“Pânico”. “Desastre”. Esta terça-feira é o Dia Mundial da Internet e, se Portugal ficasse um dia inteiro sem acesso à net, aconteceriam estas duas coisas, segundo alguns especialistas.
Sandra Miranda Ferreira, diretora técnica da Microsoft Portugal, não tem dúvidas: noutros tempos, “se eu, cidadã, percebesse que não tinha telefone [ou] que não conseguia ter rádio e televisão, havia pânico”. Hoje em dia, sem internet “seria o mesmo”. Divide a questão em três níveis. Primeiro, o “militar” e a “segurança interna”, uma vez que “as comunicações são essenciais para mover tropas no terreno”. Depois, as “infraestruturas críticas”. Por fim, tudo o resto. Mas Sandra Miranda Ferreira considera que é “muito pouco” provável que um problema afete em simultâneo todas as comunicações e todas as ligações do país com o exterior.
Paulo Vieira, Major Account Manager da empresa de segurança informática Check Point Software Technologies, reconhece que “um dia inteiro [sem internet] seria um desastre quase nacional”, embora também considere “difícil” que uma falha afete todos os operadores portugueses ao mesmo tempo. Teria consequências sobre os setores “governamentais” e sobre “os nossos serviços críticos”.
O Observador falou com alguns desses serviços críticos do país para saber de que forma um dia sem internet os afetaria. As respostas são menos pessimistas.
Na economia
▲ Sem internet, os investidores em território nacional deixariam de ter acesso à Bolsa de Lisboa (MARK RALSTON/AFP/Getty Images)
AFP/Getty Images
No dia 17 de abril de 2015, os ecrãs dos terminais Bloomberg pintaram-se de negro. A falha informática durou três horas e atingiu milhares de investidores em todo o mundo, uma vez que estes computadores são um instrumento importante para aceder a informação financeira em tempo real. A 8 de julho, outra falha do mesmo género levou à suspensão da negociação de títulos na Bolsa de Nova Iorque. A paragem também durou três horas. São apenas dois exemplos de problemas técnicos que, no ano passado, afetaram a atividade económica em todo o mundo.
Rede pública vs. privada
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Nem todos os serviços do quotidiano dependem inteiramente de ligação à internet, ou seja, à rede pública a que o utilizador comum tem acesso. Mesmo sem internet é possível comunicar através das redes privadas (chamadas “redes dedicadas”), muito usadas pelas empresas.
Porém, no cenário usado para esta reportagem consideramos que o país não só perderia o acesso à rede pública como a todas as outras vias de ligação com o exterior.
A nossa economia não é exceção. Pedro Lino, administrador da corretora Dif Broker, explica que se o país se desligasse da internet por um dia isso representaria um “prejuízo para os investidores portugueses”, “uma perda de confiança no próprio país” e “uma perda substancial para o PIB” nacional. Porém, a negociação na Bolsa de Lisboa não tinha, necessariamente, de parar, uma vez que estamos integrados na Euronext Paris — os servidores físicos não estão alojados em Portugal — e, se não houvesse internet em Portugal, os investidores externos “poderiam negociar na mesma as ações portuguesas”. Em contrapartida, os investidores portugueses não conseguiriam aceder à Bolsa de Lisboa nem a qualquer outra.
Fonte oficial da Euronext explica, por e-mail, que “as repercussões para o mercado de um dia sem internet seriam, provavelmente, uma descida no número de ordens introduzidas no sistema”, tendo em conta que muitos investidores usam os serviços de home banking para “dar ordens de compra ou venda” aos bancos e intermediários financeiros. Mas acrescenta que “existem vias alternativas”, como o telefone. A mesma fonte garante ainda que “o sistema de negociação da Bolsa de Valores portuguesa (parte integrante do Grupo Euronext, que engloba também as bolsas de Amesterdão, Bruxelas e Paris) não está dependente da internet” e que, mesmo sem ela, “o sistema de negociação” e “os backups estariam totalmente operacionais”.
Fonte do Grupo SIBS assegura também que a rede Multibanco (que integra os pagamentos digitais e as caixas de multibanco) funciona em “circuito fechado” e, por essa razão, não é afetada por falhas na internet.
Na aviação e nos comboios
▲ Na aviação civil, um dia sem internet poderia resultar em "grandes atrasos" (Alexander Hassenstein/Getty Images)
Alexander Hassenstein/Getty Images
A internet é um meio de comunicação “privilegiado” em “todos os setores” e “a aviação não escapa a essa realidade”, começa por dizer João Roque Santos, piloto de linha aérea. Porém, é usada “na chamada comunicação não-essencial”: “A aviação é toda ela programada no sentido de a redundância funcionar sempre que falta o primário. Só que a internet nem sequer é o primário nas questões fundamentais operacionais”, refere o piloto. “É mais um meio de comunicação para além de vários que existem neste momento”, conta. “Por exemplo, em comunicações em voo entre o avião e os órgãos de controlo de tráfego aéreo, usamos comunicações em VHF ou comunicações de longa distância em HF — portanto, não passam pela internet”, acrescenta. Assim, no que toca à segurança, o efeito da internet é “inexistente” e a falta dela “não tem qualquer consequência”, garante.
Há, no entanto, uma área da aviação civil na qual a ausência de internet poderia causar problemas: na parte das áreas de check-in. “Aí era capaz de causar transtornos com grandes atrasos por causa da chegada da informação”, tendo em conta que “os sistemas de reserva dos bilhetes”, que “hoje em dia já se suportam na internet”, vão depois “prestar informação aos monitores onde estão os funcionários de check-in a trabalhar”. Ainda assim, João Roque Santos relembra que “até aí há redundância”: “reverte-se para um sistema manual — só que esse sistema, depois, requer mais gente e mais tempo”.
Para o piloto, não seria novidade. “Já me aconteceu em Londres”, recorda. O sistema desligou-se “em praticamente todo o terminal”. “Foi necessário fazer tudo à mão”, desde as verificações à emissão manual dos cartões de embarque. Como “não havia acesso à internet”, “não havia informação para confirmar se determinado passageiro tinha a sua reserva feita”, diz. “Estamos a falar de atrasos de três a quatro horas”, conclui.
Quanto ao controlo de tráfego aéreo, a situação é semelhante: “A internet, para nós, é basicamente uma rede acessória”, diz Sérgio Capela, presidente da Associação Portuguesa de Controladores de Tráfego Aéreo. Nesse assunto, é pragmático: “Nenhum dos serviços fundamentais [ao controlo de tráfego aéreo] utiliza a internet como meio de comunicação”.
Como funcionam então? “Em todas as redes temos linhas dedicadas independentes”, garante. E no que toca aos radares? “Nem sequer estão ligados à internet”, conta. Haveria, no entanto, um impacto na “parte administrativa” que, ainda assim, “seria muito reduzido”. Até porque “qualquer coisa mais importante poderia sempre ser substituída, porque temos alternativas. Temos faxes, temos telexes, temos outras redes”, garante.
Em relação ao transporte ferroviário, fonte da CP (Comboios de Portugal) diz, por e-mail, que “desde que não exista danificação da infraestrutura ou do material circulante, os comboios podem continuar a circular, já que o comando e controlo da circulação — aqui com responsabilidade partilhada com a Infraestruturas de Portugal — onde se incluem as comunicações, assim como os sistemas embarcados nos comboios, são independentes da internet”. “Naturalmente que a venda online, se o site CP não funcionar, não é possível, mas a venda em estações continua a fazer-se, sendo que, no limite, pode fazer-se sempre venda manual”, acrescenta.
Por sua vez, fonte da Infraestruturas de Portugal assume terem “uma rede de comunicação própria” que lhes permite serem “completamente independentes da internet”. Assim, “no que respeita à sinalização ferroviária”, a “inexistência de acesso à internet em nada afetaria a operação ferroviária” — e o mesmo se aplica à “sinalética de autoestradas” que gerem, garante.
Na saúde
▲ O setor da Saúde "já está bastante dependente" da internet (Christopher Furlong/Getty Images)
Christopher Furlong/Getty Images
O setor da saúde “já está bastante dependente” da internet, assegura Margarida França, presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares. “Contudo, todos os hospitais têm planos de contingência com alternativas. Isso é obrigatório”, garante. O que preveem? Depende muito do problema. Mas, “genericamente”, é “o regresso” ao “suporte em papel”, conta. Será este um risco real? “As coisas podem sempre acontecer e por isso é que se fazem análises de riscos. [Mas] não faz parte das primeiras preocupações dos administradores hospitalares”, confessa.
Questionada sobre eventuais problemas com os equipamentos de suporte de vida, Margarida França descarta essa possibilidade. “Não, isso não”, diz, dando como exemplo um corte de energia: “São equipamentos que estão sempre a funcionar”, refere.
Por e-mail, Henrique Martins, presidente do Conselho de Administração da SPMS (Serviços Partilhados do Ministério da Saúde) garante também que, no Serviço Nacional de Saúde (SNS), “a maioria da informação circula numa rede privada e dedicada, chamada RIS – Rede Informática da Saúde”. Mas sem internet “haveria dificuldade em aceder aos serviços digitais” como, por exemplo, o “portal do SNS”.
Na Justiça
▲ "Na área judicial, a internet suporta inúmeros serviços" (Education Images/UIG via Getty Images)
Education Images/UIG via Getty Images
Estávamos em 2014. Ao primeiro dia do mês de setembro, também o dia da entrada em vigor do novo mapa judiciário, o Citius parou. Ainda hoje não se conhece ao certo a origem do problema nesta plataforma informática usada por magistrados, advogados e funcionários judiciais, onde se encontram armazenados os processos da área cível — chegou-se a suspeitar de sabotagem, mas o caso foi arquivado pelo Ministério Público em novembro desse ano.
A paragem do Citius durou 44 dias. E se fosse um dia sem internet? Para “quem esteve um mês e meio sem Citius, 24 horas sem internet acaba por ser um problema de somenos importância”, ironiza António Ventinhas, presidente da direção do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público. “Só agora foram divulgados dados da Justiça que foram recuperados [do Citius] e permitiram a apresentação de estatísticas”, refere, reconhecendo, no entanto, que um dia desligado da rede global teria “consequências”.
Quais? “A atividade do Ministério Público tem várias dependências da internet. Muitas vezes, até nas próprias atividades de investigação é utilizado o recurso à internet para recolha de elementos”, explica António Ventinhas. Embora haja “sistemas internos da Justiça”, esses sistemas “também têm interdependências com a internet”. “Circula muita informação interna” e, sem rede, todo o trabalho “fica prejudicado”, diz. Mas “não estamos única e exclusivamente dependentes da internet”, garante.
E no geral? Como depende este setor da internet? Fonte oficial do Ministério da Justiça explica, por e-mail, que “a revolução da internet dos últimos 20 anos trouxe grandes mudanças positivas”. Por um lado, “na área judicial, a internet suporta inúmeros serviços, desde a tramitação de processos ou as videoconferências até áreas onde atualmente estamos a trabalhar [e] que vão permitir reduzir o papel nas secretarias dos tribunais, ou prestar um atendimento mais integrado através de serviços disponíveis, por exemplo, no telemóvel”, diz. Por outro lado, “na área registal, todo o trabalho já feito na desmaterialização dos registos permitiu oferecer um melhor serviço aos cidadãos e dar mais agilidade e celeridade à economia”, acrescenta.
No entanto, para o Ministério da Justiça, o país “ficar desligado totalmente da internet” é uma possibilidade, “no mínimo, remota”. A mesma fonte justifica-se “com os sistemas de segurança, redundância e backup, proteção de falhas e de fontes de conetividade alternativas existentes tanto a nível mundial como nacional”. Questionada sobre a existência de planos de contingência, a fonte garante que o setor “tem níveis de segurança elevados”: “Os sistemas suportados pela internet na Justiça são centrais, pelo que a preocupação com uma política de robustez, conetividade e segurança da infraestrutura, bem como a salvaguarda da privacidade, sempre estiveram garantidas.” Mais: “Nos últimos meses, fizemos já várias intervenções ao nível da segurança, sendo que uma das mais importantes passou pela criação de um bom sistema de disaster recovery que permite que os dados sejam recuperados em situações de crise”. Este data center está “localizado fora de Lisboa”, revela. “Trata-se de uma infraestrutura tecnológica que permite recuperar dados e informação, sempre que existam problemas na infraestrutura principal”, conta.
Nos serviços básicos
▲ Sem energia não existia internet. E o contrário? (Justin Sullivan/Getty Images)
Justin Sullivan/Getty Images
Uma coisa é certa: sem eletricidade não havia internet. Será que, atualmente, podemos dizer o contrário? Por e-mail, Maria Antónia Fonseca, da EDP Distribuição, esclarece que “não se pode afirmar isso”, pois a EDP usa “para comando e controlo da rede elétrica de distribuição uma rede privada e independente”.
Fonte do grupo Águas de Portugal garante também, por e-mail, que “o abastecimento de água não está dependente da internet, pois as comunicações necessárias à exploração dos sistemas de abastecimento estão suportadas em infraestruturas de telecomunicações que não se encontram partilhadas com a internet”. Ainda assim, “a falha dos serviços de internet teria impacto fundamentalmente ao nível das comunicações não operacionais — por exemplo, faturação, telecomunicações telefonia ou fax e correio eletrónico”, confessa.
Na segurança
▲ A PSP ativa um "plano de contingência" caso falte a internet (MÁRIO CRUZ/LUSA)
MÁRIO CRUZ/LUSA
O Observador contactou também a Polícia de Segurança Pública (PSP), que informou, por e-mail, que “opera as suas plataformas informáticas” em “servidores próprios, independentes da internet”. “Para além disso, e perante falhas ou suspensões da rede, é de imediato ativado” um “plano de contingência, sendo a informação guardada em computadores ou servidores locais, e sendo garantido o seu upload posterior” assim que sejam retomadas “as normais comunicações”.
Falar de segurança implica ainda falar de prevenção, mais propriamente de alarmes ou mesmo de sistemas de videovigilância. Daniel Marques, da empresa Segurança24, garante que “a maioria dos sistemas” que a empresa instala “não tem qualquer dependência da internet”. Mas nem por isso esta prestadora de serviços de segurança ficaria de fora deste blackout. “Apesar de poucos, temos alguns sistemas que comunicam por IP [Internet Protocol]. Como tal, em caso de falha de internet, iríamos perder as comunicações com esses sistemas.”
Na sociedade
▲ "Muitas das funções que outrora decorriam em contexto de espaço público acontecem agora no mundo virtual" (flickr Editorial/Getty Images)
flickr Editorial/Getty Images
E o que representaria um dia sem internet para todos nós, que passamos os dias agarrados aos nossos telemóveis, tablets e computadores? Rui Tinoco, psicólogo clínico, recorda que, “nas nossas sociedades atuais, muitas das funções que outrora decorriam em contexto de espaço público acontecem agora no mundo virtual” e que, “para os mais novos, por exemplo, muitas das atividades em redes sociais ou aplicativos de comunicação permitem aquele ponto de encontro e convivialidade que outrora decorria na praça ou na rua.” “Neste aspeto, penso que uma ausência dessas formas de comunicação cortaria muitas formas de interação e de pertença que já acontecem nestes contextos”, defende.
De qualquer forma — e enquanto utilizadores assíduos da internet — a esta sabemos nós responder: um dia sem internet era o adeus ao e-mail, ao Facebook e a todos os serviços em rede a que já nos habituámos. Deixaríamos de poder fazer compras online (algo que resultaria em prejuízo para as empresas que se dedicam ao comércio virtual) ou coisas tão básicas como consultar o estado do tempo ou as notícias no nosso telemóvel. Além disso, e em último caso, seria também um dia sem o Observador…