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“Em termos de biodiversidade, faz diferença termos peixes mais inteligentes ou — usando uma grande simplificação — peixes mais 'burros'?” Essa é uma das perguntas da investigação do biólogo José Paula
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▲“Em termos de biodiversidade, faz diferença termos peixes mais inteligentes ou — usando uma grande simplificação — peixes mais 'burros'?” Essa é uma das perguntas da investigação do biólogo José Paula

Goncalo Villaverde

▲“Em termos de biodiversidade, faz diferença termos peixes mais inteligentes ou — usando uma grande simplificação — peixes mais 'burros'?” Essa é uma das perguntas da investigação do biólogo José Paula

Goncalo Villaverde

Porque é que a inteligência dos peixes importa? E como podemos tirar partido dela para proteger o ambiente?

No Centro de Ciências do Mar e Ambiente, o biólogo José Ricardo Paula tentar perceber qual a relevância da inteligência dos peixes para os ecossistemas em que vivem — e como podem ajudar a salvá-los.

Os vários aquários parecem todos iguais. Os peixes que estão lá dentro também. Para um olhar destreinado, dá a impressão que se limitam a nadar de um lado para o outro e não parece passar-se ali nada de notável.

Nada poderia estar mais longe da verdade. Os aquários não são iguais — uns são habitats muito simples, outros complexos — e os peixes também não são iguais: uns são mais inteligentes do que outros, precisamente por causa da simplicidade ou complexidade do habitat em que vivem, explica José Ricardo Paula, biólogo comportamental e investigador do Centro de Ciências do Mar e Ambiente (MARE) & Rede de Investigação Aquática (ARNET)  da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

▲ Licenciado em Biologia Evolutiva pela Faculdade de Ciências da Univ. Lisboa, José Ricardo Paula fez investigação na Suécia, Austrália, Polinésia Francesa, Hong Kong e Havai antes do voltar a Portugal

Goncalo Villaverde

Estamos no Laboratório Marítimo da Guia, no Forte de Nossa Senhora da Guia, na Estrada do Guincho, em Cascais, uma fortaleza que começou a ser construída em 1642, junto à Lage do Ramil, onde em julho de 1580 desembarcaram tropas espanholas comandadas pelo Duque de Alba. “Depois de construído o forte, nunca mais houve desembarques espanhóis naquela laje”, diz, com graça, o biólogo. Hoje, os únicos espanhóis que se encontram por aqui serão eventualmente cientistas: o forte alberga quatro grupos de investigação, entre eles o laboratório sobre Complexidade Comportamental, liderado por José Ricardo Paula.

O cientista de 35 anos nasceu e cresceu aqui mesmo ao lado, em Oeiras. Mas depois da licenciatura em Biologia Evolutiva, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, passou vários anos a correr o mundo antes de regressar para perto de casa. Fez o mestrado em Biologia da Conservação, com parte do trabalho de campo na Austrália, seguiu-se o doutoramento, dividido entre Portugal, Suécia, Austrália e a Polinésia Francesa e, mais tarde, dois pós-doutoramentos, um em Hong Kong e outro no Havai.

A maior parte da investigação do laboratório coordenado pelo investigador centra-se nestes peixes que vemos a nadar dentro dos aquários: animais pequenos, esguios e alongados, com o corpo atravessado da cabeça até à cauda por uma linha preta. José faz a apresentação: são peixes-limpadores (Labroides dimidiatus) que vivem habitualmente em recifes de coral no Índico e Pacífico, onde prestam um serviço valioso a outros peixes.

▲ É uma relação com benefício mútuo: os esguios peixes-limpadores (Labroides dimidiatus) alimentam-se dos parasitas de “peixes-clientes”, como os peixes borboleta (Chaetodon kleinii), deixando-os limpos

Goncalo Villaverde

“Estes animais estabelecem pequenas estações de limpeza onde todos os outros peixes do recife vão para remover parasitas”, esclarece o investigador. “Têm um papel importante na saúde do ecosistema.” É uma relação de mutualismo com benefícios para todos: o peixe-limpador alimenta-se dos parasitas, os peixes maiores — a que os investigadores chamam peixes-clientes — ficam limpos e saudáveis.

Acontece que o equilíbrio destas interações depende de uma série de regras de comportamento bem estabelecidas. “Por exemplo, o peixe-limpador prefere comer muco — uma estrutura protetora da pele dos peixes-cliente. Às vezes é batoteiro e come um bocadinho, mas, como sabe que fez asneira, a seguir usa as barbatanas pélvicas para fazer uma massagem ao peixe que enganou.” É um comportamento que adota em jeito de recompensa, já que estas massagens têm nos peixes o mesmo efeito que têm nos humanos: relaxam. Por outro lado, os peixes-clientes também desenvolveram mecanismos para o peixe-limpador ser honesto: “quando um peixe-limpador come muco, o peixe cliente persegue-o e dá-lhe umas ‘bicadas’.”

O que se perde quando desaparece “a cultura” dos peixes?

O peixe-limpador é um modelo animal muito usado em neurociências pelas reconhecidas capacidades de cognição social, memória, capacidade de aprendizagem e de ter comportamentos complexos.

As principais questões de investigação de José Paula neste momento são precisamente como evolui o comportamento social desta espécie, de que forma a complexidade do ambiente influencia essa evolução e até que ponto esses comportamentos têm impacto nos ecossistemas. Ou, como o próprio resume: “Em termos de biodiversidade, faz diferença termos peixes mais inteligentes ou — usando uma grande simplificação — peixes mais ‘burros’?”

Esta dúvida liga-se a um debate antigo entre os biólogos da conservação: o problema é perder espécies ou o verdadeiro problema é perder a sua cultura? Para José Paula, a resposta é clara: não basta que a espécie exista, é essencial preservar a sua cultura e os seus comportamentos. O projeto atual, financiado pela Fundação “la Caixa” em 292.500 euros, ao abrigo de uma bolsa de investigação pós-doutoramento Junior Leader, procura perceber o que acontece quando os peixes perdem capacidades cognitivas e desaprendem os seus comportamentos habituais.

A equipa quer levar a experiência do laboratório para a natureza e vai instalar unidades em alguns recifes, introduzindo peixes com melhor ou pior desempenho cognitivo, para avaliar o impacto na biodiversidade. “Isto nunca foi testado, mas seria uma forma de conservar não apenas a espécie, mas também a sua cultura”, diz José Ricardo Paula.

A ideia nasceu em 2016, após episódios globais de branqueamento de corais provocados pelo aumento da temperatura do mar. Nessas situações, os recifes perdem a cor, morrem muitos animais e os habitats tornam-se menos complexos.

Na Grande Barreira de Coral australiana, que sofreu danos extensos, quando os peixes-limpadores sobreviventes foram testados, verificou-se que tinham perdido quase todas as suas competências: não sabiam como agir perante dois peixes-clientes ao mesmo tempo ou como reagir a predadores. “Os corais recuperaram, a população de peixes também, mas os comportamentos anteriores não.” Segundo o investigador, é possível que isso aconteça por duas razões: a morte de muitos adultos experientes elimina a possibilidade de aprendizagem social e a simplificação dos habitats não privilegia a aprendizagem.

A primeira grande questão do projeto é, por isso, perceber se esta perda cognitiva tem ou não relevância para o ecossistema. Para isso, José Paula e a equipa estão a estudar os mecanismos por trás deste fenómeno. Desde logo, se a simplificação do ambiente é a principal causa desta desaprendizagem. A segunda questão, que será testada em breve, é se a inteligência tem ou não um papel transgeracional, isto é, se a capacidade cognitiva dos pais influencia a dos filhos.

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  • Raúl Oliveira, Beatriz Pereira, Tânia Marquês e Luís Almeida fazem parte da equipa coordenada por José Ricardo Paula (ao centro)
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E há ainda uma terceira linha de investigação: levar a experiência para a natureza. A equipa vai criar unidades experimentais em alguns recifes, introduzindo peixes com melhor ou pior desempenho cognitivo, para avaliar o impacto na biodiversidade. Se se provar que ter elementos mais inteligentes no meio tem um impacto significativo no ecossistema, seria possível, por exemplo, atuar preventivamente: sabendo-se com antecedência da chegada de uma onda de calor, seria possível recolher um número mínimo de peixes, mantê-los em instalações seguras durante o evento extremo e devolvê-los depois ao seu ambiente, garantindo a continuidade do comportamento. “Isto nunca foi testado, mas seria uma forma de conservar não apenas a espécie, mas também a sua cultura”, defende.

As entidades financiadoras têm reconhecido a pertinência da investigação e, nos últimos anos, conseguiu financiamento da Fundação “la Caixa”, da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), e da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD), através do prémio Science Award Atlântico.

Apesar do sucesso que tem tido, o investigador conta que o percurso começou com algumas hesitações. “Lembro-me que estava bastante desmotivado durante o primeiro ano da licenciatura e isso só mudou no segundo ano, quando tive disciplinas como Fisiologia e Genética e comecei a perceber melhor o caminho que queria seguir.”

▲ O Laboratório Marítimo da Guia, no Forte de Nossa Senhora da Guia, em Cascais, alberga quatro grupos de investigação, entre eles o laboratório sobre Complexidade Comportamental, de José Ricardo Paula

Goncalo Villaverde

No terceiro ano, houve um cartaz pendurado num corredor da faculdade que lhe chamou a atenção: era um recrutamento para fazer investigação sobre peixes-limpadores e estava dois anos fora de prazo. Mas tinha uma memória de um livro oferecido pela irmã, quando era criança, que mencionava estes animais, por isso resolveu tentar. Foi assim que acabou a fazer a tese de mestrado no ISPA-IU e partiu passado pouco tempo para a Austrália.

Confessa que não sabia bem o que fazia um biólogo antes de entrar em biologia. E também não tinha noção do que era exatamente ser cientista. Mas hoje tem uma ideia muito clara: olha para o que faz como “ter por profissão fazer perguntas”.

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