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Actor and Film Director Sylvester Stallone, ca. 1979
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Desde os anos 70 que todos o vemos no ringue – e vê-lo levantar-se sempre devolve uma esperança qualquer na eternidade ou na ressurreição

Corbis via Getty Images

Desde os anos 70 que todos o vemos no ringue – e vê-lo levantar-se sempre devolve uma esperança qualquer na eternidade ou na ressurreição

Corbis via Getty Images

O garanhão italiano, o campeão, o amigo Sly: os 75 anos de Stallone em 10 rounds essenciais

Nasceu com uma paralisia facial, dormiu na rua, tinha pouco mais de 100 dólares quando lhe compraram o guião de “Rocky”. Pode não ser grande ator, mas é o maior lutador que Hollywood já viu.

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É um ponto estranho da evolução este a que chegámos, quando temos de confiar mais na nossa memória do que naquilo que os olhos veem: Sylvester Stallone é agora oficialmente um senhor de idade. 75 anos desmentidos pelo que é e pelo que ainda tenta parecer, pelas cenas em que ainda se mete e pelas outras, pela metralhadora, os aviões, os helicópteros, as cenas de pancadaria, pela musculatura e pelo botox que lhe tirou a pouca expressividade que lhe havia deixado a paralisia facial parcial provocada pelos fórceps no parto. Mas confirmados por todas as nossas recordações das prateleiras dos clubes de vídeo, dos posters espalhados por todas as salas de cinema de uma época, pelas coleções de calendários do Rocky e do Rambo e do Cobra, pela inscrição num momento muito concreto da História, corporização de um certo ideal americano, entre o veterano desencontrado do Vietname e o improvável herói da cintura industrial que ascende a porta-estandarte da nação na Guerra Fria.

Sly talvez tenha falhado o assalto ao cinema “sério”, ao contrário do arquirrival Arnie Schwarzenegger (apenas na cabeça do público. Na realidade, são amigos, foram sócios na cadeia de restaurantes Planet Hollywood e Sly até apoiou publicamente Arnie na corrida à Califórnia), mas, enquanto um se transformou no senhor governador, o outro tornou-se respeitável por não mudar. Os ventos vão e vêm, a maré sobe e desce, mas o velho Stallone permanece como uma constância capaz de oferecer algum conforto às nossas vidas passageiras, sopradas de toda a parte por modas cada vez mais efémeras. Desde os anos 70 que todos o vemos no ringue – e vê-lo levantar-se sempre devolve uma esperança qualquer na eternidade ou na ressurreição.

Sylvester Enzio Stallone é um caso raro de ator em que a verdade começa no próprio nome, que todos imaginariam artístico e vem do batismo. Nova-iorquino filho de uma astróloga e de um cabeleireiro, subiu realmente a pulso na vida. É impossível dizer que é um bom ator, mas, para mau, foi incrivelmente bem-sucedido. Nado e criado no gueto de Hell’s Kitchen e com uma infância e uma adolescência passada de escola em escola e de expulsão em expulsão, a vida de Sly é a confirmação das suas personagens – ou por outra: Stallone foi e é a melhor personagem de Sylvester, a vida dele o melhor trabalho da carreira. É o underdog tão verdadeiro como eles vêm, triunfou dentro e fora da tela, o melhor mau ator de sempre. Afinal, ele cumpriu a piada impossível de Dustin Hoffman quando recusado num casting no início de “Tootsie” por causa da sua altura (“I can be taller.”), ou atire a primeira pedra quem alguma vez reparou, ao longo destes 50 anos, que Stallone não tinha sequer a altura mínima exigida para salvar o mundo sozinho? (Um metro e 77. Mais baixo do que o Rúben Amorim.)

Tem sido um longo combate desde a estreia no cinema, em 1969, até aqui. Com algumas derrotas e muitas vitórias. Recordemo-lo em 10 rounds essenciais.

Sylvester Stallone

Stallone foi e é a melhor personagem de Sylvester, a vida dele o melhor trabalho da carreira

Getty Images

“The Party at Kitty and Stud’s”

Morton M. Lewis, 1970

A estreia já tinha acontecido um ano antes, num drama obscuro chamado “The Square Root”, mas foi de “The Party at Kitty and Stud’s” que se falaria, muito anos mais tarde. Se alguma vez ouviu dizer que Stallone começou no cinema porno, é daqui que vem o boato. “The Party…” contava a abre-aspas “história” fecha-aspas de um casal de jovens nova-iorquinos que descobre o sadomasoquismo e decide organizar uma orgia lá em casa, mas não passava, na realidade, de um soft core.

Stallone tinha acabado de ser despejado e era oficialmente um sem-abrigo quando apareceu a proposta para fazer o filme, que o próprio classifica de “horrendo”. Os 200 dólares que lhe pagaram por dois dias de rodagem tiraram-no da estação de autocarro onde andava a dormir em pleno inverno e, provavelmente, daquilo que de outro modo poderia bem ter sido o fim da linha. De Henrietta Holm, que fazia de Kitty, nunca mais se ouviu falar, mas com Stud, aliás, Stallone, de quem não se esperava outro destino, não foi assim.

Após o sucesso estelar de “Rocky”, os donos de “The Party…” tentaram chantagear Sly, exigindo-lhe 100 mil dólares para não difundirem o filme. Dando com o nariz na porta (o que sempre foi melhor do que num punho), relançaram a fita com diferentes títulos e montagens, incluindo “Bocky” ou “The Italian Stallion” e falsos inserts sexualmente explícitos da genitália sabe-se lá de quem. Classificado com uns miseráveis 2,5 no IMDb, rendeu em 2010 270 mil libras no eBay pela venda dos direitos e negativos da película original.

“Rocky”

De John G. Avildsen, 1976

Depois de sobreviver àquele primeiro assalto, estava pronto para tudo. Stallone saiu da rua e foi somando pequenos trabalhos no cinema, tão pequenos que, às vezes, nem direito a crédito tinham na ficha técnica (como o rufia do metro de “Bananas”, de Woody Allen). No entanto, mantinha-se de pé e acumulando pontos perto de nomes bem mais dignos da indústria: em “Al Capone” ao lado de Ben Gazarra ou John Cassavetes; com David Carradine n’ “A Corrida da Morte do Ano 2000”; entre o Philip Marlowe de Robert Mitchum, Charlotte Rampling e Harry Dean Stanton em “O Último dos Duros”.

Ainda assim, nada nos tinha preparado para “Rocky”. O filme é realizado por John G. Avildsen, mas é, obviamente, de Stallone, que o escreveu, interpretou e até coreografou nas cenas de combate. A história improvável de um zé-ninguém que vai combater com o campeão mundial de pesos-pesados e que lançou, justamente, o desafio para provar que, na América, todos podiam ter uma oportunidade, é, até hoje, a epítome da vida e obra de Sly. Foi nomeado para dez Óscares e arrebatou três dos mais importantes: melhor filme, melhor realização e melhor montagem, num ano em que havia “Taxi Driver”, “Network”, “O Homem da Maratona”, “Os Homens do Presidente” ou “Carrie”.

Stallone acabava o segundo round aos 30 anos, de olhos inchados e coberto de sangue, gritando “Adriaaaan” e nós com ele para Talia Shire. Tinha acabado de fazer um dos mais icónicos e lucrativos filmes de todos os tempos.

“Fuga para a Vitória”

De John Huston, 1981

Como é que um ator que dizemos ter falhado o assalto ao cinema sério fez um filme com o seríssimo John Huston? Bom, porque é o filme em que John Huston pôs Michael Caine a jogar à bola com Pelé e mandou Stallone para a baliza. “Escape to Victory” é um remake do húngaro “Két Félidö a Pokolban” e, quase juraríamos, de alguns dos nossos sonhos.

Em plena Segunda Guerra, o major Karl von Steiner (Max von Sydow), antigo internacional pela seleção alemã, decide organizar um jogo entre uma equipa de militares alemães e outra de prisioneiros aliados. O plano nazi é mostrar, mais uma vez, a sua plena superioridade em qualquer campo de comparação; o dos prisioneiros utilizar o acontecimento como manobra de diversão para a sonhada fuga para a liberdade. Caine faz de capitão e treinador de uma equipa onde há jogadores tão a sério como Bobby Moore, Ardiles ou a estrela-das-estrelas Pelé (que, aqui, foi o Stallone deste “Rocky”, coreografando todas as jogadas encenadas para as sequências do filme).

Sly, no papel do americano Hatch, não é apenas um entre iguais, mas, mais uma vez, alguém que tem de vir de baixo para triunfar: inicialmente posto de parte na convocatória, ele vai convencer Colby (Caine) a dar-lhe um lugar na equipa, que lhe permita alimentar os seus planos de evasão. “Fuga para a Vitória” vale por tudo: por Huston, por este leque inusitado de atores, pelas jogadas de Pelé e pelo futebol transformado numa luta do bem contra o mal, com as defesas de Stallone, em última instância, a salvarem o dia e o mundo livre.

“A Fúria do Herói”

De Ted Kotcheff (1982)

Fun fact #1: talvez nos pareça hoje que Stallone passou boa parte da carreira a saltitar entre os calções de Rocky e a manga cava de Rambo, mas a verdade é que a primeira encarnação de um se deu já o outro era uma trilogia.

Fun fact #2: o filme não se chama “Rambo”; nem sequer o segundo; só o “Rambo III” é que se chama mesmo “Rambo III”.

“A Fúria do Herói” (no original, “First Blood”) adapta o romance de David Morrell para trazer um antigo boina verde no Vietname a uma tentativa de regresso à vida normal. Envolvido num incidente com a polícia da pequena localidade de Hope, Washington, John Rambo traz críticas ao sistema americano e a figura ainda incomparável do exército de um homem só. Seguir-se-iam muitas sequelas, explosões e sucedâneos, quantas vezes dispensáveis, mas Stallone tinha acabado de criar não um, mas dois franchises lendários. 12 anos depois de lhe aprovarem o guião para “Rocky” quando lhe sobravam 106 dólares na conta, tornara-se uma das maiores máquinas de fazer dinheiro da história do cinema.

“Rocky IV”

De Sylvester Stallone, 1985

Já tinham passado o II e o III, Mr. T. e até “Eye of the Tiger”, mas é o IV volume da saga Balboa que uma certa época nunca esquece. Stallone voltou à personagem, à escrita e até à realização para concretizar este tomo violento, no auge mediático da tensão E.U.A./U.R.S.S. e vingar Apollo Creed (Carl Weathers), perante Ivan Drago, aliás, Dolph Lundgren, aliás, o “Expresso Siberiano”. Um documento dos anos 80, a que se soma ainda a presença de Brigitte Nielsen, célebre modelo e atriz dinamarquesa que contracenou e casou com Sly na vida real, apesar dos 17 anos a menos e seis centímetros a mais.

“Oscar – A Mala das Trapalhadas”

De John Landis, 1991

Uma das mais célebres criaturas à face da Terra a partir de meados dos anos 70 e nos anos 80, Stallone já não fez tão bem a transição para a década de 90. Entre muito desastre do quilate dum “Tango & Cash” ou mesmo dum “Pára ou a Mamã Dispara”, saiu este “Oscar”, maltratado pelo timing: já não era cool gostar de Stallone e ainda não era cool voltar a gostar de Stallone. Ainda assim, batemo-nos por esta rara incursão de Sly pela comédia, em nome das gargalhadas que, então, quase nos levaram às lágrimas (há 30 anos que não o revemos, é certo, mas quem é que quer estragar uma boa memória?).

Stallone é Angelo ‘Snaps’ Provolone, um mafioso que prometeu ao pai, no leito de morte, que se endireitaria e passaria a ganhar a vida em negócios legítimos, uma mudança tão difícil de entender para os seus assassinos, que nunca aprenderam a fazer outra coisa na vida, como para a polícia, convencida de que tudo não passa de um enorme disfarce para encobrir algum golpe monumental. É uma das últimas aparições de Ornella Muti de que nos lembramos e uma das primeiras de Chazz Palminteri, e é dirigido pelo insuspeito John “Thriller” Landis.

“Copland – Zona Exclusiva”

De James Mangold, 1997

Stallone tem 34 nomeações aos Razzies, os prémios que distinguem anualmente os piores do cinema – ninguém tem mais. 22 delas pelo trabalho como ator, 12 nas mais diversas funções, incluindo categorias criadas por medida como parte do “pior casal”. “Venceu” por 11 vezes, perspetiva sob a qual se mantém também imbatível, incluindo os Razzies especiais para pior ator da década de 80 e pior ator do século. Sim, alguém na Golden Raspberry Foundation tem um fraquinho incontido por Sly…

Um dos gestos mais impressionantes desse amor tão longevo aconteceu entre 1985 e 1997, quando o conseguiram ter SEMPRE entre os nomeados – nem mais nem menos do que 13 anos consecutivos. Bastava aparecer num filme para lá estar: “Assalto Infernal”, “Homem Demolidor”, “O Especialista”, “A Lei de Dredd” – qualquer um. Até que Sly baixou brutalmente o caché e fez o papel porventura menos ruidoso da carreira: o do bom polícia Freddy Heflin que descobre e tenta desmantelar um esquema mafioso envolvendo os seus próprios colegas de trabalho, na cidade dos polícias, num subúrbio de New Jersey.

“Copland” é, simultaneamente, um dos melhores momentos da carreira de Stallone e do argumentista e realizador James Mangold, agora chamado a dirigir o quinto Indiana Jones. Não sendo uma obra-prima, só pelo elenco inacreditável já justificaria o visionamento: Robert De Niro, Harvey Keitel, Ray Liotta, Michael Rapaport, Noah Emmerich e nem mais nem menos do que 17 (!) atores que, depois, veríamos n’ “Os Sopranos”, incluindo: Edie Falco (Carmela), Tony Sirico (Paulie), John Ventimiglia (Artie Bucco), Frank Vincent (Phil Leotardo), Robert Patrick (Davey Scatino) ou Annabella Sciorra (Gloria Trillo).

“Os Mercenários”

De Sylvester Stallone, 2010

Mais 13 anos passados de muito filme para ver e deitar fora e já depois de ressuscitar, com sucesso, as suas duas mais icónicas criações, Rocky e Rambo, Stallone criou ainda um terceiro franchise de sucesso. Aos 64 anos, voltou a sentar-se em todas as cadeiras: argumento, produção, realização e, claro, interpretação, à frente de um elenco que reúne todos os badass dos últimos 30 anos de cinema (e já vem aí a quarta dose).

A qualidade intrínseca é discutível, mas não o sucesso: num mundo cruel onde muitos nunca conseguiram entrar e outros não souberam sair, Sly tornou-se a única pessoa na história de Hollywood a protagonizar líderes de bilheteira ao longo de cinco. Décadas. Consecutivas.

“Grudge Match: Ajuste de Contas”

De Peter Segal, 2013

Muita gente discutiria isto connosco e, possivelmente, até teria razão, mas, para nós, Stallone poderia ter dado um bom ator de comédia. Qualquer coisa no seu deadpan natural torna-o hilariante nas raras vezes em que arriscou o género. “Grudge Match” é um terno e auto-irónico regresso aos ringues, que contrasta com a plástica encenação do herói de ação que não envelhece de “Expendables”.

30 anos depois, um agente (Kevin Hart) quer voltar a pôr a combater dois lendários pugilistas que se afastaram, “back in the day”, por causa do amor de uma bela mulher. Os lutadores são nem mais nem menos do que Sly e De Niro e a musa a notável Kim Basinger. Há ainda Jon Bernthal, Alan Arkin, a melhor piada de sempre sobre MMA e a coragem de dois veteranos de subirem ao ringue em tronco nu nos seus 70 e mostrar, diante de todas as câmaras do mundo, do que são feitas as estrelas.

“Creed: o Legado de Rocky”

De Ryan Coogler, 2015

Ao lado da caricatura das 30 e tal nomeações aos Razzies, está a verdade injusta das três aos Óscares: duas pelo primeiro “Rocky” (uma para melhor argumento, outra para melhor ator principal) e a terceira por este “Creed” (melhor ator secundário). Curiosamente, ambas pelo mesmo papel; curiosamente – ou não – o mais longo intervalo de sempre entre duas nomeações na História da Academia: 39 anos.

Nenhuma lhe deu a vitória e ele já a merecia, como tantas vezes reclamou nos ringues e trincheiras (mas mais nos ringues). Aqui, volta a assumir os anos e as dores para passar ao papel de treinador e orientar Adonis Creed (Michael B. Jordan), o filho do seu antigo rival Apolo, no boxe e na redenção deles mesmos.

Há 75 anos de vida e 50 de cinema que Stallone se anda a tentar reformar. Vai só fazer mais um último combate, uma última operação, um último trabalho. Bem vistas as coisas, têm razão em não lhe dar um Óscar; levantem-lhe a mão e deem-lhe um cinto: ele é ainda e sempre o maior campeão da história do cinema americano.

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