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Pinto da Costa tornou-se o presidente com mais anos no cargo entre os principais clubes europeus, com um reinado de mais de quatro décadas
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▲Pinto da Costa tornou-se o presidente com mais anos no cargo entre os principais clubes europeus, com um reinado de mais de quatro décadas

ALFREDO CUNHA

▲Pinto da Costa tornou-se o presidente com mais anos no cargo entre os principais clubes europeus, com um reinado de mais de quatro décadas

ALFREDO CUNHA

Pinto da Costa, o ex-vendedor de fogões e tintas que deu gás à revolução do futebol português e pintou um clube regional para o mundo

Tolerava estupidez, odiava ingratidão. Somou sarcasmo às polémicas. Diminuiu poder do centralismo. Multiplicou casos, inimigos e fãs. Quem foi o homem que mais ganhou (e dividiu) no desporto nacional.

Em 2022, quando comemorava quatro décadas na liderança do FC Porto, Pinto da Costa não teve dúvidas ao escolher a quem dedicar mais um Campeonato. “Este é para a minha mãe. Foi ela que sempre me disse que era o destino”, recordou. Mas essa foi apenas uma das frases que foi recordando de Maria Elisa Bessa Lima de Amorim Pinto ao longo dos mais de 60 anos de ligação que teve aos azuis e brancos. “Para aquilo que se for, seja para polícia ou para médico, tanto faz, o que é preciso é gostar, ser-se útil aos outros e ser-se sério. Ouvi isto tantas vezes que me marcou profundamente”, disse numa outra ocasião. O que ninguém, nem sequer o próprio, poderiam acreditar era que o gosto teria uma longevidade tão extensa. “Olhe, há uma coisa que tenho como garantia: não serei eu o presidente nos próximos dez anos”, disse numa entrevista em 1992 à RTP. Afinal, foi mais dez, mais 20, mais 30 anos. E marcou o futebol e o desporto em Portugal.

Olhando apenas para o futebol, basta apresentar números: ganhou 23 dos 30 Campeonatos, 13 das 18 Taças de Portugal, 22 das 23 Supertaças, a única Taça da Liga (troféu que demorou mais tempo a conquistar) e os sete títulos europeus entre duas Taças dos Campeões/Champions, duas Taças UEFA/Liga Europa, duas Taças Intercontinentais e uma Supertaça Europeia. Ou seja, e desde que assumiu a presidência dos dragões em 1982, ganhou 66 troféus, mais do que Benfica (36) e Sporting (21) juntos. Mais do que isso, foi alguém incontornável no panorama nacional. Pelas lutas, pelas vitórias, pelas polémicas, pelo sentido de humor, pelos casos. Tudo isso ao longo de mais de quatro décadas, superando até o registo do mítico presidente do Real Madrid, Santiago Bernabéu. “Aquilo que é imortal não pode ser destruído e o FC Porto é um clube que teve princípio mas nunca terá fim. Ninguém é capaz de o destruir”, disse um dia. Consigo, mais do que isso, criou um ADN, habituou-se a ganhar e mostrou que nada estava circunscrito aos maiores rivais.

“Por Jorge Nuno poucos me tratam. As minhas irmãs tratam-me por Nuno. Os meus irmãos tratavam por Jorge”, costumava dizer o líder portista que tinha por hábito acordar todos os dias às 7h da manhã (dizendo que se dormisse cinco a seis horas era o suficiente). Havia um outro lado de Pinto da Costa menos conhecido mas que todos elogiavam, do herói Nuno Álvares Pereira ao primeiro ídolo Humberto Delgado, do gosto pela poesia que o acalmava nos momentos de maior stress à paixão pelo teatro que veio da família – que chegou a ser proprietária do Teatro São João – ou por cães. “Cinema já vou pouco mas gostava muito. Dos filmes que me lembro, de quando tinha tempo para ir ao cinema, lembro-me do ‘Deus lhe pague’, que esteve no cinema São João quase meio ano, do ‘Rebecca’ e do ‘Cyrano de Bergerac'”, contou a figura que apontava como defeito mais tolerável nos outros a estupidez e o menos tolerável a ingratidão. E foi também com essa linha de pensamento que geriu o caminho que o tornou uma das figuras mais conhecidas do país.

▲ Pinto da Costa no seu gabinete no Dragão com imagens de Ramalho Eanes e D. António Francisco dos Santos

Leonel de Castro

Os colégios, a baliza do Infesta, o café Aviz, o postal do BPA e o início nas modalidades

Nascido a 28 de dezembro de 1937, no Dia dos Santos Inocentes (uma coincidência que recordou várias vezes em entrevistas que foi dando) na antiga freguesia de Cedofeita, no Porto, numa família tradicional da burguesia da cidade que chegou a ser detentora do Teatro de São João, Jorge Nuno, o quarto de seis irmãos que era conhecido também por Pituca, viu os pais separarem-se ainda novo mas nada lhe faltou. Quando estava na escola primária, e em paralelo com os estudos no Colégio Almeida Garrett, tinha aulas para ir aprendendo línguas (inglês e francês). Mais tarde, foi estudar para o Instituto Nun’Álvares, um colégio jesuíta em Santo Tirso conhecido também por Caldinhas, e teve as únicas experiências como atleta.

“Quando era criança jogava futebol todos os dias, porque estava num colégio interno. Ainda fiz um jogo na seleção do Porto como júnior quando jogava no Infesta. Insistiram para continuar a jogar mas como os jogos do Infesta eram à mesma hora do FC Porto, queria ver o FC Porto”, contou em 2003 à revista Espiral do Tempo, recordando os tempos de guarda-redes que chegaram ainda ao Sporting de Coimbrões. “Assinei a ficha, como se dizia na altura, para provar ao Infesta que nunca jogaria noutro clube, e não cheguei a atuar como sénior”, contou. Como atleta, chegava ao fim o curto trajeto; como adepto, estava só a começar um longo percurso, que começou aos oito anos quando foi pela primeira vez ver um encontro dos dragões ao Campo da Constituição frente ao Sp. Braga, no peão. A experiência não foi boa porque pouco ou nada conseguiu ver numa zona do estádio cheia mas nas partidas seguintes passou a ir para a bancada.

Quando nasceu, o presidente do FC Porto, Carlos Teixeira Costa Júnior, era alguém conhecido da família. No entanto, e mesmo torcendo pelos azuis e brancos, os pais nunca gostaram particularmente da forma fervorosa como Pinto da Costa vivia e sentia o FC Porto, tendo sobretudo o receio de que isso pudesse prejudicar os estudos. “Foi a minha avó quem, às escondidas dos meus pais, me ofereceu a inscrição no clube quando fiz 16 anos. E era o meu tio que me levava aos jogos muitas vezes sem que os meus pais soubessem”, contou o presidente portistas. “Os meus pais queriam que fosse um bom estudante, era para isso que me estavam a educar. Fui educado em princípios muito rigorosos que ainda conservo, de seriedade, de lealdade, de coerência e em hábitos exigentes de trabalho”, acrescentou. Pormenor curioso: no seu gabinete tinha uma imagem da equipa do FC Porto do ano de 1937 mas com uma montagem sua.

O sentido de humor pelo qual ficou conhecido já se notava nesses tempos, em que frequentava o café Aviz para jogar bilhar e conversar com os amigos, e mais tarde o café Bom Dia na Praça Velazquez. Um dia, num teste de Ciências (ou “ponto escrito”, como dizia) e perante a questão que pedia exemplos de paquidermes, chocou o colégio com a resposta “Um elefante e uma elefanta”. Pinto da Costa era assim, sempre a pensar mais nas idas ao FC Porto entre Campo da Constituição, Estádio do Lima e obras do novo Estádio das Antas, onde ia todas as semanas com o tio até ao jogo de inauguração. Com 15/16 anos começou também a ir aos jogos fora, em Coimbra (onde demorava quase três horas a chegar) e em Lisboa.

O FC Porto era já a sua vida mas também a sua outra vida que se confundia com a do FC Porto foi tendo o seu caminho natural. Foi assim que, após ter completado os exames, respondeu a um anúncio com mais dois amigos que estavam consigo nesse dia no café Aviz para o Banco Português do Atlântico, recebendo resposta através de um postal uma semana depois. Foi à entrevista, ficou, teve o primeiro emprego aos 19 anos onde conheceria Artur Santos Silva. Mais tarde, ainda trabalhou como comercial, foi vendedor de tintas e resinas na Sarcol, passou de seguida pelo ramos dos eletrodomésticos como chefe de vendas da Segrobe e assumiu depois um percurso por conta própria. Entretanto, a ligação aos dragões mudara, sendo que numa entrevista à Gazeta dos Desportos viria apenas a descrever-se como um “vendedor de fogões”.

▲ Foi a avó de Pinto da Costa que fez às escondidas a inscrição no FC Porto quando tinha 16 anos

NurPhoto via Getty Images

Em 1958, quando tinha ainda 20 anos, aceitou o convite do então presidente César Bonito (um dos líderes do clube que mais marca deixaram) para ser vogal da secção de hóquei em patins dos azuis e brancos, a modalidade que mais acompanhava além do futebol e que tinha como líder o “senhor Vieira”, figura que já conhecia também pelo acompanhamento da modalidade. Começava aí um percurso que foi subindo degrau a degrau nas Antas: foi promovido depois a chefe do hóquei em patins, passou também a dirigir o hóquei em campo e chegou em 1967 à secção de boxe, onde conheceria um dos melhores amigos, Reinaldo Teles (um dos atletas em maior destaque na secção). Pelo meio, casou pela primeira vez com Manuela Carmona Graça, que conhecia desde a infância e com quem namorou alguns anos. Já depois de terminar o curso de Educação de Infância e em Ciências Históricas em Coimbra e de ter continuado os estudos em Karlsruhe, foi convidada a trabalhar na Alemanha. Foi aí que a pediu em casamento. Em 1967, nasceu Alexandre.

O futebol podia estar a enfrentar aquele que seria o seu maior jejum de sempre mas o trabalho que fazia nas secções que tinha a seu cargo não passava ao lado de quem estava na liderança do FC Porto, como veio a acontecer em 1969 quando Afonso Pinto de Magalhães, outra das maiores referências do clube, coloca o seu nome na lista a sufrágio nas eleições para ficar como diretor de todas as modalidades amadoras. Só ficaria dois anos, por entender que Américo de Sá deveria apresentar novos nomes quando foi a eleições em 1971, mas foi nesse período que conheceu um nome que mais tarde iria ser conhecido por razões bem diferentes: Belmiro de Azevedo, antigo presidente do grupo Sonae que era então diretor da natação.

Nesse hiato até ao regresso por uma porta grande chamada departamento de futebol, Pinto da Costa ainda esteve ligado ao futebol do Infesta, o “seu” clube enquanto atleta. Essa ligação que começou com o senhor Vieira, chefe da secção de patinagem, a perguntar se não queria entrar no hóquei em patins por ser uma presença constante nos treinos e nos jogos feitos perto de Cedofeita. “Lembro-me de ter ido ao Pavilhão Eduardo VII, em Lisboa, disputar um jogo para o Campeonato contra o Benfica e de perdermos no último minuto com um golo de patim, marcado pelo Livramento. Houve protestos da nossa parte. claro, gerou-se a confusão. Depois, quando tudo amainou, o Livramento, essa enorme figura da modalidade com quem tinha um bom relacionamento e que haveria de ser treinador campeão pelo FC Porto, disse-me, com uma ironia amistosa, ‘Ó Jorge, deixa lá. Este ano foram vocês os prejudicados, para o ano são vocês os prejudicados na mesma’. Hoje sorrio mas na altura era muito complicado”, escreveu Pinto da Costa.

A forma como agarrara também na secção de boxe, que naquela fase ou era organizada e reestruturada ou seria suspensa pelo clube, valia-lhe a alcunha do “bombeiro voluntário” das modalidades. E foi por essa ideia que, ao jantar com a mulher em casa, decidiu aceitar o convite de Afonso Pinto de Magalhães. “Com muito pragmatismo, ela convenceu-me. Se eu não aceitasse, dizia-me, seria sempre o bombeiro voluntário, a saltar de secção em secção a cada ameaça de fogo. Se eu aceitasse, seria diretor durante dois anos e, findo o mandato, ninguém mais se atreveria a desafiar-me a integrar qualquer secção nem a assumir qualquer outro cargo”, salientou no seu livro “A chama do nosso Dragão” sobre um capítulo que considera ter sido “uma etapa importantíssima na formação como dirigente e como homem”.

O Peacock, a conversa com amigos no café Orfeu e a dupla anti-centralismo com Pedroto

Pinto da Costa gostou da experiência de dirigir todas as modalidades amadoras. Mais do que isso, fez aí mais uma graduação para a cadeira de presidente que iria ocupar ao longo de quatro décadas. Os motivos? Vários. Conhecer centenas e centenas de atletas, treinadores e dirigentes que em grande parte eram um retrato do FC Porto à data. Perceber como funcionam as dinâmicas de cada secção mediante os objetivos e as suas lideranças. Sentir algo que já se queixava antes e que ainda hoje se queixava: a questão do poder central em prejuízo dos portistas. No entanto, e perante o convite de Américo de Sá para seguir na sua lista no sufrágio seguinte, preferiu dar lugar a outros, tendo funções de dirigismo mas no Infesta.

O dirigente que começava a ser admirado por muitos passava a ser apenas um adepto de bancada (bem informado, sempre em contacto com toda a gente mas sem funções) e foi nessa posição que viveu um dos dias mais tristes enquanto portista. A 16 de dezembro de 1973, no fatídico minuto 13 da 13.ª jornada do Campeonato Nacional de um FC Porto-V. Setúbal, Pavão, capitão dos azuis e brancos, caiu de forma desamparada no relvado. “Estava a assistir ao jogo com o meu irmão José Eduardo, já na altura um reputado médico patologista. E o meu irmão retirou-me logo qualquer esperança, dizendo que, pela forma como tinha tombado, o jogador estaria quase de certeza morto”, contou Pinto da Costa, que na altura tinha outra ligação ao médio: Pavão ia abrir um bar na Alameda Eça de Queirós, perto da sua casa, e quem estava a tratar das obras era um amigo de Pinto da Costa. O Peacock, Pavão em inglês, nunca chegou a abrir.

Foi também como mero-adepto-que-era-muito-mais-do-que-um-adepto que viveu a Revolução do 25 de abril, algo que sentiu muito a nível pessoal mas também pelo próprio clube – e é por isso que o Museu no Estádio do Dragão tem esse espaço antes e depois de 1974 bem definido, com o risco do lápis azul e corredores apertados antes e mais espaço e liberdade depois. “Foi marcante para a história do clube, não só em termos desportivos no que toca à quantidade de títulos arrecadados mas principalmente pela forma como o poder político começou a olhar para o FC Porto: como mais um grande, digno do mesmo respeito e da mesma consideração que o Sporting ou o Benfica”, escreveu no livro “A chama do nosso Dragão”. Logo à cabeça, e em termos práticos, o presidente da Federação não tinha de ser obrigatoriamente de Lisboa e sem censura passou a haver uma outra capacidade para criticar injustiças e manifestar momentos de revolta.

▲ Pinto da Costa sempre teve um carinho especial pela secção de hóquei em patins, que conseguiu ser em 2023 campeã europeia após mais de três décadas de jejum

D.R. Twitter FC Porto

Tudo isso foi alimentando a vontade de regresso em Pinto da Costa. Faltava apenas um gatilho, o gatilho. E o mesmo acabou por surgir curiosamente em conversa com um grupo de amigos no café Orfeu.

A maneira como os adeptos do Boavista presentes na mesa se gabavam de vários temas foi mexendo com Pinto da Costa. Havia o caso de Albertino, que estava prestes a reforçar os azuis e brancos mas acabou por assinar pelos axadrezados. Havia o fenómeno José Maria Pedroto, que conseguia colocar o conjunto do Bessa a discutir títulos e que tinha Valentim Loureiro a dizer que enquanto fosse presidente o treinador nunca iria para o FC Porto. Havia nova eliminação antes das meias-finais da Taça de Portugal. Tinha havido a tentativa de Américo de Sá de trazê-lo uns anos antes para as Antas de novo. A frase “Largos dias têm cem anos” que ficaria associado ao título da sua autobiografia nasceu aí. E voltou mesmo, nesse ano chave de 1976.

Pinto da Costa sempre gostou de desafios, sempre gostou de ver o FC Porto a ser melhor, sempre gostou de aceitar e conseguir aquilo que outros recusavam por não conseguirem. Antes de falar com Américo de Sá para fechar a margem de autonomia que necessitava para assumir o departamento de futebol, fechou contrato com Pedroto em janeiro numa casa no Mindelo. A seguir, foi apresentado a 13 de maio (data escolhida por si em memória de Nossa Senhora de Fátima) depois de um último encontro com o candidato a novo mandato na liderança no Capa Negra. Em junho, com contrato assinado já em casa de Pinto da Costa, desvendou-se algo que ficou em segredo seis meses. Para muitos, aquilo que é hoje o ADN FC Porto tanta vezes abordado por Sérgio Conceição nasceu nesse período da dupla no futebol entre 1976 e 1980.

A força interna de Pinto da Costa ficava bem demonstrada, não só por ter desviado Pedroto do Boavista mas pela forma como conseguiu convencer tudo e todos de que teriam de levantar a sanção interna ao treinador, que após uma saída a mal das Antas no final da década de 60 e vários capítulos de guerra com o presidente Afonso Pinto de Magalhães foi banido em Assembleia Geral pelos sócios. Como técnico, José Maria Pedroto estava muito à frente. Como dirigente, Jorge Nuno Pinto da Costa estava muito à frente. Juntos, respeitando o passado e percebendo o presente, projetaram o futuro do que é o FC Porto. Como? Aumentando a profissionalização e organização do departamento de futebol, da blindagem do balneário à adaptação de novas formas de trabalho aproveitando também as análises estatísticas, investindo num grupo mais forte com nomes como Jaime Pacheco, Lima Pereira, Sousa, Frasco, Duda ou Fonseca e denunciando aquilo que na sua ótica travava o crescimento dos azuis e brancos: a política de centralismo do país.

O discurso pegou. Enquanto Pedroto ia preparando a equipa para o salto que faltava no plano desportivo, a ligação dos adeptos com a equipa era bem maior, assumindo cada vez mais que a tal “maldição da Ponte da Arrábida”, que fazia com que os dragões já estivessem a perder mal rumassem a sul, começasse a ser mais percecionada como uma alegada vontade dos clubes de Lisboa em manter os centros de decisão reduzidos à capital. Em 1978, o FC Porto consegue aquele que para muitos foi o Campeonato mais importante da sua história, quebrando um jejum de 19 anos como o clube nunca tinha registado e não mais voltou a ter (nesse ano ainda foi à final da Taça de Portugal mas perdeu com o Sporting). Na época seguinte, o bicampeonato. Na temporada seguinte, o fim de um projeto. E, apesar de ter sido um ano sem títulos conquistados, é aqui que entronca a génese do que seria a era de quatro décadas de Pinto da Costa no poder dos portistas.

O FC Porto só por uma vez até aí conseguira ganhar o Campeonato em anos consecutivos (1939 e 1940) e o grande objetivo passava por reconquistar o troféu para marcar a nova era com um histórico tricampeonato. No entanto, numa prova disputada até ao final com o Sporting, os leões acabaram por levar a melhor com os dragões a queixarem-se por mais do que uma vez de que tinham sido afastados do título. Ainda assim, havia a final da Taça de Portugal. Mais um jogo, desta vez com o Benfica, mais uma derrota com um único golo de César e uma reação limite de Pinto da Costa enquanto chefe do departamento de futebol. “A falta de cobertura do presidente à minha luta contra as forças da capital, o vir a saber que, enquanto cercados por uma multidão enfurecida, na Tribuna de Honra do Estádio Nacional, Américo de Sá confraternizava, entre outros, com o doutor Martins Canaverde, influente deputado do CDS e dirigente histórico do Benfica, leva-me a pensar que não valerá a pena continuar a luta contra os interesses do centralismo”, atirou.

▲ Pinto da Costa no banco do FC Porto com José Maria Pedroto, a sua "alma gémea" nos primeiros tempos no futebol dos dragões

Américo de Sá já demonstrara antes que não se sentia particularmente confortável com algumas declarações mais inflamadas da dupla. Um exemplo disso mesmo foi quando Pinto da Costa, então numa entrevista à RTP, falou no dragão que estava no símbolo como a imagem de “uma cidade adormecida mas que poderia a qualquer momento levantar-se em defesa do seu clube”, algo que levou o presidente do clube a dizer que não desejava mais alusões do género porque podia representar “um espírito muito guerreiro”. Pinto da Costa saiu, José Maria Pedroto foi a seguir. “Apenas se tratou de substituir um diretor que afirmou que não poderia continuar e um técnico que sonhava ser escritor. Já houve muitos senhores Pedrotos, já houve muitos Pintos da Costa”, justificou então Américo de Sá após passar Teles Roxo do andebol para o futebol e contratar o austríaco Herman Stessl para o comando técnico. Mas o filme esteve longe de resumir-se a isso.

“Mais uma vez fica provado que Américo de Sá queria entrar na Assembleia da República com a cabeça de Pinto da Costa debaixo do braço mas em vez disso leva na testa o grande letreiro de traidor”, atirara Pedroto, entretanto suspenso pela Direção. “Pinto da Costa quis ser o dono do Porto mas a estratégia falhou. Nunca disse que o Porto deveria render-se a Lisboa. O que lhe disse é que não aceitava que o clube entrasse em guerras como as que fizeram Pedroto e Pinto da Costa”, justificava Américo de Sá. Chegava aquele que ficaria conhecido como o Verão Quente de 1980, com um grupo de 14 jogadores a boicotar os treinos e a fazer um estágio à parte no Pinhal de Santa Cruz do Bispo em solidariedade com o chefe de departamento e com o técnico suspenso. “Foi pela honra, pela devoção, pela honestidade de processos e pela grandeza de carácter”, justificaram Teixeira, António Oliveira, Lima Pereira, Frasco, Simões, Fernando Gomes, Freitas, Jaime Pacheco, Quinito, Octávio, Romeu, Albertino, Costa, Sousa e Tibi. Oliveira saiu, Octávio também, Gomes foi vendido ao Sp. Gijón, os outros voltaram às Antas mas não mais o FC Porto voltou a acertar o passo.

“Emboscada”, a Bola Branca que a mãe ouviu, quatro promessas e uma audição com Eanes

Hermann Stessl foi a aposta de Américo de Sá para uma nova era nas Antas sem Pinto da Costa e José Maria Pedroto. No papel, e preferindo alguém de fora que não estivesse condicionado por tudo o que acontecera, faria sentido pela carreira na Áustria entre Grazer AK e Áustria de Viena; na prática, não resultou. E tudo começaria a mudar ainda no final de 1981, um ano e meio antes de uma cisão que poucos imaginariam que mais tarde daria ligar ao capítulo mais importante da história do clube, pela falta de resultados desportivos que nem mesmo a conquista da Supertaça frente ao Benfica recuperando de uma desvantagem de 2-0 na primeira mão (4-1 nas Antas) conseguiu apagar: após cinco vitórias a abrir o Campeonato, o FC Porto só teve um triunfo em oito encontros, empatou em casa com V. Guimarães e Amora e perdeu depois com o Rio Ave. Foi numa dessas tardes que aconteceu o que Pinto da Costa chamaria mais tarde de “emboscada”.

Um grupo de associados onde constavam pessoas e amigos que seriam fundamentais no percurso do líder portista como Armando Pimentel, Álvaro Pinto, Neca Couto ou Sardoeira Pinto foram ter com o antigo chefe do departamento de futebol para fazerem um convite então quase inocente: participar num encontro entre sócios para discutir o futuro dos dragões a quatro meses e meio das eleições. A tertúlia passou num ápice a reuniões, as reuniões passaram a desenhos de programas, os desenhos de programas passaram a sessões de esclarecimento previstas para dezenas de pessoas mas que tinham centenas de presenças no Porto, em Gaia, em Rio Tinto, em Vila Meã, em Marco de Canaveses, em Paços de Brandão, na Vila da Feira. Faltava apenas o mais importante: o nome do presidente. Para Pinto da Costa, que fazia esses percursos achando que estaria apenas de volta ao departamento de futebol, o escolhido deveria ser Manuel Francisco do Couto, conhecido como Neca Couto, pelo trajeto como empresário na indústria do papel. Para Neca Couto e todos os outros, o eleito estava há muito ali mas era Pinto da Costa. Foi nessa fase que se gerou um impasse.

O líder portista recordava várias vezes um episódio marcante para a decisão. “Aos sábados ia sempre almoçar à minha mãe e, num desses dias, ela perguntou-me: ‘Sempre vais para o F. C. Porto? Ouvi na Bola Branca’ que querem muito que tu vás.’ E quando estava à espera que ela me dissesse que eu estava maluco ela disse ‘Acho que tens de ir. Desde pequenino que só vês o F. C. Porto. É o teu destino’. E eu respondi: ‘Até a mãe?’ Aquilo foi uma martelada na cabeça”. Foi aqui que consolidou algo que durante dias ia recusando para si mesmo, até porque uma nova ronda de reuniões concluíra que não havia outras opções para número 1 a não ser ele. Recordou várias vezes conversas no passado, pesou tudo o que iria ganhar e perder com a decisão, temeu não poder cumprir o que estava no programa. Por fim, na véspera do prazo limite, aceitou. Em abril de 1982, com 44 anos, foi eleito. E fez questão de deixar uma frase que o definiria: “Eu não sou presidente, assumi o lugar de presidente. O que sou é adepto. Antes até de ser sócio, eu sou adepto”.

“Desse dia recordo tudo. Foi um dia de grande emoção. Trabalhámos para ver a situação do clube com o secretário-geral. Tomámos posse no pavilhão onde estiveram grandes figuras e presidentes, como Fernando Martins, presidente do Benfica, um grande amigo de muitas ocasiões. Esteve o Sporting, representado pelo senhor Agostinho Marques. Estiveram os clubes na sua maioria. Um tempo totalmente diferente. Uma posse muito concorrida e emocionante. Recordo-me que tratei Américo de Sá por meu colega, presidente, tinha acabado de assumir mas ele era presidente honorário. Ele, para mim, continuava a ser presidente do FC Porto. Depois, fomos para um restaurante, estivemos a confraternizar até às quatro da manhã. Quando tomei posse havia grandes problemas, falta de liquidez. Tínhamos as contas todas a zero”, resumiu Pinto da Costa, que nesse ano de 1982 teria a primeira grande alegria com a conquista da Taça das Taças de hóquei em patins, o primeiro título da secção que chegou a chefiar e que era uma das preferidas.

▲ Pinto da Costa nunca esqueceu importância que teve a a audiência com o então Presidente da República Ramalho Eanes

D.R. Twitter FC Porto

O presidente portista sempre deu uma especial importância a todos os atos solenes. A quem falha o convite e vai a outras coisas semelhantes, não perdoa; a quem vai mesmo que seja apenas para marcar presença, não mais esquece. Ficava grato, sentia um enorme reconhecimento. Foi assim que nasceu a ligação com Ramalho Eanes, então Presidente da República que teve um papel importante nos primeiros tempos de Pinto da Costa apenas pelo facto de ter tratado o líder do FC Porto como trataria o líder que qualquer outro grande clube. “As dificuldades eram imensas, enormes, eram problemas todos os dias. Fomos eleitos por dois anos e andou um grupo de pessoas com um ex-dirigente a fazer visitas a dizer que só iríamos durar três meses porque éramos um grupo que tinha assaltado o clube a mando de um determinado partido político português e nós tivemos dificuldades imensas porque isso tirava-nos credibilidade”, recordou Pinto da Costa.

“Talvez por inspiração divina, um dia fui ao aeroporto esperar um amigo e chegava a comitiva onde estava o Presidente da República, general Ramalho Eanes. Vinha nessa comitiva um grande amigo meu, o coronel Aventinho Teixeira. Perguntou-me ‘Estás à espera do presidente?’. E eu disse ‘Não, nem o conheço, votei nele mas nem o conheço’. E ele: ‘Mas olha que ele acompanhou a vossa luta e tem muito apreço por vocês e por ti’. Passados dois ou três dias, telefonou-me a dizer que o presidente me ia receber numa visita de cortesia de dez minutos. Lá estivemos. Foi mais de uma hora e o Presidente quis saber os problemas e disse-nos que o FC Porto tinha uma condecoração por receber. Marcámos para a semana seguinte. Com a sua credibilidade e coragem, condecorar um grupo de salteadores? Não podia ser… Acabaram-se os boatos, tivemos outra aceitação para resolver problemas. Esse dia marcou o início desta caminhada. Não nos esquecemos da sua importância no FC Porto e para a Direção do FC Porto”, destacou no 40.º aniversário na presidência.

Entre vários pontos, havia quatro que definiam o projeto para o mandato de dois anos até 1984 que acabara de assumir. No futebol, José Maria Pedroto voltou como treinador e Fernando Gomes foi resgatado ao Gijón numa história feita de ziguezagues em que os azuis e brancos conseguiram assegurar as garantias bancárias de quem pouco ou nada tinha. Nas modalidades, queria ser campeão de hóquei em patins, algo que alcançou em 1983 após a vitória na Taça das Taças na época anterior. Nas infraestruturas, pretendia rebaixar o antigo Estádio das Antas para aumentar a lotação e foi nesse período que lançou todas as bases para essa obra. Na comunicação, lançou uma revista mensal, a Dragões, nome que fez questão de colocar como alcunha dos azuis e brancos e que nem todos gostavam no clube por conter esse alegado carácter mais bélico. Faltava o que todos consideravam impossível mas que aconteceu: uma final europeia. E aconteceu logo em 1984.

A derrota com a Juventus de Platini e Boniek na decisão da Taça dos Vencedores das Taças em Basileia foi o resultado esperado por quase todos menos por Pinto da Costa e Pedroto. Aliás, a ausência do técnico, que já estava gravemente doente e foi substituído pelo adjunto António Morais, teve o seu peso para travar alguns capítulos que ficaram como lição: a falta de tranquilidade num hotel invadido por adeptos eufóricos que iam pedindo autógrafos e fotografias, a ideia de deslumbramento por todo o folclore da comunicação social em torno da surpresa da época, a incapacidade de reação à adversidade em termos mentais que levou mesmo a que Zé Beto fosse suspenso por um ano por insurgir-se contra a arbitragem. O presidente portista percebia o que falhara e sentia que era dali que tinham de ser tiradas as ilações para um dia ganhar na Europa. Assim foi: com Artur Jorge, jovem treinador que Pedroto apontou como sucessor nos últimos meses de vida, o FC Porto ganhou a Taça dos Campeões Europeus em 1987 frente ao Bayern e juntou depois a mítica Taça Intercontinental na neve de Tóquio com o Peñarol e a Supertaça Europeia (Ajax) com Tomislav Ivic.

▲ Conquista da Taça dos Clubes Campeões Europeus em 1987 foi o primeiro grande feito internacional do FC Porto depois da final da Taça das Taças perdida com a Juventus em 1984

Em paralelo, a defesa mais agressiva do clube contra o centralismo de Lisboa ganhava outros contornos. Em 1983, numa final da Taça de Portugal que estava marcada inicialmente para o Estádio das Antas mas que a Federação queria depois colocar de novo no Estádio Nacional, Pinto da Costa levou a Assembleia Geral a hipótese de não comparência e teve de haver um recuo para que o FC Porto se apresentasse (sendo que o Benfica ganharia por 1-0 na Invicta com golo de Carlos Manuel). No ano seguinte, e perante as saídas de Jaime Pacheco e Sousa para o Sporting num “ataque” que falhou apenas Frasco, Pinto da Costa desviou de Alvalade o jovem Paulo Futre alegando também a mesma cláusula da falta de condições psicológicas que os leões utilizaram para ficar com os médios – sendo que Jordão era o preferido mas havia Fernando Gomes, o Bibota que dominava o ataque. Entre 1984 e 1990, o FC Porto ganhou quatro dos seis Campeonatos e virava a lógica que imperava na prova há várias décadas. Também em 1987 nasceu Joana, segunda filha da relação com Filomena Pinto da Costa, antiga secretária do clube com quem viria a casar duas vezes.

Uma retrete penhorada, agressões nas Antas, pedradas no Jamor e o penta do “Ruizinho”

O FC Porto começava a consolidar-se como crónico candidato ao título com uma base de jogadores que se ia mantendo e que ficaria nos livros com nomes como Vítor Baía, João Pinto, Jorge Costa, Aloísio, Fernando Couto, Secretário, Jaime Magalhães, Semedo, Domingos ou Kostadinov, entre outros. Foi com esta base de jogadores que voltou a ser bicampeão em 1992 e 1993 com Carlos Alberto Silva (com uma manifestação a 1 de maio de 1993 pela interdição das Antas devido a um relatório policial que levou milhares de pessoas às ruas), foi com essa a base que Bobby Robson, que pouco tempo antes tinha deixado o Sporting depois de uma eliminação europeia com o Casino Salzburgo, ficou quando chegou durante a temporada de 1993/94. Aí, o FC Porto voltou a perder a oportunidade de um inédito tri. Aí, Pinto da Costa mostrou as suas “guerras”.

Episódio 1: a penhora do Estádio das Antas pelo então ministro Eduardo Catroga no seguimento das dívidas do clube ao Fisco e à Segurança Social, incluindo a própria retrete do estádio que ficou como a “imagem” da ação. Pinto da Costa convocou uma conferência de imprensa para o Pavilhão do clube, com a presença de milhares de sócios e adeptos, onde falou mesmo numa alegada chamada a meio da intervenção. “Peço-vos serenidade mas acabei de ser informado de que vem a caminho do Pavilhão do FC Porto a GNR por uma ameaça de bomba. Se estiver aqui uma bomba, eu espero que ela expluda”, gritou perante a euforia de todos os presentes. “Enquanto existir esta penhora, o FC Porto não se sentará com ninguém, não dialogará a dívida e não pagará um tostão dela”, acrescentou ainda num processo onde acabou por ter a solidariedade de vários clubes e instituições desportivas e que terminaria em termos globais no primeiro trimestre de 1998, quando o Estado aceitou ficar com todas as receitas do Totobola nos 12 anos seguintes para liquidar dívidas.

Episódio 2: as agressões a jornalistas nas Antas por elementos ligados ao FC Porto, que foram alvo de várias questões por parte do então jornalista José Eduardo Moniz numa entrevista na RTP e que fizeram com que se refugiasse na habitual ironia para contornar algo que todos tinham visto. “Jornalistas agredidos? Agressões a jornalistas? Olhe, está a dar-me uma boa ideia porque assim vou abrir um hospital nas Antas, com tantos feridos é capaz de ser um bom negócio mas não há notícia de ter ido a qualquer hospital… Se procurei saber? Sim, procurei”, atirou a esse propósito no canal público no ano de 1992.

Episódio 3: os incidentes que marcaram a finalíssima da Taça de Portugal com o Sporting no Jamor, que terminou com a vitória do FC Porto no prolongamento com os leões reduzidos a nove e com arremesso de pedras, garrafas e isqueiros a elementos azuis e brancos que colocou em risco a entrega do troféu na tribuna presidencial. “Se está complicado? Está, está… Mas olhe, atiram com pedras, não deixam receber a Taça, insultam toda a gente mas o que é importante é que estamos na capital do Império, estou feliz. Que lindo espectáculo, olhe que bonito… Polícia? Isto faz parte do espectáculo da capital do Império. Gravem, vale a pena. Ainda por cima estamos no ano da Cultura, 1994… Estou encantado, a ministra [da Educação, Manuela Ferreira Leite] também deve estar… Se ela não quer vir cá abaixo? Ah pois não, ela não é tola ou não era ministra… Vamos primeiro esperar que atirem as pedras todas…”, ironizou à RTP.

▲ Reinaldo Teles foi sempre uma das pessoas mais próximas (e dos melhores amigos) de Pinto da Costa no FC Porto

Fábio Poço

Episódio 4: a trágica morte de Rui Filipe, médio que era um daqueles jogadores com perfil para fazer mais de uma década no plantel dos azuis e brancos como capitão e referência e que perdeu a vida em agosto de 1994 com 26 anos num acidente de viação depois de ser o grande destaque no arranque da temporada com dois golos em três jogos, incluindo aquele que ficaria como o primeiro da caminhada rumo ao penta. “Era um bom jogador, titularíssimo, mas sobretudo um bom colega, dono de uma alegria contagiante, muito querido por todos. Consternados pela perda inesperada do nosso companheiro, pedimos que o jogo que íamos disputar umas horas depois em Aveiro fosse adiado mas o árbitro Jorge Coroado recusou-se a fazê-lo. Há tragédias que servem para unir os grupos e entre nós dissemos muitas vezes que tínhamos de ser campeões para dedicar o Campeonato ao Rui Filipe. Conseguimos, esse e muito mais”, comentou.

Episódio 5: o desvio de dois jogadores do Benfica, neste caso os russos Kulkov e Yuran, que na altura estavam sem contrato com o clube da Luz. Ao ver o estado de espírito do grupo após a morte do “Ruizinho”, Pinto da Costa percebeu que teria de promover algo novo que funcionasse como estímulo para uma paulatina reação perante a perda de um dos elementos mais queridos entre o plantel e apostou na dupla que entretanto tinha deixado de ter vínculo com os encarnados também pelas alegadas saídas à noite que eram frequentes. Depois de falar com o agente dos jogadores, e garantindo que não faltaria profissionalismo perante a nova realidade, o presidente portista avançou para a contratação dos jogadores que teriam um papel importante na conquista do Campeonato de 1994/95 (sendo que o avançado marcou na Luz no primeiro clássico).

Pinto da Costa festejaria mais um título com o seu fiel escudeiro e um dos melhores amigos, Reinaldo Teles, chefe do departamento de futebol que tinha conhecido quando era ainda atleta da secção de boxe e que ficou como a pessoa mais próxima que teve ao longo de mais de quatro décadas nos dragões. Pouco depois, o líder portista assumiria outra função como presidente da Liga (e por inerência vice da Federação) após uma vigência curta de Manuel Damásio, homólogo do Benfica, que tinha sucedido a Valentim Loureiro. A condição para aceitar a vontade de todos os clubes nas ligas profissionais menos o Sporting acabou por ser cumprida, com a organização do primeiro Campeonato pela Liga, reconhecido como organismo autónomo pela FPF, e a passagem da disciplina em primeira decisão e a arbitragem também para o órgão. No final de 1996, com todas essas reformas propostas devidamente consolidadas, voltou a dedicar-se apenas ao clube.

▲ Fernando Santos ficou conhecido como o Engenheiro do Penta, mais um dos feitos dos portistas com Pinto da Costa na presidência

Getty Images

O FC Porto atravessava um dos seus melhores períodos. Os treinadores até podiam ir mudando (Bobby Robson foi para o Barcelona, António Oliveira manteve o ritmo de conquistas, Fernando Santos chegou em 1998), os jogadores iam sendo trocados (além de jogadores que chegaram novos ao clube como Rui Jorge, Folha, Paulinho Santos e mais tarde Sérgio Conceição, havia Jardel, Drulovic ou Zahovic, entre outros) mas os Campeonatos continuavam a suceder-se, com um inédito tetra em 1998 que só o Sporting alcançara até aí e um inédito penta em 1999 que fechou um ciclo de ouro que teve também vitórias nos pavilhões, entre mais conquistas europeias no hóquei em patins, o Campeonato de basquetebol 13 anos depois (1996), o Campeonato de andebol após mais de três décadas de jejum que o fizeram chorar mas que relativizou dizendo que “era um senhor que estava a cortar cebolas” (1999) e os feitos no atletismo como a vitória olímpica de Fernanda Ribeiro em 1996. Os objetivos definidos em 1982 estavam cumpridos.

Em paralelo, e com o avançar dos tempos a pedir uma outra profissionalização na estrutura e organização dos principais clubes, os associados azuis e brancos aprovaram em Assembleia Geral a constituição da SAD para o futebol (e no caso do FC Porto também para o basquetebol) no ano de 1998, com essa particularidade de, entre os 13.654 acionistas, 10.099 serem filiados no clube das Antas. Armando Pimentel, Adelino Caldeira, Angelino Ferreira e Reinaldo Teles foram os primeiros vogais da administração liderada por Pinto da Costa. A nível pessoal, o presidente portista, que mantinha relação com Filomena e entretanto se tornara avô por Alexandre, divorcia-se da mulher legítima, Manuela, após 33 anos de casamento.

A glória europeia com Mourinho, o Apito Dourado e as escutas que perduram no YouTube

Os anos seguintes trouxeram um vazio pouco habitual a nível de títulos no FC Porto, que ficou três anos sem ganhar qualquer Campeonato apesar das duas Taças e das duas Supertaças conseguidas num período com Fernando Santos e depois com Octávio Machado, que seria despedido a meio da época de 2001/02 quando os azuis e brancos já estavam longe do título. Aí, e sabendo também do interesse do Benfica em recuperar o seu antigo treinador, Pinto da Costa juntou-se com João Bartolomeu, presidente da União de Leiria, e com José Mourinho para fechar a contratação do técnico logo nessa altura, podendo assim ter uma fase de adaptação de seis meses para arrancar a todo o gás em 2002/03. A escolha não poderia ter sido melhor.

Até aqui, o líder portista teve o seu golpe de asa numa história que juntava todos os ingredientes para ser diferente. José Veiga, que preparava um novo projeto desportivo no Benfica, chegara a acordo com Mourinho e o mesmo só não passou ao papel porque o empresário tinha ido passar o Natal ao Luxemburgo com a sua família. Havia ainda assim um problema por resolver: Veiga queria Jesualdo Ferreira na equipa técnica, José Mourinho não abdicava de ter as suas opções. Foi nesta fase que Jorge Baidek, agente do treinador, entrou em contacto com o presidente portista, explicando os cenários existentes e abrindo a porta a um regresso ao FC Porto. Apesar de ter um jantar com amigos em casa já marcado, Pinto da Costa recebeu Mourinho e o seu agente de madrugada e fechou logo ali o vínculo para 2002/03, acelerando depois essa contratação com o líder do clube leiriense quando os resultados com Octávio Machado continuavam sem aparecer. Além de bicampeão nacional, vencedor da Taça e da Supertaça, Mourinho conquistou a Taça UEFA frente ao Celtic em 2002/03 e ganhou a Liga dos Campeões em 2003/04 com o Mónaco, saindo depois para o Chelsea.

O plano desportivo voltava ao trilho dos êxitos, fora de campo continuavam outras “guerras”. A primeira foi o próprio Estádio do Dragão (que poderia ser novo Estádio das Antas ou Estádio Jorge Nuno Pinto da Costa, algo que o próprio sempre recusou e pediu para não fazerem em vida), que tinha tudo feito e definido com a Câmara Municipal do Porto durante as vigências de Fernando Gomes e Nuno Cardoso mas sofreu alguns entraves quando Rui Rio assumiu a liderança, colocando em causa o acordo que havia com o grupo Amorim e, por inerência, o próprio desenvolvimento da obra por parte da Somague, que percebia que sem a parceria não existiria forma de o FC Porto pagar o avultado investimento feito em infraestruturas. Resultado? As obras pararam, houve mesmo manifestações contra o líder camarário mas tudo acabou por avançar. A seguir, aquele que ficou como um dos processos mais mediáticos do futebol português: o Apito Dourado.

Em 2004, a operação começou com a detenção de 16 pessoas, dirigentes e árbitros, entre os quais Valentim Loureiro, ex-presidente do Boavista e líder da Câmara de Gondomar, Pinto de Sousa, dirigente do Conselho de Arbitragem da Federação, e José Luís Oliveira, presidente do Gondomar e vice da Câmara. Mais tarde, a 2 de dezembro, no âmbito de escutas telefónicas intercetadas no meio do processo, a PJ desloca-se à casa de Pinto da Costa com mandados de busca e detenção mas o líder portista encontrava-se em Espanha, após ter sido alegadamente avisado do que iria acontecer. Nesse mesmo dia, Jacinto Paixão, árbitro, é detido a par dos também árbitros Augusto Duarte, José Chilrito e Manuel Quadrado e do empresário António Araújo. Só no dia 3 é que Pinto da Costa se apresenta de forma voluntária no Tribunal de Gondomar, vendo depois o seu interrogatório adiado para dia 7 onde chegou “escudado” por vários elementos dos Super Dragões.

▲ Pinto da Costa foi campeão europeu em 2004 pela segunda vez com José Mourinho, antes de eclodir o processo do Apito Dourado

Bongarts/Getty Images

Os casos mais mediáticos que levavam Pinto da Costa a ser acusado de corromper árbitros diziam respeito a dois jogos: um FC Porto-Estrela da Amadora, através de uma conversa telefónica do presidente portista com o agente António Araújo onde seriam utilizados termos como “fruta” que seriam uma espécie de código para prostitutas que seriam pagas para o árbitro Jacinto Paixão, e um Beira-Mar-FC Porto que foi antecedido por uma encontro do árbitro Augusto Duarte em casa do líder dos azuis e brancos. Ambos os processos acabaram arquivados por falta de provas suficientes num caso e por incapacidade de fazer uma ligação causa-efeito no outro. No entanto, outros processos estavam a decorrer em paralelo, incluindo uma alegada fuga interna de informação que terá permitido que Pinto da Costa fosse para a Espanha na véspera de ter a PJ em casa. E havia uma outra figura que ganhava peso, sendo mesmo chamada pelas autoridades: Carolina Salgado.

Pinto da Costa conhecera Carolina Salgado no “Calor da Noite”, um bar de alterne que ficava perto das Antas e onde foi um dia com o amigo Reinaldo Teles. A relação ficou em segredo durante algum tempo mas, após a separação com Filomena Morais, Carolina Salgado começou a ser vista na tribuna do estádio e tudo foi assumido, sendo que a nova companheira chegou a ir à Luz ver um clássico com o Benfica inserida na claque Super Dragões (e com um cartaz contra Luís Filipe Vieira). Depois da separação, em 2006, Carolina Salgado escreveu um livro contando vários episódios da relação com Pinto da Costa, sendo mesmo chamada a prestar depoimento no ano seguinte pela Equipa de Coordenação do Processo Apito Dourado (ECPAD) que estava já a ser liderada por Maria José Morgado. Perante a nulidade das escutas telefónicas, que ainda hoje se encontram no YouTube, Pinto da Costa acabou por ser absolvido de todos os crimes.

Em paralelo houve também o Apito Final, que foi correndo na justiça desportiva. Em maio de 2008, Pinto da Costa foi um dos condenados pela Comissão de Disciplina da Liga Portuguesa de Futebol Profissional, com a suspensão da atividade desportiva por dois anos com uma multa de 10.000 euros e a punição de seis pontos ao FC Porto com pagamento de multa de 150.000 euros. Após vários recursos que tiveram uma decisão final apenas no ano de 2017 pelo Conselho de Justiça da Federação Portuguesa de Futebol, o líder portista e o clube foram absolvidos das condenações. Ou seja, e em súmula, Pinto da Costa foi absolvido de tudo.

Carolina Salgado Launches Controversial Book About FC Porto Chairman Pinto da Costa

▲ Carolina Salgado, antiga companheira de Pinto da Costa, tornou-se um dos rostos no meio da convulsão iniciada com o Apito Dourado

Getty Images

“Há muitos anos que vou a Espanha no dia 1 para ir fazer compras ao El Corte Inglés. Já tinha quarto marcado no Parador em Tuy há muito tempo. E fui à RTP por causa do lançamento do meu livro, adiei a ida por um dia, telefonei para lá a dizer que ia um dia depois. Fui de carro, não fui escondido e andei a passear, não me escondi. Se sei que as escutas estão no YouTube? Não frequento essas tecnologias. Se acho que as pessoas acreditam que a conversa da fruta não tinha nada a ver com subornos a árbitros? Se me dissessem que um clube que ganhou o Campeonato com não sei quantos de avanço, um título europeu e tinha uma equipa fabulosa subornou um árbitro para um jogo em casa com o último, eu dizia que era maluco. Receber o árbitro em casa não foi para tratar nada de futebol mas sim de um problema relacionado com o pai. Nem sequer estava nomeado ainda para o nosso jogo. Não desmarquei porque como o FC Porto já era campeão e o jogo não interessava para nada, não vi problema”, contou em entrevista ao Expresso.

A operação ao coração, o maior jejum de títulos, outra absolvição e a importância de Sérgio

A “ressaca” do sucesso de Mourinho não foi propriamente a mais fácil no Dragão (sim, entretanto já estava de pé o novo estádio que ficará para sempre também marcado pela estreia de Lionel Messi pelos seniores do Barcelona), com o FC Porto a ganhar mais uma Taça Intercontinental frente ao Once Caldas mas a ter três treinadores entre Luigi del Neri (que não chegou a fazer qualquer encontro oficial), Victor Fernández e José Couceiro. Entre 1995 e 1999, com Co Adriaanse e Jesualdo Ferreira conquistaram mais um tetra para o clube, ficando o penta à porta numa época marcada pelo caso do túnel da Luz, com uma confusão com agressões à mistura entre jogadores portistas e seguranças que terminou com alguns castigos como os 17 jogos de Hulk que afinal ficou a saber que o seu castigo seria apenas de… três encontros. “Foi o acontecimento mais vergonhoso da história do futebol português. Quiseram que cumprisse esse tempo para o Benfica ser campeão. É um episódio negro”, resumiu. No entanto, o sonho do quinto Campeonato seguido tinha caído, com a imagem de Jesualdo já desgastada pelo tempo no comando. Pior: era complicado encontrar sucessor.

André Villas-Boas, antigo membro da equipa técnica de José Mourinho como observador que tinha ganho destaque na Académica como treinador principal, era a opção que mais agradava mas estava comprometido com o Sporting. Ainda assim, Pinto da Costa não desistiu. Tentou de novo, quase que “convidou” o técnico a questionar os leões sobre a possibilidade de ficar liberto do acordo que tinha feito e conseguiu mesmo essa rescisão sem nunca ter entrado em Alvalade para chegar à “cadeira de sonho”. Ganhou Campeonato (na Luz, onde ainda ironizou com o facto de ter sido celebrado de luzes apagadas e com a rega do relvado ligada), Taça de Portugal, Supertaça e Liga Europa, saiu logo na temporada seguinte que foi uma das que teve maior sucesso de sempre no clube azul e branco deixando ao antigo adjunto Vítor Pereira a possibilidade de ganhar mais dois Campeonatos. A seguir, chegou o maior jejum de títulos (além de más campanhas europeias).

▲ André Villas-Boas assumiu ter chegado a uma cadeira de sonho quando Pinto da Costa o contratou para treinar os dragões mas relação entre ambos foi esfriando nos últimos anos

FERNANDO VELUDO

Pelo meio, em 2012, teve a situação mais delicada no plano de saúde, sendo “obrigado” a fazer uma cirurgia ao coração. “Já estava há dois ou três anos a saber que precisava de fazer a operação. Tinha a [artéria] aorta dilatada e o doutor Puga estava-me sempre a dizer isso. Um dia disse ‘Quando acabar o Campeonato vou tratar disso’. Fui ao doutor Filipe Macedo e ele disse-me que havia uma necessidade urgente de fazer a operação. Estávamos no fim de maio e havia o problema das transferências e quis deixar tudo orientado. Havia uma folga à terceira jornada, o FC Porto jogava em Olhão e depois havia uma paragem de 15 dias. Foi aí que fui operado e correu bem. Se não tivesse corrido, não estávamos aqui a conversar, porque ainda não há ligações para o outro mundo… Ao fim de oito dias já estava em casa e ao fim de um mês já estava no Dragão. Mas estava sempre em contacto, até no hospital, as pessoas iam lá tratar das coisas e nunca me desliguei. Só em dois dias em que estive a dormir, só via estrelas. Já julgava que estava no céu mas não estava”, contou.

Nunca houve propriamente um período em que Pinto da Costa tenha sido colocado em causa ao longo de mais de 40 anos na presidência dos azuis e brancos, nem mesmo nas raríssimas ocasiões em que teve um adversário na corrida eleitoral. No entanto, esse período sem qualquer troféu no futebol entre agosto de 2013 (Supertaça) e o verão de 2017 colocou pelo menos em cima da mesa a possibilidade de já não ser a mesma coisa a começar pela escolha de treinadores. Ao mesmo tempo, e nesse mesmo ano, o presidente portista foi um dos arguidos no âmbito da operação Fénix, sendo apontado pelo Ministério Público por alegadamente ter contratado segurança ilegal no Porto – e mais uma vez foi absolvido. A seguir a mais uma experiência falhada de Nuno Espírito Santo, a aposta tinha pouca margem de erro nesse mesmo de mês de junho.

Sérgio Conceição acabou por ficar como o nome preferido. Tinha o risco desportivo de nunca ter ganho qualquer título na carreira, tinha o outro problema da ligação ao Nantes onde passara os últimos seis meses. Ainda assim, Pinto da Costa não desistiu por entender que o antigo jogador que conhecia desde os 16 anos tinha algo que faltara nos anos anteriores: perceber na essência o que é o ADN FC Porto. Depois de algumas voltas, conseguiu mesmo contratar um treinador e o resultado superou até as expetativas que muitos teriam em 2017 aquando da chegada. Na verdade, a principal imagem que sobra entre alguns “arrufos” que foram tendo é que o treinador foi a versão mais próxima de José Maria Pedroto que algum dia o líder portista teve. A isso juntou muitas coisas, por isso ficou como um dos técnicos mais marcantes na história.

▲ Sérgio Conceição, aqui após a passagem da eliminatória da Champions com a Juventus, tornou-se quase uma versão 2.0 de José Maria Pedroto para Pinto da Costa

D.R. Twitter FC Porto

Em seis temporadas, foram muitos os recordes obtidos por Sérgio Conceição. O número de jogos realizados no Dragão, os encontros no comando do FC Porto, os títulos conquistados (nove entre três Campeonatos, duas Taças de Portugal, uma Taça da Liga e três Supertaças). O técnico chegou a ameaçar ir embora, não se coibiu de falar publicamente na falta de apoio interno e de investimento mas também fez sempre questão de realçar que o único intocável nos azuis e brancos era Pinto da Costa. Pelo que conseguiu sobretudo quando não teve a oportunidade de contar com reforços pelas regras do fair play financeiro, pela forma de ser e pela maneira como defendia o clube nas conferências e em campo, tornou-se muitas vezes (algumas de forma inconsciente) um “escudo” para o líder portista e um “faz tudo” no futebol, que deixara de contar com Antero Henrique ainda em setembro de 2016, passando a ter na gestão do departamento Luís Gonçalves.

Com tudo isso, Pinto da Costa tinha menos intervenções públicas, não deixando contudo de manter algumas guerras abertas com alguns rivais, mais recentemente com o homólogo do Sporting, Frederico Varandas, a quem colocou um processo por difamação. Também a vida privada deixou de andar tão exposta como estava nos anos anteriores, marcados por um segundo casamento com Filomena Morais, a longa relação que chegou a ter uma interrupção com Fernanda Miranda e, mais recentemente, o namoro com Cláudia Campo. Também os casos de Justiça voltaram a cruzar-se com o presidente portista, neste caso no âmbito da operação Cartão Azul com semelhanças com a que foi lançada ao ex-presidente do Benfica Luís Filipe Vieira (um amigo que se tornou rival sem qualquer tipo de ligação mas que se voltou a aproximar quando deixou a Luz). Segundo o DCIAP, Pinto da Costa teria alegadamente desviado vários milhões de euros dos cofres da SAD do FC Porto num esquema de burla que envolveria também o seu filho Alexandre Pinto da Costa, com quem reatou relações, e o empresário Pedro Pinho. Foram feitas várias buscas domiciliárias e no Dragão.

A Assembleia Geral, a Operação Pretoriano, a derrota nas eleições e a revelação da doença

Tudo isso acabou por contribuir para um desgaste acelerado pela situação financeira do FC Porto. Começava a notar-se algum descontentamento sem ponta de ingratidão por tudo o que tinha feito pelo clube, faltava a cara que pudesse funcionar como bandeira para a revolução nos azuis e brancos. Apareceu e era um rosto conhecido de todos: André Villas-Boas, vencedor da Liga Europa de 2010/11 numa época de sonho que teve ainda as conquistas do Campeonato, da Taça de Portugal e da Supertaça. Depois, houve a polémica Assembleia Geral para aprovação de algumas mudanças nos estatutos que teve de ser interrompida face ao clima de intimidação, agressões, coação e insultos e, na sequência, a Operação Pretoriano que visou entre outros Fernando Madureira, líder da claque Super Dragões que ficou mesmo em prisão preventiva.

epa11336059 Porto's new president Andre Villas-Boas (L) and former president Pinto da Costa (R) shakes hands during the Liga Portugal soccer match between FC Porto and Boavista held at Dragao Stadium in Porto, Portugal, 12 May 2024.  EPA/MANUEL FERNANDO ARAUJO

▲ Pinto da Costa foi "esmagado" nas eleições por Villas-Boas, tendo ficado na liderança da SAD até à final da Taça de Portugal de 2024, o 69.º e último título no futebol

MANUEL FERNANDO ARAUJO/EPA

Esse foi o gatilho final para a mudança. Pinto da Costa sabia-o mas tentava remar contra a maré. Problema? Por cada medida que ia apresentado, mais pessoas ia perdendo. Até mesmo o anúncio das renovações com Pepe e Sérgio Conceição, que seria algo positivo para todos, soou a “manobra eleitoral” por ter sido revelado a um par de dias do sufrágio. Villas-Boas conseguiu descolar a questão da gratidão do futuro dos azuis e brancos e foi essa a chave para um triunfo esmagador nas eleições com 80%, apresentando uma equipa que prometia uma viragem de rumo face às últimas quatro décadas. Pinto da Costa, com 20%, saiu pela porta pequena como nunca ninguém antes poderia imaginar, recusando-se a deixar a liderança da SAD até à final da Taça de Portugal frente ao Sporting, que terminaria com o seu 69.º título no futebol portista.

Só após a saída e uma espécie de “luto” face à mudança radical de rotina por ter deixado de ser presidente do FC Porto mais de quatro décadas depois Pinto da Costa voltou a aparecer em público. Em agosto, numa rara entrevista à TVI umas semanas antes do lançamento de mais um livro, o antigo líder assumiu a doença de que padecia desde setembro de 2021, altura em que foi diagnosticado com cancro na próstata, mas recusou que isso fosse uma sentença. Quis continuar a viver, a ver o seu FC Porto, a aproveitar os netos, a família, os amigos, as leituras, os passeios. E viveu até hoje, recebendo com uma cadência quase semanal elogios de aliados e adversários por um percurso que marcou o futebol e o desporto nacional durante décadas.

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