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Mentem, manipulam e influenciam resultados. As sondagens têm má fama e estão a tornar-se crescentemente ‘o’ tema das campanhas eleitorais, servindo de arma de arremesso entre candidaturas. Nestas eleições presidenciais não está a ser muito diferente. Pelo contrário. Praticamente todos os candidatos (sobretudo quando estão a descer ou se sentem subvalorizados) já se queixaram dos estudos de opinião e dos órgãos de comunicação social que as publicam. Para lá de todas as teorias de conspiração, há objetivamente um dado que causa estranheza: como é que se explicam oscilações nas intenções de voto tão grandes, subidas e descidas sem causa aparente. Uma pista: essas oscilações não existem.
Existem essencialmente três métodos de recolha de informação. “Atualmente, as sondagens eleitorais que se fazem em Portugal recorrem a entrevistas realizadas presencialmente nos domicílios dos eleitores ou por entrevista telefónica”, começa por explicar ao Observador Pedro Magalhães, investigador do Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa, responsável pelas sondagens publicadas regularmente pela SIC/Expresso e um dos maiores especialistas em estudos de opinião no país.
Existe ainda um terceiro modo de inquirição possível, através de uma plataforma online, mas as sondagens feitas para os órgãos de comunicação em Portugal não costumam usá-lo, concede o mesmo Pedro Magalhães. Ainda assim, a “maior parte das sondagens para as presidenciais têm sido feitas com entrevistas telefónicas“.
Entre os dois métodos principais, o da entrevista telefónica e o de recolhe presencial do voto, que implica uma deslocação à casa dos entrevistados, há diferenças evidentes, não só no modo como a intenção de voto é comunicada, mas também nas características e representatividade da amostra que é angariada para responder ao questionário. Têm os dois vantagens e desvantagens — nenhum deles é perfeito.
“Usar o telefone permite que se façam entrevistas com grande dispersão pelo território nacional sem custos de deslocação, ao contrário do que sucede com as entrevistas presenciais”, nota Pedro Magalhães. Há outra vantagem em fazer sondagens por telefone: “Permitem que o trabalho de campo decorra com maior rapidez, minimizando o tempo que passa entre o início da sondagem e a divulgação dos seus resultados”, afirma o investigador.
Mas não são só vantagens, reconhece. Por via telefónica, é “mais difícil persuadir as pessoas a responderem”, as sondagens acabam por ter “taxas de resposta mais baixas e amostras mais restringidas a pessoas que gostam de responder” a estes inquéritos, universo que pode não representar exatamente a totalidade do eleitorado.
Se o fator da presença do entrevistador no domicílio tende a diminuir o fator de recusa na resposta, as sondagens presenciais “permitem inquéritos de maior duração, que caracterizem melhor os inquiridos”, explica o investigador do ICS, que menciona os “apoios visuais para responder a perguntas” e, mais do que isso, o uso do boletins de voto em urna, o que aumenta a “privacidade das escolhas dos inquiridos”.
Para o economista e investigador na Universidade do Minho, Luís Aguiar-Conraria, colaborador regular do Observador e responsável pelo Radar das Sondagens, esta garantia do segredo de escolha que só acontece por via presencial “resolve muitos problemas”. “Se calhar alguém do Norte tem vergonha de dizer que vota no Partido Comunista. No país inteiro, até há relativamente pouco tempo, as pessoas tinham vergonha de dizer que votavam em André Ventura ou no Chega. De facto, tanto o PCP como o Chega são subestimados nas sondagens”, nota o economista. Quando a resposta no inquérito é secreta, tal como o voto no dia das eleições, “a pessoa deixa de ter motivos para ter vergonha“.
Mas este método também tem as suas fragilidades. “Nas sondagens em que se bate à porta das pessoas cria-se o enviesamento na amostra”, refere Conraria, admitindo a sobrerepresentação de “reformados, de desempregados ou de pessoas que não estão a trabalhar por qualquer motivo”. Isso também é uma forma de distorção, “mesmo que as pessoas não mintam”, acrescenta.
Sondagens telefónicas refletem melhor as “mudanças mais recentes da opinião pública”
Já houve tempos em que a sub ou sobrepresentação do eleitorado se manifestava através de outros critérios. “Quando começaram a aparecer os telemóveis, as sondagens por telemóvel favoreciam o CDS, porque na altura eram as classes médias altas e altas que os tinham”, recorda Aguiar-Conraria. Esse problema já não existe, mas surgiram outros difíceis de ultrapassar.
Se no método do estudo de opinião se optar por ligar para números fixos, então a amostra fica hoje em dia reservada à já pequena percentagem de pessoas que instala o telefone em casa. Uma coisa é certa, garante o economista, com o passar dos anos continua a haver sempre possíveis “distorções e enviesamento“, dependendo da disponibilidade das pessoas para responder ao estudo de opinião.
Pedro Magalhães considera que “uma sondagem telefónica tenderá a refletir melhor as mudanças mais recentes da opinião pública” — por ser mais rápida. Mas nem isso é seguro, diz Luís Aguiar-Conraria, sugerindo que o ciclo de alteração de intenção de voto decorre com tal rapidez que a intenção de voto de um entrevistado pode até ter mudado no espaço de tempo entre a resposta e a publicação da sondagem. Ao contrário, a sondagem presencial traz a vantagem de ser “menos afetada por enviesamentos causados pela dificuldade em conseguir a colaboração de todo o tipo de eleitores”.
Sentido de voto pode mudar “por causa do efeito das próprias sondagens”
“As intenções das pessoas podem ser bastante voláteis e elas próprias influenciadas pelas sondagens”, continua Luís Aguiar-Conraria. “Admito que haja pessoas que dizem que vão votar António José Seguro porque ele está lá em cima nas sondagens e por causa do voto útil. “É perfeitamente razoável que há uns meses alguém tenha dito numa sondagem que iria votar Jorge Pinto e agora, que sabe que Seguro tem hipóteses de ir à segunda volta, tenha mudado de ideias.”
Aguiar-Conraria considera que as sondagens têm então o potencial de influenciar um voto estratégico: isto é, “quando as pessoas não votam no seu preferido, mas votam noutro porque querem votar em alguém que tenha reais possibilidades de chegar a algum lado”. “As pessoas que disseram em determinado momento que votariam num candidato não mentiram, se as eleições fossem nesse fim de semana poderiam ter votado nele; mas mudaram de sentido de voto por causa do efeito das próprias sondagens.”
Mas o próprio comportamento dos eleitores é difícil de medir em sondagens. Numa entrevista ao Observador, que juntou os quatro responsáveis pelas principais empresas de sondagens, António Salvador, fundador e responsável pela Intercampus, recordou a maioria alcançada por António Costa em 2022, que nenhuma sondagem antecipou e explicou o que falho: “Nos estudos eleitorais que fizemos a seguir, chegámos às seguintes conclusões: 24% dos votantes só decidiram na última semana; desses, 50% só decidiram nos últimos dois dias“. Não havia sondagem alguma que conseguisse refletir isso.
As “subidazinhas” das sondagens diárias que “inventam factos”
Para lá das potencialidades e fragilidades de cada método de recolha, existe um fenómeno que escapa às empresas de sondagem: a interpretação que jornais, jornalistas, comentadores e candidatos fazem delas. Exemplo disso mesmo mesmo é a tracking poll diária divulgada pela TVI/CNN e o impacto político e mediático que ela tem. Comparar as “sondagens de um dia com as do dia anterior”, com comentadores a debater as “subidazinhas“, acaba por dar uma “ideia de exatidão que não existe”.
O investigador da Universidade do Minho recorda que a margem de erro se torna maior consoante desce o número de entrevistados. Partindo de “amostras muito pequenas”, com cerca de 200 pessoas ouvidas, faz com que “uma subida de três ou quatro pontos estatisticamente não tenha qualquer significado”. Nesse caso, uma diferença de 0,2% no resultado da sondagem, por exemplo, pode somente representar uma pessoa, de todas aquelas que responderam ao questionário.
Só havendo “maneira de entrevistar 1000 pessoas todos os dias” é que os estudos de opinião diários partiriam de uma amostra em que as “margens de erro seriam as de uma sondagem normal”, sugere o mesmo Conraria. Uma análise jornalística e comentada feita diariamente tem potencial de “inventar factos que são puro acaso estatístico”. “A tracking poll é uma criação diária próxima do falso e do fake news. Acho que é lamentável.”
Na já referida entrevista aos quatro responsáveis pelas principais empresas de sondagem do país, António Gomes, diretor geral da GfK Metris, sugeria o mesmo: são e estão a ser feitas interpretações erradas daquelas sondagens. Se houvesse arredondamentos “não havia oscilação nenhuma” diária, uma vez que “objetivamente os candidatos estão todos empatados”. “Perante a fragmentação nas intenções de voto, estamos a usar uma lupa porque queremos ir à procura de algum tipo de oscilação que não existe. É tudo uma questão de enfoque”, referiu.
Alexandre Picoto, responsável pela Pitagórica, empresa que faz esta esta tracking poll para a TVI/CNN, defendeu o mesmo. “Muitas vezes não há subidas nem descidas. Os cinco principais candidatos estão no chamado empate técnico. Significa que o intervalo superior do último dos cinco candidatos toca no intervalo superior do primeiro. Portanto, em tese, todos os cinco podem passar à segunda volta. Mas entre o primeiro e o segundo a diferença é tão pequenina que dizer que é um que está em primeiro e o outro em segundo não faz qualquer sentido do ponto de vista da matemática.”
Mas objetivamente impactam na campanha, alteram comportamento dos eleitores e dos próprios candidatos, insiste Luís Aguiar-Conraria, que dá um exemplo ilustrativo disso mesmo: Luís Marques Mendes começou a campanha, e estava à frente nas sondagens, Luís Marques Mendes fez insistentemente o apelo ao voto útil à direita; só que agora está atrás e arrisca-se a provar o seu próprio veneno. “O argumento do voto útil virou-se contra ele”, ironiza o investigador. Ninguém disse que ia ser fácil.