“O Isaltino vai ganhar, disso não há dúvidas”. O comentário vai-se repetindo entre moradores do município de Oeiras, ora em tom alegre, ora como lamento. Há quem vá deixando ressalvas — “não sei se este ano ganha com maioria” –, outros expressando desejos de uma “oposição” ao presidente que já cumpriu nove mandatos na Câmara Municipal. O próprio assume que não espera outro resultado que não uma vitória na noite de 12 de outubro.
“Não há aqui qualquer ressaibo de arrogância. Eu estou a fazer campanha e estou a fazer mais campanha do que todos os outros candidatos à câmara”. Uma ideia que Ana Sofia Antunes, candidata da coligação PS-PAN à liderança da autarquia procura desmistificar. “As pessoas partem do pressuposto de que aqui há sempre um vencedor previamente anunciado”, diz, assumindo que quer trazer uma alternativa aos velhos hábitos. “Não estou cá há 40 anos a fazer sempre a mesma coisa com os mesmos vícios“.
A menos de duas semanas das eleições, os dois candidatos, cujas campanhas o Observador seguiu esta quarta-feira, vão definindo metas e deixando pistas sobre o que o dia 13 de outubro trará. Ana Sofia Antunes sublinha que o objetivo “seria sempre ganhar a Câmara”, mas admite que se não for essa a escolha dos oeirenses e conquistar apenas o lugar de vereadora “não teria a intenção” de ficar com pelouro.
Isaltino Morais, que não admite outro cenário que não o terceiro mandato consecutivo, revela que vai estrear uma nova regra para ceder pelouros. “Temos de começar a penalizar os mentirosos. E, portanto, no próximo mandato, só darei pelouros a quem, durante a campanha, não disse que não aceitava pelouro”. São dois de sete candidatos à Câmara Municipal de Oeiras, onde constam também os nomes de Pedro Frazão, do Chega; Bruno Mourão Martins, da IL; Sandra Lemos, candidata pela CDU; Miguel Parente, do PPM.NC; a independente Carla Castelo, apoiada pelo Livre, BE e Volt;
Ana Sofia Antunes quer ser alternativa ao “casamento mal amanhado” entre Isaltino e PSD
A mascote não oficial da coligação “Em Oeiras Todos Contam”, que junta PS e PAN, é das últimas a chegar esta manhã ao coreto da freguesia de Porto Salvo. Bea, uma chihuahua castanha que é transportada dentro de uma totebag ao ombro de um dos membros da comitiva, tem sido uma das presenças assíduas nas manhãs da campanha de Ana Sofia Antunes por Oeiras. Desde maio que a socialista, ex-secretária de Estado da Inclusão no Governo de António Costa, tem vindo a preparar terreno num município onde nunca viveu. Facto que é para os adversários uma arma de arremesso, mas que a candidata desvaloriza: “Não sinto que as pessoas tenham que ser de um sítio ou ter um carimbo na testa para fazer um bom trabalho lá”.
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA
Em Porto Salvo parece um pormenor de menor importância enquanto se faz acompanhar da candidata da coligação à presidência da Junta de Freguesia, que por lá nasceu, cresceu e constituiu família. É Carla Boavida que seguindo junto a Ana Sofia Antunes e Alexandra Tavares de Moura, cabeça de lista à Assembleia Municipal, vai tratando das apresentações pelos pontos de comércio locais. “Bom dia, trouxe a Ana Sofia, candidata a presidente da Câmara”, diz ao passar no primeiro café da rota, o Torrãozinho, onde se faz uma pausa para um rápido descafeinado.
O arranque é lento esta manhã. As ruas estão pouco movimentadas e as conversas vão sendo breves — cumprimentos, a entrega de folhetos com o programa ou algum brinde — e abafadas pelo som da coluna transportada às costas de um elemento da campanha. Mas as bandeiras do grupo vão atraindo alguma atenção e buzinadelas de apoio de um carro e de uma bicicleta que passam. “Faça alguma coisa por Porto Salvo”, pede um outro condutor que para desejar “muita sorte” à candidata.
Até ao mercado municipal são pouco mais de dez minutos a pé, mas o percurso faz-se a passo lento e por vezes com desvios à falta de passeios. “As pessoas não têm segurança para caminhar. Não existem passeios e isto tem um responsável: a câmara”, comentaria a candidata. “Se a Câmara, pelo menos, fizesse contratos inter-administrativos com as juntas, delegassem reais competências para as juntas poderem fazer e ter dinheiro para fazer, mas a Câmara não delega, centraliza tudo e depois não faz”, critica Ana Sofia Antunes, que a par da mobilidade destaca a habitação e o apoio de associações sociais como os principais objetivos.
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA
Na chegada ao mercado, Ana Sofia Antunes é recebida com um abraço apertado de Fernando, um morador a quem tinha sido prometida uma apresentação. “Vim para conhecer a simpática senhora”, diz-lhe. Ao Observador explicaria depois que “queria conhecer a Aninha” desde uma sessão de campanha semanas antes em que a líder da coligação não conseguiu comparecer. Desiludido com a condução da câmara, revela que é contra Isaltino Morais, que acusa de deixar cair Porto Salvo no esquecimento. “Não temos um parque de crianças, um local digno para convivermos no verão (…) Ele só faz onde há poder económico”, atira.
“A Câmara esqueceu-se destes territórios”, reforçou também a candidata à Câmara de Oeiras. “Claro que ninguém fica à frente do poder fazendo tudo mal. Agora, as pessoas também sabem comparar aquilo que foi a dinâmica numa década de 90 ou até em alguns de 2000 e aquela que tem sido a dinâmica nos últimos mandatos, que é muito inferior e que os níveis de execução do atual programa são muito mais baixos”, afirma.
Enquanto vai sublinhando que a coligação é a “única solução à esquerda”, vai acenando também ao que acredita ser um eleitorado de direita desconte com o casamento “mal amanhado” de Isaltino Morais e do PSD em Oeiras. “Há uma atual solução cobarde do PSD, que foi desaparecer apoiando o Inovar e abdicando inclusive de ter o seu símbolo no cartaz”, diz sobre os outdoors de campanha de fundo verde preenchidos apenas pelo nome Isaltino TM (trademark). “Diria que só pode ser por vergonha. Isto é um casamento mal amanhado e envergonhado. Também sabemos que há muitas pessoas de direita que não se reveem nessa solução”.
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Isaltino promete pelouros, mas só para quem não mentir
O ponto de encontro é o Pingo Doce de Queijas. Já passa das 12h, o horário marcado para a passagem da caravana do movimento independente Inovar Oeiras, e de Isaltino Morais nem sinal. Já se veem algumas bandeiras verdes, a banca com brindes está apetrechada de t-shirts e bonés com o nome do presidente da Câmara de Oeiras, e de uma coluna próxima começam a soar as primeiras notas de uma música sobre o candidato ao décimo mandato no município. O ambiente tranquilo é interrompido pouco depois pela chegada de uma procissão de carros e carrinhas de onde sai o autarca e algumas dezenas de jovens. “Alegria, alegria, chegou o Isaltino”, canta-se ao microfone.
Rodeado de uma pequena multidão de verde, Isaltino é recebido com entusiasmo por alguns poucos moradores que o esperavam. “Lá na terra do meu marido toda a gente gosta de si”, diz-lhe uma idosa de passagem. Outra pede-lhe uma fotografia. “É para pôr no Facebook para a família ver”, justifica. Não há tempo a perder e o grupo arranca rumo ao Mercado de Queijas, com Isaltino sozinho na liderança a avançar em passo rápido, parando ocasionalmente em cafés e lojas, onde vai respondendo às provocações que lhe lançam: “Ainda consegue dar conta do recado?”. “Meu e do seu”, garante o autarca.
Mais à frente um descapotável preto parado em segunda fila chama a atenção. “Não há nada como um descapotável. Muito gostava de andar num carros destes”, comenta o candidato. O convite da condutora, que momentos antes tinha saído do carro para o cumprimentar, é imediato: “Quer dar uma voltinha?”. Mas com o tempo contado, o giro fica marcado para depois das eleições de 12 de outubro.
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA
“A adesão à campanha está a ser fantástica”, descreve Isaltino Morais ao Observador quando para tomar o pequeno almoço no café Sonho Meu, onde é um cliente habitual. Não espera outro resultado que não a vitória. “Ganhar, não tenho dúvidas”, sublinha, enquanto come torradas de pão de Mafra, que aconselhou a outros elementos da comitiva. “Mas gostava de ganhar com mais reforço, com mais votos, com mais vereadores e mais deputados municipais”, diz.
Sobre os opositores tem pouco a dizer. “Não os conheço, não faço ideia. Traduzem de alguma forma aquilo que se verifica em muitos sítios: não são de cá, não conhecem o concelho. Admito que tenham muita dificuldade em fazer campanha”. Mas não suporta as “mentiras” que acusa alguns candidatos de propagar. “Dizem que o edifício da câmara vai custar 100 milhões de euros, que tem derrapagem, não derrapou um euro“, garante. Uma aparente alusão às recentes declarações da líder da Iniciativa Liberal sobre as obras do Fórum do Município de Oeiras, para onde será transferida a Câmara Municipal, que descreveu o edifício como o “castelo do Isaltinistão”. Aproveitando o temas das mentiras, anuncia a intenção de atribuir pelouros apenas aos que não os recusaram durante a campanha.
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA
O autarca, que espera ser eleito para o último mandato consecutivo, traz ensaiada a obra feita em áreas com a Habitação, apontando por exemplo às 700 casas atualmente em construção, e a Educação, com as cerca de 1.500 bolsas atribuídas a estudantes. “Oeiras é o município que faz mais habitação pública em Portugal. Na educação, temos mais bolsas do que o resto do país”, destaca, admitindo ainda assim que muita coisa ficou por fazer. “Os meus programas são sempre de dez, 15, 20 anos”, diz, afastando as acusações de que está mais preocupado com a visibilidade do que em agir em prol do município. “A galinha põe o ovo e canta. A pata não, é muda, põe os ovos e ninguém dá por ela. Portanto, se eu faço uma obra, não hei de dizer que fiz a obra? Diga se eu alguma vez menti“.
Dos apelos por mais Isaltino a mais “oposição”
A obra feita é precisamente o que muitos moradores vão elogiando a Isaltino Morais, mesmo os que não votam nesse município. “Não voto aqui, mas a minha mulher sim e o Isaltino é uma maravilha”, diz o funcionário de um café no Jardim dos Poetas. “Quando ele não esteve aqui era só lixo, mas quando voltou a coisa melhorou”, comenta. Uma opinião partilhada por José, alentejano de origem e confesso eleitor do PCP que nas autárquicas abre uma exceção para votar no líder do Inovar Oeiras. “O Isaltino é a única pessoa que fez alguma coisa pelo concelho, pode ser corrupto, mas tem obra feita“, diz, uma das primeiras de várias alusões que seriam feitas ao passado do candidato com a justiça. “O que é que os outros fizeram? Inauguraram obras dele“.
No Café Margobeth a visão sobre Oeiras não podia ser mais distinta. “Está a perder qualidade, gente a mais, trânsito a mais”, diz um morador, de 55 anos, que prefere não ser identificado. Acredita que se Isaltino vencer, será apenas pela abstenção. “Quem vota nele, é quem vota”, resume. Acrescenta que é “quase um título garantido”, mas este ano deixa a ressalva de que poderá ser sem uma maioria. Para Margarida, que, aos 21 anos, vota pela primeira vez em autárquicas, o nome Isaltino tanto traz à memória a “fama de fazer” como a “revolta” do pai que o acusava de “roubar”.
Pouco se ouve falar de outros candidatos. No Oeiras Parque, Luís assume que, não simpatizando com o atual presidente, vai votar “num outro qualquer”. Raul, de 45 anos, também assume um voto noutro sentido. “Vou votar no Chega”, diz, afirmando que acredita que o partido possa chegar ao segundo lugar. “É preciso oposição”, sublinha.
Há quem não consiga imaginar Oeiras sem Isaltino Morais como presidente da Câmara. “Vai ser, enquanto o homem for vivo”, defende José. Outros já vão antecipando o fim da sua vida política em Oeiras. “Basta vir alguém com perfil e interesse. E era bom que fosse honesto”.