O novo chefe de Passos. E de mais 27

19 Setembro 2014

Para afrontar a Rússia ou para cimentar o poder dos países de Leste na União, os líderes europeus escolheram Donald Tusk para liderar o Conselho. O que é que o polaco traz à política europeia?

Dez anos depois de se juntar à União Europeia, a Polónia vê o primeiro-ministro assumir um dos principais papéis da política europeia e assim reforçar o peso crescente dos países de Leste no seio de uma comunidade que tem sido liderada pelo eixo franco-alemão. Como presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk tem o poder limitado às funções de coordenação das reuniões dos líderes europeus e alguma representação externa, mas a sua experiência e estilo podem vir a marcar a agenda dos 28 nos próximos anos.

Donald Tusk é um dos homens mais bem preparados em toda a Europa para enfrentar três das questões centrais que vão marcar os próximos anos da União – recuperação económica, Ucrânia e a possível saída do Reino Unido.

Se, por um lado, como referiu ao Observador Viriato Soromenho Marques, professor catedrático na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a sua eleição “foi fruto das circunstâncias” que atualmente assolam os 28, Donald Tusk não deixa de ser um dos homens mais bem preparados em toda a Europa para enfrentar três das questões centrais que vão marcar os próximos anos da União – recuperação económica, Ucrânia e a possível saída do Reino Unido. Desde logo, e apesar da crise na zona euro, a Polónia – que não pertence à moeda única, mas que tem vindo a incrementar, desde a adesão à UE, em 2004, as suas relações económicas com a zona euro – foi um dos únicos países que não entrou em recessão, aliando-se nos últimos anos a grandes e sólidos parceiros comerciais na Alemanha.

Na Ucrânia, foi desde o início do conflito um dos maiores defensores de medidas de contenção do avanço da Rússia, compreendendo bem a região e temendo implicações da escalada de violência já que faz fronteira com o país. Quanto ao Reino Unido, a relação entre os dois países tem vindo a desenvolver-se com alguma proximidade. Tusk tinha no seu ministro dos Negócios Estrangeiros um anglófono dedicado. Radosław Sikorski estudou em Oxford e terá pertencido ao Bullingdon Club, um clube exclusivo na universidade, do qual também faz parte David Cameron. Com a radicalização do discurso britânico em relação à UE nos últimos anos, houve algum distanciamento – foram mesmo divulgadas escutas em que Sikorski condenava o comportamento de Cameron em relação à UE -, mas Tusk acalmou as águas no dia em que foi eleito dizendo: “Ninguém no seu perfeito juízo consegue imaginar a União Europeia sem o Reino Unido”. E parece já estar a dar resultados.

A juntar a tudo isto, é um fervoroso adepto do projeto europeu e, nos últimos sete anos como primeiro-ministro, apostou numa política externa que, como refere a Economist, transformou a Polónia de “local de jogo” a “jogador” (ou no original “from playground to player“) na esfera internacional.

"Estou muito contente com o que Donald Tusk disse sobre a importância de reformar a União Europeia e as palavras que endereçou em especial ao Reino Unido e à sua relevância na União"
David Cameron, primeiro-ministro britânico

A agenda de Tusk e da Polónia para os próximos anos

Negociar, negociar, negociar. Parecem ser estas as palavras de ordem de Tusk para os próximos anos. Como presidente do Conselho Europeu, publicamente será difícil fazer mais do que isso, mas o polaco, que está na política ativa há mais de 30 anos, conhece suficientemente bem os bastidores para desbloquear conversações e lançar debates. O seu papel como mediador ao mais alto nível, que desde 2009 tem sido desempenhado por Herman Van Rompuy, pode ganhar nova relevância.

Conta para isso com uma aliada de peso: Angela Merkel. Tusk será um dos líderes que a chanceler mais respeita, mais considera e mais ouve nas suas tomadas de decisão. O ex-primeiro-ministro polaco é originário de Gdansk e fluente em alemão, algo que aproxima os dois líderes. Terá sido Merkel que apresentou o nome de Tusk para suceder a Van Rompuy. Para além da simpatia pessoal, nos últimos anos tanto a Polónia com a Alemanha têm investido nas relações bilaterais através do Triângulo de Weimar – um grupo informal constituído por estes dois países e por França de modo a reforçar a cooperação em várias áreas. A Alemanha é o principal destino das exportações polacas.

Mas estas cumplicidades não vão comprometer a missão de Tusk, segundo o embaixador da Polónia em Portugal, Bronislaw Misztal. “Tusk vai estar no seu cargo mais tempo que Cameron e que Merkel. É normal que se assista a uma sucessão política e a uma mudança na liderança da maioria dos países europeus. Mas Tusk tem uma óptica para a União Europeia que é de longo prazo e a óptica dos governos é de curto prazo”, assegurou à margem de uma conferência promovida pela Universidade Católica sobre o futuro da União Europeia.

Para além das suas funções diplomáticas, o embaixador é antigo chefe de gabinete de Radosław Sikorski e continua a ser seu conselheiro. Em Lisboa, o diplomata enunciou algumas das prioridades de Tusk para o mandato que começa já no próximo mês de dezembro. Abertura às fronteiras orientais, políticas pró-ativas nas relações externas da União, um novo equilíbrio entre os 28 e os elementos do Atlântico – nomeadamente com os EUA -, a implementação de mais mecanismos de regulação da União Económica e Monetária e um plano para o crescimento e emprego na União, são algumas das principais preocupações de Tusk. “Com a liderança do Conselho Europeu a vir da Europa Central é pouco provável que o conceito de uma Europa a muitas velocidades, de vários níveis ou da velha e da nova Europa, ganhe força”, disse Bronislaw Misztal.

Um piscar de olho não só aos países de Leste, mas também aos países do Sul recentemente saídos de programas de ajustamento – a Grécia ainda está sob programa mas o primeiro-ministro Antonis Samaras garantiu já que o país não vai precisar de um terceiro programa de resgate -, ansiosos por uma maior ação no sentido do investimento, emprego e crescimento da UE. O embaixador referiu que Portugal e Polónia têm interesses em comum que ultrapassam a coincidência alfabética de se sentarem um ao lado do outro em muitas organizações internacionais, havendo também uma partilha de posições comuns.

Viriato Soromenho Marques diz que Tusk pode “surpreender” neste novo papel e que o ex-primeiro-ministro tem uma “visão interessante” sobre a UE. No entanto, e apesar do entusiasmo geral da Polónia pela pertença à União  – 89% dos polacos diz que quer que a Polónia continue na organização -, o professor catedrático teme que a memória, neste caso a lembrança persistente do recente domínio soviético do país, enviese a visão estratégica de Tusk nos próximos anos e complique a situação já delicada com Putin.

"Donald Tusk esteve profundamente envolvido nas dificéis decisões tomadas nos últimos anos e e meses, não só no uqe diz respeito ao euro, mas também com pontos de vista essenciais na crise da Ucrânia. Resumindo, Donald Tusk, é um homem de Estado para a Europa"
Herman Van Rompuy, presidente do Conselho Europeu

Uma equipa equilibrada para o futuro?

Ao mesmo tempo que Tusk foi eleito como presidente do Conselho Europeu, também Federica Mogherini foi escolhida pelos 28 como Alta Representante para os Negócios Estrangeiros da UE. A italiana – uma das principais figuras do governo de Matteo Renzi – enfrentou alguma oposição dos países de Leste devido à sua atitude conciliadora com Moscovo no pico da crise ucraniana. Nos próximos anos, estas duas figuras trabalharão em conjunto para alinhar as prioridades da política externa europeia e, apesar de terem posições contrárias nalguns temas, nomeadamente no que diz respeito à Rússia, Bronislaw Misztal diz que os dois estão em sintonia.

Van Rompuy (centro) segura as mãos de Tusk e Federica Mogherini

“Não queremos fechar a porta à Rússia, não queremos uma nova cortina de ferro. Nem a Polónia, nem Tusk, nem nenhum país quer jogar com a Rússia, nem a Rússia quer arriscar connosco. Nem Tusk, nem Mogherini querem soluções extremas”, assegurou o embaixador polaco. Este entendimento é partilhado por Rompuy que, no comunicado do anúncio das nomeações, disse saber que “em todos os assuntos internacionais”, Tusk e Mogherini “vão trabalhar de perto na defesa do interesse e dos valores europeus”.

Viriato Soromenho Marques considera que a ex-ministra italiana vem trazer alguma “moderação” à política externa europeia. “Van Rompuy foi um incendiário na questão da Ucrânia e fez promessas incomportáveis a Petro Poroshenko. Federica Mogherini parece-me ter juízo e ter uma visão realista da política externa”, defende, insistindo que, nos próximos meses, mais importante do que adicionar sanções e lançar acusações à Rússia, será fazer com que a Rússia e a Ucrânia “se sentem à mesa de negociações”.

Para a União Europeia, esta crise teve outras consequências, sendo uma delas a preocupação crescente com a dependência externa dos 28 no que diz respeito à energia. Para resolver este problema, Tusk deu voz em abril a uma ideia há muito acalentada pelos países de média dimensão: a criação de uma união europeia da energia. “Independentemente do resultado da crise na Ucrânia, uma lição deve ser aprendida: a dependência excessiva em termos energéticos em relação à Rússia torna a Europa fraca”, escreveu num artigo publicado pelo Financial Times.

E a ideia está a tomar forma na nova comissão de Juncker com a nomeação de um “super-comissário” para supervisionar a sua preparação. Uma organização deste género permitirá coordenar a compra, a produção e os tipos de energia utilizados pelos 28, baixando os preços dos combustíveis comprados ao estrangeiro – em vez de contratos individuais, os países passariam a comprar gás e petróleo em conjunto -, criando novas rotas comerciais – Portugal e Espanha querem que o centro da Europa seja abastecido através dos portos da Península, onde chegam combustíveis do continente africano – e dando maior relevância às energias alternativas, como o vento, sol e água.

"Não queremos fechar a porta à Rússia, não queremos uma nova cortina de ferro. Nem a Polónia, nem Tusk, nem nenhum país quer jogar coma Rússia, nem a Rússia não quer arriscar connosco. Nem Tusk, nem Mogherini querem soluções extremas"
Bronislaw Misztal, embaixador da Polónia em Portugal

A Polónia política depois de Tusk

Se Donald Tusk continuasse como primeiro-ministro, enfrentaria eleições no próximo ano, tentando vencer o seu terceiro mandato. Mas desta vez não seria tão fácil como anteriormente, já que o escândalo da divulgação de escutas pela revista Wprost tem abalado o governo e a popularidade de Tusk nos últimos meses.

Para além dos incidentes diplomáticos causados pelas escutas, onde o ministro dos Negócios Estrangeiros é ouvido a dizer mal da atuação de David Cameron na Europa ou a condenar a posição polaca face aos EUA, as transcrições mostram que o governador do Banco Central da Polónia, uma figura que não se deve imiscuir na política, ofereceu ajuda às políticas do governo em troca de uma mudança no executivo, especificamente a substituição do ministro das Finanças. As escutas foram publicadas em junho deste ano, mas as conversas foram gravadas no final de 2013 e, pouco tempo depois, o ministro foi substituído.

Tusk nunca valorizou a divulgação das escutas, nem sancionou publicamente nenhum dos envolvidos, o que suscitou muitas críticas por parte da oposição. A sua saída pode agora ser aproveitada para castigar a Plataforma Cívica – que integra o Partido Popular Europeu, família política do PSD e do CDS – nas próximas eleições.

Vai caber a Ewa Kopacz, a nova primeira-ministra que tomou posse esta semana, continuar a liderar o governo e o partido. Até agora, Kopacz era a líder da câmara baixa do parlamento polaco e uma figura muito próxima de Donald Tusk – foi ministra da Saúde no seu primeiro governo. A tarefa dentro do seu próprio partido não é fácil, já que Donald Tusk era um líder carismático que agregava à sua volta muitas fações desavindas. No país, será ainda mais difícil, pois com o abandono precoce do ex-primeiro-ministro, a hipótese de eleições antecipadas começa a ganhar força.

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