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Vencedores

Miguel Albuquerque

No olho do furacão do processo judicial, Miguel Albuquerque foi pressionado por todos a sair da Quinta da Vigia, desde Marcelo Rebelo de Sousa (que nos bastidores tentou cozinhar a continuidade do PSD com outro rosto) a Luís Montenegro (que chegou a dizer em 2024 que se fosse líder do PSD-M não se recandidataria). A vitória de Pirro de 2024, os novos desenvolvimentos judiciais que atingiram o coração do Governo regional e as férias em Porto Santo durante os incêndios que assolaram a ilha deram aos adversários (internos e externos) a ideia de que podiam apear Albuquerque. Enganaram-se. O presidente do Governo regional falhou a maioria por 300 votos, mas tem jogo de cintura suficiente para chegar a acordo com o CDS e governar quatro anos sem grandes sobressaltos. Só o Ministério Público o pode travar, mas Albuquerque não está minimamente preocupado com a justiça e desafia-a de forma provocadora. A prova disso é que foi para o palco e passeou pelas ruas após a vitória ao lado de Pedro Calado – ex-autarca do Funchal que esteve detido vários dias em Lisboa logo no início do processo judicial. Vitorioso, Miguel Albuquerque quer provar que o albuquerquismo está vivo e tem futuro. Não só quer governar mais uns anos, como reivindica o direito a escolher a sua sucessão. E arruma, para já, a oposição interna protagonizada por Manuel António Correia (com o apoio de Alberto João na retaguarda). É o melhor resultado desde a sua estreia em 2015.

Luís Montenegro

A vitória na Madeira encaixa que nem uma luva na narrativa que o líder do PSD quer levar para a campanha eleitoral. O primeiro-ministro acredita que vai reforçar a sua votação nas legislativas porque os eleitores pensam de forma diferente da bolha mediática. E que valorizam mais o bolso e a estabilidade política do que os casos polémicos ou dúvidas éticas levantadas por notícias. Ora, Miguel Albuquerque (que é arguido por corrupção) está numa situação mais difícil que Montenegro (cujo o problema político não é, para já, judicial) e mesmo assim venceu de forma categórica. Por muito que uma vitória regional possa não ter influência direta a nível nacional, é muito mais fácil a Montenegro ir para campanha em legislativas com uma vitória convincente e com estabilidade governativa na Madeira. O próprio disse que o “PSD ganhou”, não tendo grande problema em apropriar-se da vitória de Albuquerque. Se é certo que há um ano o atacou num debate das legislativas, no último Congresso segurou-o como presidente da Mesa do órgão máximo do partido. Ao perceber que não o podia vencer, juntou-se a ele. E, por isso, é justo dizer que a vitória de Albuquerque também é de Montenegro.

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Nuno Melo

O CDS perdeu um dos seus dois deputados, perdeu um ponto percentual e perdeu 1096 votos. Mas, no final da noite, nada disso era verdadeiramente importante porque o deputado solitário do CDS é precisamente aquilo de que Miguel Albuquerque precisa para alcançar a maioria absoluta que lhe permitirá ficar no poder durante os próximos quatro anos. O CDS mostra, assim, que depois de ter sido muito útil ao PSD nas legislativas, também pode ser muito útil para o PSD na Madeira — e pode voltar a ser muito útil ao PSD nas próximas legislativas. Nuno Melo aproveitou, claro, para falar sobre as eleições que teremos daqui a dois meses: “Seria bom que acontecesse o mesmo no país inteiro”. Seguiu o guião que Luís Montenegro já tinha usado: na Madeira, nos Açores e na República, o PSD e o CDS são a favor da estabilidade, enquanto o PS e o Chega se unem para tentar criar instabilidade. Vamos ouvir falar muito disto nas próximas semanas.

Élvio Sousa

Os irredutíveis gauleses do JPP não desistem de desafiar o império do centrão. A partir da Gaula, no concelho de Santa Cruz, os irmãos Sousa formaram um partido que começou por ser uma dor de cabeça para o PSD na fase final do jardinismo e conseguiu agora ser o segundo partido mais votado, ultrapassando o Partido Socialista. Quando Élvio dizia que queria um dia governar a Madeira, todos se riam. Ainda está longe disso, mas o que é certo é que já é o segundo maior partido da ilha e tem 11 deputados regionais. O estilo popularucho-populista de Élvio consegue ainda ir roubar votos ao eleitorado do Chega, o que lhe permite sonhar com algo mais no futuro. Depois de uma fraternidade de Rómulo e Remo se ter transformado numa história de Abel e Caim, Élvio fez novamente as pazes com o irmão Filipe, agora número dois da lista (depois de ter ficado de fora em 2023 e 2024). O JPP é de novo uma família feliz. Por todas as razões e mais algumas.

Vencidos

Pedro Nuno Santos

Pior do que perder é sacudir a água do capote da derrota. É certo que há autonomia regional do PS-M, é certo que Paulo Cafôfo até apoiou José Luís Carneiro (adversário de Pedro Nuno nas diretas) e também é certo que vitórias regionais não significam vitórias nacionais (basta ver que com Rio na liderança o PSD venceu nas ilhas e perdeu no país). Mas o líder do PS é (ou devia ser) o líder de todos os socialistas, de Porto Santo ao Minho. O que os líderes devem dizer é que quando um ganha, ganham todos; quando um perde, perdem todos. Pedro Nuno Santos quis deixar claro que esta é uma “derrota do-PS-da-Madeira”. Se é imperativo separar regionais de nacionais, não assumir responsabilidades não fica bem a um líder. A estratégia de comunicação de Pedro Nuno Santos devia ter em conta que, às vezes, a prestação na Taça da Liga é importante para vencer o campeonato.

Paulo Cafôfo

Paulo Cafôfo é o mais bem sucedido socialista na política madeirense. Conquistou, ainda durante o jardinismo, e reconquistou o segundo cargo mais importante da região: presidente da câmara do Funchal. Formalismos à parte, é um cargo mais importante do que vice-presidente do Governo regional. Em 2019, mordeu os calcanhares a Albuquerque e ficou a pouco mais de quatro mil votos de vencer as eleições. Mas a partir daí, foi sempre a cair. Os madeirenses não lhe perdoaram que tenha preferido o Governo da República a ter continuado na região. Era presidente do PS/Madeira e demitiu-se após as autárquicas de 2021. O facto de não ter esperado pelo ciclo seguinte (as regionais de 2023) e ter integrado o Governo de António Costa meses depois (no início de 2022) terá sido visto como uma traição por parte do eleitorado. A derrota de 2025 a juntar à de 2024 deixam-no ligado às máquinas. Diz que só sai depois das autárquicas, mas internamente (com Carlos Pereira à cabeça) há quem não queira sequer esperar pelo fim da primavera.

André Ventura

O líder do Chega demorou muito tempo a reagir aos resultados eleitorais — e percebeu-se porquê quando começou finalmente a falar, a poucos minutos das onze da noite. André Ventura esteve várias horas a procurar uma forma de justificar a derrota que o partido sofreu; mas não conseguiu. A tese é esta: o Chega prefere manter as convicções, mesmo que isso o leve a perder votos. André Ventura só não está a reparar numa coisa: é que, se a sua convicção era a de que Miguel Albuquerque devia deixar a presidência do governo, então o resultado das acções do Chega foi exatamente o contrário. Graças à moção de censura engendrada por André Ventura, Miguel Albuquerque ganhou quatro anos no poder. André Ventura queria uma coisa e conseguiu o seu contrário. Não se percebe como pode achar isso brilhante.

Rui Rocha

A Iniciativa Liberal perdeu 385 votos e só conseguiu eleger um deputado regional por muito pouco. Em tese, esse eleito poderia ser a chave para a maioria absoluta, mas a IL não quer ouvir falar de Miguel Albuquerque e Miguel Albuquerque não quer ouvir falar da IL. Não há volta a dar: quando o voto útil aperta, a Iniciativa Liberal encolhe. Por isso, o partido de Rui Rocha ficará na oposição sem ter um caminho claro para se tornar um partido relevante na região. Vai precisar de refletir muito, mas não é grave — a IL terá quatro longos anos para pensar nisso.

Ignorado

Ministério Público

Miguel Albuquerque foi constituído arguido a 24 de janeiro de 2024. Nesse dia, o Ministério Público e a Polícia Judiciária realizaram mais de 130 buscas na Madeira, incluindo na sede do governo regional e na casa de Miguel Albuquerque. Depois disso, passou-se fevereiro, março, abril, maio, junho, julho, agosto, setembro, outubro, novembro e dezembro; chegámos a 2025 e passou-se janeiro, fevereiro e estamos agora em março. Em nenhum destes meses se soube de mais nada sobre a investigação a Miguel Albuquerque. Naturalmente, a Justiça tem o seu tempo próprio e as investigações não se resolvem com uma varinha mágica. Mas estes resultados na Madeira mostram que os eleitores se cansaram de esperar e não pretendem punir um político que seja arguido num processo — mesmo que esse processo envolva suspeitas de corrupção. Os madeirenses levaram ao limite aquele slogan célebre: enquanto a justiça não resolve o que é da justiça, a política resolve-se com o que é da política.