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Os vencedores, os vencidos e o sobrevivente das autárquicas

Montenegro venceu, Carneiro resistiu e Ventura ficou aquém. CDS aguentou-se. CDU voltou a cair. Carlos Moedas venceu sem maioria, Pedro Duarte bateu o favorito Pizarro.

Os vencedores

Luís Montenegro

Foi uma noite quase perfeita para Luís Montenegro: manteve Lisboa, reconquistou Porto, Sintra, Vila Nova de Gaia e ainda recuperou a liderança da Associação Nacional de Municípios e da Associação Nacional de Freguesias. Ainda teve mais umas vitórias simbólicas, que fez questão de anunciar: ganhou em Baião, terra do “amigo” José Luís Carneiro, venceu em Sintra “município do André Ventura” e até em São João da Madeira, terra do “ex-secretário-geral do PS”. A juntar a isso, venceu na sua terra, Espinho, e na vigésima quinta hora segurou Braga (cuja derrota seria embaraçosa para Hugo Soares). Perdeu Faro, Bragança e Viseu e viu o PS equilibrar o número de sedes de distrito, mas vencer as “Big 5” em termos de população apaga as frustrações. Montenegro falou numa vitória em toda a linha. Talvez seja exagerado, mas foi uma vitória folgada, impositiva e que recoloca o PSD como maior potência autárquica. Com um governo minoritário, um OE quase aprovado e umas presidenciais a caminho, este resultado era o balão de oxigénio de que Montenegro precisava para governar mais uns meses com tranquilidade. Quem sabe até consiga cumprir o mandato. Assim o “amigo” José Luís o queira.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Carlos Moedas

Moedas queria maioria absoluta. Não a teve. Moedas queria reforçar a sua força. E teve apenas mais um vereador. Ainda assim, as sondagens e as projeções do início da noite mostravam que Alexandra Leitão tinha reais possibilidades de vencer a câmara de Lisboa. Uma derrota na capital seria, provavelmente, o fim da maior ambição (escondida) de Moedas: liderar o PSD e ser primeiro-ministro. O que é certo é que, apesar das dificuldades, Moedas venceu e tem a possibilidade de cumprir, no mínimo, oito anos à frente do município. Quanto a ambições futuras, continua dentro do jogo. Mesmo que a concorrência seja grande.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Pedro Duarte

As sondagens davam, até bem perto do início da campanha, a vantagem ao adversário Manuel Pizarro. A somar a isso, uma campanha competente de Miguel Corte-Real e um conflito permanente com o independente Filipe Araújo estreitavam as hipóteses de Pedro Duarte se sentar na sua cadeira de sonho: a câmara do Porto. Na campanha, insistiu na ideia de que o Porto não precisa de mais gente e fez guerra ao Metrobus (piscando o olho a quem está farto de uma cidade-estaleiro), ao mesmo tempo que subia o tom sobre a insegurança (tentando estancar uma eventual fuga de votos para o Chega). Rodeou-se de quem conhecia os meandros (como o ex-chefe de gabinete de Rui Moreira, Vasco Ribeiro, que nunca abandonou verdadeiramente a campanha depois do confronto físico com Filipe Araújo no Primavera Sound) e conseguiu recuperar a cidade para o PSD doze anos depois. Desde os tempos de Passos Coelho que ninguém olha para Pedro Duarte como um potencial sucessor à liderança do PSD. A partir da noite deste domingo, ao conquistar a segunda cidade mais importante do País, Pedro Duarte ganhou o direito a ser incluído no rol de candidatos para a futura liderança do PSD. Para que se torne num caso sério só tem de seguir dois princípios: ser bom autarca e não se cansar tão depressa dessas funções como se cansou de ser ministro.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Luís Filipe Menezes

Depois das lágrimas no Congresso dos Congressos – onde foi apupado quando atirou aos “sulistas, elitistas e liberais” – Menezes recompôs-se e, dois anos depois, conquistou a terceira autarquia do país. Em Vila Nova de Gaia, ganhou tanta força que conseguiu ser eleito presidente do PSD, funções que acumulou com as de autarca. Como líder do partido, as coisas não correram bem, mas em Gaia conseguiu quatro maiorias absolutas, num percurso que só a limitação de mandatos travaria. Sonhou com o outro lado do rio e, apesar de super-favorito, perdeu a eleição da invicta para Rui Moreira em 2013. Saiu do ativo e muitos acharam que já tinha metido os papéis para a reforma. Mas o partido precisou dele para reconquistar Gaia – onde o partido acumulava derrotas e em 2021 tinha conquistado zero freguesias e tinha perdido 9-2 em vereadores – e o ex-líder, sem vedetismos, disse presente. Mais do que o PSD, foi Menezes a ganhar a terceira maior cidade do país.

Portuguese Prime Minister and President of the Social Democratic Party (PSD), Luís Montenegro (L), and celebrates with the candidate of the PSD Vila Nova de Gaia City Council, Luís Filipe Menezes (R), on election night for the local elections at party headquarters in Porto, Portugal, 13 October 2025. More than 9.3 million electors can vote in the local elections in Portugal on 12 October 2025. RUI MANUEL FARINHA/LUSA

RUI MANUEL FARINHA/LUSA

Marco Almeida

Há doze anos, Marco Almeida tinha todas as condições para suceder a Fernando Seara na câmara de Sintra. Um erro do então líder do PSD – assumido durante a campanha pelo próprio Pedro Passos Coelho – levou à divisão do partido. Marco concorreu como independente e Basílio Horta venceu a câmara, beneficiando da divisão no PSD. Marco Almeida foi expulso do partido, refiliou-se, voltou a candidatar-se, mas Basílio já estava demasiado forte e perdeu nessa segunda tentativa. Agora, à terceira, foi de vez. Com uma Ana Mendes Godinho com uma campanha forte e um Chega com uma figura nacional com muita notoriedade (Rita Matias), Marco Almeida teve de utilizar toda a experiência como autarca em Sintra para conquistar a segunda maior câmara em população para o PSD. E fê-lo com sucesso (e, desta vez, com uma ajuda de Passos Coelho). Passa a ser um dos autarcas mais importantes do partido.

LUSA

João Azevedo

João Azevedo viu-se envolvido, durante a campanha, em duas polémicas que, embora não parecessem, estavam intimamente ligadas à sua candidatura. Na primeira, embaraçou o líder do partido ao admitir, num debate da Rádio Observador, que não existiam linhas vermelhas com o Chega no poder local, aludindo ao pragmatismo. Ora, quem se preocupa com a governação no day after, é porque esperava ganhar. Nada apontava para isso, mas ganhou. A segunda polémica foi quando surgiu publicamente a atacar Carlos Moedas para defender a honra do seu pai político, Jorge Coelho – que o autarca de Lisboa tinha referido numa comparação entre a tragédia de Entre-os-Rios e a do Elevador da Glória. Pouco conhecido a nível nacional, João Azevedo é popular em Viseu e agora vê essa notoriedade local traduzida em votos. Desde o 25 de Abril de 1974, a câmara de Viseu só foi PSD e CDS (três vezes) e contra o dinossauro autárquico Fernando Ruas. Azevedo consegue assim uma vitória histórica e logo no Cavaquistão. Como sintetizaria Jorge Coelho: “Essa é que a realidade”. O novo presidente da câmara de Viseu dedicou, sem surpresa, a vitória a Jorge Coelho.

Ana Abrunhosa

Quando António Costa atingiu a maioria absoluta em 2022, deixou o Observador assistir a uma reunião preparatória de definição da estratégia da campanha. A certa altura Duarte Cordeiro, diretor de campanha, pedia ao primeiro-ministro para ter um “independentezinho” a discursar. Surge na conversa o nome de Ana Abrunhosa, que leva Costa a disparar com ar gozão: “E temos a certeza de que já se desfiliou do PSD?”. O episódio mostra que Abrunhosa foi ministra do PS, mas sempre foi vista como uma ex-PSD. A juntar a isso, fez sempre questão de morar em Coimbra, mesmo quando trabalhava em Lisboa. E, durante esse tempo, nunca deixou de cultivar a proximidade com autarcas, estruturas e caciques da cidade. Mais: a cidade precisa de ser ágil a executar fundos do PRR, sendo uma vantagem óbvia ter a antiga ministra da Coesão. Por todas estas razões, o PSD sempre soube que tinha um problema para manter Coimbra. Se em 2021 foi relativamente fácil tirar a câmara a um desgastado Manuel Machado, Ana Abrunhosa era demasiado forte para um José Manuel Silva que não estava a conseguir convencer os eleitores. Abrunhosa acabaria por conseguir vencer

LUSA

Rui Cristina

Se o Chega não teve uma noite memorável, Rui Cristina conseguiu garantir que o partido tivesse uma câmara no neo-Venturistão, o Algarve. E logo numa câmara com uma importância (em termos estratégicos, simbólicos e de orçamento) como é a de Albufeira. Há ainda uma pequena vingança: Rui Cristina saiu do PSD porque Montenegro não o colocou em lugar elegível nas listas de deputados. Após a cisão, o ex-social-democrata não só conseguiu ser eleito deputado pelo Chega duas vezes consecutivas, como agora conquista uma autarquia diretamente ao PSD. Fez melhor, muito melhor, do que algumas estrelas-cintilantes do Chega como Rita Matias, Bruno Nunes ou Pedro Pinto.

Nuno Melo

No tempo em que era líder do CDS-PP, Paulo Portas orgulhava-se do “hexa” autárquico do partido: mesmo definhando em eleições legislativas, o CDS tinha seis câmaras que lhe permitiam dizer que estava ligado ao “país real”. Em 2026, já depois de deixarem o Parlamento e voltarem ao Parlamento, o “hexa” manteve-se com Nuno Melo: Ponte de Lima, Vale de Cambra, Albergaria-a-Velha, Oliveira do Bairro, Velas e Santana. Além disso, participou das coligações que venceram em Lisboa e no Porto. Na noite eleitoral, um elemento da comitiva de Nuno Melo gritou “Estamos vivos!” De facto, estão.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Os vencidos

André Ventura

O líder do Chega é assim: não consegue esconder a desilusão. No início ainda tentou, proclamando que o partido “mais do que quadruplica os resultados face a 2021” e insistindo que “isso são factos que é importante assinalar”. Mas, depois, capitulou. Admitiu que “esta não era a vitória que queríamos” e que “ainda estamos longe dos objetivos a que nos propúnhamos”. Claro: o Chega conseguiu ganhar três câmaras e isso é importante. Mas tem menos câmaras do que o CDS, cuja morte decretou várias vezes, o que só pode ser interpretado como uma humilhação. Nas legislativas de maio, o Chega teve quase 1,5 milhões de votos; este domingo, passou para 600 mil — eclipsaram-se quase um milhão de votos. Ventura sabe que não é possível disfarçar isto.

LUSA

Alexandra Leitão

Alexandra Leitão tem um problema: no discurso da noite eleitoral, aceitou a derrota, mas, na verdade, não aceitou a derrota. Não aceitou a derrota porque continua a insistir, nas entrelinhas, que o grande responsável pelo resultado não é ela, mas João Ferreira. A candidata do PS/Livre/BE/PAN destacou “a coragem da convergência” que “ficará para sempre averbada nas nossas consciências” — percebendo-se que essa “coragem” não ficará “averbada” na “consciência” do comunista. E não aceitou a derrota porque entende que ela tem razão e os eleitores não. Afinal, Alexandra Leitão afirma ter avançado com “uma convergência que não se arrepende de ter feito”, mesmo que essa “convergência” dos puros e dos esclarecidos não tenha conseguido mais votos do que o adversário. No final, a candidata do PS/Livre/BE/PAN ameaçou que o combate político continuará “em Lisboa e quiçá fora de Lisboa”. Fora de Lisboa?

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR

Manuel Pizarro

Não foi a primeira vez que Manuel Pizarro perdeu a Câmara do Porto. Talvez por isso, pelo hábito, foi o melhor candidato a assumir a derrota. Primeiro, admitiu que o resultado foi “uma desilusão”. Depois, fez questão de dizer que “ligou ao Pedro Duarte para o congratular”. A seguir, informou que ocupará o lugar de vereador no Porto. Por fim, afirmou que “o PS não pode ser responsabilizado por esta derrota” porque ele a “assume inteiramente”. De acordo com as sondagens, Pizarro partiu para esta corrida em primeiro lugar; de acordo com os resultados, acabou em segundo. Apesar dessa enorme desilusão que seguramente sentiu, fez o que tinha a fazer e disse o que tinha a dizer.

Igor Martins

Paulo Raimundo

Se até Paulo Raimundo admite, condoído, que o PCP teve um “resultado negativo”, quem somos nós para o desmentir? Sim, os comunistas conseguiram recuperar quatro câmaras que tinham perdido e ter 12 no total — mas, em relação a 2021, perde votos, autarcas e câmaras. Em Évora, além de tudo isso, também perdeu a dignidade. Com João Oliveira como candidato, o PCP passou de primeiro lugar para terceiro, atrás do PS e do PSD, e tem o Chega a curta distância. Em Setúbal, não sofreu uma derrota, sofreu uma humilhação, com Maria das Dores Meira a ser eleita sem precisar do apoio dos comunistas.

Mariana Mortágua

O Bloco de Esquerda nunca conseguiu ter implantação autárquica a sério (só teve uma câmara) — e não foi desta que isso mudou. O BE não chega lá. Nem sozinho, nem, como se viu em Lisboa, acompanhado. Mariana Mortágua afirmou que o partido teve um “resultado modesto”. Presumindo que a palavra “modesto” não mudou de significado no dicionário, trata-se de um manifesto exagero. Quando os jornalistas lhe perguntaram se a sua ausência na flotilha durante a campanha tinha contribuído para estes parcos resultados, Mariana Mortágua respondeu que “acha que não”. Quando uma líder não faz falta ao seu partido, se calhar o problema é da líder e não do partido.

O sobrevivente

José Luís Carneiro

O PS não ganhou as eleições autárquicas. Mas, em certo sentido, também não perdeu. Parafraseando António Costa, foi uma derrotinha: perdeu Lisboa, mas podia ter ganho; perdeu o Porto, mas podia ter ganho; perdeu Braga, mas podia ter ganho. E, claro, ganhou Coimbra, Faro, Bragança, Évora e Viseu, a capital do Cavaquistão — no total, foram cinco capitais de distrito. Seja como for, o PS pode dizer que, pelo menos no poder local, a bipolarização não acabou e pode afirmar que a alternativa ao PSD é, ainda, o PS. José Luís Carneiro declarou, com alívio, que “o PS voltou”. Como se costuma dizer, o partido sobrevive para lutar mais um dia. E o líder também.

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