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Há batalhas que opõem comunistas e socialistas no Alentejo ou em Loures, mas Setúbal concentra a maior parte das câmaras 'voláteis'

João Pedro Morais/Observador

Há batalhas que opõem comunistas e socialistas no Alentejo ou em Loures, mas Setúbal concentra a maior parte das câmaras 'voláteis'

João Pedro Morais/Observador

PCP recupera dinossauros autárquicos, PS quer “jóia da coroa”. Pacto de não-agressão para salvar OE é "mito" /premium

Comunistas apostam em autarcas experientes, PS quer Setúbal e tenta agarrar maioria das câmaras no distrito. Consequências a nível nacional são afastadas pelos dois, mas pode haver um "irritante".

Não era uma noite para festejos, longe disso. Há muito que se diz por graça que o PCP arranja sempre forma de ver o copo meio cheio quando analisa os resultados eleitorais, mas na noite de 2 de outubro de 2017, perante as percentagens que mostravam que a CDU (PCP+PEV) se arriscava a perder nove a dez câmaras municipais, Jerónimo de Sousa falou ao microfone do Hotel Vitória, em Lisboa, para assumir o mau resultado sem pruridos. E deixar um aviso para o futuro: “É sobretudo uma perda para as populações, que não demorarão a perceber o quão errada foi esta opção”.

Passaram quatro anos desde a noite em que o PCP viu bastiões como Almada, Barreiro, Beja e outras sete câmaras caírem, o que significa que nas eleições autárquicas deste ano se perceberá se as populações concluíram, de facto, que a opção foi “errada”. A opção não foi apenas deixar de votar no PCP; foi passar a votar no PS, que conquistou nove das dez autarquias perdidas pelos comunistas (a outra foi para um independente). Por isso, em 2021 uma das grandes questões eleitorais passa a ser a batalha PS-PCP… e as implicações nacionais que a guerra local pode ou não trazer.

Apesar de ter conquistado nove câmaras que eram comunistas em 2017, o PS vê margem para ‘roubar’ mais concelhos ao ex-parceiro parlamentar e não se compromete com qualquer pacto de não-agressão — embora, e já lá vamos, haja um cuidado em particular na conquista da “jóia da coroa”, isto é, na corrida a Setúbal, que se prevê das mais renhidas. Do outro lado, os comunistas não só querem travar essas pretensões como apostam forte em recuperar as câmaras perdidas — e já começaram a chamar alguns dos seus ‘dinossauros’ autárquicos para dar respostas de peso ao PS.

Pelo caminho de uma “luta feroz”, como antevê um dirigente socialista, resta uma pergunta: como ficam as relações dos dois partidos, que terão um Orçamento para negociar dentro de meses?

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A aposta do PCP: experiência, competência e caras conhecidas

Na mesma noite de outubro de 2017 em que Jerónimo assumia a derrota, uma socialista ficava surpreendida em sentido contrário: as televisões registaram a reação de choque de Inês de Medeiros, que contra todas as expectativas ganhava o bastião comunista de Almada, vermelho desde 1976, por uns magros 313 votos. Recuperar Almada será, por isso, uma das apostas mais fortes dos comunistas, que deverão contar com um “dinossauro” autárquico na corrida: Maria das Dores Meira, que lidera Setúbal há doze anos e segundo a lei de limitação de mandatos (há um limite de três consecutivos) não pode recandidatar-se à mesma câmara, tem afirmado publicamente a disponibilidade e vontade de concorrer por Almada.

Maria das Dores Meira e Jerónimo de Sousa numa visita a Setúbal.

RUI MINDERICO/LUSA

Os candidatos da CDU — o PCP concorre coligado com o PEV — vão sendo conhecidos a conta-gotas e vários têm essa característica: são autarcas e ex-autarcas, alguns deles “dinossauros”, e com muita experiência local. Esta semana, a CDU do Barreiro lançou o nome de Carlos Humberto, que liderou a autarquia entre 2005 e 2017 (de novo, três mandatos consecutivos) e entretanto se tornou o braço direito de Fernando Medina na Comissão Executiva Metropolitana de Lisboa. Tem agora oportunidade de voltar, para tentar ‘roubar’ o Barreiro ao socialista Frederico Rosa, uma das surpresas de há quatro anos. José Luís Ferreira, deputado e líder parlamentar do PEV, tentará fazer o mesmo na Assembleia Municipal, liderada pelo socialista André Pinotes Batista. Em Setúbal, a aposta será André Martins, que já lidera aquela Assembleia Municipal e por isso também conhece bem o terreno.

Recuperar antigos autarcas para virar o jogo pode ser, então, uma das chaves para a estratégia do PCP nas eleições deste ano? “O reconhecimento do trabalho, honestidade e competência que acompanha a acção dos eleitos da CDU é um factor decisivo na construção dos resultados eleitorais”, assume o gabinete de imprensa do partido, que respondeu a uma série de perguntas do Observador enviadas por escrito.

De resto, as eleições que se seguem à noite eleitoral autárquica mais negra para o PCP — em 2017, a perda deixou os comunistas com 24 câmaras, quando tinham 34; foi o pior resultado de sempre, já que o mínimo anterior era de 28 autarquias, em 2001 e 2009 — traduzem-se numa espécie de prova de vida autárquica. Por isso, já no congresso, um dos dirigentes comunistas de maior peso, Armindo Miranda, definia linhas estratégicas: era preciso ir para a rua, ouvir tudo — mesmo as críticas — “sem sobranceria e impaciência” e sobretudo tentar juntar às fileiras da CDU o máximo de candidatos independentes. Isto tudo para começar a trabalhar sem parar logo desde janeiro: as autárquicas estão ao virar da esquina e convém aproveitar a oportunidade para, pelo menos, estancar as perdas que o PCP tem vindo a sofrer nos últimos ciclos eleitorais.

PS: roubar a “jóia da coroa” sem melindrar demasiado

Já o PS saiu das últimas eleições com um quadro radicalmente diferente, aliás oposto: conquistou a maioria das câmaras, registou o melhor resultado de sempre e anotou a primeira vitória para António Costa como líder do partido. Se várias das vitórias aconteceram em câmaras que eram comunistas, em particular no distrito de Setúbal, os socialistas querem mais — e encontram no que aconteceu há quatro anos uma série de oportunidades para consolidarem agora o resultado.

Inês de Medeiros foi uma das surpresas de 2017: conquistou Almada, câmara comunista desde as primeiras autárquicas, em 1976.

Jorge Amaral

“O PS tem boas hipóteses de ficar com a maioria das câmaras de Setúbal”, prevê um dirigente local (os socialistas têm neste momento cinco de treze). “A aposta forte é em Setúbal, a jóia da coroa”, adianta outro. Ou seja, por um lado, os socialistas estão atentos a câmaras que não ‘viraram’ por pouco — em Palmela e no Seixal o PCP perdeu a maioria, sendo que neste último concelho os responsáveis socialistas esperam que a insistência em fazer a “Festa do Avante” tenha custado alguns votos ao PCP; em Alcácer do Sal, uma das autarquias em que os socialistas depositam maior fé e em que acreditam ter uma “dinâmica mais forte”, a diferença foi de apenas 350 votos.

Por outro lado, estão focados em aproveitar o fim de ciclo em Setúbal, com a saída de Maria das Dores Meira, para conquistar a capital de distrito, o que seria um ganho assinalável. Embora a distância seja grande (o PCP conseguiu mais 12500 votos), a esperança dos socialistas reside em que a saída da autarca emblemática e a aposta num nome forte do lado do PS sirva para motivar uma reviravolta.

E é por isso que Setúbal continua a ser um dos principais dossiês autárquicos por fechar, do lado do PS. “Como envolve a estrutura nacional vai ficando para o fim”, assume um dirigente local. O nome da líder parlamentar, Ana Catarina Mendes, vai sendo colocado como hipótese e desejado pelas estruturas locais, embora fontes ouvidas pelo Observador garantam que não há margem para António Costa “abdicar” de uma peça-chave no Parlamento. Há várias hipóteses alternativas — nomes locais, como o arquitecto Paulo Lopes e o deputado Fernando José, mas não só — mas o dossiê continua a ser um dos casos mais complicados para definir a nível nacional, a par do Porto (em Portalegre, que também é capital de distrito, ganha força o nome do deputado Luís Testa, apurou o Observador).

Ana Catarina Mendes é desejada pela estrutura local, mas Costa não deverá querer "abdicar" da líder parlamentar.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Aqui entra outro fator que pode ser determinante: o PS quer ou não assumir o confronto com o ex-parceiro que foi a peça chave para viabilizar o último Orçamento do Estado? No PS, dirigentes locais e nacionais juram que a preocupação com hostilizar o PCP “não é fator”, que “não há limitações” e que o objetivo é apenas ganhar. Um eventual pacto de não-agressão, motivado pelas perdas que o PCP tem vindo a sofrer desde que alinhou nos acordos de 2015, não passa, por isso mesmo, de um “mito”.

PS de Setúbal lança Ana Catarina Mendes: “É a estrela mais brilhante”. Decisão nas mãos da cúpula (e da própria)

Coisa diferente, assumem fontes conhecedoras do processo em Setúbal, seria escolher a líder parlamentar, um dos nomes da primeira linha do partido, para ir contra o PCP na capital de um distrito crucial para os comunistas. E aí, sim, o fator “geringonça” pode entrar na equação… pelo menos na cabeça dos socialistas.

Autárquicas ‘matam’ negociação nacional? Não é bem assim

Há quatro anos, no discurso de vitória, António Costa preocupava-se em assegurar que os ganhos do PS não significariam “a derrota de nenhum dos seus parceiros parlamentares”, circunscrevendo a lista de derrotados da noite ao PSD: “Procurar outros derrotados é disfarçar a leitura essencial que há a retirar destas eleições”. De volta ao Hotel Vitória, Jerónimo deixava mais um aviso: “Muitas pessoas ainda não ganharam a consciência de que as possibilidades de ir mais longe e seguir em frente seriam sobretudo asseguradas com o reforço da CDU e não do PS”.

"Independentemente de fatores nacionais que não se podem iludir, a verdade é que as eleições locais são sobretudo determinadas pela avaliação do trabalho realizado pelas e nas autarquias"
Gabinete de imprensa do PCP

Os tempos mudaram, a geringonça como a conhecíamos morreu e aproximam-se agora as segundas autárquicas desde que o Jerónimo e Costa se sentaram para assinar os acordos de 2015. Ao Observador, o gabinete de imprensa comunista assume que há fatores nacionais que “não se podem iludir”, mas assegura: “A verdade é que as eleições locais são sobretudo determinadas pela avaliação concreta do trabalho e intervenção realizados pelas e nas autarquias”. As autárquicas são eleições muito diferentes das legislativas e o eleitorado saberá distingui-las, assegura o PCP.

E se há quatro anos houve quem acreditasse que a derrota significaria um corte dos comunistas com a geringonça, a verdade é que logo no rescaldo das eleições o comité central deixava, em comunicado, a chave para perceber o PCP de então e o PCP de agora: “O PCP não se deixará condicionar em função de resultados eleitorais”. Mais claro: “Nenhuma circunstância reduzirá a independência de avaliação quanto à resposta necessária aos problemas nacionais nem condicionará o seu poder de decisão política”. Por outras palavras: a luta PS-PCP será aguerrida, mas nesta equação a fórmula que iguala uma derrota autárquica ao fim das negociações nacionais está longe de dar conta certa.

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