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Gouveia e Melo marca a diferença para Marcelo: não tira selfies, só fotos
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▲Gouveia e Melo marca a diferença para Marcelo: não tira selfies, só fotos

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR

▲Gouveia e Melo marca a diferença para Marcelo: não tira selfies, só fotos

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR

O segredo mais mal guardado de Fátima, a fé no almirante e os ataques a Ventura. Um dia de (não) campanha com Gouveia e Melo

Gouveia e Melo foi a Fátima, não se esforçou por manter segredo sobre Belém e comentou a situação política contra a vontade de Marcelo. O Observador acompanhou o almirante ao longo de um dia na rua.

Sem farda, de gola alta e em modo pré-campanha, Henrique Gouveia e Melo passou o dia em Fátima insistindo em não revelar o segredo que já todos adivinham: o de que vai ser candidato a Belém. Na paragem de almoço de uma agenda intensa deu umas “palavrinhas”, a que o Observador assistiu, sem se esforçar muito para esconder o seu futuro próximo: “Não sou um Dom Sebastião, nem um homem prodígio, mas tenho uma missão para cumprir. E vou dar o meu melhor para cumprir essa missão”. Minutos antes o padre António Martins Pereira, o principal anfitrião das visitas em Fátima, atirou: “Depois tem de voltar cá como Presidente“. Gouveia e Melo sorriu.

O almirante revelou, por um lado, que não se sente um homem providencial, mas, ao mesmo tempo, confessou aos comensais que continua a fazer muitas vezes uma pergunta que repetia para si quando estava na Marinha: “Mas o que é que eu estou aqui a fazer?”. E logo respondia nesse monólogo interior com um lema: “Honrar a pátria“.

O almirante é católico e faz questão de dizer que não ignorava a forte “componente religiosa” da cidade que estava a visitar, mas lembrou que “a Pátria não é só católica”. Lá está: quer ser o ____ de todos os portugueses. Percebendo que o ato pode ser visto como um piscar de olho ao eleitorado católico, antecipa uma leitura pessoal para a desmistificar: “Vão dizer que isto faz parte de um masterplan, mas não: vim só visitar obra social a convite do padre Martins Pereira”.

Ainda na mesma breve intervenção no restaurante, num tom próprio de candidato presidencial, prometeu mais “ambição para o país”. E, a esse propósito, tem um modelo que quer seguir: o do plano da vacinação. “Na vacinação estávamos todos a puxar para o mesmo lado, por isso foi possível ter sucesso. Não estava ninguém a tentar chegar em primeiro à frente do outro”, lembra.

Esse momento, no restaurante Os Arcos, terminaria com apelos fotográficos, como foi exemplo uma família de turistas que quis posar ao lado do almirante depois de a funcionária os ter avisado em inglês: “Is the future President of Portugal“. Mais uma vez, Gouveia e Melo sorriu.

Com um detalhe sobre as fotografias: não são selfies. Dessas, Gouveia e Melo quer distância. Antes de almoço, no Centro de Estudos de Fátima, a primeira instituição que visitou, o almirante já tinha explicado a um aluno que se quis fazer fotografar com ele: “Tiro fotografia mesmo, que selfie já tem direitos de autor“. É uma diferença que quer marcar para o Presidente Marcelo (às vezes jocosamente apelidado de “selfies” ou “Marcelfie”). Já na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, há precisamente um mês, se tinha recusado a tirar uma fotografia desse modo, dizendo que “está muito visto”.

Gouveia e Melo vai justificando o porquê de já ter estas ações cívicas, que parecem de campanha eleitoral. “Vivi num mundo isolado, no mundo militar, e para mim agora é importante conhecer os problemas reais da nossa sociedade, os problemas do dia a dia das pessoas”, explica. Vai insistindo em falar de ambição, mas que também tem em causa própria. A corrida presidencial é para ganhar. E o almirante é competitivo.

Quando se cruza com um grupo de alunos, ases escolares na natação, pergunta se conseguem fazer 25 metros debaixo de água sem vir à tona respirar. Meia dúzia levanta o braço. Depois pergunta por 50 metros. Apenas dois levantam. E depois 75 metros. Ninguém levanta. E daí puxa dos seus galões: “Eu fazia três piscinas debaixo de água, 75 metros, vocês têm de se esforçar mais”.

Na conversa espontânea com os alunos, Gouveia e Melo puxa para as suas áreas de interesse, como a Inteligência Artificial. E pergunta: “Algum aqui usa o ChatGPT?” Perante várias respostas afirmativas fez questão de dar uma lição aos nadadores: “Se vocês pedirem a um colega para nadar 2 horas por dia por vocês, ao fim de 50 dias têm 100 horas de natação, mas depois vão para a água e não sabem nadar. Pensem nisso”.

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR

Os ataques a Ventura antes do aviso de Marcelo

Henrique Gouveia e Melo não quer criar ruído nas legislativas, mas esta terça-feira não deixou de dar a sua opinião sobre a atual situação política. Questionado sobre a Madeira e a transposição dos resultados para o plano nacional, Gouveia e Melo diz que “quando a população vota dá um sinal político, os governantes devem saber interpretar esse sinal. E se interpretarem bem esse sinal, verão o que a população espera deles. A governação com estabilidade é importantíssima para o país.”

Antes que fizessem leituras de que pudesse estar a torcer por Luís Montenegro (por pedir estabilidade), Henrique Gouveia e Melo fez questão de acrescentar que “tem de existir ética” e que as pessoas têm de ter credibilidade” na política. Isto em pleno rescaldo do caso Spinumviva.

Os maiores ataques acabariam por ser, no entanto, a André Ventura, mesmo que nunca o tenha nomeado. Primeiro, na imigração, com o almirante a começar por lembrar que ele próprio foi emigrante, quando era criança, no Brasil, e que teve de se adaptar ao país. Aproveitando, depois, o facto estar no Centro de Estudos de Fátima, onde existem 18% de alunos imigrantes, o almirante atirou mesmo: “Não podemos, como alguns querem fazer, ligar a imigração aos problemas de insegurança”. E acrescentou: “Hoje há muita conversa à volta da imigração, mas a imigração é um potencial que, se for bem desenvolvido, pode ajudar o nosso país”.

[Já saiu o segundo episódio de  “O Misterioso Engenheiro Jardim”, o novo Podcast Plus do Observador que conta a história de Jorge Jardim, o empresário que, na verdade, era um agente secreto que liderou missões perigosas em todo o mundo, tentou criar um país e deu início a um clã de mulheres aventureiras. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no YoutubeMusic. E pode ouvir aqui o primeiro episódio]

Mas esta não seria a única crítica do almirante dirigida a André Ventura, já que, no caso dos cartazes, sugeriu concordar mais com Montenegro do que com o líder do Chega. Sobre as imagens que colocavam a cara de Sócrates ao lado da do atual primeiro-ministro, Gouveia e Melo defendeu que é importante que “o respeito entre opositores e concorrentes seja preservado”. Para Gouveia e Melo neste caso houve uma “linguagem excessiva, para lá do que é normal”. O potencial candidato presidencial disse que “mesmo que não seja criminalmente reprovável” a “linguagem pode ser ofensiva”, o que, lamenta, contribui para uma indesejada “crispação na política”.

Minutos depois da declaração de Gouveia e Melo, o atual Presidente da República pedia silêncio aos candidatos presidenciais. Não terá sido pelo pedido de Marcelo, mas o almirante, que chegou a ponderar falar uma segunda vez aos jornalistas, optou por não o fazer o resto da tarde. Mas continuou entusiasmado as visitas, quase em ritmo de campanha.

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR

Os políticos que não são maus e o Benfica “que é sempre bom”

Gouveia e Melo não fez, no entanto, um esforço para se afastar dos políticos, algo que tinha sido uma marca das suas primeiras intervenções — até por oposição a Marques Mendes que terá previsivelmente o apoio do PSD. O almirante recusou-se a fazer uma crítica generalizada de que o tom do debate público descredibiliza “os políticos”.

“Dizer que descredibiliza os políticos como um todo é muito redutor. As pessoas que se dedicam à política são altruístas por natureza, porque se estão a dedicar a coisas que têm a ver connosco.  Devemos evitar esse tipo de descrédito. Porque se não, não acreditamos em nada. E quando não acreditamos em nada, passamos a acreditar em coisas inacreditáveis.”

Houve aqui uma inversão face a outras intervenções, já que Gouveia e Melo evitou atirar aos adversários. Concentrou-se mais nos seus próprios eleitores. E, aí, não perdeu uma oportunidade para destacar aquilo que podem ser ganhos eleitorais. Mesmo que não faça parte de mais uma etapa do tal “masterplan” que terá, o que é certo é que elogiou o Benfica, que com autoproclamados seis milhões de adeptos pode ser uma importante referência eleitoral. Durante uma visita ao CRIF (Centro de Atividades e Capacitação para a Inclusão) aproveitou uma conversa com uma criança que lhe confessava ser benfiquista para logo dizer: “Ser do Benfica é bom”.

O próprio já confessara, no passado, que é do Benfica “por causa do Eusébio” que, tal como ele, “nasceu em Moçambique”. O benfiquismo não será, porém, uma vantagem em confronto com Luís Marques Mendes, que é também um confesso adepto do clube da Luz.

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR

Puxar dos galões de Pedrógão para provar ser um homem de ação

Ao longo do dia, Gouveia e Melo foi fazendo perguntas a estudantes, a crianças e com quem com ele se cruzasse. Mesmo que o contacto com as pessoas não seja a sua praia, mostrou sempre estar à vontade com a small talk e nos desbloqueadores de conversa. As fardas levaram-no, no entanto, a recordar que é um homem com uma missão. Logo, mostrou ação.

Na visita aos Bombeiros Voluntários de Fátima, Gouveia e Melo ouviu atentamente uma apresentação sobre o projeto de construção de um novo quartel e de outras valências para a instituição. E detetou logo um problema no projeto: estando o heliporto ao lado da zona preparada para ser hospital de campanha será preciso uma barreira física para os “NHs”, os helicópteros, não danificarem essas mesmas tendas.

Após a apresentação, Gouveia e Melo deu mais umas “palavrinhas”, lembrando que é um homem de ação. Contou que estava acordado à noite — por culpa do jet lag de ter acabado de regressar do Brasil — quando assistiu na televisão à noite trágica dos incêndios de Pedrógão. Ligou então ao CEMA da altura a perguntar-lhe: “Então não fazemos nada?” Que terá retorquido: “O que podemos fazer?”. Ao que Gouveia e Melo respondeu: “Vamos pelo menos alimentar aqueles homens”. Aqueles homens eram, claro, os bombeiros, a plateia que tinha à frente.

Além de lembrar que teve esse papel logístico na resposta aos incêndios de Pedrógão, Gouveia e Melo lembrou que também ajudou na limpeza das matas. E pessoalmente. Mesmo sendo um almirante de três estrelas, conta, fez questão de pegar numa roçadeira e também ele ajudar diretamente na limpeza dos terrenos. A plateia ouvia-o atenta e com respeito. Depois disso, rodeado de fardas, Gouveia e Melo descontraiu num pequeno lanche preparado pela corporação.

Após um longo dia de pré-pré-campanha regressou a Lisboa, num carro conduzido por uma amiga. Todas as viagens que fez no carro foi no lugar do pendura. No banco de trás já seguia também alguém que está a ajudar na comunicação para aquele segredo que o almirante ainda não quer revelar, mas que já toda a gente sabe qual é.

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