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Depois de a ERC ter proibido os frente a frente autárquicos de Porto e Lisboa, a SIC alargou os debates. O portuense está marcado para dia 21. O da capital aconteceu esta noite entre Carlos Moedas (PSD, CDS, IL), Alexandra Leitão (PS, Livre, BE e PAN), João Ferreira (CDU) e Bruno Mascarenhas (Chega). E o primeiro tema era óbvio: o acidente do Elevador da Glória.

Alexandra Leitão voltou a repetir que é necessário apurar responsabilidades com “serenidade” e Carlos Moedas a dizer que a sua demissão seria uma “cobardia”, mas que assume “toda a responsabilidade política até ao fim da vida”. Ainda assim, a candidata apoiada pela coligação liderada pelo PS assegurou que “não houve aumento na manutenção”, enquanto o atual presidente da autarquia o desmentiu. Já João Ferreira criticou o investimento na Carris, enquanto Bruno Mascarenhas acusou Moedas de ser um “perito na desresponsabilização”.

O segundo tema, e dos mais polémicos, foi o da habitação. Alexandra Leitão surpreendeu ao anunciar que quer privados a construir casas e que dará “majoração” a quem coloque “25% da construção em arrendamento acessível”, enquanto Moedas se auto-elogiou, dizendo que o que fez no sector foi “absolutamente único”. De Bruno Mascarenhas veio a proposta de “privilegiar jovens portugueses” em T2 a 700 euros.

A questão da imigração não podia faltar, com Bruno Mascarenhas a fazer a declaração mais polémica — “é um erro querer integrar pessoas do Hindustão” —, bem como o da segurança, onde Alexandra Leitão criticou a falta de iluminação (houve mesmo bate-boca com Moedas sobre a questão) e das câmaras de segurança que não estão montadas. Já Mascarenhas afirmou que Moedas “não se impôs” sobre o tema da Polícia Municipal.

No final falou-se de lixo — Alexandra Leitão disse que “Lisboa nunca teve tanto lixo e nunca cheirou tão mal” —, de ciclovias — Bruno Mascarenhas disse que o Chega pretende acabar com “parte” das ciclovias em Lisboa — e de mobilidade — João Ferreira quer duplicar investimento na Carris e abandonar a linha circular.

O Observador vai voltar a seguir e a avaliar os debates para as eleições autárquicas de 12 de outubro. Um painel de três comentadores dará notas de 1 a 20 num “E o Vencedor é…” — à semelhança do programa e podcast da Rádio Observador — a cada um dos protagonistas dos principais debates. Além da avaliação de quem ganhou, haverá um texto de apreciação ao próprio debate.

Carlos Moedas (PSD, CDS, IL)

Alexandra Leitão (PS, Livre, BE e PAN)

João Ferreira (CDU)

Bruno Mascarenhas (Chega)

Judite França — Num debate que passou de dois para quatro intervenientes perdeu-se, como seria de esperar, a oportunidade de escrutinar com clareza as medidas daqueles que têm hipótese de vencer a eleição para a câmara de Lisboa. Mas, por outro lado, o responsável pela alteração de formato do debate — a CDU, que fez queixa à ERC —, saiu a ganhar e aproveitou bem a oportunidade. João Ferreira, o candidato da CDU, mostrou à evidência o conhecimento que tem dos dossiês e deixou claro por que o PCP fez questão em correr em pista própria e não entrar na coligação de esquerda.

Alexandra Leitão, que precisa de um bom debate para descolar nas sondagens, não é desta que sai com a missão cumprida. O “todos contra um” em que o atual presidente da câmara foi o alvo dos ataques não deixou que a candidata do PS sobressaísse, para além do desempenho do vencedor do debate: ganhou na televisão, mas não vai ganhar nas urnas.

Já Carlos Moedas, que chegou até a elogiar o trabalho de vereação de João Ferreira, teve no comunista mais um aliado do que um adversário incómodo. O presidente da câmara podia ter tido um debate mais difícil, mas acabou por passar incólume a polémicas, dando espaço ao candidato comunista; uma estratégia que prejudicou Alexandra Leitão.

Quanto ao candidato do Chega, Bruno Mascarenhas, apesar da experiência de estar na Assembleia Municipal de Lisboa, mostrou dificuldades em dizer o que quer para a cidade e reduziu os problemas da capital a questões relacionadas com a imigração. Muito pouco para um partido que é, neste momento, líder da oposição a nível nacional.

Luís Rosa — Numas eleições em que estão na corrida dois grandes blocos eleitorais, João Ferreira conseguiu a proeza de ser um dos protagonistas do debate. E não necessariamente pelo lado mais óbvio. Houve mesmo uma estranha ‘aliança’. O comunista estava sentado ao lado de Carlos Moedas no estúdio e, de forma inteligente, ao seu lado ficou no ataque ao PS em áreas-chave. Se Alexandra Leitão atacou Moedas de forma bem sucedida na área da limpeza urbana, logo Ferreira responsabilizou o PS pela reforma administrativa de António Costa que promoveu “a descoordenação entre a Câmara e as juntas de freguesia”. O candidato da CDU até fez um verdadeiro passe de Maradona para Moedas na questão do Elevador da Glória quando falou na externalização da manutenção da Carris no tempo do Governo PS e admitiu que o orçamento da empresa aumentou ligeiramente na gestão do PSD dos últimos três anos — o que levou Moedas a aceitar o elogio e ainda aproveitou as críticas do comunista sobre a baixa do IRS em Lisboa (mais de 200 milhões de euros) para lançar o repto a Alexandra Leitão: vai manter essa baixa do IRS? A socialista não se comprometeu e Moedas marcou um ponto.

Leitão até se tentou aproximar da CDU com a moratória para não serem construídos mais hotéis, mas levou logo um ‘chega para lá’ do comunista que acusou o PS de ter sido cúmplice de Moedas nos orçamentos e das aprovações irrestritas de hotéis. Razão para esta guerra entre CDU e PS? À CDU interessa colar o PS a Moedas para capitalizar o voto à esquerda e, assim, impedir uma vitória de Leitão — que seria uma pior notícia para os comunistas (por eventualmente lhe roubar um vereador) do que a manutenção de Moedas.

No duelo particular entre Carlos Moedas e Alexandra Leitão, o social-democrata esteve ligeiramente melhor. Não sofreu nenhum dano na questão do Elevador da Glória e aproveitou vários erros de Alexandra Leitão no dossiê do Alojamento Local (AL), quando responsabilizou o PS por ter passado de 900 licenças de AL para cerca de 19.000 licenças entre 2007 e 2019. E quando mostrou melhores resultados em termos de número de fogos entregues em regime de renda acessível do que no tempo do PS.

Alexandra Leitão, por seu lado, só se libertou verdadeiramente na segunda parte do debate — percebe-se que se sente condicionada com o radicalismo estrutural que Moedas lhe aponta. A socialista apresentou mais ideias na mobilidade e higiene urbana, atacou bem na questão dos efetivos da Polícia Municipal. Mas quebrou a sua própria promessa de há dias sobre um debate sereno sobre o turismo quando começou a falar de restrições para hotéis e alojamento local. E quando Moedas revelou quem seria o seu vereador para a Habitação, Leitão ficou em silêncio perante o repto para dizer quem faz parte da sua equipa.

Última nota para Bruno Mascarenhas. Tentou imitar o discurso de André Ventura contra o sistema e a imigração mas a ‘bota não bate com a perdigota’. Parece um candidato do velho CDS. Único ponto a favor: uma proposta que deve ser considerada de os inquilinos da Gebalis adquirirem o imóvel municipal com uma norma travão de não revenderem o mesmo nos sete anos seguintes. Vantagens: baixava os custos da Câmara e permitia aos proprietários cuidarem da sua casa. “É impossível do ponto de vista orçamental fazer a manutenção de 25 mil imóveis”, diz Mascarenhas. Uma constatação verosímil.

Rui Pedro Antunes —No caso do elevador da Glória, Carlos Moedas voltou a falar de si próprio como se fosse ele a vítima. Isto ao mesmo tempo que, estranhamente, se assumia como um misto de Batman e telefonista na resposta à tragédia: por um lado, foi logo ao terreno (da Calçada da Glória aos hospitais); e, por outro, ligou a quatro ministros para resolver contactos institucionais. Ganhou pontos junto dos liberais, que dele desconfiam, ao defender a descida de impostos e a prometer que ia manter a redução de IRS aprovada pelo PS. E conseguiu, sobre esse mesmo IRS, que Alexandra Leitão dissesse que “não está no programa”. Deixou-a sem resposta novamente quando lhe perguntou quem seria o futuro vereador da habitação do PS, driblando a saída de Filipa Roseta. Foi também audaz nos elogios ao João Ferreira quando lhe pôs o braço por cima naquilo que “conquistaram juntos” no Executivo: votos à esquerda na CDU são ouro para Moedas, porque os desvia de Alexandra Leitão. O incumbente saiu mais ou menos como entrou o que, tendo em conta o contexto, é positivo.

Já Alexandra Leitão tentou, com êxito, passar uma imagem de moderação, tendo repetido a palavra “serenidade” quatro vezes e sem personalizar o ataque ao presidente da câmara no caso do Elevador da Glória — contrariando Moedas apenas relativamente aos números dos custos de manutenção da Carris. Apesar de ter caído em algumas armadilhas de Moedas, conseguiu aproximar-se do centro quando defendeu, por exemplo, que a solução para a construção de novas habitações passa pelos privados, chegando a acusar o incumbente de não ter iniciado Parcerias Público-Privadas neste setor. Se a ideia era continuar a afastar a imagem de radical, missão cumprida. Corre o risco de ter perdido uma parte da esquerda atenta para João Ferreira, mas pode ter convencido o centro de que não é assim tão radical.

Mas se Alexandra Leitão deixou a esquerda órfã na excessiva tentativa de moderação, João Ferreira agarrou bem esse eleitorado. Para o comunista, todo o investimento deve ser público, contrastando com a estratégia de Leitão para a habitação. O candidato do PCP mostrou um conhecimento vasto dos dossiers da cidade e falou sempre de forma segura. Além disso, colou o PS ao PSD, o que é útil na estratégia de atingir o PS e seduzir a esquerda (incluindo o centro-esquerda).

Por fim, o candidato do Chega até teve toadas à André Ventura como “Moedas gastou 5 mil milhões” ou quando disse que quer expulsar “os 13%” que não pagam rendas municipais, mas nunca deixou de ser um ator secundário no filme do debate. Também falhou a tentativa de atingir Moedas para evitar a bipolarização e o voto útil. Tem a vantagem de ter as ideias de Ventura e a desvantagem de não ser Ventura. Falta-lhe notoriedade e carisma. Ainda teve o problema da segurança e da imigração terem ficado fora da parte do debate que decorreu em canal aberto, onde o Chega, de uma forma ou de outra, marca sempre pontos.