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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

"Como diria o Forrest Gump, estas presidenciais são uma 'caixinha de bombons'". Entrevista aos responsáveis pelas sondagens

Em entrevista ao Observador, os responsáveis das principais empresas de sondagem defendem este instrumento, lamentam que se façam leituras erradas dos números e avisam: tudo pode acontecer no dia 18.

Cinco candidatos com reais hipóteses de passar à segunda volta, apenas duas vagas. Nas eleições mais imprevisíveis de sempre, haverá muito boa gente pressionada e a roer as unhas, mas talvez não tanto como quatro homens que não são sequer candidatos nestas presidenciais: os responsáveis pelos quatro principais centros de sondagem em Portugal.

Em entrevista ao Observador, no programa “Vichyssoise”, Alexandre Picoto, administrador da Pitagórica e responsável pela tracking poll da TVI/CNN, António Gomes, diretor geral da GfK Metris, António Salvador, fundador e responsável pela Intercampus, e João António, diretor do Centro de Estudos e Sondagens de Opinião da Universidade Católica, refletem sobre a má fama que as sondagens têm ganhado ao longo dos últimos anos e de que forma é que impactam numa campanha eleitoral.

Num ponto, todos concordam: olhar para os estudos de opinião que têm sido divulgados e concluir que há favoritos a passar à segunda volta — como fazem jornais, jornalistas, comentadores e políticos — é um erro que inquina tudo o resto. O que as pessoas devem reter, insistem, é que os cinco principais candidatos estão empatados nas intenções de voto e que portanto tudo pode acontecer a 18 de janeiro.

"Se houvesse uma lei que impedisse que impedisse, por exemplo, a publicação de sondagens nos últimos dois meses antes de uma eleição, os principais partidos, aqueles que têm mais dinheiro, continuariam a contratar sondagens. Elas continuariam a ser feitas, não eram publicadas, não eram do conhecimento público, mas seriam do conhecimento de alguém"

Afinal, podemos confiar nas sondagens?
[Alexandre Picoto:] Creio que se pode confiar nas sondagens. Aliás, de forma muito tangível e ao contrário do que é a maioria da opinião publicada e muitas vezes comentada, as sondagens, maioritariamente, têm apresentado resultados extraordinários. Em todo o caso, as sondagens têm de ser separadas em dois grandes grupos: as sondagens pré-eleitorais e as sondagens do dia, à boca da urna. À boca da urna, temos resultados históricos. Há alguns outliers [valores discrepantes] pontuais, que têm justificações. Mas, maioritariamente, as sondagens comportam-se bem e são confiáveis.

Mas como é que se justifica a oscilação a que temos assistido? Ora, um candidato surge em primeiro, ora surge em quinto, outro candidato surge com pouca percentagem nas intenções de voto, de repente, está no pódio…
[António Gomes:] Só nos parece que a oscilação porque estamos a usar uma lupa. Vou dar um exemplo: as sondagens são sempre um instrumento de uma previsão feita com base numa observação amostral e não censitária. Todos os manuais de estatística recomendam que, na divulgação destes resultados, se faça arredondamento. Ora bem, se fizéssemos arredondamento da fotografia que tínhamos, não havia oscilação nenhuma. Na verdade e objetivamente, os candidatos estão todos empatadas. E é precisamente por estarem todos empatados que, ao contrário daquilo que se vê noutras eleições, ficamos com uma estranha perceção de oscilações com significado. Perante a fragmentação nas intenções de voto, estamos a usar uma lupa porque queremos ir à procura de algum tipo de oscilação que não existe. É tudo uma questão de enfoque.

São os jornais e os órgãos de comunicação social que interpretam mal as sondagens?
[António Salvador:] Há uma série de questões que não permitem olhar para as sondagens com o mesmo cuidado que eu gostaria. Por outro lado, concordo plenamente com aquilo que o António Gomes e tenho duas certezas: vai haver a segunda volta e se André Ventura for um dos presentes nessa segunda volta o outro candidato será o Presidente da República. Com a margem de erro, com os indecisos e com a quantidade de declarados abstencionistas — que é sempre muito inferior àquilo que de facto se vem a verificar —, não há mais garantias de nada. Depois, há questões que podiam ser mais detalhadas. Por exemplo, a fidelização das estruturas partidárias. Essa fidelização é muito mais significativa com André Aventura. Na nossa última sondagem, Marques Mendes tinha o suporte de apenas 47,1% dos apoiantes PSD; António José Seguro tinha 41,7%.

E isso torna mais difícil medi-los nas intenções de voto?
Torna mais difícil antever. Já agora: as sondagens não são previsões; as previsões são feitas apenas à boca das urnas. É lá que entrevistamos o universo adequado, o dos votantes. Nas sondagens, falamos com os potenciais eleitores e só alguns deles vão ser votantes, são meros retratos do momento. Agora que começou a campanha eleitoral formal, manter-se-ão estes níveis de fidelização? Ou as estruturas partidárias aumentarão os seus apoios? E que efeitos terão as acusações mútuas, por exemplo, entre Henrique Gouveia e Melo e Marques Mendes? E Pedro Passos Coelho continuará calado? Tudo isso pode influenciar a decisão do eleitor e do votante. E creio que os portugueses vão votar, nesta primeira volta, muito a pensar na segunda, algo que não aconteceu há 40 anos.

Porquê?
Normalmente, uma primeira volta mostra-nos as preferências. Na segunda, juntam-se as rejeições. Agora, penso que se vai juntar o entusiasmo natural que cada candidatura pode transmitir à racionalidade. E isso pode significar maior volatilidade.

"Nos estudos eleitorais que fizemos, chegámos às seguintes conclusões: 24% dos votantes só decidiram na última semana; desses, 50% só decidiram nos últimos dois dias. Portanto, a indecisão era, de facto, muito grande"
António Salvador, fundador e responsável pela Intercampus

Nos últimos atos eleitorais, as sondagens tiveram dificuldades em antecipar alguns fenómenos — a maioria de António Costa ou os 50 deputados do Chega, por exemplo. Podemos acordar a 19 de janeiro com um resultado muito diferente da tendência verificada nesta campanha?
[João António:] Em 2022, houve uma concentração de voto no PS de última hora, temos estudos posteriores que demonstraram isso mesmo, era algo que não estava previsto. Neste caso, está tudo empatado. É muito difícil saber quem é que realmente está à frente ou não nestas eleições. E isto acontece por vários motivos. À partida, não temos um candidato ganhador como já tivemos noutras eleições. Não temos ninguém que se aproxime dos 45% nas intenções de voto. Depois, há alguns candidatos, como António José Seguro ou Cotrim Figueiredo, que têm vindo a subir nas sondagens, no início teriam uma desconfiança que agora não têm, estão a conquistar as pessoas que desconfiavam deles. No caso de Seguro, o que se vê hoje é que há muito mais pessoas no PS a apoiá-lo do que havia no início da campanha — e isso não tem nada a ver com as sondagens; tem mesmo a ver com o próprio desenvolvimento da campanha e da pré-campanha.

"Não podemos falar em surpresas. Os resultados que existem hoje não permitem falar em surpresas [no dia 18] exceto se nós próprios partirmos de um princípio que, não obstante estarem todos empatados, há favoritos. Os resultados hoje dizem-nos que pode passar qualquer dupla"
António Gomes, diretor-geral da GfK Metris

A Pitagórica tem uma sondagem diária — a Tracking Poll — que os jornalistas apreciam muito e que os candidatos, pelo menos aqueles que estão a descer, não gostam particularmente. Alexandre Picoto, como é que esta sondagem impacta e influencia a campanha?
[Alexandre Picoto:] Deixe-me só acrescentar um argumento à questão levantada pelo António Gomes. Há uns anos, se falássemos em questionários sobre detergentes para a roupa, a maioria das pessoas utilizaria sempre Skip. Isso foi-se fragmentando. Apliquemos à política: se falarmos com eleitores mais velhos, vão dizer que votam sempre no mesmo partido; se falarmos com eleitores jovens, a fidelização partidária é muito inferior, encontram em cada momento o melhor candidato, o melhor partido ou as melhores circunstâncias. No passado tínhamos mais eleitores com alto nível de fidelização e muito menos oscilação nas sondagens. Quantas pessoas conhecem na vossa vida pessoal que dizem ter dúvidas e que não sabem em quem vão votar? As pessoas já não são do partido A do nascimento à morte e isso faz com que estejam mais atentas e mais sensíveis a pequenos inputs que podem alterar os seus comportamentos.

Voltando às subidas e descidas da tracking poll.
Muitas vezes não há subidas nem descidas. Reparem, ontem [quarta-feira], os cinco principais candidatos estavam no chamado empate técnico. Significa que o intervalo superior do último dos cinco candidatos toca no intervalo superior do primeiro. Portanto, em tese, todos os cinco podem passar à segunda volta. Mas entre o primeiro e o segundo a diferença é tão pequenina que dizer que é um que está em primeiro e o outro em segundo não faz qualquer sentido do ponto de vista da matemática.

Em todo o caso, como há uma hierarquização.
E é isso que as pessoas querem, é isso que o jornalismo quer. Uma perceção. Se influencia? Claro que influencia. E altera comportamentos? Claro que altera comportamentos. Da mesma forma que se estiver a pensar fazer um piquenique no fim de semana e souber que vai chover, provavelmente muda para ir a um shopping ou ao cinema. Mais informação permite às pessoas alterarem as suas mesmas conclusões. Em algumas, não gera nenhum impacto. Um dia, pedi ao meu pai que não votasse num determinado candidato e ele respondeu-me que não era vir a casacas. Ou seja, alguns eleitores têm para com o voto um comportamento que não é igual ao de outros. Quanto menor a fidelização natural, maior as oscilações nós vamos assistir.

Durante muitos anos discutiu-se a questão do “voto envergonhado” com o CDS e hoje fala-se desse fenóneno com o Chega. Isso pode acontecer nesta campanha?
[António Gomes:] Primeiro, o voto envergonhado resulta da força política com a qual o eleitor se identifica ter um peso relativo inferior. Em consequência, ele não se sente confortável para dizer a terceiros que vota numa coisa que tem uma expressão percentual residual ou potencialmente residual. Depois, há um outro tipo de voto envergonhado: tem que ver com o tal espiral do silêncio. São eleitores que estão protegidos por uma barragem de crítica do ponto de vista social e permanecem fiéis, mas não o manifestam de forma pública.

E acha que esse comportamento pode estar a acontecer nestas presidenciais?
Não me parece. A própria natureza fragmentada da intenção de voto atual coloca outro tipo de desafios para as pessoas. São muitos candidatos, muitos com possibilidade de vencer. Já agora, uma provocação: perguntou há instantes se poderia haver surpresas nesta eleição. Não podemos falar em surpresas. Os resultados que existem hoje não permitem falar em surpresas [no dia 18] exceto se nós próprios partirmos de um princípio que, não obstante estarem todos empatados, há favoritos. Os resultados hoje dizem-nos que pode passar qualquer dupla. É bom que as pessoas percebam isso. A não ser que alguma coisa aconteça até a meados da próxima semana ou então vai mesmo ser, como diria o Forrest Gump, uma “caixinha de bombons”, em que só depois de abrir é que se sabe.

"Em tese, todos os cinco podem passar à segunda volta. Mas entre o primeiro e o segundo a diferença é tão pequenina que dizer que é um que está em primeiro e o outro em segundo não faz qualquer sentido do ponto de vista da matemática"
Alexandre Picoto, administrador da Pitagórica e responsável pela tracking poll da TVI/CNN

O que é que pode acontecer do ponto de vista da campanha eleitoral que determine ou mude drasticamente o desenrolar da corrida?
[António Salvador:] Voltando àquilo que aconteceu com António Costa. Nos estudos eleitorais que fizemos, chegámos às seguintes conclusões: 24% dos votantes só decidiram na última semana; desses, 50% só decidiram nos últimos dois dias. Portanto, a indecisão era, de facto, muito grande.

E acha que isso pode acontecer também na primeira volta?
Sim. As pessoas vão votar na primeira volta a pensar na segunda e isto pode significar maior volatilidade. Não me lembro de ter vivido uma situação de incerteza tão grande. É muito cedo, com os números que temos, falar em eventuais surpresas. Estão todos empatados. Não estou a jogar à defesa. É genuinamente aquilo que penso.

No debate político, temos assistido a críticas críticas às empresas de sondagem, e mais do que críticas, à defesa da necessidade de se reverem as regras de realização e publicação das sondagens. É um debate que faz sentido?
[João António:] Sobre se deveriam ser proibidas em alturas de campanhas eleitorais, se deveria ser alargado o período no qual elas não podem ser publicadas…? Acho que vale sempre a pena discutir, mas há um pequeno problema: as sondagens não deixarão de ser feitas. O que estamos aqui a falar é de sondagens que são públicas, que são conhecidas de todas as pessoas. Se houvesse uma lei que impedisse que impedisse, por exemplo, a publicação de sondagens nos últimos dois meses antes de uma eleição, os principais partidos, aqueles que têm mais dinheiro, continuariam a contratar sondagens. Elas continuariam a ser feitas, não eram publicadas, não eram do conhecimento público, mas seriam do conhecimento de alguém. Há países em que é proibido. E em Portugal isso já aconteceu. Mas era publicado no outro lado. Aliás, agora, até se pode publicar nas redes sociais. Seria sempre do conhecimento de alguns e o ser do conhecimento de alguns.

[Ouça aqui a Vichyssoise]

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