Eram duas e meia da manhã, 14 de junho de 1981, quando Angelo Licheri encontrou o pequeno Alfredo Rampi, de seis anos, num buraco com um total de 80 metros de profundidade e 30 centímetros de largura em Vermicino, uma pequena vila da cidade de Franscati, Itália. “Estava agachado, embutido no poço estreito, com um braço levantado para cima e outro atrás das costas. Limpei-lhe os olhos e a boca. Estava empapado em barro argiloso. Não sei como é que aquele pobre rapaz podia respirar”, descreveu o espeleologista que localizou o rapaz natural de Roma. Alfredino, como lhe começou a chamar carinhosamente a Itália, estava ali há 55 horas. Quando o encontraram pediu à mãe que o tirasse dali. Morreu quatro horas depois.

Alfredo Rampi estava em Franscati de férias com o pai, Ferdinando Rampi, de 41 anos, a mãe Francesca Bizzarri, de 37, a avó paterna Veja, de 62, e o irmão mais novo Riccardo, de dois anos. A 10 de junho, Alfredo foi passear com o pai e uns amigos dele. Eram 19h20 quando o rapaz pediu a Ferdinando para regressar sozinho a casa porque queria explorar os prados ali perto. Às 20h, quando Ferdinando entrou em casa, Alfredo ainda não tinha chegado. Hora e meia depois, após trinta minutos de espera e buscas nas redondezas, a família chamou a polícia.

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Amedeo Pisegna acabou por ser condenado por homicídio culposo com a agravante da violação dos regulamentos de prevenção de acidentes.

Veja, a avó, foi a primeira a sugerir que Alfredino podia estar caído num poço escavado recentemente no terreno ali ao lado, onde estava a ser construída uma casa. A teoria foi inicialmente descartada pelas autoridades, que inspecionaram o local e perceberam que o buraco estava tapado por folhas e pedras. Mas pouco depois um guarda chamado Giorgio Serranti decidiu voltar ao poço, retirar as pedras que o tapavam, enfiar a cabeça no buraco e chamar por Alfredo. Foi então que ouviu o rapaz a gemer ao fundo. Afinal, o dono do buraco, o professor Amedeo Pisegna de 44 anos, tinha tapado o poço às 21h, quando a família já procurava o rapaz, sem saber que havia um menino desaparecido nas vizinhanças.

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Alfredino tinha ficado preso numa curva 36 metros abaixo do solo. As primeiras tentativas para resgatar Alfredino foram não só completamente falhadas, como também mostraram ser erros graves nas operações de socorro. A primeira estratégia passava por enviar uma tábua de madeira presa por cordas até ao local onde Alfredino estava, de modo a que a criança se pudesse agarrar a ela e depois ser içada. Só que a tábua ficou presa a duas rochas nas paredes do poço e as cordas partiram-se, tapando quase por completo a entrada para o poço.

Perante essa nova dificuldade, a prioridade passou a ser manter comunicações com Alfredino. Foram feitas duas coisas: em primeiro lugar, os bombeiros enviaram uma câmara presa por arames para as profundezas do poço para se certificarem do estado mental do rapaz; em segundo lugar, o chefe de operações chamou uma equipa de jovens espeleologistas do Resgate Alpino para entrar no poço e retirar o pedaço de madeira. O primeiro a entrar no túnel foi Tullio Bernabei, um rapaz magro de 22 anos que não conseguiu chegar à tábua. O segundo voluntário foi Maurizio Monteleone, que também ficou a poucos metros da tábua.

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Foi preciso delinear um novo plano. Começou-se então a construir um canal de túneis com dois corredores: um era paralelo ao poço onde Alfredino estava e outro era horizontal, com dois metros de comprimento, e parava um pouco abaixo da localização estimada do rapaz. Eram oito e meia da manhã quando as obras começaram. Tudo parecia correr bem quando, ao fim de duas horas, a máquina já tinha conseguido escavar dois metros, de tão arenoso que era o solo. Os obstáculos só chegaram às 10h30, quando a máquina encontrou uma camada de rocha de granito. A essa hora Alfredino começou a queixar-se de barulho. E pediu água.

Era urgente continuar. Por isso, enviou-se uma segunda máquina de perfuração, desta vez maior e mais potente, que foi montada em apenas três horas — o manual dizia que eram precisas 12 –, mas que precisaria de entre oito a 12 horas para escavar o túnel. Enquanto isso, a primeira máquina voltou a trabalhar e escavou um poço de 20 metros de profundidade com 50 centímetros de largura.

Debaixo de tudo aquilo, Alfredino chorava compulsivamente, dizia estar exausto, pedia constantemente à mãe que o tirasse dali, queria água e começou a acusar os sintomas das cardiopatias congénitas de que sofria. Às 20h, um terceiro equipamento de perfuração mais pequeno mas mais ágil começou a operar no local. E foi engendrado um esquema para entregar água e açúcar ao rapaz de seis anos.

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Às 10h10, o médico que acompanhava Alfredino à distância já estava demasiado preocupado. A pulsação do rapaz, que já nem sequer falava, tinha baixado para 48 pulsações por minuto.  Assim que a escavação paralela atingiu uma profundidade de 30 metros e cinco centímetros, começou-se a cavar a ligação horizontal entre os dois poços. Para evitar desabamentos de terra, essa conexão teve de ser escavada à mão por três bombeiros. Só às 19 horas é que a construção estava terminada. Só que ninguém encontrou Alfredino, que tinha escorregado e afinal estava a 60 metros de profundidade.

Rastejar até ali podia significar a vida de Alfredino, mas também a morte de quem tivesse coragem de entrar no labirinto. Angelo Licheri voluntariou-se. Era um homem magro e baixo, porteiro numa gráfica chamada “Quintily” na Via di Donna Olimpia. À meia-noite de 12 para 13 de junho, mergulhou de cabeça no sistema de túneis que o levaria até junto de Alfredino. Das três vezes que entrou no labirinto, o arnês que o segurava partiu-se. Angelo nunca desistiu: tentou pegar a criança pelo braços, mas Alfredino deslizou ainda mais para o fundo. Angelo acabou por partir o pulso esquerdo e esteve 45 minutos de cabeça para baixo — o máximo recomendado eram 25 minutos. Quando voltou à superfície foi mandado para o hospital. Estava em choque traumático.

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Às cinco da manhã, quando outro espeleologista, Donato Caruso, entrou no labirinto, já era tarde demais para Alfredino. “Está embutido, não consigo tirá-lo. Está como que sem vida, rígido, congelado”, disse Donato Caruso após inúmeras tentativas de trazer o rapaz à superfície. Alfredino estava morto. A notícia abriria todos os telejornais italianos nesse dia: “Queríamos contar-vos um facto da vida e temos um facto da morte. Não desistimos, continuámos até ao final. Perguntar-nos-emos, num futuro próximo, para que serve tudo isto, o que desejamos esquecer, o que devemos lembrar, o que teremos de amar, o que devemos odiar. Foi a gravação de uma derrota, infelizmente: 60 horas de luta em vão por Alfredo Rampi”, disse o jornalista Giancarlo Santalmassi na emissão da TG2.