Numa tarde que seria dedicada a uma operação de prevenção criminal na zona da Baixa e da Avenida da Liberdade, um estrondo fez com que dez polícias da Divisão de Investigação Criminal (DIC) da PSP corressem até ao Elevador da Glória. Estavam todos vestidos à civil e dois dos agentes, mais perto do centenário funicular, chegaram logo depois de este colidir com a parede de um hotel, quando uma nuvem de pó ainda cobria a Calçada da Glória.
“Um deles aproximou-se dos destroços”, conta o subintendente Rui Costa, comandante da DIC, ao Observador. “E verificou que estava lá uma criança.”
A chorar e com sangue na cabeça, a criança de três anos tinha sido protegida da colisão por um homem, a quem estava agarrada. “O agente retirou-a, entregou-a a um casal de turistas e voltou aos destroços porque viu que estavam lá supostamente o pai e a mãe”, descreve o comandante. Eram todos alemães e o polícia socorreu primeiro o pai, tendo-lhe até libertado as vias respiratórias. “Mas, quando fez as manobras de reabilitação, ficou convencido de que ele tinha desfalecido nos braços dele.”
“Salve o meu filho”, pediu a mãe da criança alemã. O agente esteve sempre a falar com a mulher, ao passo que a criança “se agarrou a ele e não o largou mais”. Os três foram juntos dentro da ambulância que levou mãe e filho até ao Hospital de Santa Maria. Nas urgências de Pediatria, foi o polícia quem entregou o passaporte da criança alemã à médica que o socorreu.
Até esta sexta-feira, o pai da criança alemã tinha sido dado como morto pela PSP, uma possibilidade reforçada pela Polícia Judiciária, que, em conferência de imprensa esta quinta-feira, aludiu a uma vítima mortal alemã “com elevado grau de probabilidade”. O Observador apurou que alguns sinais exteriores, como o cabelo, tinham levado a que uma vítima mortal que hoje se sabe ser britânica fosse identificada como o alemão — que, afinal, está ferido no Hospital de São José. Apesar de apresentar ferimentos graves, não corre risco de vida.
Avós da criança viajaram para Portugal
Os pais da criança alemã vivem em Berlim. De férias em Portugal, entraram no Elevador da Glória conduzidos pelo guarda-freios André Marques com o filho de três anos. Mas, poucos minutos depois das 18h, deu-se o acidente, que até quinta-feira à noite se pensava dever-se ao quebrar de um cabo. Porém, o Observador apurou que o problema pode estar relacionado com uma peça que não era inspecionável — o que justificaria o facto de não ter sido detetado nenhum erro durante a inspeção feita na manhã de quarta-feira.
Cabo do Elevador da Glória pode não se ter rompido. Causa do acidente ainda por descobrir
Depois de dar entrada no Hospital de Santa Maria, a mulher, de 45 anos, foi operada às pernas e sofreu fraturas no braço e na coluna dorsal, segundo a CNN Portugal. Esta sexta-feira, encontrava-se em coma, apurou o Observador.
Os pais do cidadão alemão vieram para Portugal e estão agora com o neto. A própria embaixada da Alemanha em Lisboa tinha a informação de que o cidadão alemão tinha morrido e, segundo a CNN, os seus pais foram encaminhados para o Instituto de Medicina Legal, onde não identificaram qualquer corpo como sendo o do filho de 44 anos. Ao que o Observador apurou, o casal quis ir a todos os hospitais — sabendo que havia feridos não identificados — e foi em São José que, através de uma fotografia tirada ao filho, o reconheceram e o luto deu lugar ao alívio.
Testes forenses feitos durante a noite provaram que o homem até então identificado como o pai da criança de três anos era na realidade um cidadão britânico, uma entre as oito nacionalidades das vítimas mortais.
“A embaixada [da Alemanha em Lisboa] está em contacto próximo com a família”, frisou fonte oficial ao Observador na manhã desta sexta-feira. “Os familiares chegaram a Lisboa e estão a tomar conta da criança. A cooperação com as autoridades portuguesas foi muito boa, estamos gratos pelo seu apoio. E, ao contrário do assumido inicialmente, nenhum cidadão alemão morreu.”
“Métodos científicos” permitiram identificação da vítima mortal: é um britânico
Mas como foi o cidadão alemão dado como morto? Ao que o Observador apurou, vários sinais exteriores apontavam para essa possibilidade, como o cabelo. Contudo, sublinha Duarte Nuno Vieira, antigo presidente do Instituto Nacional de Medicina Legal (INML), “é sempre necessário termos a confirmação da identidade com pelo menos um método científico”.
“Se nos basearmos apenas num anel, ou numa tatuagem — há pessoas que têm tatuagens iguaizinhas, ainda por cima hoje em dia generalizaram-se”, adianta. “Portanto, determinou-se que uma identificação só está absolutamente segura quando está confirmada por um método científico: impressões digitais, ficha dentária ou o perfil de ADN.” Esse tipo de informação chega aos peritos através de redes internacionais de bases de dados, como a Interpol, que “tem acesso às bases de dados de impressões digitais de vários países que são membros”, clarifica o perito.
A coordenação entre o INML e as embaixadas é fulcral: cabe ao gabinete de Disaster Victim Identification (DVI), ou de Identificação de Vítimas de Desastres, fazer essa ponte.
O perfil de ADN é o último recurso, caso as impressões digitais ou os registos dentários não sejam suficientes. “Um local onde está sempre o nosso ADN é a escova de dentes”, exemplifica. “Conseguimos sempre extrair saliva ou sangue” de onde é retirado o material genético.
O descarrilamento do Elevador da Glória fez 16 vítimas mortais. O próximo passo é trasladar os corpos, o que “vai depender muito das regras e do empenho de cada embaixada, porque obviamente o processo em si é burocrático e demora o seu tempo”, afirma Duarte Nuno Vieira. Cabe ao Instituto de Medicina Legal manter-se em contacto com as embaixadas e até esse momento, as vítimas mortais lá se manterão.
Agente emocionou-se ao saber que cidadão alemão estava vivo
Dois dias depois do descarrilamento do Elevador da Glória, o comandante da Divisão de Investigação Criminal salienta o orgulho nos seus agentes. “Tiveram um comportamento digno mesmo de patriotismo e de humanismo, porque não é fácil ver aquele cenário horrível”, diz o subintendente Rui Costa, que chefia 400 homens.
Aos agentes que estiveram no local, foi prestado apoio psicológico, com a primeira intervenção a ter-se dado esta quinta-feira. Destaca que nenhum deseja identificar-se. Esta sexta-feira, foi o comandante a dar a notícia de que o cidadão alemão estava vivo. “Eu liguei-lhe há bocado e ele não sabia. Ficou contente, claro. Ficou meio emocionado.”