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A sorte do português foi não ter parado no controle da fronteira, algo que há cinco anos ainda não era obrigatório. Poderia ter acabado detido, como já aconteceu com colegas seus

PA Images via Getty Images

A sorte do português foi não ter parado no controle da fronteira, algo que há cinco anos ainda não era obrigatório. Poderia ter acabado detido, como já aconteceu com colegas seus

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O dia em que um português abriu a porta do camião e encontrou 10 migrantes escondidos /premium

Dentro do camião frigorífico, a temperatura não passava dos 3 graus. Nove adultos e uma criança viajaram ali durante cerca de 14 horas. Arménio só percebeu quando chegou ao destino, em Inglaterra.

“Ao filho da Alzira não voltam a apanhar em Inglaterra”, diz Arménio, referindo-se a si próprio. Há cinco anos apanhou o susto da sua vida quando transportou, sem saber, dez imigrantes ilegais dentro do seu camião frigorífico. No meio das peras, cultivadas no Oeste de Portugal, o motorista de pesados levava também seis homens, três mulheres e uma criança. Pelo menos durante 14 horas, as dez pessoas viajaram a uma temperatura regulada de 3 graus centígrados, no meio de fruta carregada de produto químico, espalhado para garantir a sua conservação.

O português recorda a história depois de, esta quarta-feira, um camião ter sido encontrado em Essex, no Reino Unido, com 39 pessoas mortas no interior. Embora ainda não haja certezas, supõe-se que possam tratar-se de imigrantes. O camião veio da Bélgica, mas está registado na Bulgária. O condutor, de 25 anos, já foi detido. Não se sabe ainda se estava envolvido numa rede de tráfico humano ou de imigração ilegal, ou se aquelas pessoas entraram no camião sem que ele soubesse.

Foi isso que aconteceu a Arménio em 2014. “Quando abrimos a porta, um deles, um jovem que tinha 20 e poucos anos — se calhar nem isso tinha — caiu redondo no chão. Estava mesmo mal, não sei se do frio, se de ir a respirar o produto com que se protege a fruta. Teve logo de ser assistido por uma equipa médica e foi internado”, conta Arménio, nome fictício do português que já leva quatro décadas de experiência ao volante e “mais de 30 anos a trabalhar com frigoríficos”.

Os imigrantes, recorda, eram gente nova, nenhum deles teria mais de 40 ou 50 anos, a maioria estaria na faixa etária dos 20, e ficou com a ideia de que seriam do Paquistão. Ao contrário de um dos imigrantes clandestinos, que falava fluentemente a língua, Arménio não fala inglês e precisou da ajuda de um intérprete para ir percebendo os contornos de tudo o que ali se passava, depois da chegada das autoridades. Nunca chegou a ser detido, mas esteve sob o olhar atento da polícia durante quase 48 horas.

"Quando abrimos a porta, um deles, um jovem que tinha 20 e poucos anos, se calhar nem isso tinha, caiu redondo no chão. Estava mesmo mal, não sei se do frio, se de ir a respirar o produto com que se protege a fruta. Teve logo de ser assistido por uma equipa médica e foi internado"
Arménio, motorista de pesados

A aventura que, para si, terminou bem, guarda-a de tal forma na memória que garante que não voltará a fazer transporte de mercadorias para o Reino Unido. “Se um deles me acusa, se diz que me pagou dinheiro para o transportar, como é que me defendo? Estas situações são muito complicadas… A Inglaterra só volto se for para fazer turismo.”

“Ouvi som de murros no frigorífico. Foi quando percebi que levava gente lá dentro”

Arménio não sabe exatamente como as dez pessoas entraram dentro do seu camião, mas tem as suas suspeitas. A viagem começou em Portugal. Carregou o frigorífico com pera do Oeste e tinha como destino uma quinta britânica. Como habitualmente, a sua rota levou-o a atravessar Calais, a cidade francesa mais próxima do Reino Unido, já que se encontra no Estreito de Dover, o ponto do Canal da Mancha onde a Grã-Bretanha está a apenas 34 quilómetros do continente europeu.

Naquela altura, ainda não existia a Selva de Calais, como ficou conhecido o acampamento de migrantes que ali se estabeleceu entre 2015 e 2016, no auge da crise migratória europeia. Mas a cidade já era ponto de paragem dos migrantes que tentavam atravessar o Canal da Mancha para se estabelecer no Reino Unido e, em 2014, estimava-se que 1.300 ilegais por ali procuravam refúgio. Na sua maioria chegavam da Eritreia, Somália e Síria.

“Quando chegou a altura de descansar, parei a uns 100 quilómetros de Calais. Estava muito mau tempo, chovia muito, com vento forte e o camião abanava por todos os lados. Nunca me passou pela cabeça que pudesse ser gente a tentar entrar para dentro do frigorífico”, recorda Arménio. De manhã, quando acordou, fez a vistoria habitual: deu a volta ao camião e tudo estava conforme as regras, a porta mantinha o selo intacto e o cadeado fechado. Não viu quaisquer sinais de arrombamento.

“Segui viagem. Nem sequer fui ao controlo da fronteira — naquela altura não era obrigatório como é agora. Passei para o outro lado, andei uns 80 quilómetros já em Inglaterra e, quando me estava a encostar à faixa da esquerda porque ia sair no semáforo seguinte, pelo lado direito há uma carrinha que me ultrapassa e faz-me sinal, a dar murros. Fiquei a pensar naquilo. O que fiz eu para me oferecerem murros? Mais à frente parei e ouvi muito barulho no frigorífico, som de murros. Foi quando percebi que levava gente lá dentro. O que é que faço? Tinha o selo, tinha o cadeado, decidi seguir para o cliente, até porque estava quase a chegar”, relata o motorista português.

“Quando cheguei, avisei logo o cliente que algo não estava bem e pedi-lhe para chamar a polícia. Abrimos as portas e estavam lá dentro nove adultos e uma criança que devia ter 3 anos. Ao abrir as portas, um deles estava já muito mal, foi logo assistido por uma equipa médica”, diz Arménio, que lembra que todos traziam casacos e mantas para se protegerem do frio. “Quem os pôs ali sabia que ia haver frio, deve ter-lhes dado aquelas mantas. O que eles fizeram foi empilhar as caixas de fruta, como se fosse uma vedação, para ficarem mais abrigados. Naquela noite estranhei… Trabalho com frio há mais de 30 anos e o frigorífico estava a trabalhar de forma diferente, nunca se calava. Pensei que poderia ser por estar a chover. Mas o que aconteceu é que eles vedaram o acesso ao ar, o espaço por onde o frio circula.”

14 horas dentro de um camião frigorífico

Para conseguir entrar no camião, há vários métodos possíveis. No seu caso, Arménio acredita que lhe mexeram nos parafusos da porta traseira. “Para não abrir o cadeado ou o selo das portas, mexem nos parafusos, que hoje já têm de ser soldados, desapertam-nos e abrem a porta de lado. Outros, cortam o teto. Isso agora é o mais habitual. Vão para cima do camião, fazem um buraco na fibra do frigorífico e entram lá para dentro. E também há quem consiga abrir o cadeado”, explica.

Como a noite em Calais era ventosa, Arménio não deu por nada. “Não sei a que horas entraram, mas estive parado nove horas para fazer o descanso. Imagino que terão entrado a meio da noite, ou seja, estiveram ali fechados cerca de 14 horas.”

O seu caso levou a transportadora para que trabalha a fazer mudanças nas regras: instalou sensores que avisam em caso de abertura das portas e deu ordem para que ninguém dormisse em Calais. “Agora dormimos a pelo menos 200 quilómetros da cidade. É em Calais que as coisas acontecem, mas já não é só. Agora, se for preciso, já há pessoas a cerca de 200 quilómetros a tentar entrar nos carros”, conta Arménio. Também por isso, os problemas não desapareceram. Só este ano, já três colegas seus transportaram imigrantes ilegais sem saberem.

Depois de inspecionados, os veículos levam um selo que é a garantia de que não foram encontrados imigrantes ilegais

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“Neste último episódio, nem os sensores funcionaram e só deram conta no controle. De uma outra vez, os sensores deram o alerta e quando o meu colega chegou à fronteira avisou logo a polícia. O outro caso foi mais caricato. O motorista foi ao controle, passou pelos franceses e pelos ingleses e ninguém viu nada. No final, quando estava a descarregar, foi o cliente que deu conta de que estava um indivíduo sozinho escondido no meio da salada. Nem os cães o detetaram. Até a polícia ficou admirada. O motorista não teve problemas porque tinha os selos que provavam que tinha passado na inspeção das autoridades”, conta Arménio.

Apesar de tudo, o motorista de pesados diz que “as coisas têm estado mais sossegadas”, o que não implica que as transportadoras não pensem em várias soluções para tentar evitar problemas. Um deles é ter dois condutores no camião para não ser preciso parar o veículo. No final do dia, se forem apanhados a transportar migrantes ilegais, o preço é alto. “Por cada pessoa ilegal apanhada nos camiões são 600 libras de multas para a transportadora e a carga volta para trás porque fica contaminada. As pessoas fazem as suas necessidades lá dentro. Acaba por ir tudo para o lixo, e até isso custa dinheiro às transportadoras.”

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