A Rádio Observador reuniu, pela primeira vez, os seis candidatos à Câmara do Porto para as eleições autárquicas de 12 de outubro. Durante uma hora e meia, os candidatos discutiram os temas da habitação, do turismo, da mobilidade — onde o Metrobus voltou a estar no centro — e “bengalas”. Isto porque o debate foi marcado pela notícia do Observador que dá conta de que há candidatos do PS às autárquicas que assinaram a candidatura de Filipe Araújo (que não tinha participado no debate da SIC), o que levou a acesas acusações entre Araújo, Pedro Duarte e Manuel Pizarro.
“Pedro Duarte diz muitas vezes que somos uma bengala, só tenho uma bengala, que é a da queima das fitas”, começou por atirar o candidato independente, com o ex-ministro a responder que “o PS é que tem uma bengala”. Filipe Araújo voltou à carga, tentando colar o ex-ministro à ideia de que o Porto tem habitantes a mais — e Pedro Duarte pediu para “repor a verdade” falando da “candidatura dita independente, que assume ser ponta de lança do PS neste debate”.
O tema das assinaturas voltou a vir ao de cima na reta final do debate, com os ânimos a aquecerem: Pizarro disse que “não faz ideia” e que deve ser reflexo do espírito “livre” do Porto, Araújo atirou ao candidato do PSD (“há partidos que o que fazem é insinuar coisas”) e Pedro Duarte acusou o movimento independente de servir “para dividir um eleitorado”. Daí para a discussão sobre se Duarte convidou ou não Araújo para a vice-presidência, foi um passo: Pedro Duarte disse que “nunca” houve convite, Filipe Araújo acusou-o de “faltar à verdade”.
Sobre outros temas, a discussão sobre a habitação ficou marcada pelas medidas anunciadas esta quinta-feira pelo Governo, com Pizarro a dizer na prática que o Executivo lhe roubou a ideia e Diana Ferreira a criticar o teto às “rendas moderadas” de 2.300 euros. Pedro Duarte, Filipe Araújo e Sérgio Aires aproveitaram a questão da habitação para lançarem farpas a outros — com o candidato do Bloco a apelar aos adversários para que “tomem a medicação” — e Miguel Corte-Real a criticar os colegas de painel por entrarem “num leilão de número de casas”.
No turismo, a discussão centrou-se no debate sobre se o Porto tem “turistas a mais” e foram invocadas a ideias de “monocultura económica do turismo”, “melhor turismo” e manutenção da “natureza identitária” do Porto. Já sobre a mobilidade, o Metrobus dominou toda a discussão, com críticas de todos os candidatos e o empurrar de responsabilidade: Pedro Duarte acusou o PS de fazer “flique-flaque” naquele que definou como “um MetroPS”, Pizarro respondeu questionando porque é que o ex-ministro das Infraestruturas não afastou a administração do Metro do Porto quando tinha a pasta e Miguel Corte-Real, do Chega, acabou por ser o mais incisivo ao dizer que foi “tudo mal feito”, com obras “estapafúrdias” e “tanta coisa para no fim ser um autocarro”.
Por fim, na questão da governação e de alianças, ninguém abriu o jogo. Manuel Pizarro disse ter “provas dadas de diálogo”, Diana Ferreira garantiu que quer “o reforço da CDU” e que os comunistas estão prontos para “contribuir para soluções”, Sérgio Aires defendeu um acordo para distribuir pelouros entre todos os vereadores e Miguel Corte Real declarou que “não pode haver linhas vermelhas nem linhas azuis”.
O Observador seguiu e avaliou os debates para as eleições autárquicas de 12 de outubro. Um painel de comentadores deu notas de 1 a 20 num “E o Vencedor é…” — à semelhança do programa e podcast da Rádio Observador — a cada um dos protagonistas dos principais debates. Além da avaliação de quem ganhou, há um texto de apreciação ao próprio debate.
Diana Ferreira (CDU)
Manuel Pizarro (PS)
Pedro Duarte (PSD/CDS/IL)
Miguel Corte-Real (Chega)
Sérgio Aires (BE)
Filipe Araújo (Independente)
Ana Sanlez — Há uma certa beleza nas campanhas autárquicas, mais do que noutras eleições, que é ver aproximações entre partidos que estão habitualmente nos antípodas. Aconteceu neste debate com Pedro Duarte, do PSD, e Diana Ferreira, da CDU, sobre as portagens na CREP, mas também com Miguel Corte-Real, do Chega, e Sérgio Aires do Bloco de Esquerda, sobre as “linhas vermelhas” na governação das cidades, que na visão dos candidatos não devem existir. É bonito.
Manuel Pizarro entrava neste debate ligeiramente galvanizado com a sondagem do dia, que lhe dá uma pequena vantagem sobre Pedro Duarte. Foi descredibilizado na questão da habitação, com mais do que um candidato a considerar pouco credível (e cara) a sua intenção de construir cinco mil casas. Tentou picar-se com Pedro Duarte no tema do Metrobus (se há algo que vamos levar destas autárquicas é o conceito de Metrobus. É um metro? É um autocarro? Ainda não há consenso) e acabou por levar a melhor, ao colar o ex-ministro ao atual Governo. Serviu-se de alguma fanfarronice, ao dizer que “quando eu for presidente não se fará obra no Porto sem autorização da Câmara”, mas saiu melhor que Pedro Duarte na discussão sobre o “MetroPS”, até porque Pedro Duarte tentou justificar a decisão de manter a administração do metro até ao final do mandato ao mesmo tempo que insinuou que esta teria sido substituída se o Governo não tivesse caído.
O candidato do PSD foi, aliás, algo confuso em mais do que uma ocasião. Ainda não se percebeu muito bem se quer ou não mais pessoas no Porto, o que se calhar convém esclarecer até 12 de outubro.
Miguel Corte-Real, do Chega, tem uma característica que só na noite eleitoral é que se vai perceber se o beneficia. Quem estivesse a ouvir este debate sem saber quem é quem, não associaria imediatamente o candidato ao partido de André Ventura. Mais polido que o estilo habitual do partido e com ideias que vão além do discurso anti-imigração e anti-corrupção do Chega (uma delas até implica aumentar os subsídios para a habitação).
Diana Ferreira, da CDU, não aqueceu nem arrefeceu. O partido considerará que cumpriu, já que não se desviou uma agulha do discurso comunista. Sérgio Aires, do Bloco, é o candidato com um discurso mais “corriqueiro”, tenta ser engraçado e insistiu com uma piada sobre “tomar a medicação” que acabou por ser mais “cringe”, como dizem os miúdos, do que eficaz.
Filipe Araújo, que tinha aqui uma oportunidade para se mostrar, passou mais tempo a defender o legado de Rui Moreira (e o seu próprio) do que a apresentar novas ideias, o que pode ter sido insuficiente para lhe suceder.
Luís Rosa — Foi um debate muito diferente do que aquele que tivemos na SIC. Em primeiro lugar, porque foi no Porto (facto que nenhum candidato evidenciou, mesmo Sérgio Aires que tinha ficado triste por ter vindo anteriormente “à capital do Império” — Lisboa para quem não percebe o dialeto bairrista do Porto) e porque não teve nenhum moderador nascido no Porto (o que não perturbou Miguel Corte-Real). E, em segundo lugar, porque a dinâmica do debate foi completamente alterada com a participação de Filipe Araújo, o número 2 de Rui Moreira que se candidata à Câmara do Porto como independente. Em vez de termos um debate a dois, entre Pedro Duarte (coligação AD + IL) e Manuel Pizarro (PS), tivemos Araújo como terceiro protagonista na vez de Miguel Corte-Real (Chega). E em vez de termos apenas duas conceções de cidade em debate (a cidade da construção de Pizarro vs a cidade da qualidade de vida de Duarte), passamos a ter a defesa da obra de Rui Moreira (bem) feita por Araújo, que assumiu a função de incumbente. Araújo foi intenso, agressivo e promoveu uma aliança informal com Pizarro para atacar à vez Pedro Duarte. É verdade que também atacou o PS pelo projeto do Metrobus (planeado e executado por uma administração socialista) e por “números irrealistas” de Pizarro ao prometer 5.000 novas casas mas foi claramente mais duro com Pedro Duarte do que com o socialista, sendo parcialmente bem sucedido com o número do “Pedro” e do “Duarte” e com a sua estocada final de ter sido convidado para ser n.º 2 da coligação do centro-direita — que Pedro Duarte desmente. Contudo, os contra-ataques de Pedro Duarte a Filipe Araújo também foram bem sucedidos, nomeadamente com a ideia de ser uma bengala do PS — dando como fundamento o facto de ter vários apoiantes em comum com Manuel Pizarro e, já agora, o seu posicionamento neste debate da Rádio Observador. A candidatura de Filipe Araújo pode não valer grande coisa nas sondagens mas o pouco que vale pode ser decisivo para o resultado final de 12 de outubro, tal é a situação de empate técnico entre Pedro Duarte e Manuel Pizarro.
Em relação aos dois principais candidatos, Duarte não esteve tão bem como no primeiro debate (muito por causa de Araújo) mas mesmo assim esteve ligeiramente melhor do que Pizarro. Foi mais eficaz nos temas da habitação e do Metrobus (os dois principais temas da campanha) e beneficiou muito do facto de o socialista ter feito marcha-atrás na narrativa sobre aquele polémico projeto de mobilidade para a zona da Boavista — que antes queria apenas concretizar e que agora já critica abertamente, nomeadamente o início da 2.ª fase que foi anunciado em carta aos portuenses pelo diretor de comunicação do Metro do Porto, um seu destacado apoiante.
Última nota para os restantes candidatos. Miguel Corte-Real esteve mais apagado mas voltou a estar genericamente bem, marcando pontos claros na defesa do Alojamento Local. Já Sérgio Aires, sempre aguerrido, merece uma nota negativa pela visão conspirativa que tem sobre precisamente sobre esta atividade económica: um negócio dominado por “três ou quatro empresas internacionais” com ligações a empresas sediadas em paraísos fiscais. Uma acusação à Trump e para o qual o candidato não mostrou qualquer prova. E, finalmente, uma confirmação: Diana Ferreira é mesmo a candidata mais fraca em competição — e que acha que a classe média deve ser esmifrada em impostos e taxas municipais mas não é merecedora de qualquer espécie de apoio público em termos de arrendamento.
Miguel Santos Carrapatoso — Este debate era uma grande oportunidade para Pedro Duarte tentar recuperar a aparente desvantagem que tem em relação a Manuel Pizarro — sobretudo tendo acontecido poucas horas depois de o Expresso ter divulgado (mais) uma sondagem que sugere que o social-democrata está com dificuldades em descolar. Era uma grande oportunidade e não se pode dizer que Pedro Duarte a tenha aproveitado. Pelo contrário. Por maioria de razão, Manuel Pizarro, que só precisava de não cometer erros, levitou durante o debate, sem grande dificuldade. Há, todavia, uma questão difícil de avaliar: o ‘protecionismo’ de Pedro Duarte, a ideia de que a cidade tem de ser para os “filhos do Porto”, pode ter um especial apelo junto dos eleitores do Porto — que não são os eleitores de Lisboa. A ver. Filipe Araújo, não tendo sido brilhante, agarrou-se ao facto de ter sido número dois de Rui Moreira — é o grande (e único) trunfo do independente. Mais por falta de talento de Pedro Duarte do que por mérito próprio, conseguiu que não se falasse muito sobre o facto de ser uma alegada “bengala” de Manuel Pizarro. Miguel Corte-Real é outro caso de difícil análise: articulado, construtivo, conhecedor dos dossiês e muito distante do arquétipo de candidato do Chega. Eleva o debate? Sim. Mobiliza verdadeiramente o eleitorado do Chega? Improvável. A terminar, Diana Ferreira e Sérgio Aires. A candidata comunista não se desviou um milímetro do guião do PCP, mas está a anos-luz de Ilda Figueiredo. Já o bloquista decidiu ir para o debate fazer graçolas. Até por isso, Manuel Pizarro é um homem de sorte.
Miguel Pinheiro — Se as sondagens estiverem certas, e se de facto Manuel Pizarro estiver ligeiramente à frente de Pedro Duarte, então o candidato do PS só precisava de acabar o debate na Rádio Observador sem dizer um grande disparate — e conseguiu.
O candidato do PSD, pelo contrário, precisava de acabar o debate mostrando um enorme brilhantismo e dramatizando o apelo ao voto útil — e não conseguiu. Pior: embrulhou-se na confusão da sua tese sobre o facto de já haver pessoas suficientes a viver no Porto (ou o contrário disto, não percebi bem). E, no final, enfiou-se num buraco ao falar sobre a não demissão da administração da Metro do Porto pelo governo, sobre a polémica das assinaturas socialistas na candidatura de Filipe Araújo e sobre o eventual convite a Araújo para ser o seu número dois nesta campanha.
Miguel Corte-Real apresentou-se como um Chega bem comportado e muito “moderado”: não berrou sobre imigrantes, nem sobre corrupção, nem sobre “tachos”. Isto resulta? Não sabemos.
Filipe Araújo adaptou a frase do rei Luís XIV: em vez de “O Estado sou eu”, repetiu insistentemente “Rui Moreira sou eu”. Como argumento de campanha, talvez seja curto.
Quanto a Sérgio Aires, do BE, e Diana Ferreira, da CDU, pode dizer-se que estiveram presentes no debate.
Pedro Jorge Castro — Um Presidente da Câmara tem de estar preparado para viver debaixo de fogo. Enfrentar as críticas. Respirar fundo sem se notar. Rebater sem acrimónia. Argumentar com clareza. Contrapor a sua visão de forma apaixonada e cativante. Pedro Duarte deixou o Governo para tentar a sua cadeira de sonho na segunda maior cidade do país. Não lhe falta experiência política, nem seguramente paixão pela cidade. Mas falta o vento: está atrás de Manuel Pizarro nas sondagens, tem menos margem de erro e não pode desperdiçar oportunidades para marcar pontos. Correu-lhe mal este debate da Rádio Observador. Foi o alvo de todos e acabou por ser pouco eficaz nos tópicos principais: na habitação, elege como prioridade quem vive no Porto, esquecendo que muitos destes eleitores não conseguem casa para os filhos na cidade; no escândalo do Metrobus, apesar de todas as responsabilidades que vêm do tempo do PS, é acusado de inação por o Governo não ter mudado a administração da Metro do Porto; e ainda acabou a ver a sua credibilidade posta em causa pelo convite do PSD a Filipe Araújo para número 2.
Pizarro só precisou de não se estampar, reagir com uma ou duas graças à polémica sobre os candidatos do PS que deram assinaturas para viabilizar a candidatura de Filipe Araújo, contrapor a visão de uma cidade dinâmica que volta a ganhar habitantes e atacar a responsabilidade governativa de Pedro Duarte.
Miguel Corte-Real é o mais eficaz a destruir o Metrobus e mostra preparação para discutir a cidade. No resto, pode conseguir capitalizar votos de protesto por aparecer ao lado de Ventura nos cartazes, sem ter de recorrer à linguagem e aos métodos do líder do Chega.
Filipe Araújo começou nervoso, desferiu duros ataques a Pedro Duarte, mas também não se impôs como herdeiro do que houve de positivo nos mandatos de Rui Moreira, de quem tem sido vice-presidente. Culpar o Ministério das Infra-estruturas é curto: os eleitores esperam de um autarca que se bata de forma mais eficaz junto do Governo para travar disparates.
Diana Ferreira, da CDU, não saiu do guião, diz o que se espera de uma candidata da CDU, mas está muito longe por exemplo do impacto de João Ferreira em Lisboa.
Sérgio Aires domina os dossiês, mas esteve pior do que no debate da SIC, denotando algum enfado, que o prejudicou. Recorreu demasiadas vezes à graçola de precisar de medicamentos para estes debates, deixando a dúvida: um político que insiste numa piada sem graça também teimará assim em ideias políticas sem eficácia?
Ouça aqui o E o vencedor é… especial na Rádio Observador sobre o debate do Porto.
Recorde aqui os outros debates:
Primeiro debate do Porto, na SIC
Debate Lisboa, na Rádio Observador
Primeiro debate de Lisboa, na SIC