Foi uma hora de debate crescentemente polarizado: na SIC, cinco candidatos à Câmara Municipal do Porto sentaram-se para um encontro que acabou muitas vezes num confronto a dois, entre Manuel Pizarro (PS) e Pedro Duarte (PSD, CDS e IL). Entre discussões sobre quem é que é mais despesista e evocações de José Sócrates, o debate aqueceu e serviu para mostrar os projetos diferentes dos candidatos para resolverem problemas na Habitação — Pizarro quer construir mais, Pedro Duarte aposta na reabilitação — ou na mobilidade.
Outro ponto tocado por todos foi o da segurança, com Pedro Duarte a dar tudo para esvaziar o Chega: prometeu ser “implacável”, disse que é a “prioridade das prioridades”, falou em idosos que não saem à rua e mulheres que temem ir de transportes até à baixa. Pizarro concordou com o “inferno” que é a pequena criminalidade e Miguel Corte-Real (candidato do Chega, ex-PSD) carregou forte no tema, enquanto Bloco de Esquerda e CDU tentavam frisar que as estatísticas não comprovam que o problema tenha essa profundidade. Corte-Real acabaria a colar PS e PSD um ao outro e à gestão de Rui Moreira, da qual serão “herdeiros”; resta saber se isso será um problema ou uma mais valia neste novo ciclo.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Pedro Duarte quis Porto sem mais gente, lembrou Sócrates e prometeu ser “implacável”
Pedro Duarte chegou ao debate com o guião, que vem deixando cada vez mais evidente em entrevistas e intervenções públicas, bem definido: atirar ao PS, distanciando-se da sua “visão de cidade” — particularmente no que diz respeito à Habitação e a projetos polémicos como o Metrobus — e tentar esvaziar o Chega, dando importância às questões da segurança (ponto no qual prometeu ser “implacável” se chegar ao posto de sucessor de Rui Moreira).
O ponto de partida que levaria a um debate crescentemente polarizado entre PS e PSD partiu da Habitação, quando Pedro Duarte declarou que o Porto não precisa nem de mais “confusão e betão” nem de “mais gente”; isto é, precisa não de construir mais casas e atrair mais população, mas antes reabilitar as cerca de 20 mil casas desabitadas e tratar bem a população que já tem. Sendo rapidamente atacado por Manuel Pizarro pela sua visão de Porto “pequeno”, defendeu uma visão “moderna”, com mais qualidade de vida, e atacou quem está “atado a uma visão do passado, em que progresso é mais betão”.
O pingue-pongue entre os dois candidatos iria prolongar-se ao longo do debate. Pedro Duarte asseguraria que o programa de Habitação de Pizarro traria o “velho PS despesista ou descontrolado”, com mais de mil milhões de euros de custos (“um devaneio a todos os títulos”), e acabaria mesmo por atirar contra Pizarro a forma “acerrimamente convicta” como chegou a integrar o governo de José Sócrates — o papão dessa “gestão das contas públicas”, deixando de lado as contas certas do costismo, ficava lançado.
As discordâncias multiplicaram-se, atingindo um clímax quando Pedro Duarte acusou a Metro do Porto de ter uma direção “partidária” e colada ao PS e lembrou que o diretor de comunicação da empresa dirige também a comunicação de Pizarro e estava até ali “em estúdio”. Com os dois candidatos “picados”, houve um tema que acabou por unir boa parte do painel: a questão da segurança, que para Duarte será mesmo a “prioridade das prioridades”, prometendo ser “absolutamente implacável” e convencer o seu ex-governo a fazer o que até agora não fez — colocar mais 100 agentes da PSP na cidade.
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Pizarro apostou no frente-a-frente com Duarte, acusando-o de ter tido pouca influência no Governo
Apesar de a ERC não ter permitido a realização do frente-a-frente e entre os dois principais candidatos, Manuel Pizarro entrou no debate a cinco deste domingo apostado em polarizar a discussão com Pedro Duarte. O socialista utilizou quase todas as suas intervenções para censurar o antigo ministro dos Assuntos Parlamentares a partir do momento em que este disse: “Não precisamos de mais gente [a viver no Porto]”. Pizarro acusou Pedro Duarte de estar “resignado” com o problema da Habitação e de defender que os portuenses que “foram obrigados a sair da cidade não têm o direito de voltar”.
A habitação seria o grande tópico da noite, com a principal medida de Pizarro a acumular críticas da direita à esquerda. A proposta passa por disponibilizar terrenos públicos à exploração de investidores privados por um período de 30 anos. O preço desses apartamentos está tabelado, variando por tipologia, para que se pratiquem “rendas moderadas”. A origem do financiamento público necessário para um empreendimento dessa envergadura ainda não está definido. Pizarro defendeu que o Porto “pode e deve pedir ao Governo uma participação”, mas já tem uma solução alternativa caso o Executivo de Luís Montenegro caia no “grave erro” de não apoiar a iniciativa: a utilização do 50% do rendimento da taxa turística municipal e 20% da receita do IMT cobririam o projeto.
A questão da capacidade de influência junto do Governo central seria novamente trazida à conversa pelo candidato socialista. Quando se discutia o projeto do MetroBus, Pizarro lembrou que a tutela da empresa responsável por este transporte passou para o Governo central no ano passado, quando Pedro Duarte fazia parte do Executivo – isto porque o social-democrata apresentou uma posição muito crítica do projeto. “Se o Pedro Duarte não consegue ser sequer respeitado pelo seu antigo colega ministro das Infraestruturas, esse é um problema que eu não posso resolver”, atirou Pizarro. O socialista lamenta a forma como o projeto foi implementado e admite adaptações, porém diz: “Construída a primeira fase acho que não há outra coisa razoável que não pô-lo a funcionar”.
Questionado sobre se assumirá o cargo de vereador se perder a eleição, Manuel Pizarro diz que a sua experiência passada na Câmara do Porto é “uma enorme vantagem”. O socialista lembrou que, quando perdeu a corrida eleitoral contra Rui Moreira, integrou a equipa deste naquele que considera ter sido o melhor mandato do atual presidente municipal. “Tenho provas dadas do ponto de vista da consolidação das contas públicas”, garantiu, acusando Pedro Duarte de estar “desesperado” por ter recordado que Pizarro integrou um Governo de José Sócrates.
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Corte-Real colou PS e PSD um ao outro e à “habilitação de herdeiros” de Rui Moreira
Pelo Chega, o antigo PSD Miguel Corte-Real tocou nos pontos mais importantes para o partido: por um lado, atacar a questão da segurança e garantir que as estatísticas que apontam para uma criminalidade baixa estão erradas; por outro, colar PS e PSD, não só um ao outro mas também à gestão (ainda que popular, tendo sido reeleito sempre com mais de 40% dos votos) de Rui Moreira.
Logo de início, o candidato do Chega entrou no debate falando do grave problema da Habitação na cidade, propondo que se utilize 20% das receitas da taxa turística no programa de apoio à renda Porto Solitário e defendendo a proposta do partido para expulsar os traficantes de droga de casa. Na segurança, falou em estatísticas que dão uma “falsa perceção” de segurança porque existem poucas esquadras e pediu, como Duarte, mais polícias (Duarte ia acenando com a cabeça, embora Corte-Real lhe dissesse que enquanto ex-ministro de Luís Montenegro já deveria ter conseguido mais). A taxa turística também serviria, em parte, para melhorar as condições de vida dos PSP que devem ser colocados nas ruas (em vez de fazerem tantas tarefas administrativas).
Criticando diversos projetos em andamento — de obras mal pensadas e calendarizadas que provocam trânsito na cidade à inércia de PS e PSD na resolução nacional do problema da VCI, passando pela “trapalhada total” da Metrobus, pela qual também culpou as gestões de PS e PSD — chegou à sua conclusão: tanto Duarte como Pizarro, que têm listas “povoadas” por antigos candidatos de Rui Moreira, fizeram a “habilitação de herdeiros” desta gestão para serem candidatos de continuidade. Resta saber se isso é um fator que tira ou soma votos no dia 12 de outubro. O candidato acabaria por mencionar também José Sócrates, mas para classificar a proposta de Pedro Duarte para transportes gratuitos como “socialista” e “despesista”.
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CDU quer mais 6 mil casas públicas para combater problema “dramático” na Habitação
A candidata da CDU também apostou na Habitação como principal bandeira. Diana Ferreira alertou que o problema atingiu uma “dimensão dramática” no Porto e que as situações de despejo na cidade têm acontecido muito regularmente no município. A candidata assinalou que os habitantes locais estão “a ser expulsos” do concelho devido “a uma especulação imobiliária completamente desenfreada”. A principal proposta a este nível da CDU é que sejam disponibilizados mais 6 mil fogos habitacionais públicos, num mandato: 3 mil através de um programa de rendas acessíveis e 3 mil casas de habitação social.
Se os candidatos dos partidos de direita quiseram tornar a segurança num dos principais temas a debater, Diana Ferreira serviu-se dos números para fazer um diagnóstico diferente do deste sobre o sentimento insegurança na cidade. A antiga deputada comunista disse que os números de criminalidade no Porto não têm comprovado esse aumento na insegurança e propôs uma melhor iluminação, ruas mais limpas e uma melhorias na ocupação do espaço urbano para combater essa perceção.
Diana Ferreira foi a candidata que dedicou mais tempo de intervenção a propostas para a cultura, tendo assinalado como prioridade o aumento do período de usufruto de espaços culturais da cidade, com a Fundação de Serralves e a Casa da Música à cabeça. Ao nível da mobilidade, alertou que não há “informação concreta” sobre a circulação de veículos TVDE no Porto e reclamou que a competência da regulamentação desta atividade para os municípios. A candidata da CDU foi, entre os presentes, quem se mostrou mais favorável ao projeto do MetroBus, abrindo a possibilidade de serem estudadas “novas soluções” para enfrentar as insuficiências deste transporte.
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Bloco quase sozinho na luta contra a “inflação” do problema da insegurança
Também Sérgio Aires, do Bloco de Esquerda, colou por várias vezes PS a PSD — e, num debate em que assumiu que será “difícil” para os bloquistas voltarem a eleger vereação numa corrida tão concorrida, fez por se destacar nas críticas aos maiores candidatos. Na Habitação, defendeu 15% de construção pública, atirando a Pedro Duarte pela visão “gentrificada e elitista” que o acusou de ter da cidade.
Noutros temas, idem aspas: o PSD, criticou, só agora acordou e percebeu que a Metrobus é “um escândalo”, e agora que o projeto já avançou é que pensa em recuar — “a cidade não suporta esse cinismo“; na VCI, culpou PS e PSD por nunca terem querido resolver o problema e criticou Rui Rio por ter retirado dez quilómetros de faixas Bus (e Rui Moreira por nunca as ter reposto).
Mais uma discordância central no tema da segurança: o problema está a ser “inflacionado” apesar de os números não o refletirem, alertou. “Pelos vistos os dados não servem para nada para Pedro Duarte e Corte-Real. O conhecimento é uma chatice quando não nos dá razão”, ironizou, voltando a criticar PS e PSD por, a nível central, não terem aumentado o número de polícias no Porto.
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