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AFP/Getty Images

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Julen pode mesmo sobreviver tantos dias no poço? E o plano de resgate pode funcionar? /premium

Especialistas portugueses têm pouca esperança no sucesso da operação. Imobilismo, hipotermia e hipoglicemia podem ter condenado a criança. E o plano agora em marcha tem tudo para dar errado.

Os cem bombeiros mobilizados para local, junto à Tumba del Moro, em Málaga, estão desde as duas da tarde de domingo de olhos pregados num abismo de onde o choro de Julen deixou de ecoar 30 segundos depois de lá cair. Há quase três dias — noventa e seis horas — que se espera a construção dos túneis que podem tornar-se a única solução para encontrar o bebé de dois anos preso algures num poço com 110 metros de comprimento e 25 centímetros de diâmetro. A cada minuto que passa, a esperança de encontrar Julen vivo esmorece. Deste lado da fronteira, nenhum dos especialistas ouvidos pelo Observador acredita num resgate com final feliz.

As certezas sobre a localização exata de Julen Jimenez são poucas. Sabe-se que estava ali acompanhado pela família e que, aproveitando a distração do pai enquanto fazia uma fogueira para cozinhar paella, correu mato fora até ser engolido para um poço de prospeção de água que não estava protegido. Eram duas da tarde no domingo. O choro do bebé ainda se ouviu durante 30 segundos, mas calou-se desde então. As análises de ADN feitas a um punhado de cabelos encontrados no poço confirmam a crença de que Julen está mesmo ali: o material coincidia em 99,9% com as amostras fornecidas pelos pais, José e Vicky, e recolhidas do biberão da criança. Mas a que distância da superfície? Ninguém sabe.

Três estratégias — nenhuma inspira grandes esperanças

Francisco Rasteiro, fundador do Núcleo de Espeleologia da Costa Azul, acha “complicado que se consiga chegar à criança e que ela seja encontrada com vida”: “O miúdo tem de estar morto. É uma criança de dois anos, entalado num sítio onde nenhum adulto consegue chegar, num lugar que não pode ser aberto senão o menino ficava soterrado”, descreve o espeleólogo ao Observador. Onde quer que esteja, e assumindo que está mesmo no poço como garantem os pais, Julen estará debaixo de uma massa de terra compacta e molhada que está a obstruir o buraco a 73 metros de profundidade. É esse tampão que “está a impedir que o ar circule para dentro do poço, por isso ele sufoca”, diz Francisco: “A hipótese de sobrevivência ainda se colocava se houvesse espaços abertos e circulação de ar lá em baixo, mas isso não acontece num furo de prospeção de água”, acrescenta.

Onde quer que esteja, Julen estará debaixo de uma massa de terra compacta e molhada que está a obstruir o buraco a 73 metros de profundidade. É esse tampão que "está a impedir que o ar circule para dentro do poço, por isso ele sufoca", diz Francisco: "A hipótese de sobrevivência ainda se colocava se houvesse espaços abertos e circulação de ar lá em baixo, mas isso não acontece num furo de prospeção de água", acrescenta.

Três estratégias foram postas em cima da mesa pelas autoridades na tentativa de resgatar Julen Jimenez. A primeira era extrair essa terra presa a meio do poço, mas a tarefa mostrou-se infrutífera: no primeiro dia só foi possível retirar 30 centímetros de terra, por isso o plano demoraria demasiados dias a ser concretizado. A segunda estratégia foi alargar o buraco por onde o bebé entrou para permitir a passagem de um adulto, mas essa missão também foi abortada: abrir mais o túnel significava causar deslizamentos de terra que soterrariam Julen e o condenavam à morte por sufocamento. A terceira estratégia é a que vai ser posta em prática dentro de poucas horas, diz a Guardia Civil: abrir um sistema de túneis que se liguem ao poço onde o menino deve estar.

[Veja no vídeo como são complexas as três vias para resgatar Julen:]

De acordo com as informações transmitidas nas últimas horas pelas autoridades, o plano é entubar o túnel onde Julen está, construir uma passagem paralela àquele onde Julen entrou e abrir um corredor oblíquo, com 15º de inclinação, que ligue os dois buracos verticais. Esses novos túneis seriam largos o suficiente para permitir a passagem de um adulto que rastejaria ao longo do labirinto até alcançar Julen e o conseguir puxar até à superfície, esteja ele vivo ou morto.

Mas embora concorde que essa é a opção mais viável para a operação de resgate, Sérgio Barbosa, vice-presidente da Federação Nacional de Espeleologia, alerta que essa é uma estratégia sensível e “cheia de problemas”. “A questão é que pode ocorrer é, ao fazer o poço paralelo, fazer desabar o outro ao lado. Quando estamos a cavar o buraco há sempre o risco do que está ao lado desmoronar. As vibrações das máquinas e o uso de explosivos, se for o caso, vão causar stress nas terras e cria essa possibilidade”, explica ele ao Observador.

O poço, com 110 metros de profundidade e 25 centímetros de diâmetro, não deixa aos socorristas grandes alternativas nem permite perceber a exata localização da criança

E há outro problema, acrescenta Pedro Pinto, especialista em espeleosocorro: ninguém sabe exatamente onde Julen Jimenez está e, portanto, ninguém sabe até onde deve escavar. “Isso implica que as autoridades consigam localizá-la e saber com alguma certeza a que profundidade está a criança. Sabendo disso, tinha-se de abrir um poço paralelo ao primeiro o mais próximo possível, mas assegurando que as vibrações do solo não provocam deslizamentos de terra no buraco. E a seguir, chegados à profundidade onde a criança está, escavar outro túnel horizontalmente. Tanto o túnel paralelo como o horizontal tinha de ter pelo menos 60 a 80 centímetros para permitir a passagem de um adulto, mas isso não é muito espaço para se escavar para os lados”, explica o espeleólogo.

Segundo Pedro Pinto, à medida que as máquinas vão escavando os novos túneis, é importante instalar tubos no interior dos corredores para assegurar a integridade da construção. Mesmo assim, nem tudo podia ser feito por maquinaria: “A ideia é furar o mais próximo possível ao outro futuro e o mais alinhadamente possível com a profundidade a que o miúdo está para que o trabalho na horizontal seja o mínimo possível. Faz-se isso manualmente para evitar que outros materiais, como explosivos, afetem o poço onde o rapaz está ou que os detritos que o atinjam“, esclarece.

A segurança de quem entrar no túnel é prioritária

Se tudo isto estiver assegurado, então pode avançar-se para a entrada de um resgatador no labirinto. E nessa fase, “o principal seria sempre salvaguardar a segurança da pessoa que iria fazer a operação“, diz Sérgio Barbosa: “Não tendo a certeza se a vítima continua viva ou não, nunca se deve colocar em causa a vida da pessoa que desce ao poço. Garantindo que a pessoa que lá iria tinha a sua segurança garantida, aí poder-se-ia fazer um buraco lateral que não aluísse e que tivesse, no mínimo, 50 centímetros de altura e outros 50 centímetros de comprimento. Menos do que isso, os movimentos que a pessoa faria comprometia a firmeza do solo”, diz o vice-presidente da federação.

As várias estratégias para chegar à crianças começaram a ser desenhadas depois do alerta. Ninguém sabe se vai resultar

A entrada dessa pessoa é feita de forma semelhante à maneira como um explorador entra numa gruta: ou o resgatador fica suspenso e a descida é controlada por uma equipa à superfície ou então pode entrar sozinha, utilizando cordas e arnês, desde que se mantenha em comunicação com os colegas fora do labirinto. Mas, no caso específico de Julen Jimenez, o fundador do Núcleo de Espeleologia da Costa Azul teme que seja tarde demais para colocar o plano em prática: “Se ele estiver morto e o objetivo for recuperar o cadáver, isso pode ser mais viável, mas gastar-se-ia muito dinheiro na construção de um túnel onde um adulto coubesse e pudesse movimentar-se em segurança”.

Hipotermia, asfixia ou trauma. Dificilmente uma criança sobrevive ali

Em Espanha, no entanto, mantém-se a esperança. José Antonio Berrocal, presidente da Federação Andaluza de Espeleología, disse ao ABC que, tendo em conta a geologia da serra onde Julen deve estar, o menino pode estar sob uma massa de rochas com cavidades através das quais o ar fluiria, fornecendo Julen com ar vindo da superfície. Os especialistas portugueses concordam que a composição do terreno é preponderante para o sucesso das operações: “Se os terrenos fossem instáveis, o menino ao cair podia ter arrastado terra com ele e ficado soterrado. A única alternativa para tirá-lo lá de dentro, com ou sem vida, era utilizar um robô com uma pega“, diz Francisco Rasteiro. Mas como são rochosos e firmes, então “os trabalhos de escavação são facilitados”, avalia Pedro Pinto.

Mas esse pode ser o menor dos problemas de Julen Jimenez ali em baixo, alerta o espeleólogo. “Mesmo que ele não tenha morrido por falta de ar, a imobilidade extrema teria matado o rapaz. A nossa própria função de irrigação sanguínea do corpo humano não é 100% assegurada pela força do coração. Os músculos dos braços e das pernas, quando contraem, também ajudam à função do sistema circulatório porque comprimem as veias e artérias”, descreve Pedro Pinto.

"Mesmo que ele não tenha morrido por falta de ar, a imobilidade extrema teria matado o rapaz. A nossa própria função de irrigação sanguínea do corpo humano não é 100% assegurada pela força do coração. Os músculos dos braços e das pernas, quando contraem, também ajudam à função do sistema circulatório porque comprimem as veias e artérias", descreve Pedro Pinto.

Isso foi confirmado ao Observador pelo coordenador de uma Viatura Médica de Emergência Rápida (VMER): “Os nossos músculos funcionam como uma bomba para fazer circular o sangue. O músculo serve para produzir energia, por isso é que trememos quando temos frio. É para gerar calor. Estando parado, a diminuição da temperatura corporal contribui ainda mais para a hipotermia”, sublinha o médico do INEM.

Outro problema relacionado com a imobilização extrema é o aparecimento de úlceras, explica ele. Imagine-se sentado num banco de cinema para ver um filme de duas horas. Ao longo do tempo vai mudar de posição porque fica desconfortável. Agora imagine quem tem de estar nessa mesma cadeira, mas sem se poder mexer. “Vai ter um desconforto, depois aparecem as zonas de maceração, que são regiões onde os tecidos são mais sujeitos a pressões e por isso são menos irrigadas. Isso cria úlceras de pressão que dão origem a feridas, que podem tornar-se focos de infeção”, descreve o coordenador.

Na verdade, o médico do INEM diz que são inúmeros os problemas que podem ter provocado a morte de Julen nos últimos três dias. Segundo ele, se por um lado a altura da superfície até ao fundo do poço é grande, a queda do rapaz não foi feita em queda livre. “Tratando-se de um percurso estreito, a pessoa vai batendo nas paredes, por isso vai havendo algum amortecimento da queda. Provavelmente não terá grandes traumas”, sublinha.

Os pais de Julen têm estado sempre perto do local do acidente e estão a ser acompanhados por psicólogos

O problema mais grave é a disfunção metabólica: “Vai haver uma hipotermia porque lá em baixo está um frio desgraçado e os níveis de oxigénio vão ser baixíssimos. Além disso, apesar de termos mais capacidade de ficar longas horas sem comer desde que bebamos água, as reservas de glicemia e a capacidade de produzir glicose de uma criança são muito inferiores às de um adulto. Provavelmente vai entrar em hipoglicemia”, sublinha o coordenador de uma VMER. Acresce que as feridas provocadas pela queda vão causar dor e infetar. “Ao fim de dois dias as feridas vão infetar garantidamente. Tudo isto leva a disfunções que vão culminar com a morte”, afirmou o médico.

Questionado sobre se as crianças têm mesmo mais capacidade de resistir em situações extremas, o médico português confirma que "há coisas em que as crianças não têm noção do perigo e isso faz com que por vezes cometam atos heróicos". "Não temos noção do perigo e da distância. Aos três ou quatro anos é que começa a surgir a cautela", conta o médico. 

Questionado sobre se as crianças têm mesmo mais capacidade de resistir em situações extremas, o médico português confirma que “há coisas em que as crianças não têm noção do perigo e isso faz com que por vezes cometam atos heróicos”. Em termos estatísticos, a altura em que temos mais acidente é na adolescência, “porque somos inconsequentes”, e em bebés, quando começamos a gatinhar. “Não temos noção do perigo e da distância. Aos três ou quatro anos é que começa a surgir a cautela”, conta o médico. É por isso que ele acredita que Julen não tem noção do perigo em que está: “Ele está num sítio escuro, perfeitamente desconhecido, frio e provavelmente a 100 metros de profundidade. É capaz de nem sequer conseguir ver a luz do sol. Não deve ter noção da gravidade da situação em que está”, conclui.

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