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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

O desespero de um afro-americano e cacique democrata quando ouve um vizinho dizer: "Eu gosto é de Donald Trump" /premium

Anton Moore montou um esquema para meter os vizinhos do seu bairro negro a votar Biden: música, pizza e um autocarro até às urnas. Muitos aceitam, mas outros dão respostas que o chocam — e desesperam.

Reportagem em Filadélfia, Pensilvânia

Anton Moore nem quer acreditar no que está a ouvir. “Baixa já a música, baixa já essa merda”, grita para o DJ que contratou para esta ação de campanha da 48.ª divisão do Partido Democrata em Filadélfia, da qual é líder, e onde a população é predominantemente afro-americana.

A operação divide-se em três mesas, com este seguimento: a mesa do DJ, para chamar a atenção do bairro; a mesa com várias caixas de pizza, que a filha de Anton Moore distribui para garantir que quem por ali passa fica; e depois a mesa de Anton Moore, que distribui e ajuda a preencher os papéis necessários para quem quiser votar por correspondência ou antecipadamente. Neste último caso, Anton Moore tem uma maneira de levá-los imediatamente às urnas: no fundo da rua está um autocarro alugado com o objetivo de transportar pessoas às urnas. Pelas suas contas, nestas eleições conseguiu registar três vezes mais pessoas do que em 2016 para votar. Mas, depois, há percalços como este que o fez pedir para baixar a música.

É quando já vai na segunda fase — a da distribuição de uma fatia de pizza — que este cacique ouve da boca de um vizinho aquilo que não esperava.

“Dá cá uma fatia de pizza, mas nem penses que vou votar no Biden”, diz Ace, de 30 anos. “Eu gosto é do Donald Trump.”

Anton Moore contratou um DJ para chamar a atenção do bairro.

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Agora que as colunas já não estão a passar rap da costa Este (o da costa Oeste é coisa que, por estas geografias, não se parece admitir) a um volume impróprio para quem quiser dormir uma sesta nesta tarde de terça-feira é que Anton Moore não tem sombra para dúvidas. É aí que torce a cabeça para o lado, esfrega as mãos e, com o riso de quem está confiante para entrar em ação, diz a Ace: “Meu, quero muito ter esta discussão, pega nessa fatia e vamos debater”.

“Fixe”, responde-lhe Ace, na sua voz aguda. “Mostra-me o que tens, mas a mim não me mudas as ideias.” Ao lado, tem o amigo KB, que se junta a este lado da barricada. Este, com a voz grave e rouca, também deixa claro: “Ficas já a saber que eu prefiro o Trump.”

Diário de Bordo: há quem angarie votos com pizzas (mas nem sempre resulta)

“‘Tornar a América Grande Outra Vez’ não é para vocês”

Anton Moore começa a disparar. “Vocês são loucos, aquele homem não quer saber de vocês para absolutamente nada, querem saber porquê?!”, inicia. E nem espera pela resposta para continuar.

“Vocês por acaso ganham mais de 400 mil dólares ao mês? Não, pois não? Então podem estar descansados que ele a vocês não vos corta os impostos”, começa. “Vocês sabem que ele acusou cinco homens negros inocentes de violarem e matarem uma mulher no Central Park de Nova Iorque e que, como cidadão privado, até comprou uma página de jornal para dizer que eles mereciam a pena de morte?”, continuou.

Anton Moore ia lançado para mais, mas Ace antecipou-se e começou a falar por cima.

“O gajo deu dinheiro a toda a gente, foi ele que assinou os cheques [do pacote] de estímulo”, atirou Ace.

Sentado na sua cadeira preta de ferro, Anton Moore nem quer acreditar. “E quem é que tu achas que aprovou isso no Congresso e obrigou o Trump a aceitar?”, pergunta. “Foi a Nancy Fucking Pelosi!”, gritou, acrescentando um palavrão com finalidade enfática no meio do nome da líder do Partido Democrata na Câmara dos Representantes.

Anton Moore ficou desesperado quando ouviu um vizinho dizer: "Eu gosto é de Donald Trump".

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Por esta altura, já mais gente no bairro se junta. Nas costas de Anton Moore, alguém abre a janela que dá para a rua e grita àqueles dois defensores do Presidente: “Vocês são uns pretos mesmo burros, não percebem que ele não quer saber de vocês para nada?!”. Anton Moore apanha embalo aqui e continua: “‘Tornar a América Grande Outra Vez’ não é para vocês, nós não fomos convidados. Como é que vocês não percebem isso?! Se ele quisesse saber de vocês já tinha assinado o pacote de estímulo que tem na mesa dele, com 2,8 bilhões de dólares”.

Ace não se deixa convencer. “Meu, eu não confio no que tu me estás a dizer, tenho de ver isso escrito nalgum sítio”, diz

Com Anton Moore de um lado e Ace e KB do outro, a discussão foi bem para lá dos 30 minutos. No final de contas, Anton Moore admite a derrota na sua tentativa de convencer aqueles seus dois vizinhos. Quando atira a toalha ao chão, pega em mais uma fatia de pizza e diz para o ar: “Isto é a prova de que o Partido Democrata não fez o suficiente pelos homens afro-americanos”.

O bairro de Anton é habitado maioritariamente pela comunidade afro-americana.

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Desta vez Najwa vai votar — apesar de Biden e por causa de Trump

Não é por acaso que Anton Moore se dá a este trabalho. O eleitorado afro-americano é um dos bastiões do Partido Democrata – mas, em 2016, não o foi ao ponto de serem capazes de evitar uma vitória de Donald Trump.

Em 2008 e 2012, Barack Obama, o primeiro Presidente afro-americano dos EUA, conseguiu 95% e 93%. Em 2016, ano em que o eleitorado branco e rural (tendencialmente republicano) foi mais às urnas do que aquilo que se esperava, os eleitorados das minorias votaram menos. No caso dos afro-americanos, o apoio a Hillary Clinton caiu para 89%. É uma pequena diferença em relação a Barack Obama mas, aliado a uma participação mais reduzida deste eleitorado, fez diferença nas contas finais de alguns estados-chave — incluindo a Pensilvânia, estado decisivo nas eleições presidenciais e cuja maior cidade, Filadélfia, é 42,3% negra.

Há quatro anos, Najwa Spuriel, 29 anos, foi uma das que não votou. “Sempre detestei a Hillary Clinton, portanto, mesmo que detestasse ainda mais o Donald Trump, a verdade é que não conseguia votar nela”, diz. Não chega a admitir que se arrepende, mas sente necessidade de explicar-se. “Há quatro anos era nova e mal tinha filhos, à altura só tinha a minha primeira e agora já tenho três”, diz. “As circunstâncias mudaram.”

Najwa Spuriel, de 29 anos, explica que não vê em Joe Biden um candidato perfeito.

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Por isso, veio até à banca montada por Anton Moore buscar a documentação necessária para votar antecipadamente — e nunca por correio, que para ela não é opção. “Sabendo eles de onde vem o meu voto, o mais certo é mandarem-no para o lixo”, diz. “Um voto de Filadélfia? De um bairro negro? Já passei a fase da ingenuidade, sei bem que vai diretamente para o lixo.”

Por trás de uma máscara preta onde se lê a letras brancas “Black Voters Matter” (“Os Votos Negros São Importantes”, em português), Najwa Spuriel explica que não vê em Joe Biden um candidato perfeito. “Até vi um anúncio do Trump a dizer que o Biden usou expressões racistas”, diz, referindo-se a um conjunto de vídeos pago por um grupo de apoio político pró-Trump. Remontam todos a uma intervenção de Joe Biden no Senado em 1985, onde aparece a utilizar expressões racistas — mas, na verdade, o então senador do Maryland estava a citar uma troca de correspondência entre legisladores do estado da Louisiana.

O facto de o anúncio ter chegado a Najwa Spuriel é prova de que aquele grupo pode dar por bem gasto o dinheiro utilizado para atingir o público-alvo que procuravam especificamente — afro-americanos, com o objetivo de pelo menos dissuadi-los de votarem em Joe Biden. Porém, uma coisa é chegar ao público-alvo e outra é convencê-lo. E Najwa Spuriel, que acreditou no conteúdo do vídeo, ainda assim sabe que vai votar em Joe Biden.

Neste bairro de Filadélfia não se vêm cartazes de Donald Trump, apenas de cartazes de apelo ao voto em Joe Biden.

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“Ele é a única hipótese que temos contra Trump, portanto por mim escolherei Biden sempre que as opções foram estes dois”, diz. Quando lhe perguntamos o que a afasta tanto de Donald Trump, Najwa Spuriel ri-se e diz que não tem tempo para falar de tudo. “Passava aqui o dia inteiro”, diz. Ainda assim, atalha duas. “Ele meteu-nos numa pandemia na qual não tínhamos nada que estar”, começa por dizer, de fugida. Porque o tema que lhe está mais fresco é o outro: o da violência policial.

Morte de negro em ação policial leva a manifestações e pilhagens

No dia anterior, um homem de 27 anos chamado Walter Wallace foi mortalmente baleado por dois polícias, enquanto avançava sobre estes armado com uma faca. O incidente aconteceu depois de a polícia ter sido chamada ao local. Tanto o vídeo da ocorrência como os relatos daqueles que estiveram presentes indicam que várias pessoas, incluindo os dois agentes, pediram várias vezes a Walter Wallace que largasse a faca. Uma dessas pessoas era a sua mãe, que mais tarde viria a dizer que o filho tinha problemas psiquiátricos e que naquele preciso momento estava a ter uma crise.

Seguiram-se dois dias de protestos e pilhagens. Na primeira noite, foram detidas mais de 90 pessoas e 30 polícias ficaram feridos, incluindo uma agente que partiu uma perna. Na segunda noite, em que o Observador esteve presente, também houve violência.

No Malcolm X Park, na zona ocidental, houve protestos de cariz político, onde se ouviram várias palavras de ordem contra a violência policial e o racismo — mas também ali os protestos tiveram um cariz violento contra as autoridades, com alguns manifestantes a arremessarem objetos contra a polícia destacada para o local. Na avenida Aramingo, que percorre a zona este de Filadélfia, os carros de polícia foram poucos para travar as cerca de mil pessoas que pilharam lojas de grande dimensão, entre supermercados, lojas de roupa e até de mobília. Entre os assaltantes, muitos deles menores de idade, havia até quem viesse de outros estados. As pilhagens e a ausência de quaisquer palavras de ordem denunciava que, naquela parte da cidade, as razões para sair à rua eram bem diferentes das que levaram os manifestantes a concentrarem-se no outro lado da cidade.

Mais tarde, Donald Trump referiu-se à morte de Walter Wallace como “um acontecimento terrível” e atirou para cima do presidente da câmara de Filadélfia, Jim Kenney, a culpa pelas manifestações e pilhagens. “É tão terrível como o autarca, ou seja lá quem for, que está a permitir que as pessoas façam motins e pilhagens”, disse. “Mais uma vez, é um estado e uma cidade governados por democratas. Nós não temos isto, os republicanos não têm isto.”

Quando encontramos Anjwa Spuriel, faltavam poucas horas para a segunda noite de motins em Filadélfia. “Não fui às manifestações porque não concordo com a maneira como isso é feito aqui”, diz. “Mas isso não apaga o facto de este Presidente ter culpas, porque ele espicaça isto. Ele defende a polícia acima de tudo, quando não havia absolutamente razão nenhuma para eles matarem aquele homem. Absolutamente nenhuma, é ridículo.”

Quando acaba de falar, Anjwa Spuriel pede-nos licença. “Tenho de ir entregar isto ao Anton”, diz, referindo-se aos papéis para votar antecipadamente. “Dantes já tinha vontade de votar, mas agora explodiu.”

No Malcolm X Park houve manifestações de cariz político (foto 1 e 4) mas do outro lado da cidade, na avenida Aramingo, várias foram as lojas de grande dimensão assaltadas e completamente destruídas.

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“Foi Donald Trump que me tirou da prisão”

Depois da discussão com Anton Moore, Ace sai de cena mas KB deixa-se ficar. Por ser muçulmano, não quer votar. “As leis desta república não seguem as leis da sharia nem nunca vão seguir, os princípios não são os mesmos, portanto não posso votar num sistema com o qual não concordo”, explica o homem de 27 anos. Mas, se votasse, seria em Donald Trump.

Por mais razões que refira, KB explica que há uma mais importante do que todas as restantes: “Foi Donald Trump que me tirou da prisão”.

Aos 21 anos, KB foi condenado a 10 anos de prisão por ter sido apanhado com grandes quantidades de heroína no momento em que as traficava. A sua pena acabou por ser reduzida, tal como aconteceu a mais de 4 mil presos condenados por crimes relacionados com droga.

Aos 21 anos, KB foi condenado a 10 anos de prisão por ter sido apanhado com grandes quantidades de heroína no momento em que as traficava.

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Entre os 154.859 reclusos que há atualmente em prisões federais, uma maioria de 67.478 está atrás de grades por crimes relacionados com droga. Este problema afeta desproporcionalmente a população afro-americana, que, apesar de representar 13,4% da população nacional, compõe 38,4% dos reclusos em prisões federais.

Desde março que KB foi colocado em liberdade condicional até 2025. Quando lhe perguntamos como ganha agora a vida, KB ri-se e olha em volta. “Vendo uns carros por aí…”, diz entre risos. À volta, ouvem-se algumas gargalhadas, como se naquelas palavras se encontrassem mais razões para riso do que para crença. Anton Moore junta-se, mas logo engole o sorriso e volta à carga — porque, pelos vistos, não lhe passou a vontade de discutir.

“Estás a dizer que a reforma do sistema de justiça te tirou da prisão, é isso?”, pergunta. KB responde de forma afirmativa. “Preto, tu tens noção de quem é que começou isso?!”

KB puxa do vozeirão: “Foi o Donald Trump!”.

Anton Moore já esperava esta resposta, portanto deu a sua de imediato: “Não, preto, foi o Barack Obama! Tu não entendes quem é que está do teu lado, o Donald Trump não faz nada por ti. Ele já reformou o sistema de justiça para safar os amigos dele que estavam a ser cercados pelo FBI. Não há mais nenhuma razão para ele fazer isso”.

Vários jovens consomem estupefacientes em plena rua, à luz do dia.

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KB anui. Mas não abre mão do seu candidato, mesmo que não vote nele por motivos religiosos. “Repara, eu sei muito bem que ele não faz isto por nós. Porque é que ele haveria de se preocupar connosco?”, diz, varrendo a área em volta com o braço. “Eu sei que ele não quer saber de nós para nada, mas ao menos deu-nos os cheques de estímulo. Aquele dinheiro foi importante para muita gente. Uns puseram-no nos seus negócios, outros compraram o primeiro carro, outros compraram a primeira mala Louis Vuitton! Aquele dinheiro foi importante!”, diz.

Mais uma vez, Anton Moore não quer acreditar no que está a ouvir. “Tu achas mesmo que ele fez isso por ti?”, pergunta. “Achas mesmo que ele um dia acordou e pensou: ‘Hmmm, deixa cá ver como é que eu posso ajudar o KB hoje’?”

Agora é a vez de KB rir a alto e bom. “Não, meu, alguma vez?!”, lança.

“Sabes o que é que tem tanta piada como imaginar o Donald Trump sentado na Sala Oval a dizer ‘vamos lá ver o que podemos fazer pelo afro-americanos’?”, pergunta, fazendo uma voz pomposa na altura de encenar aquela pergunta. “É imaginar-me a mim, aqui o teu mano KB, sentado na Sala Oval a dizer ‘vamos lá ver o que podemos fazer pela comunidade branca de classe média-alta’.”

São imagens igualmente descabidas para todos os que, sentados à frente da casa de Anton Moore, se riem com ela. “Estás ver? É ridículo o que estás a dizer. Democratas ou republicanos, seja lá quem for, eles não fazem nada por nós. Nada”, insiste. E imagina-se outra vez, de forma pomposa, a dizer: “O que é que eu hoje posso fazer pela comunidade branca de classe média-alta?”.

“Não faço nada!”, sublinha. “Eles nunca fizeram nada por mim, porque é que haveria eu de fazer por eles?” Anton Moore ouve e já não contesta. E, como quem finalmente já acredita no que ouve, responde: “Eu sei, eu sei”.

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