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"Os bancos levam-vos o couro e o cabelo", diz fundador da Revolut, Nikolay Storonsky em entrevista ao Observador durante a Web Summit

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

"Os bancos levam-vos o couro e o cabelo", diz fundador da Revolut, Nikolay Storonsky em entrevista ao Observador durante a Web Summit

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"Os bancos levam-vos o couro e o cabelo", diz fundador da Revolut em entrevista /premium

Entrevista. Presidente da Revolut diz que "os bancos se aproveitam da iliteracia financeira" da maioria das pessoas. E diz-se confiante de que irá "encontrar uma maneira" de fazer acordo com a SIBS.

“Os bancos aproveitam-se da iliteracia financeira da maioria das pessoas, os preços que cobram não são justos pelos serviços que prestam”, defende Nikolay Storonsky, co-fundador e presidente da Revolut, a fintech em crescimento mais veloz em todo o mundo, com nove milhões de utilizadores e que é, frequentemente, descrita como “a Amazon dos bancos”.

Em entrevista ao Observador, “Nik” diz que se alguém se sentar e contabilizar todas as comissões que lhe são cobradas, nas mais variadas operações financeiras, ficará “em choque”. Mas tudo se explica pela necessidade que os “bancos têm de proteger as suas fontes de receita” e quem gere os bancos não tem qualquer outra motivação, não têm incentivo para inovar e fazer “coisas fixes”.

Storonsky, um empreendedor britânico-russo que lançou a Revolut há cerca de quatro anos — acredita-se que, em breve, a empresa possa valer 10 mil milhões de dólares —, aconselha quem trabalha na banca tradicional a procurar outro emprego, como um emprego “muito mais divertido” numa startup financeira. É mais “divertido” mas “trabalha-se arduamente” — “porque as pessoas são apaixonadas pelo que fazem e, por isso, trabalham muito. É escolha delas”, diz Storonsky, chutando para canto as notícias que denunciaram o ambiente ultra-competitivo e as longuíssimas horas de trabalho que existiam na Revolut, bem como noutras empresas do género.

O fundador da Revolut adiantou, também, que tem objetivos ambiciosos também para Portugal, o que poderá passar por fazer um acordo com a SIBS, a gestora da rede Multibanco. É difícil? “Nós encontraremos uma maneira“, garante.

Um dos principais banqueiros portugueses disse há uns meses que os jovens, hoje em dia, preferem ir a um dentista do que a um banco. É nesse contexto que surge a Revolut?
Diria que os jovens, se puderem, não querem ir a um banco e gostariam, até, de ter uma app no telemóvel que lhes tratasse os dentes.

Mas, então, para quem não conhece, o que é a Revolut e o que é a distingue dos fornecedores tradicionais de serviços financeiros?
Nós disponibilizamos uma conta bancária global capaz de prestar todos os serviços financeiros que as pessoas precisam no dia-a-dia, como transferências, conversão de moedas, análise de dados, negociação de ativos, contas-poupança. E prestamos esses serviços gratuitamente, ou a preços muito baixos quando comparados com os bancos. Ou seja, batemos os bancos não só na qualidade do produto mas, também, no preço.

Disse numa entrevista, há algum tempo, que a Revolut não existiria se os bancos tradicionais tivessem vindo a fazer algumas coisas “fixes”. Os bancos, hoje, estão a fazer algumas coisas “fixes”, pressionados por empresas como a sua?
Não sei… Banqueiros a fazerem coisas fixes… É como pensar num peixe fora de água, ou coisa parecida. Não está na cultura dos banqueiros pensar em coisas fixes.

Fixes e baratas? A história, por sinal, é que lançou a Revolut porque ficou chocado com as comissões que lhe eram cobradas, incluindo quando viajava…
Era tudo caríssimo. Os bancos levam-vos o couro e o cabelo. Se você se sentar e analisar todas as transações que faz, os custos e comissões associadas, se escrever tudo numa folha, vai ficar em choque. Ir ao estrangeiro e gastar o equivalente a 1.000 dólares significa perder, em média, 60 dólares. Comprar e vender ações, é a mesma coisa: especialmente ações em dólares, se estiver a comprá-las na zona euro, se comprar 1.000 dólares em ações da Google vai pagar, provavelmente, 20 ou 30 dólares só em comissões de conversão da moeda, mais alguns 20 dólares em comissões [pela ordem de venda]. Portanto, 5% do seu capital desaparece. Os bancos aproveitam-se da iliteracia financeira da maioria das pessoas. Os preços que cobram não são justos pelos serviços que prestam, na minha opinião.

"Os bancos aproveitam-se da iliteracia financeira da maioria das pessoas, os preços que cobram não são justos pelos serviços que prestam, na minha opinião."

Se for a uma qualquer conferência de banqueiros, é impossível não ouvir pedidos para que haja um equilíbrio no campo da regulação, o chamado “level playing field“. Os bancos têm razões para se queixar, nesse aspeto?
Obviamente, os bancos estão a perder com a concorrência. Portanto, vão queixar-se de qualquer coisa que consigam, para tentar deter essa concorrência.

Mas têm ou não razões para referir isso?
A regulação, a forma como as coisas funcionam, especialmente na Europa, é proporcional à dimensão e à complexidade de cada negócio. Claro que se tivermos um negócio que tem a mesma dimensão, obviamente que sim, que é preciso ter os mesmos controlos. Nós temos 9 milhões de clientes, o que já é comparável a muitos bancos, e já cumprimos a mesma regulação que os bancos. Mas numa startup com 5 ou 10 pessoas, não faz sentido que os bancos — que têm 10 mil pessoas — digam que essa startup tem de ter a mesma regulação que eles têm.

Vocês, na Revolut, consideram que têm regulação suficiente, excessiva…?
Nós temos a mesma regulação que os bancos. Temos as mesmas obrigações e controlos, os mesmos requisitos de compliance, risco. Nós temos a mesma estrutura que os bancos, mas a grande diferença está nas ferramentas que usamos: automatizamos tudo, o mais possível, desde os mecanismos de gestão de risco até ao cumprimento das regras de compliance. Somos muito mais eficazes do que os bancos, por isso mais baratos.

Nikolay Storonsky recusa que empresas como a sua gozem de uma regulação mais leve do que os bancos tradicionais.

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Os bancos tradicionais têm medo de vocês, da Revolut e outras fintech?
Os bancos são instituições muito estranhas. São geridas por conselhos de administração, diretores de área, mais diretores, em camadas, mesmo os gestores mais experientes muitas vezes estão três ou quatro anos num banco, apenas o suficiente para receberem os seus bónus e não têm qualquer incentivo em correr riscos com coisas novas. Para fazer alguma coisa extraordinária é preciso tomar riscos e quem está num banco não tem incentivos para isso. Tem incentivos para estar lá sentado a tentar proteger as fontes de receita. A filosofia é essa, por isso é que é muito difícil para os bancos mudarem.

E sabe do que fala porque trabalhou em bancos, no Lehman e no Credit Suisse…
Sim. Vi muitos diretores que não faziam nada. Apenas se dedicavam a jogar o jogo, no sentido de manter o sistema como está.

Já esteve reunido com bancos cá em Portugal?
Pessoalmente, ainda não. Mas a Revolut, nos mercados onde está, normalmente faz parcerias com os bancos de cada país, porque queremos o acesso ao ecossistema local, aos sistemas de pagamentos. Esse trabalho está a ser feito, não me têm chegado queixas.

"Os bancos são instituições muito estranhas. São geridas por conselhos de administração, diretores de área, mais diretores, em camadas, mesmo os gestores mais séniores muitas vezes estão três ou quatro anos num banco, o suficiente apenas para receberem os seus bónus e não têm qualquer incentivo em correr riscos com coisas novas."

Uma questão que muita gente faz: como é que a Revolut ganha dinheiro?
Nós temos uma margem bruta de 50%, o negócio é muito saudável. Fazemos dinheiro sempre que alguém usa um cartão Revolut para fazer um pagamento, recebemos comissões das lojas. E fazemos dinheiro, também, com os nossos modelos de subscrição — contas premium, contas metal, contas empresariais, etc. — em que as pessoas nos pagam pelos serviços que recebem, como acontece com o Spotify. Depois há os “acrescentos”, como os seguros, crédito, criptomoedas…

Mas, nessa linha, e voltando um pouco ao tema das comissões, especialmente neste mundo de taxas de juro baixas, o que tem acontecido é que os bancos têm vindo a aumentar várias comissões cobradas aos clientes. Isso cria uma oportunidade para vocês?
Os gestores dos bancos só se importam com manter as fontes de receita. Se as taxas de juro são baixas, ou negativas, estão a perder dinheiro portanto têm de ir buscar dinheiro a algum lado. Por isso é que aumentam as comissões. Mas, nós, que não temos a mesma base de custos que os bancos — temos muito menos gente, temos tecnologia moderna, não temos infraestruturas de legado — somos muito mais eficientes e por isso é que quando eles aumentam as comissões nós ainda estamos em melhor posição para os bater ao nível do preço. Eles não conseguem competir.

A Revolut é uma empresa lucrativa?
Somos lucrativos no nosso negócio central. Ou seja, teríamos um negócio lucrativo se parássemos de crescer, se deixássemos de investir em marketing, se deixássemos de expandir para outros mercados.

A Revolut começou por ser uma app, quase como um pré-pago em que as pessoas carregam dinheiro que, na realidade, depois é depositado por vocês num banco qualquer, como o Lloyds ou o HSBC, em Londres. Mas já têm obtido licenças bancárias — o que é que muda nesse momento?
A mudança mais imediata é que se obtém, diretamente, um acesso ao fundo de garantia de depósitos, que é muito tranquilizador para as pessoas. Incluindo para que as pessoas percebam que até podem receber os salários na conta Revolut. Cada vez mais pessoas estão a fazer isso.

E crédito, também?
Sim, também. Vamos lançar o primeiro cartão de crédito em dezembro, em alguns mercados, e gradualmente vai ser alargado por toda a Europa. Poderá demorar algum tempo mas é o nosso objetivo.

"Vamos lançar o primeiro cartão de crédito em dezembro, em alguns mercados, e gradualmente vai ser alargado por toda a Europa. Poderá demorar algum tempo mas é o nosso objetivo."

O vosso objetivo passa por serem, potencialmente, o banco principal — ou, até, o único banco — de que uma pessoa é cliente?
Sim. A ambição é essa. Queremos ser o prestador de todos os serviços de que as pessoas precisam. Tudo debaixo do mesmo telhado e mais barato do que os bancos. Mas se olhar para os nossos utilizadores [ativos mensais] 20% deles fazem mais de 30 transações por mês, o que nos diz que para essas pessoas já somos, provavelmente, o banco principal que elas usam. O desafio, portanto, é ir buscar os outros 80% para fazerem mais e mais operações connosco.

Aqui em Portugal qual é o plano para conseguir isso?
Nós queremos ser globais e, ao mesmo tempo, locais. Temos equipas localizadas nos vários mercados que trabalham para garantir que o nosso produto é adaptado ao contexto de cada país.

Mas como é que querem fazer isso, concretamente, tendo em conta que existe uma rede importante, a rede de terminais Multibanco, da SIBS, onde os cartões não são aceites?
Apenas temos de fazer um acordo com essa rede.

E deixam-no entrar? 
Nós encontraremos uma maneira. Tem havido conversas, a nível local, sobre essa matéria.

Entrar na rede Multibanco? "Encontraremos uma maneira", diz Nikolay Storonsky.

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Alguma vez foram abordados por uma empresa maior, para vos comprarem?
Bem… Houve abordagens, mas nunca pensei nisso muito a sério. Não estamos à venda. Quando se vende uma empresa perde-se a capacidade de mudar as coisas. Se um grande banco compra a sua empresa, passa a ter de reportar à administração. E a cultura é diferente, são muito mais lentos. Não é divertido trabalhar para um banco.

Não é? O que é que diz a quem trabalha em bancos?
Se quiserem, procurem outro emprego, é muito mais divertido trabalhar uma fintech, numa startup, do que no mundo empresarial. É muito mais entusiasmante.

Tem havido nos últimos tempos notícias de algumas startups que entraram em dificuldades, como a WeWork, por exemplo. A própria Uber conquistou uma posição enorme mas ainda há poucos dias divulgou resultados que alguns consideraram dececionantes. Há expectativas e investimentos exagerados, quanto hype há nas startups?
As empresas fazem escolhas. Pode-se querer crescer de forma sustentável, garantindo que a situação financeira não se desequilibra, ou pode-se investir demasiado no crescimento, e aí por vezes as finanças desequilibram-se um pouco mais. Isso viu-se em vários casos, de várias empresas. Especialmente em setores regulados, é preciso ser muito sensato a fazer esta escolha. Eu sou apologista da sustentabilidade do crescimento.

Revolut preparada para Brexit

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A sede da Revolut é no Reino Unido. O que pode o Brexit significar para as vossas operações?
Um “hard Brexit” [saída da UE sem acordo] significaria que teríamos de ter uma licença bancária na Europa — e já temos uma, na Lituânia.

Mas os clientes podem estar tranquilos, de que estão a ser preparados todos os cenários e que não vai haver problemas?
Sim, já criámos e migrámos todos os sistemas, está tudo testado até ao prazo que existia que era no final de outubro. Se fosse necessário, se houvesse um “hard Brexit”, haveria uma transição para a licença bancária que existe na Europa [Lituânia]. Se houver uma saída com acordo, a intenção é permanecer como está, com a licença bancária do Reino Unido.

Essa sustentabilidade do crescimento passa, também, por um tema que já causou alguma controvérsia na Revolut, que é importância de encontrar as pessoas mais talentosas e dar-lhe um bom ambiente de trabalho, com bom equilíbrio entre vida profissional e familiar. À medida que a Revolut cresceu, e à medida que o Nikolay também ganhou experiência, como é que evoluiu a sua visão sobre as longas horas de trabalho, a vida familiar dos funcionários, a competitividade do lugar de trabalho…?
Trabalhar em startups não é fácil. Estamos a competir com grandes bancos, grandes empresas, quando temos muito menos gente e muito menos recursos à disposição. Portanto, sim, trabalhamos arduamente, longas horas. Mas isso não significa que é porque alguém nos está a pressionar a fazê-lo. As pessoas adoram o que fazem e isso é a escolha delas. Quando se acredita em algo, trabalha-se muito por isso. A alternativa, no mundo empresarial, trabalhar para uma qualquer empresa da treta, ajudar a produzir produtos pelos quais não se tem paixão — nessa situação, porque é que alguém irá trabalhar muito por algo?

"Sim, trabalhamos arduamente, longas horas. Mas isso não significa que é porque alguém nos está a pressionar a fazê-lo. As pessoas adoram o que fazem e isso é a escolha delas. Quando se acredita em algo, trabalha-se muito por isso. A alternativa, no mundo empresarial, trabalhar para uma qualquer empresa da treta, ajudar a produzir produtos pelos quais não se tem paixão".

O que acontece na Revolut, então, e nas startups de um modo geral?
Contratamos pessoas que gostam mesmo do produto, que acreditam no que estamos a fazer, e é por isso que escolhem trabalhar muito. É escolha delas, ninguém as está a obrigar. E não são as horas que se trabalham, essa não é a questão, é saber aquilo que cada um precisa de fazer e, à sua maneira, controla a forma como quer fazer isso. Ninguém quer saber se sai do escritório às 5 da tarde ou às 8, quando se chega ao trabalho na 2ª feira sabe-se o que é que tem de ser feito até à 6ª feira, se o fizer mais rapidamente e sair às 4 da tarde, não há problema nenhum com isso. É um ambiente de adultos, mas é claro que quando se trabalha numa empresa de alto crescimento, o trabalho não será das 9 às 5 — e quem não vive bem com isso não deve trabalhar em startups. Nas empresas tradicionais, o que se está a fazer muitas vezes é manter as rodas a andar, numa startup temos de construir tudo de raiz.

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