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Polémico, heróico, paladino romântico: Camilo, ou o romancista que dava (e deu) um romance

Publicada agora num único volume biografia escrita por Aquilino Ribeiro, Carlos Maria Bobone regressa ao escritor com uma vastidão romanesca singular, uma vida tão aventurosa quanto a atribulada obra.

Camilo Castelo Branco é o paraíso de um romancista. Mentiu sobre a própria vida com todos os dentes que tinha, escreveu mancheias de papéis, muitos deles ainda inéditos, carteou com meio mundo e polemizou com a outra metade, teve mais casas e mais vidas do que um gato vadio e deixou-nos uma obra romanesca cheia de pistas sobre os seus interesses, documentos, preocupações, invejas e amores.

Não é de estranhar, por isso, que Mário Cláudio lhe tenha dedicado um romance biográfico, ou que Aquilino Ribeiro tenha chamado à sua biografia de Camilo O Romance de Camilo: conhece-se aquela vida e não se acredita, mesmo naquilo em que se pode acreditar. O tomo de Aquilino sofre de alguns males. Embrenha-se de tal maneira na vida pícara do seu biografado, que imagina aventura mesmo quando ela não existe: nesse sentido, parece as Memórias do Cárcere, em que Camilo conta as vidas dos seus companheiros de prisão. Não é possível conceber que, naquela prisão específica, todos os homens tivessem uma vida tão romântica quanto Camilo as pinta.

O Romance de Camilo carrega este problema— e carrega também outro, próprio de toda a interpretação de Aquilino da história literária de Portugal. Todos os grandes, para ele, são filhos danados da fortuna, homens mal-remediados que vivem nas sombras das arcadas escondidos dos governos, estroinas e malandros, que desafiam a moral vigente. É assim que Aquilino pinta Camões, Camilo e, parafraseando um título do próprio, alguns mais.

No caso de Camilo, isso é bastante claro. Aquilino centra quase toda a infância do seu biografado em torno do problema de uma falsa fidalguia. Camilo vem, de facto, de uma família com uma pequena prosápia nortenha. Justificada, sim, embora pequena, à medida de tantas famílias de província por esse Portugal fora, que numa geração conseguem sair da pobreza, e lutam depois para manter um estado que não se garante por si só. Para Aquilino, no entanto, são apenas “os Brocas”, apelido com que as línguas mais antipáticas taxavam a família, sim, mas que não prova a tese de Aquilino: a de que seria uma família intoxicada por fumos de fidalguia, que tolhiam as ações dos seus membros e os lançavam numa vida de mentiras, ilusões e falsidades de que tinham dificuldade em sair – e de que o próprio Camilo nunca sairia realmente. Sob a mão de Aquilino, o que surge da família de Camilo é uma galeria de malfeitores que Camilo passa toda a vida a dourar, numa tentativa de apeanhar a sua família a lugares em que nunca esteve.

▲ A capa da edição que reúne num único volume os textos de Aquilino Ribeiro que compõem "O Romance de Camilo" (Bertrand)

Prova disso mesmo, seria a infância atribulada do romancista. Camilo foi, como a sua irmã, perfilhado tardiamente – tal como o outro grande romancista português do século XIX – e, na verdade, a filiação durou pouco. Ficou órfão de mãe na primeira infância, e de pai ainda no tempo de aprender as primeiras letras, coisa que fez em Lisboa, numa pequena escola nas escadinhas do Duque. A orfandade recambiou-o, a ele e à irmã, para o norte, ao cuidado de uma tia que não parece ter tido a maior das estimas pelos sobrinhos. Pelo menos a julgar pelo controverso processo da herança e tutoria dos órfãos: não terá tido escrúpulo nenhum em lesar os sobrinhos e em atirá-los para um estado pouco condizente com a empáfia dos Botelhos.

A infância e adolescência de Camilo são, assim, as de um enjeitado a que não se sabe bem o que há de fazer. Aprende uns rudimentos de civilização com um padre, uns tiques de letras com outro, vive uns tempos com a irmã quando esta (mais velha) casa, saltita entre terras maiores e outras mais pequenas, até acabar ele também embrulhado num casamento de horizontes estreitos, próprio do mundo popularucho para o qual a vida o tinha atirado.

Herói da liberdade, paladino romântico

Camilo pinta o seu resgate à vida comezinha de um bruto de província com cores semi-napoleónicas. Por isso é que tem tanta importância para ele a mais que provável mentira de que terá combatido por D. Miguel, e que no grande elevador social que seria o exército pós-Napoleão, teriam dado conta do seu talento, levando-o primeiro a estudar, depois a consagrar-se como homem de letras.

A verdade terá sido mais prosaica e menos lustrosa para o romancista. A certo ponto, abandonou a mulher para ir estudar (pouca) medicina para o Porto – a expensas da família dela – e nunca mais a terá visto, nem a ela, nem à filha acabada de nascer. Logo por esta altura, Camilo ensaia umas polémicas que poderão tê-lo deixado mal-visto no ambiente familiar e, de facto, liberta-se das amarras domésticas com uma impiedade de que voltará a dar provas.

Há um pormenor curioso sobre as primeiras aventuras literárias de Camilo: há uma carta, citada por Alexandre Pinheiro Torres, em que Camilo admite a sua disponibilidade para escrever, seja sob ponto de vista liberal, seja realista, ultramontano ou ímpio. Camilo queria era escrever, que lhe pagassem, fosse por que ponto de vista fosse. Esta disposição, naturalmente, lançou – numa época menos benevolente com ele, ainda não amaciada pelo reconhecimento do génio – dúvidas sobre o seu carácter, dúvidas essas que Camilo se encarregou muitas vezes de esclarecer, nem sempre para melhor; no entanto, vemos já aqui, mais do que isso, a disposição hesitante do seu cérebro, mais interessada em testar a sua elasticidade do que em provar grande coerência.

A vida de Camilo volta a ter uma feição tão atribulada quando, depois do segundo conúbio, volta a abandonar mulher e filho, e os troca, num dos mais famosos casos de amor da história portuguesa contemporânea, por Ana Plácido. Camilo já é aí um escritor consagrado, é visitado na prisão pelo próprio D. Pedro V, pelo que o caso lembra o próprio processo de Oscar Wilde em Inglaterra: o caso em que uma sociedade tem a justiça amarrada a princípios em que já nem ela própria acredita.

Camilo, como romancista, tem um fascínio por estes quadros de opostos. Onde há um intransigente, há também uma rapariga dócil, onde há um corpo bruto, redime-o uma alma sensível; o romance de Camilo é muito um romance de extremos e de teste do contacto entre opostos. Camilo é o grande romancista da sociedade dividida pela guerra civil; a sociedade de Eça já está apaziguada, ou, nos seus íntimos ainda a remoer derrotadas, é praticamente ignorada por ele; o seu é o mundo da regeneração, pelo que os problemas também são do mesmo géneros. As dissensões ridículas precisamente porque todos pensam o mesmo, o tédio com a vida sempre igual, contrastam com o choque que mobiliza constantemente as personagens de Camilo. O choque com um ambiente familiar, depois do casamento, muito diferente daquele que se tinha em casa, entre a sensibilidade bruta dos brasileiros e a das meninas educadas da nobreza antiga, o choque entre a vontade de jovens apaixonados e os desmandos de famílias rígidas: há em Camilo esta tentativa constante de ser o romancista da cisão, a ponto de isto contaminar o próprio retrato que ele nos dá da sua vida.

Umas vezes é conservador, outras liberal, um respeitador das virtudes da Igreja contrariado pelo vitupério à sua rigidez moral, um institucionalista que por vezes aparece rebelde e, acima de tudo, um inconstante.

A vida de Camilo volta a ter uma feição tão atribulada quando, depois do segundo conúbio, volta a abandonar mulher e filho, e os troca, num dos mais famosos casos de amor da história portuguesa contemporânea, por Ana Plácido. Camilo já é aí um escritor consagrado, é visitado na prisão pelo próprio D. Pedro V, pelo que o caso lembra o próprio processo de Oscar Wilde em Inglaterra: o caso em que uma sociedade tem a justiça amarrada a princípios em que já nem ela própria acredita. O pecado de Camilo deu-lhe mais crédito do que desonra e tornou-o uma espécie de herói da liberdade e paladino romântico, que o consagraram plenamente como romancista.

O romancista de todas as possibilidades

Esta consagração, que hoje nos parece óbvia, não foi tão fácil quanto podíamos imaginar. Camilo, em primeiro lugar, gastou grande parte do seu tempo entre o princípio da sua carreira e a sua prisão a indispor quase todos os que o podiam alcandorar a romancista primeiro. O seu génio literário era óbvio, tinha um conhecimento muito sui generis da História de Portugal, apoiado na sua famosa coleção de manuscritos, todos reconheciam a sua assombrosa capacidade linguística, mas a verdade é que havia também um sentimento geral de que Camilo era, acima de tudo, um génio desperdiçado. Uma língua de gigante clássico desperdiçada em dramas xaroposos de senhoras, uma erudição histórica enviesada ao serviço do mau feitio, um conhecimento superficial das modas literárias empregado em nome de um reconhecimento efémero e imediato, próprio de quem não acreditava verdadeiramente no que fazia, mas precisava da gloríola trazida pela admiração dos ignorantes.

Nenhuma destas críticas é injusta; Camilo é um romancista inconstante, um historiador pouco fiável e um polemista menos interessado na causa justa do que em aliviar o mau-génio; no entanto, é também o escritor que, em Portugal, mais testa os limites e as possibilidades do romance. Se há romance experimental em português, nenhum o é de uma forma tão clara quanto o de Camilo. Os seus romances são uma espécie de laboratório em que se trocam técnicas narrativas, se ensaiam formas de contar, primeiras e terceiras pessoas, primeiras dentro de terceiras, romances no presente do indicativo ou no pretérito, intromissões repentinas do narrador, enfim: tudo o que é técnica narrativa é, de maneira mais ou menos conseguida, com maior ou menor insistência, experimentado por Camilo.

Há um Porto de Camilo, como há uma Lisboa, um Minho e uma Beira; mas não se trata apenas de geografia; há uma tese romanesca sobre os estudantes, o clero de província, a fidalguia rural, os comerciantes, boticários, conventos, a ponto de formar uma verdadeira câmara corporativa; e não é apenas a vida social: a própria história de Portugal, não enquanto história passada, mas enquanto raiz dos comportamentos do seu tempo, está em várias páginas de Camilo.

Mas além do interesse pelo funcionamento do romance, Camilo tem também uma ambição que mais ninguém, na literatura portuguesa, satisfez da mesma maneira. Há, nas Cenas da Foz, nas Memórias do Cárcere, nas Novelas do Minho, uma nítida vontade de se mostrar como o cronista do seu tempo, e dos vários tipos de sociedade. Isto não será incomum no romance novecentista. O próprio Eça, com as suas cenas da vida burguesa, demonstra bem a sua pretensão: o romance não é apenas a sua ação, tem também uma tentativa de cobrir o modo geral de um certo tipo de sociedade se comportar. Camilo, no entanto, escala como mais ninguém a pretensão do seu romance. Romance de província e de cidade, de família aristocráticas, burguesas e populares, de tal maneira que nós, de quase todos os lugares, podemos dizer que temos uma imagem camiliana.

Há um Porto de Camilo, como há uma Lisboa, um Minho e uma Beira; mas não se trata apenas de geografia; há uma tese romanesca sobre os estudantes, o clero de província, a fidalguia rural, os comerciantes, boticários, conventos, a ponto de formar uma verdadeira câmara corporativa; e não é apenas a vida social: a própria história de Portugal, não enquanto história passada, mas enquanto raiz dos comportamentos do seu tempo, está em várias páginas de Camilo. O Portugal puro da fundação, das cinco famílias de Ribadouro e dos infanções, gerando uma rocha de portugalidade (logo esfarinhada, claro) como Calisto Elói, o mundo assustado de judeus perseguidos e da Inquisição, o Portugal restaurado e orgulhoso, os traumas das invasões e do povo entregue a si próprio, os grandes monopolistas pós-pombalinos, tudo isso tem em Camilo o seu lugar, nem sempre da maneira mais profunda, mas sempre detetado na sua presença, o que já consiste uma forma particular de penetração analítica.

Só Balzac, na literatura universal, tem uma vastidão romanesca que se aproxime daquela que Camilo formou. Mesmo esse, contudo, não pode dizer que tem uma vida tão aventurosa quanto a sua atribulada obra.

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