu” — e ao mesmo tempo que elogiava o ministro: “Estou muito contente com o trabalho dele”.

Mas o líder socialista vai garantindo que tudo o que tem feito é deixar preparada uma nova geração para o que o partido quiser no futuro. “O PS é um partido muito rico em quadros. Já disse, longe vá o agoiro, que se me desse uma síncope aqui neste momento, não faltariam soluções no PS para assegurar a liderança e a execução do programa, que não é do António Costa mas é do PS”, respondeu ao Observador sobre este mesmo tema.

Desta vez, ali em Portimão, não ouviu Pedro Nuno Santos posicionar-se. Só o viu por ali, ora sentado ao lado de César, com o braço pelas costas do presidente do partido, ora a cochichar com Mariana Vieira da Silva, ora a rir-se com Marta Temido, depois da intervenção da ministra no Congresso, ora a congeminar com Duarte Cordeiro, um dos seus mais próximos dentro do PS. Tudo isto por ali mesmo, saltitando de cadeira em cadeira pelas duas mesas instaladas no palco do Congresso. Fez o mesmo pela sala do congresso, sempre medindo o partido que se gaba a quem o ouve de conhecer bem.

No fim do discurso de Marta Temido, Pedro Nuno Santos esteve alguns minutos a falar com o ministra e nova militante.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Representa, há muito, a ala esquerda do partido e é essa a representação que manterá quando chegar o seu dia. Dificilmente disputará o cargo com todos os nomes de que se diz que se perfilam mais ou menos na mesma ala do PS. Fernando Medina, por exemplo, surge mais ao centro, com um discurso menos ideologicamente marcado do que o de Pedro Nuno Santos e sem tropas. Tem tentado manter-se fora dessa corrida, ainda que seja um dos preferidos de Costa, que o deixou como sucessor na Câmara de Lisboa e onde é recandidato pela segunda vez nesta autárquicas. Quando subiu ao palco ninguém esperava ouvir Medina falar de outra coisa que não disso mesmo. E assim foi.

Alinhou um discurso com as diferenças de projeto para o PSD, carregando na tinta do socialismo das suas políticas. “É nas autárquicas que se conseguem ver as diferenças de projeto entre o PS e a direita do PSD e dos outros partidos”, disse, apontando a área da habitação (uma área que, no Governo, é tutelada por Pedro Nuno) e do SNS. Ainda atirou ao PSD, que acusa de estar a “legitimar a direita mais radical do país”, o Chega.

Durante a intervenção de Fernando Medina, Pedro Nuno Santos esteve sempre no seu lugar na mesa do congresso.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

É, no entanto, pouco provável que Medina formalize uma candidatura se a sua ala política estiver coberta no pós-costismo. E há outros nomes possíveis para fazerem este papel. O mais antigo em jogo é o da atual líder parlamentar Ana Catarina Mendes.

Houve um tempo — na verdade, ainda há escassos meses — em que, sempre que António Costa era questionado sobre a sua sucessão e insistia que podia ser uma mulher a próxima a ocupar o cargo, apenas um nome surgia na mente de quem o ouvia: o de Ana Catarina Mendes. Desta vez, os socialistas instalaram-se em Portimão com mais uma mulher no leque de hipóteses — Mariana Vieira da Silva — e tiveram oportunidade de ver e ouvir as duas, sentadas na mesa do congresso. Mesmo assim, mal chegou ao Portimão Arena, Ana Catarina fez questão de arrumar o assunto: até pode ser “evidente” que chegará o tempo de o PS ter “uma mulher à frente dos destinos” — mas “este não é esse tempo”.

E não o é porque, garantiu, os ‘quatro’ que andam nas bocas do PS — e nos jornais — têm outra coisa em comum, como explicava às televisões antes de entrar no pavilhão: “Somos quatro que estamos com António Costa desde 2014, cada um nas suas funções, empenhados em melhorar as condições de vida dos portugueses”. Se não houver surpresas, lá ficarão, dedicados a Costa — até Costa decidir sair.

Num congresso de renovação de votos do partido com o líder, os elogios ao “PS de António Costa”, em que Ana Catarina Mendes apostou, nunca falharam junto da audiência. A sua vez de discursar chegaria ao fim da tarde, já os outros elementos do grupo de potenciais sucessores tinham discursado diante dos congressistas, e ficou bem colocada no ‘palmómetro’, conseguindo arrancar uma ovação convicta a um congresso que esteve, por regra, mergulhado num ambiente morno.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

O discurso ficou facilitado pelo papel que desempenhou quando era secretária-geral adjunta do PS, ou número dois do partido: puxou pelas bases e pelos autarcas quando apostou num resultado histórico nas próximas eleições autárquicas, dizendo acreditar que o PS — que tem superado os próprios recordes nos últimos ciclos eleitorais — pode ter no dia 26 de setembro “a maior vitória de sempre”. A promessa foi eficaz e os aplausos imediatos.

Se enquanto número dois Ana Catarina Mendes fez o papel de ‘mulher do aparelho’ — um ‘aparelho’ que, segundo as contas que se fazem no seio do PS, continua ainda assim tendencialmente mais fiel a Pedro Nuno Santos — desde 2019 que acumula a experiência de líder parlamentar. E se não poucas vezes é — ao contrário da tal linha esquerdista representada por Pedro Nuno — uma das vozes que tecem críticas mais duras ao Bloco de Esquerda, antigo parceiro parlamentar, desta vez voltou a atacar indiretamente o partido: “Houve quem tivesse medo de partilhar connosco o risco de gestão desta crise”. Depois, acrescentou um aviso — mas um aviso que serve ao próprio PS: “É importante que todos tenhamos consciência de que em 2019 os portugueses pediram que o PS governasse e liderasse mas mantivesse o apoio da esquerda parlamentar para manter a rota que temos feito”. O congresso pareceu gostar.

A outra mulher neste jogo de caras para o futuro é Mariana Vieira da Silva, que surgiu mais recentemente pelos corredores socialistas como uma das figuras que Costa está convencido ser a “melhor preparada” para assumir o seu cargo no Governo. Mas a ministra que no Governo tem feito, nestes seis anos, de braço direito de Costa também não tem aparelho ou mostra sequer vontade de fazer esse trabalho do roteiro partidário da carne assada. Ainda que, pela primeira vez, numa entrevista ao Observador, não tenha descartado a possibilidade. Uma surpresa para muitos socialistas que não a têm na mesma conta política que António Costa tem.

Pós-costismo dá passo atrás e Costa alinha uma quarta via

No final de todas as contas, para o pós-costismo sobrará, mais à esquerda, Pedro Nuno Santos. Mas a desafiá-lo terá, previsivelmente, um destes nomes e não vários. Mas isso tudo num futuro que Costa tem mostrado que não estará assim tão próximo — e cuja definição só está nas mãos do líder.

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