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Porque é que o impasse na esquerda espanhola nunca mais acaba? /premium

Para o Podemos, governar com o PSOE seria uma salvação. Para o PSOE, ter o Podemos no governo seria um empecilho. Em Espanha, não há acordo à vista e já se fala de eleições: as quartas em quatro anos.

De forma geral, o mundo não parou na noite de 28 de abril.

Desde então a este parte, foi muito o que aconteceu, mudou, evoluiu. A Coreia do Norte voltou a fazer testes de mísseis e, pelo meio, o ditador Kim Jong-un até se encontrou por breves momentos com Donald Trump na Zona Desmilitarizada das Coreias. Por falar nos EUA, desde aquele domingo, já morreram 197 pessoas em tiroteios em massa. No Reino Unido, há um novo primeiro-ministro, Boris Johnson, e um novo príncipe, Archie Harrison Mountbatten-Windsor. No Brasil, a Amazónia começou a arder a um nível ímpar em relação aos últimos anos. Em Bruxelas, há um novo nome a reter: Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia. Em Moçambique, a Frelimo e a Renamo assinaram um novo acordo de paz — o terceiro, mais concretamente. E em Hong Kong, tal como na Rússia, ressuscitaram movimentos de protesto que já muitos tinham dado como mortos.

O mundo, pois, não parou desde 28 de abril. A não ser, claro, que olhemos para Espanha.

Depois de ter levado o PSOE aos seus dois piores resultados de sempre, Pedro Sánchez venceu as eleições de 28 de abril com 28,6% dos votos (Pablo Blazquez Dominguez/Getty Images)

Pablo Blazquez Dominguez/Getty Images

Na noite de 28 de abril, a Calle Ferraz encheu-se como já não havia pelo menos onze anos. Pela primeira vez desde José Luis Rodríguez Zapatero, o PSOE venceu umas eleições gerais e aquela rua bem situada no centro de Madrid encheu-se de militantes e simpatizantes com bandeiras vermelhas. “Ista, ista ista, Espanha socialista!”, gritavam uns. “Viva Espanha e viva o socialismo”, juntavam outros.

As razões para festejar eram inegáveis: depois de ter tido os seus piores resultados de sempre nas duas eleições gerais anteriores, o PSOE conseguiu vencer de forma inequívoca à terceira. Mas muitos sabiam que daquela festa podia resultar uma enorme ressaca — afinal de contas, o PSOE venceu mas sem maioria, havendo assim necessidade de recorrer a outros partidos para governar. Com essas contas na cabeça, o grito mais audível e repetido daquela noite acabou mesmo por ser: “Com Rivera não! Com Rivera não!”.

Do alto de um palanque improvisado, o líder dos socialistas e Presidente de Governo, Pedro Sánchez, como que a pedir que todos avançassem para outras palavras de ordem, respondeu: “Já vos ouvi, já vos ouvi”. Mas eles não se calaram. E a seguir: “Creio que já está bastante claro, não?”.

Quatro meses depois, é difícil entender o que era, afinal, claro para Pedro Sánchez.

Podemos, Sánchez?

Se há altura para traçar comparações entre uma música da banda infanto-juvenil portuguesa Onda Choc e a política espanhola, poderá muito bem ser esta. No repertório daquele projeto musical de tempos idos, a música “Amores desencontrados” dá conta de um emaranhado de namoricos entre os alunos da mesma escola. Ali, a voz que canta gosta do João, só que ele gosta da Inês, que por sua vez gosta “muito do Miguel”. A lição de que nem sempre todos podem ganhar é aprendida com dureza — é caso da Dina, que ficou triste ao saber que não foi a ela que o Ricardo pediu para sair, mas antes à Carla.

Ora, na política espanhola, no pós-bipartidarismo, que hoje dá lugar a um sistema onde cinco partidos (PSOE, PP, Ciudadanos, Podemos e as suas várias confluências, além do Vox), as principais forças políticas passaram a ter de negociar — e, mais complicado ainda, negociar com vários parceiros. Aqui, tal como na música dos Onda Choc, também os políticos espanhóis começam a aprender a lição de que nem sempre todos podem sair a ganhar.

Desde que o bipartidismo desapareceu sem rasto nas eleições de dezembro de 2015, já foram várias as soluções testadas na política espanhola. Nos primeiros meses de 2016, o Ciudadanos tentou ajudar o PSOE a formar governo, acabando por não chegar a esse objetivo porque o Podemos e o PP não o permitiram. Já em novembro desse ano, e com umas eleições antecipadas pelo meio, o Ciudadanos rodou para a sua direita e passou a dar a mão ao PP, que conseguiu ser governo in extremis, graças também à abstenção do PSOE. E em 2018, depois da leitura da sentença do julgamento do caso Gürtel, o PSOE conseguiu juntar o Podemos, mais ainda os nacionalistas bascos e os independentistas catalães para derrubar o governo do PP e assim suceder-lhe.

Mais do que nunca, os políticos espanhóis passaram a viver com uma calculadora no bolso, sempre com o intuito de conseguiur somar do seu lado 176, que são tantos quantos os deputados necessários para formar uma maioria no Congresso dos Deputados.

Entre todas as coisas que ficaram pouco claras na noite de 28 de abril, houve algumas certezas a sair dali, como explica o politólogo espanhol Pablo Simón, professor na Universidade Carlos III e editor do site Politikon.

A primeira tem a ver com Pedro Sánchez: “O 28 de abril deu um resultado em que ou Pedro Sánchez se converte no Presidente de Governo ou há eleições. Em 2016, podia haver outras alternativas, mas em 2019 só ele consegue governar”.

A segunda tem a ver com Pedro Sánchez, mas também com Pablo Iglesias, líder do Unidas Podemos: “A única maioria viável em Espanha passa por um acordo em que a condição necessária, mas não suficiente, é que o Podemos e o PSOE estejam de acordo”. De fora, estão os três partidos da direita — PP, Ciudadanos e Vox — que se recusam a viabilizar, mesmo que pela via da abstenção, um governo socialista.

Para Pablo Simón, um acordo entre os dois partidos “não é impossível” e, a acontecer, facilmente atrairia os restantes 11 deputados necessários para formar uma maioria. “Basta o Podemos conseguir o PSOE que logo os restantes vêm atrás”, assegura. Mas os desafios aqui são outros: de contexto e conjuntura. “Por mais que seja comum na Europa, nós em Espanha não temos precedentes de social-democratas negociarem com partidos à sua esquerda. E o que se passa neste momento é que as organizações de um partido e do outro se receiam mutuamente”, diz aquele politólogo.

(JOSEP LAGO/AFP/Getty Images)

JOSEP LAGO/AFP/Getty Images

O PSOE e o Unidas Podemos não são propriamente desconhecidos, mas também estão longe de serem amigos. Isso viu-se muito bem em julho, altura em que o Unidas Podemos teve na mão a aprovação da investidura do governo de Pedro Sánchez e acabou por deitá-la por terra.

Em duas sessões parlamentares, Pedro Sánchez fez os possíveis para convencer o Unidas Podemos a deixar o PSOE governar sozinho e Pablo Iglesias dobrou-se ao máximo para convencer o PSOE a dar-lhe ministérios. Tanto que até tentou uma manobra de última hora, a partir do púlpito do Congresso dos Deputados. “Depois de ouvir o seu discurso, recebi uma mensgem de alguém muito relevante do seu partido e de uma pessoa com muita autoridade moral o partido socialista, que me disse: ‘Ouvi o discurso de Pedro Sánchez. Pede-lhe que te dê as políticas ativas de emprego’”, contou Pablo Iglesias. E depois rematou: “Aqui estou a seguir essa recomendação: renunciamos ao Ministério do Trabalho se vocês nos cederem as competências para dirigir as poltícias ativas de emprego neste país”.

Houve três reações naquela câmara. Primeiro, o burburinho dos deputados estupefactos com aquela tentativa de negociação pouco comum. Segundo, os deputados do Unidas Podemos, que ficaram sozinhos a bater palmas. E uma terceira, de Pedro Sánchez: um ligeiro “não” com a cabeça e um “incrível!…” a fugir-lhe da boca.

Depois disso, o PSOE deixou sair para a imprensa aquilo que até então era mantido em segredo entre os negociadores socialistas e do Unidas Podemos: as exigências do partido de Pablo Iglesias. De acordo com o PSOE, o Unidas Podemos terá pedido a vice-presidência do governo e ainda cinco ministérios: além do Ministério do Trabalho (que seria também da Segurança Social e Luta Contra a Precaridade), a equipa de Pablo Iglesias terá exigido a Transição Energética; o Meio Ambiente e Direitos dos Animais; a Justiça Fiscal e Luta Contra a Fraude; e a Ciência, Inovação, Universidades e Economia Digital.

Além disso, o PSOE divulgou também a lista de propostas que fez ao Unidas Podemos pelo seu apoio. Além da vice-presidência, que seria atribuída a Irene Montero, os socialistas estariam dispostos a dar ao Unidas Podemos três ministérios: a Habitação e Economia Social, a Saúde, Assuntos Sociais e Consumo; e por fim a pasta da Igualdade.

Tudo isto acabou com estrondo, com os dois partidos a atacarem-se mutuamente e a abrirem um fosso entre si. Desde então, os chefes da equipa de negociações de cada lado — Carmen Calvo, pelo PSOE; Pablo Echenique, pelo Unidas Podemos — passaram das reuniões em privado à troca de galhardetes em público.

Pablo Iglesias, a avançar para o púlpito do Congresso dos Deputados, sob o olhar de Pedro Sánchez (Pablo Blazquez Dominguez/Getty Images)

Pablo Blazquez Dominguez/Getty Images

Reagindo a uma notícia sobre as declarações de Pedro Sánchez, em que este dizia que era “recíproca” a “desconfiança” entre o Unidas Podemos e o PSOE, Pablo Echenique escreveu: “Desconfiança em quem fez dele e com quem pactou o orçamento mais social da democracia [em 2018]. É a enésima desculpa para continuar a tentar um acordo com Rivera ou levar-nos a eleições. Sánchez devia antes fazer o seu trabalho de casa, trabalhar os seus apoios e deixar-se de desculpas”.

Carmen Calvo respondeu dizendo: “Os tweets de Echenique não são construtivos, não ajudam nada, muitos deles são desabafos explosivos contra o PSOE e o governo. Esta é a realidade que estão a construir, mas não terão igual resposta da nossa parte”.

Apesar de tudo isto, o Unidas Podemos voltou a endereçar uma proposta ao PSOE. Na semana passada, estendeu-lhe um documento de 119 páginas onde deixava quatro fórmulas que incluíssem o Unidas Podemos ficar com uma vice-presidência aliada a um ministério social e ainda três ministérios. A proposta era, no conteúdo, igual à proposta que o PSOE diz ter feito ao Unidas Podemos durante as negociações antes da investidura de julho.

Ainda assim, numa resposta a lembrar uma discussão de um casal desavindo — “não é o que tu dizes, mas a forma como o dizes” —, o PSOE rejeitou a proposta do Unidas Podemos. “Tivemos de ouvi-los a dizer que nos vão policiar para que não nos cheguemos à direita! Não há precedentes de um grupo, ainda para mais muito menor, tentar impor uma fórmula de dois governos”, disse Carmen Calvo, repetindo a linha do PSOE, que acusando Unidas Podemos de querer formar um governo seu dentro do governo socialista.

Carmen Calvo, negociadora do PSOE junto do Unidas Podemos, acusa Pablo Iglesias de querer formar o seu próprio governo dentro de um governo socialista (Álex Zea/Europa Press via Getty Images)

Álex Zea/Europa Press via Getty Images

“Para o Podemos é muito importante entrar no governo. Eles tomaram essa decisão, porque entre todos os pontos positivos e negativos, há um que é muito positivo agora: eles sabem que têm uma organização muito fraca, além de que tiveram um mau resultado nas eleições autonómicas e também nas gerais. Estão muito longe do PSOE. E ao entrar no governo com eles, conseguem recursos para salvar o partido”, sublinha Pablo Simón.

Para este politólogo, a lista de preferências do Unidas Podemos começa neste momento por conseguir um governo de coligação. Depois, em segundo lugar, eleições antecipadas. E, por fim, como última preferência, está um governo do PSOE em minoria, em que este poderia tanto apelar aos votos circunstanciais à sua esquerda como à sua direita.

“Tivemos de ouvi-los a dizer que nos vão policiar para que não nos cheguemos à direita! Não há precedentes de um grupo, ainda para mais muito menor, tentar impor uma fórmula de dois governos."
Carmen Calvo, vice-Presidente em funções e negociadora do PSOE com o Unidas Podemos

“O problema aqui é que o PSOE olha para esta lista precisamente ao contrário. O objetivo derradeiro deles é governarem sozinhos. Se não for assim, preferem ir a eleições. E só como alternativa a tudo isto é que entrariam num governo de coligação com o Podemos”, sublinha.

Ora, se até agora nem o Unidas Podemos conseguiu o seu governo de coligação com o PSOE, nem o PSOE conseguiu o seu governo solitário, parece restar um segundo passo a cada uma das perspetivas: eleições antecipadas.

Quem tem medo (e vontade) de ir a eleições?

Além do 176 mágico para começar um governo, há agora outro número, mais especificamente uma data, na cabeça dos espanhóis: 23 de setembro. Essa é a data limite para que uma maioria na Congresso dos Deputados chegue a acordo para investir um governo. Ora, como essa tarefa se revela cada vez mais difícil, há outra data que também já começa a ganhar significado em Espanha: 10 de novembro. Ou seja, o dia em que Espanha poderá ter de ir a eleições antecipadas.

“Este cenário é cada vez mais provável”, aponta Pablo Simón. “O PSOE pode muito bem terminar agora uma ronda de contactos com todos os partidos e depois apresentar o seu programa de governo no Congresso dos Deputados, mesmo que saiba que não tem acordo. Depois, se não houver acordo, então empurram tudo para as eleições.”

"Neste momento toda a gente no PSOE quer ir a eleições. E, como as coisas estão, eles podem pensar: podemos até perder o governo, mas ao menos matamos o Podemos. E se matamos o Podemos, voltamos a ter a esquerda toda para nós."
Pablo Simón, politólogo espanhol

A julgar pelas sondagens, Pedro Sánchez tem mais do que razões válidas para querer ir a eleições. Desde que conseguiu 28,6% dos votos a 28 de abril, todas as sondagens eleitorais dão ao PSOE um resultado superior. Olhando para as sondagens mais recentes, desde a investidura falhada de julho, o PSOE surge em primeiro lugar com resultados que são desde os 29,3% e os 36,1%.

Mais impressionante, porém, é o barómetro do Centro de Investigações Sociológicas (CIS, organismo público) de julho, que aponta uma intenção direta de voto de 41,3% ao PSOE, seguindo o PP (13,7%), o Unidas Podemos (13,1%), o Ciudadanos (4,6%) e depois o Vox (4,5%).

Apesar de demonstrar reticências quanto aos números do CIS, apontando que sob a direção de José Félix Tezanos, nomeado pelo PSOE, os barómetros passaram a obedecer a metodologias que parecem beneficiar as contas socialistas, Pablo Simón sublinha ainda assim que a proposta de eleições antecipadas é cada vez mais aliciante para Pedro Sánchez e para o PSOE.

“Os atores políticos têm sempre muito medo de se mexerem, porque tudo pode mudar numas eleições”, diz o politólogo, logo contrapondo essa ideia. “Neste momento toda a gente no PSOE quer ir a eleições. E, como as coisas estão, eles podem pensar: podemos até perder o governo, mas ao menos matamos o Podemos. E se matamos o Podemos, voltamos a ter a esquerda toda para nós.”

(CRISTINA QUICLER/AFP/Getty Images)

CRISTINA QUICLER/AFP/Getty Images

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