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Os vencedores

PCP

Os críticos chamam-lhe “cassete”, os comunistas chamam-lhe “coerência”. A solidez e a disciplina do PCP nem sempre é suficiente para levar o partido à vitória, mas, neste caso, foi eficaz. O PCP não quis, na questão da eutanásia, pôr a geringonça a funcionar, o que atirou a decisão para uma bancada de centro-direita, tendencialmente mais conservadora (a do PSD). Sem grande preocupação com custos eleitorais — junto do eleitorado mais jovem, sempre em risco de fuga para o BE e PS — o partido decidiu votar contra a eutanásia, dando conta da fundamentação da decisão. Todos os deputados cumpriram e alegaram que não abdicam da “preservação da vida” e preferem a “dignificação da vida em vida”. O PCP tem ainda o mérito de demonstrar que esta não era uma luta entre esquerda e direita. Ao mesmo tempo, foi o único partido de esquerda a vencer esta votação. Assim se vê a força do PC.

Marcelo Rebelo de Sousa

Marcelo Rebelo de Sousa é católico e toda a sua formação espiritual e ideológica foi influenciada pela matriz cristã. Embora nunca se tenha pronunciado publicamente, não é difícil de adivinhar que o Presidente da República é, a título pessoal, contra a eutanásia. À Marcelo, foi dando os seus toques: cinco dias antes da votação, recebeu em Belém as “comunidades religiosas contra a eutanásia”. O Expresso noticiou, pouco depois, que o Presidente estava inclinado a vetar uma lei que legalizasse a eutanásia, caso esta passasse à tangente no Parlamento. Havia um problema: este seria um veto político. Quase pessoal, mesmo que argumentasse em sentido contrário. Corria o risco de deixar de ser o “presidente 70%” e ouvir muitas críticas à esquerda. Assim, pode continuar a ser o “presidente de todos os portugueses”.

Assunção Cristas

Estando o PSD sem uma posição definida como partido, o CDS foi o rosto dos eleitores de direita contra a eutanásia. Com a vitória do “não”, acaba por ser o grande vencedor nessa área política, uma vez que agarrou o seu eleitorado e ainda pode ter feito mossa num eleitorado mais conservador que habitualmente vota PSD. O partido de Rui Rio tem assumido uma posição mais ao centro e o CDS de Cristas está atento aos eleitores que se possam sentir órfãos à direita. Em termos práticos, na votação no hemiciclo, os centristas conseguiram uma proeza em termos de perceção: o PSD contribuiu com quatro vezes mais votos (82) para que a proposta chumbasse e o CDS “apenas” com todos os seus 18 — mas a ideia que passa é que o vencedor à direita foi o CDS.

Igreja Católica

A Igreja Católica é contra a eutanásia e não teve uma posição neutra. Desde logo, distribuiu 1,5 milhões de panfletos contra a legalização da eutanásia. Na segunda-feira, a véspera da votação, foi a vez de o cardeal patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, apelar aos deputados para votarem pelo “não”, dizendo que só assim o hemiciclo estaria “em sintonia” com o que deseja a sociedade. Antes disso, o bispo do Porto, D. Manuel Linda, já se tinha manifestado publicamente contra a eutanásia. Após várias derrotas nos últimos anos (casamento homossexual, adoção entre pessoas do mesmo sexo e despenalização da Interrupção Voluntária da Gravidez), a Igreja Católica teve, finalmente, uma vitória no Parlamento.

Os vencidos

Maria Antónia Almeida Santos

No último fim de semana foi anunciada como a próxima porta-voz do PS e dias depois teve uma derrota. Sendo ela o rosto da despenalização da eutanásia (tinha sido a primeira subscritora de uma moção a favor da eutanásia, há dois anos) ganharia um grande élan se a lei fosse aprovada. Não foi. Diz que não vai deixar de lutar e promete voltar à carga a partir de 2019, mas uma coisa é certa: perdeu a primeira batalha.

António Costa

O secretário-geral do PS fez um congresso, este fim de semana, sobre o “legado” socialista. Nos ecrãs apareceram aquilo que os socialistas consideram terem sido as grandes conquistas da sociedade nos últimos anos. E se o rosto de José Sócrates apareceu associado ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e o de António Guterres ao rendimento mínimo garantido (atual RSI), a cara de Costa apareceu associada à adoção por casais do mesmo sexo. Ao declarar-se no discurso inicial do Congresso, pela primeira vez, com todas as forças a favor da eutanásia, Costa parecia querer colocar na história a legalização da eutanásia como uma vitória do “costismo”. Esta é, por isso, ainda mais, uma derrota sua.

Bloco de Esquerda

O Bloco de Esquerda empenhou-se nesta votação e a grande figura da campanha foi José Manuel Pureza, o que não foi uma escolha inocente: é um católico de esquerda. O BE não se limitou, no debate derradeiro, a defender a legalização da eutanásia. Quis encostar o PCP às cordas, associando os comunistas aos movimentos católicos que estavam no exterior. Além disso, num piscar de olho a algum eleitorado do PCP, ainda colaram os comunistas às posições de Cavaco Silva e da Igreja Católica. Como se não bastasse, lembraram que José Saramago, que foi militante do PCP, defendeu a eutanásia nos tempos da luta do espanhol Ramon Sampedro. O PCP parecia incomodado com as companhias, mas, no fim do dia, foi o Bloco de Esquerda que perdeu.

Rui Rio

O presidente do PSD manteve-se firme na sua posição, pessoal, de ser a favor da eutanásia. Teve o mérito de não recuar nas suas convicções e de não tentar forçar a escolha individual de cada deputado, mas teve o problema de dividir o partido. Alimentou a ideia de que existem vários PSD: o da bancada e o do líder do partido. No grupo parlamentar, só há seis deputados que pensam como ele neste assunto. Ainda ouviu Passos Coelho e Cavaco Silva a criticá-lo, dizendo que o PSD, como partido, deveria ter uma posição sobre o assunto. Seja como for, Rio perdeu. A nível pessoal (a eutanásia, que defende, foi chumbada), como líder do partido (dividiu-o nesta questão) e como candidato a primeiro-ministro (pode ter perdido votos para Cristas).