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Nasceu há menos de dois anos e está a dar nas vistas pelos investimentos e parcerias de muitos milhões em que está envolvida. A Nscale, uma pequena empresa britânica de infraestrutura para o desenvolvimento de inteligência artificial (IA), passou num ápice de ilustre desconhecida a uma das empresas na esfera de investimentos da gigante de chips Nvidia.
E, desde o mês passado, é também um nome reconhecível em Portugal graças ao anúncio da implementação de 12.600 unidades de processamento gráfico (GPU) da Nvidia no centro de dados da Start Campus, em Sines. A capacidade de computação que vai ser possível com a implementação, a arrancar no primeiro trimestre de 2026, vai ficar ao serviço da Microsoft. Esta terça-feira, a dona do Windows quantificou o investimento: 10 mil milhões de dólares, o equivalente a 8,6 mil milhões de euros.
Daniel Bathurst, diretor de produto da Nscale, admite em entrevista ao Observador, durante a Web Summit, que vê com bons olhos a revelação da Microsoft sobre o valor investido. “É uma altura muito entusiasmante, vamos estar muito ocupados a executar a construção da infraestrutura para estes clientes”, diz. Mas fecha-se em copas quando questionado sobre que tipo de investimento está envolvido do lado da empresa britânica. “Em relação a números tangíveis só posso falar sobre a quantidade de GPU [unidades de processamento gráfico] que vamos implementar.” Também rejeita quantificar se o valor é superior ou inferior ao montante revelado pela Microsoft.
O anúncio da implementação em Sines é descrito “como um marco realmente importante”, já que “será uma das maiores, se não a maior implementação na Europa em anos recentes”.
Bathurst, que está na Nscale desde o início, opta por uma resposta diplomática em relação ao que é que deste anúncio de investimento, que inclui duas empresas ligadas aos EUA e uma empresa britânica, ficará para Portugal. “Acho que é um marco entusiasmante para a Europa, no sentido em que podemos disponibilizar inteligência para toda a gente no mundo, não apenas para alguns países em particular. E, este investimento dentro da Europa, em particular em Portugal, é um bom sinal de que a Europa já não está em desvantagem e que está a deixar a sua marca e a disponibilizar esta infraestrutura.”
O responsável da Nscale revela que a empresa pretende ter “pessoas em Portugal”, nomeadamente uma equipa “de engenheiros para fazer as ligações, configurar o hardware e a testar o software” associado à implementação, e “obviamente disponibilizar os serviços que anunciamos para os clientes finais”. Por agora, não detalha quais as ambições da empresa britânica em relação à dimensão da equipa.
▲ O processo de implementação de chips em Sines está previsto para o primeiro trimestre de 2026
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Em outubro, quando foi anunciada a implementação de 12.600 GPU no centro de dados de Sines, a Start Campus revelou que a parceria entre a Microsoft e a Nscale para instalar os chips da Nvidia completou o primeiro edifício do complexo, que terá seis. Em entrevista ao Observador, Robert Dunn, CEO da Start Campus, explicou que a empresa está focada em captar clientes para o SIN02, o segundo edifício do complexo em Sines. Sobre se há conversas com a Start Campus sobre este tema, o diretor de produto da Nscale afirma apenas que “Portugal é uma localização massiva” para a empresa. “Vamos continuar a investir onde conseguirmos na região e, sim, eventualmente haverá mais informação sobre e quando acontecer.”
Mas reitera que a empresa “tem ambições globais”. “Queremos ser o próximo grande hyperscaler. Temos implementações ao longo de toda a Europa e obviamente estamos de forma ativa a trabalhar para esse objetivo, portanto imagino que seja feito muito mais em Portugal ao longo dos próximos anos.”
O executivo da Nscale não teve oportunidade de assistir na íntegra às declarações do ministro da Reforma do Estado português no arranque da Web Summit, que afirmou que Portugal “tem todas as condições para se tornar líder mundial na IA”. Mas partilha uma visão semelhante. “Concordo plenamente. Acho que Portugal vai ser uma das potências da Europa. Há alguns locais estratégicos na Europa que têm o mesmo acesso que Portugal a energia renovável”, dando como exemplo o norte da Noruega, onde a Nscale também já tem planos. “Portugal parece ter os ingredientes certos” para ser “um dos locais que vai servir a procura” de poder de computação de IA na Europa, diz o executivo.
Porém, responde negativamente sobre se já houve contactos com o Governo português feitos durante a Web Summit. O próprio Governo divulgou, nas suas redes sociais, um encontro entre Brad Smith, presidente da Microsoft, e Gonçalo Matias, ministro da Reforma do Estado, ainda na segunda-feira. Na terça-feira, foi a vez de o CEO da tecnológica de chips Qualcomm, Cristiano Amon, deixar no ar que iria reunir-se com o Governo português. “Na Web Summit não, mas falamos com toda a gente de forma regular. Não posso dizer muito mais sobre com quem é que nos reunimos”, acrescenta Bathurst.
Nscale considera-se “sortuda” na “batalha” pela energia
A Nscale deriva da Arkon Energy, uma empresa que disponibiliza infraestrutura para mineração de bitcoin. “Mas são tipos de negócio completamente separados”, afirma o diretor de produto da startup britânica.
O negócio tem crescido à conta da “procura por infraestrutura de IA”, que “tem sido insaciável” nos últimos tempos. “Vimos uma oportunidade real de colocar a Europa no mapa e disponibilizar uma alternativa sediada na Europa a hyperscalers existentes”, ou seja, as empresas de grandes dimensões que disponibilizam serviços de infraestrutura para a inteligência artificial.
O desenvolvimento de IA tem associado um forte consumo de energia elétrica. “O acesso a energia é uma grande batalha”, reconhece o executivo. Nessa área, a Nscale considera-se “sortuda”. “Tivemos sorte. Todos os anúncios que foram feitos estão apoiados por contratos de energia já existentes.” E em Portugal? A resposta é mais uma oportunidade para enumerar as condições do mercado. “É uma excelente localização, boas renováveis, bom acesso a energia, talento. Parte da nossa equipa de fundação já viveu em Lisboa também. Isso ajudou. É uma boa localização e também foi por isso que escolhemos a Start Campus.”
Além de Portugal, a Nscale já anunciou planos para implementações de GPU nos EUA, Reino Unido e Noruega. Questionado sobre a evolução dos trabalhos — nenhum dos projetos está concluído — Daniel Bathurst refere que “todos os locais estão em desenvolvimento ativo hoje, liderados por Alex Sharp [diretor de operações da Nscale], que já construiu 54 data centers na sua carreira.”
Ter Nvidia como investidora “ajuda na presença global”
Ter um negócio no mundo da infraestrutura de IA é intensivo em capital. Em setembro deste ano, foi anunciado que a Nscale assegurou um investimento de 1.100 milhões de dólares numa série B, liderada pela norueguesa Aker, incluindo a participação da Nvidia. Num anúncio separado, também em setembro, a Nvidia revelou que investiu 500 milhões de libras, o equivalente a 566 milhões de euros, na Nscale.
A Nvidia tem feito vários anúncios de investimentos em empresas que vão recorrer a chips desenvolvidos pela empresa. O movimento de circularidade nos investimentos, em que o capital circula entre o mesmo grupo de empresas, já foi sinalizado em algumas ocasiões por analistas que seguem o mercado da IA, estabelecendo algumas comparações com a bolha das dotcom. A Nscale não se mostra preocupada. “Da minha perspetiva não. O nosso modelo de negócio passa por fazer contratos de três anos ou mais e disponibilizar a coluna vertebral de infraestrutura. Vemos uma procura forte de muitos clientes para ter acesso”, avança. “Estamos com um foco preciso nas operações, em garantir que contratamos o talento certo, garantir que construímos uma infraestrutura com um bom padrão.”
▲ A Nvidia está em destaque no mercado da IA
JOHN G. MABANGLO/EPA
Mas o diretor de produto da startup britânica admite que estar na esfera de influência da Nvidia “ajuda com a pegada e presença global”. A Nvidia é “uma excelente parceira”, com “muitos benefícios do ponto de vista de tecnologia e inovação”.
Velho continente ficou para trás na IA? “Não subestimem as startups na Europa”
Numa altura em que há países a acertar agulhas para se candidatarem ao projeto da Comissão Europeia de apoio para instalação de gigafábricas de IA, o diretor de produto da Nscale confirma apenas que a empresa “está envolvida nas discussões”, sem especificar em que geografia. “É tudo o que posso dizer nesta altura, mas estamos envolvidos nas discussões e ansiosos por poder progredir no assunto.”
“Acho que é uma oportunidade muito boa para a Europa. Acho que este ano a Europa se movimentou de forma muito rápida, mas cuidadosa, tendo em conta também a execução [de planos para infraestrutura]”. “Estão a ser cuidados na abordagem, muito focados na sustentabilidade, a garantir que escolhem as regiões certas, também muito a pensar nas comunidades locais. Estou entusiasmado por ver o que acontece nos próximos meses.”
▲ Daniel Bathurst durante a sessão na Web Summit, ao lado do diretor de marketing da Start Campus, Omer Wilson
Sportsfile
Em relação à comparação entre o que está a ser feito na infraestrutura de IA nos EUA, China e Europa, Daniel Bathurst reconhece que a “Europa não foi tão rápida quanto os EUA e outros países, mas está certamente a recuperar terreno”.
“Acho que a vantagem da Europa agora é ter um plano para a forma como quer ter infraestruturas de larga escala, o certo e o errado e as aprendizagens que fizeram olhando para outros países”, diz o executivo. “Acho que vamos acompanhar [outros blocos] muito, muito depressa.”
E, sendo uma startup britânica, pede que não se subestimem as empresas europeias no mundo da IA. “Temos a Lovable, a Elevenlabs, a Synthesia, a Mistral, há muitas excelentes empresas europeias que estão a receber investimento — e o talento certamente está aqui”, assegura. “Agora é uma questão de lhes dar as ferramentas na forma de infraestrutura para poderem desenvolver algo.”
“Acho que a Europa pode talvez surpreender toda a gente em termos de ser capaz de dar infraestrutura, acesso aos modelos mais recentes e os serviços mais recentes de inferência. Portanto diria para não se subestimar as startups na Europa. Estão a criar coisas incríveis.”