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O último livro de Julian Barnes: um escritor e o sentido de um fim

Em "A Partida", Julian Barnes escreve sobre a existência, as relações e os vazios. Temas recorrentes na obra do inglês, que aqui tem o anunciado romance final, a despedida de uma elegância literária.

Chega-se ao fim do livro como quem entra num velório. É o último de Julian Barnes (n. 1946), talvez o mais elegante entre os escritores vivos, que decidiu terminar o diálogo por aqui. Com livros coesos, transformadores, impactantes, até traumatizantes, o autor inglês criou uma voz única, cujas elevação e sofisticação são indeléveis.

Lá para o fim do livro (que é publicado esta quinta-feira, 22 de janeiro), Barnes diz quem é, embora já o soubéssemos. E fala directamente connosco, seus leitores, que, em especial neste título, o ouvimos contar-nos uma história. A voz é dele, ou o escritor assume-a como tal, o que dá no mesmo, e por isso aprofunda-se a relação de intimidade. É só ele quem conta, mas tudo isto é diálogo, ou visionamento a dois. Leia-se:

Quando me perguntam sobre o modo como vejo o nosso relacionamento, respondo que não sou um escritor didático. Não digo como devem pensar ou viver. Não escrevo ex cathedra: os romancistas não devem falar com os leitores partindo do princípio de que são mais sábios. Em vez disso, prefiro uma imagem do escritor e do leitor na esplanada de um café numa cidade não identificada de um país não identificado. O tempo está agradável e temos uma bebida gelada à nossa frente. Lado a lado, olhamos para as muitas e variadas expressões de vida que passam diante de nós. Observamos e trocamos impressões.” (p. 184)

Sobre este pequeno excerto, duas notas:

1) É por fugir a essa ideia do “sábio que ensina” que Barnes se faz mais sábio. Lê-lo implica acompanhar-lhe as dúvidas, o que é refrescante num tempo de tantas certezas, tempo em que o indivíduo usa o discurso para tentar convencer o outro — isto vindo do autor que ainda há pouco tempo nos deu Mudar de Ideias. Ora, ao invés da performatividade assertiva da convicção, Barnes tacteia a vida em busca de entendimento, tendo sempre a fineza e a inteligência de nunca chegar a entender tudo. Para o leitor, é a dúvida que expande a experiência da vida humana. Barnes serpenteia, devagar, com passos seguros, ainda assim, pela existência, pelas relações e, sobretudo, pelos vazios. No decorrer da sua obra, muitas são as páginas sobre os silêncios entre amantes, sobre os anos sem contacto, como pode ver-se neste Partida (já lá vamos).

2) Se o diálogo é uma proposta, não espantará que cada dialogante proponha o seu. É engraçado que Barnes nos imagine aos dois (a mim e a ele) numa esplanada de um dia quente com uma bebida fresca à frente. Sempre me imaginei com ele no maior clichê da Inglaterra rural: nós os dois numa casa de pedra, talvez em Snowshill, que fui buscar à Bridget Jones, e ele a contar-me, com a sua seráfica calma e a sua voz enrugada, uma história qualquer, adicionando-lhe as perguntas, cogitando-lhe as respostas. Lá fora, o frio que não temos neste canto quente da Europa; lá dentro, um chá numa chávena, mas chá a sério, à english man, nada de infusões de morango e baunilha, para meu infortúnio.

▲ A capa de "Partida", o novo — e último livro — de Julian Barnes, na edição portuguesa da Quetzal

Barnes assume que a escrita é diálogo e o seu tom misto, algo entre o ensaio e a ficção, ajuda a compor esta ideia. À medida que conta, Barnes teoriza, explica, tenta entender. Não apenas descreve as tais “expressões de vida”, como tenta ir ao âmago, às razões pelas quais a existência se expressa de maneira tal e tal. Nisto, creio que A Única História será o livro mais paradigmático: nele, vemos uma relação amorosa entre duas pessoas de idades muito diferentes (Paul tem 19 e Susan tem 48), uma das quais inicialmente casada. Ao longo da narrativa, Barnes explora os silêncios, as expectativas defraudadas, a linha temporal como hipótese e ao mesmo tempo certeza – talvez as coisas nunca possam mesmo ser de outra maneira. Há um quê de determinismo até na ideia de escolha, e é isso que torna o romance tão cru, tão bruto e tão triste tantas vezes.

Com a passagem dos anos, Susan fica quase decrépita, alcoólica, e Paul fica preso a ela porque o amor é uma condição inultrapassável e porque a vida se foi fazendo com um a ser parte do outro. O que, inicialmente, aparece como inconveniente (a diferença de idades) acaba por avançar na narrativa em catadupa com tudo o que tem de problemático, e o amor une e salva, mas no caso acaba por agrilhoar numa relação desigual em que uma das partes fica dependente. Nesse livro — talvez o melhor de Barnes —, a elegância do autor é ímpar, e aconteceu-me ali o mesmo que me aconteceu neste Partida: dei por mim de água na boca, suspensa numa frase, deserta por demorar-me nela e, ao mesmo tempo, avançar para a seguinte, sabendo que não há nada tão erótico quanto um parágrafo bem feito.

E se A Única História me parece o melhor livro de Barnes, O Sentido de um Fim parece-me o mais perfeito. Perdoe quem achar que são sinónimos: no caso do último, interessam-me o arco, o baque, o espanto. A sensação de ter sido levada ao engano desde o início, e depois levada a bom porto. Nisto, não divergi de Tony Webster, a quem aconteceu o mesmo: já reformado, recebeu o diário de Adrian Finn, amigo do liceu, o que levou a reinterpretar eventos acontecidos 40 anos antes, incluindo a morte de Adrian. É no fim do livro que as pontas se unem, e a história fica inteligível, com Barnes a mostrar um exemplo em que os truques da memória criam mal entendidos que podem durar a vida inteira.

Todos os escritores têm um último livro, mas o que é aqui atípico é o gesto de anunciar, inclusive dentro do romance, esse fim, despedindo-se dos leitores. Ou seja, chega-se ao fim de Partida sabendo que se chega ao fim da escrita de Barnes enquanto relação dialógica pública, o que marca a leitura com um sabor agridoce: a doçura das palavras de seda de Barnes, a agrura do fim da relação.

Ora, esta ideia traz-nos de novo a Partida. Neste romance, o próprio Julian Barnes diz-se narrador, e não vou sequer especular sobre a minha própria benevolência (citando Garrett) ou credulidade de leitora. Pouco me importa se o que está lá dentro é verdade ou não, se Stephan e Jean existem fora do papel. Importa o que está lá dentro: uma relação com 40 anos de intervalo, uma recuperação do vínculo que não nasce por acaso, mas por acção dele, e o que fica entre um casal que viveu a vida apartado e depois tenta descobrir-se, já depois de ter descoberto outras vidas e de ter romantizado ou esquecido o outro membro.

O narrador aparece como ponto de contacto, conversando com um e com outro, e ver as duas versões do mesmo evento, não raras vezes logo de seguida, é ver a vida e a literatura a acontecer: a vida, porque se faz de tantos mal entendidos, tantas discórdias, tantos equívocos, tantas discussões de coisa pouca, tantas irritações de trazer por casa; a literatura, porque vive dos silêncios, da fuga, da brecha, da ruga, da imperfeição, da falha e do defeito. Enquanto conta a história, o narrador mete-se em considerações que sabem a não-ficção, criando este género híbrido que já apareceu noutros livros. Aliás, a própria Jean comenta o hibridismo: “Esta coisa híbrida que tu fazes… Acho que é um erro. Devias escolher entre uma coisa e outra” (p. 83). Ora, o narrador reganha a compostura, não se sabe se para ela ou para um eventual leitor: “Não me importo que não gostes dos meus livros, mas estás enganada se pensas que não sei exatamente o que estou a fazer quando os escrevo” (p. 83).

Barnes despede-se dos leitores à volta de um casal em fim de vida. Apresenta-se como já velho, apresenta-os como velhos, mas velhos a quem a vida continua a acontecer. Depois, deixa-nos estar uns minutos com ele à mesa, no caso à mesa da tal esplanada em que nos imaginou o tempo todo – e que para mim é a tal casinha de pedra onde morou a Bridget Jones. Bem diz que não é didático, e é por não o ser que consegue ensinar tanto, expandindo a dúvida e a vida e parecendo atirar-nos, com a mais perfeita delicadeza, esta última como pedra esculpida e bela e pujante ao mesmo tempo. Ele que viu a mulher morrer 37 dias depois de ter sido diagnosticada com um tumor cerebral. Ele, também, que faz quimioterapia diariamente contra o cancro sanguíneo que o acompanha desde 2020.

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▲ Julian Barnes fotografado em casa, na altura da publicação de "O Papagaio de Flaubert", de 1983, que haveria de ser nomeado para o Booker Prize (prémio que venceu em 2011 com "O Sentido de um Fim")

Corbis via Getty Images

Nesta fase do texto, é-me impossível ignorar o elefante no meio da sala. Todos os escritores têm um último livro, mas o que é aqui atípico é o gesto de anunciar, inclusive dentro do romance, esse fim, despedindo-se dos leitores. Ou seja, chega-se ao fim de Partida sabendo que se chega ao fim da escrita de Barnes enquanto relação dialógica pública, o que marca a leitura com um sabor agridoce: a doçura das palavras de seda de Barnes, a agrura do fim da relação.

Como escritora, crítica literária e leitora, admito a minha dificuldade em perceber a decisão como coisa tão redonda, tão comunicada, já que a escrita me parece mais uma forma de estar na vida, e de pensá-la, do que uma atividade cujo fim está pré-definido no calendário. Indiferente às minhas dificuldades, Barnes fez o que entendeu, que nada deve à expectativa de leitor nenhum, e inscreveu a decisão na obra, transformando-a em matéria literária, num gesto que é também performativo, já que reconfigura o lugar do texto e pesa na leitura – ou seja, vai-se mais devagar para as folhas não nos escaparem pelos dedos, numa espécie de reencontro já só com sabor a coisa póstuma.

A idade vai avançada — Barnes fez 80 anos neste início de 2026 — ainda que escrever não seja o mesmo que praticar jiu jitsu, e por isso talvez o cansaço não seja físico, etário, mas ontológico. É verdade que Barnes, que não tem uma obra particularmente extensa (estreou-se depois dos 30 com Metroland, mas a escrita já era a sua vida, como é a de qualquer crítico, como ele foi, nomeadamente na revista New Statesman), tem marcados na prosa os seus temas de eleição, e talvez venha a sentir uma de duas coisas: ou que se repete ou que não quer repetir-se. E, se assim for, a sua voz literária fica atravessada por uma ética implícita, em que se recusa a escrita como mera continuação, como repetição de uma voz em que já disse o que tinha a dizer. De um olhar que se esgotou, talvez? Tudo isso (me) é estranho, porque a escrita é forçosamente a renovação de um olhar, mas que sei eu?

Quem é assim deixado, por vontade alheia, não tem como lidar bem nem sequer levar a bem. Esta despedida tem sabor de velório. E, num velório, por muito que se saiba que não há nada a fazer, não se deixa de ter vontade de ir lá dizer: "Não, Julian, não vás embora. Diz só mais qualquer coisa".

Barnes pôs o ponto final, continuou vivo. Continuará na mesma a ser um escritor, e um tão bom e tão grande, ainda que não escreva. Sê-lo-á pelo que fez, num estado quase espectral, quase senador de si mesmo. E nisto, a relação por parte dos leitores com Barnes (ou a minha, vá) parece existir num luto antecipado, já que não é pela certeza da morte que o autor se retira da nossa conversa a sós. Tantas vezes lá voltei, em especial a A Única História, para repensar o amor, a perda, o tempo, a memória, o erro, a alegria, a esperança, e lá continuarei a voltar não só sem matéria nova, mas também com a consciência de que, das suas mãos, já tenho a matéria toda e que Barnes, ao invés de um vazio, deixou mil ecos, livros caleidoscópicos, prosa para ser lida devagar, saboreada.

Ora, por educado que tenha sido, Barnes retirou-se unilateralmente da relação que estabeleci com ele durante tantos anos. Quem é assim deixado, por vontade alheia, não tem como lidar bem nem sequer levar a bem. Esta despedida tem sabor de velório. E, num velório, por muito que se saiba que não há nada a fazer, não se deixa de ter vontade de ir lá dizer: “Não, Julian, não vás embora. Diz só mais qualquer coisa”.

A autora escreve segundo o antigo acordo ortográfico.

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