1246,2kWh poupados 1246,2 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

Robert Dunn está na Start Campus desde 2022. Começou pela área de design e entrega de projeto, mas desde o fim de 2023 ocupa o cargo de CEO
i

▲Robert Dunn está na Start Campus desde 2022. Começou pela área de design e entrega de projeto, mas desde o fim de 2023 ocupa o cargo de CEO

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

▲Robert Dunn está na Start Campus desde 2022. Começou pela área de design e entrega de projeto, mas desde o fim de 2023 ocupa o cargo de CEO

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Start Campus procura "outros terrenos" para centros de dados após "sucesso" de Sines e sem prejuízo na "credibilidade” pela Influencer

A Start Campus anunciou há dias o "maior negócio de data centers já fechado em Portugal”, com a Nscale. Face ao "sucesso" do Sines DC, o CEO da empresa admite: "É natural que queiramos replicar".

Esteve no centro da última grande crise política em Portugal, que culminou com a queda do Governo. Dois anos depois da operação Influencer, a Start Campus anunciou “o maior negócio de data centers alguma vez fechado em Portugal“, prepara-se para começar a construir o segundo de seis edifícios do outrora polémico projeto de Sines e admite que a empresa de centros de dados pode não ficar por aí. Em entrevista ao Observador, o CEO da Start Campus, o australiano Robert Dunn, revela que a empresa está “a analisar outros terrenos em Portugal e no estrangeiro” para a instalação de centros de dados.

As pistas sobre o futuro ficam por aqui. Questionado sobre possíveis localizações de novos projetos em Portugal, Robert Dunn adianta apenas que a empresa está “a analisar” onde pode “implementar soluções semelhantes [a Sines] para os nossos clientes”. Assume que “ainda há muito trabalho a fazer nesse sentido”, que acaba por ser o caminho natural tendo em conta “o sucesso deste projeto” de Sines. “Estamos a ver como os clientes estão a reagir. É natural que queiramos tentar replicar isto noutros locais”. E mais não diz, porque “ainda é muito cedo” e “há muitas opções”.

O Sines DC, que chegou a chamar-se Sines 4.0, tem a vantagem competitiva de estar localizado junto ao mar, uma característica relevante no negócio dos data centers, que têm de ter um sistema robusto de arrefecimento dos servidores. “É uma vantagem enorme”, admite o CEO, numa altura em que começam a surgir outros projetos em Portugal, como um centro de dados de sete mil milhões de euros que está planeado para Abrantes, e que fica longe do mar. “Implementámos isto por dois motivos”, explica. “O arrefecimento com água do mar é incrível por ser tão sustentável. Vemos outros data centers a utilizar muita energia adicional para o arrefecimento e a usar muita água nos meses quentes para ajudar a arrefecê-los”. A solução de arrefecimento com água do mar, acrescenta, “resolve ambos os problemas do ponto de vista da sustentabilidade. E os clientes adoram, porque também estão a gastar menos nas suas faturas de eletricidade”.

Este sistema, adianta, “ajudou a atrair muitos clientes” para Sines e é uma “vantagem absoluta”. Confrontado pelo Observador sobre se uma futura localização também poderá situar-se junto ao mar, Robert Dunn não diz que sim nem que não. Até admite que outros data centers localizados no interior possam prosperar. “Se tiverem a capacidade de atrair pessoas para Portugal devido ao baixo custo energético, às energias renováveis ​​e à boa conectividade em geral”. Além de que, mesmo longe do mar, “ainda terão acesso a todos os cabos submarinos que estão a chegar e às boas redes de fibra terrestre. Portugal tem tantos atributos positivos que o que nós temos é alguma vantagem. Mas vejo outros a terem sucesso também”.

Quando estiver em pleno funcionamento, o campus de Sines vai ser arrefecido a 100% por água do mar. Para já, foi instalada uma “versão mais pequena” do sistema para o primeiro edifício (SIN01). “A quantidade de infraestruturas necessárias para suportar isto é enorme”, diz o CEO, referindo-se à central e aos tubos que ligam o campus ao oceano. “Fica apenas a um quilómetro de distância, mas os tubos têm três metros e meio de largura. Na verdade, não seriam muito eficientes para este edifício mais pequeno, tendo em conta o seu tamanho”, admite. O edifício que já está construído e em funcionamento em Sines é o mais pequeno dos planeados para o complexo. Tem capacidade para 30 MW e 16 mil metros quadrados. O segundo (SIN02) terá capacidade para 180 MW e 65 mil metros quadrados.

“O que fizemos foi instalar tubagens mais pequenas, perfeitamente dimensionadas para este edifício, e isso já está em funcionamento. Estamos a trabalhar em pequena escala. Quando o próximo edifício estiver em andamento, construiremos ao mesmo tempo o resto da capacidade de arrefecimento água do mar”. A famosa água quente da praia de São Torpes, que era ‘aquecida’ pela central termoelétrica da EDP, vai continuar a ser quente, “mas não tanto”. “Estamos a trabalhar dentro das restrições estabelecidas pela Agência do Ambiente”.

Fora dos planos da Start Campus para crescer está a aquisição de outros centros de dados já construídos e em funcionamento. Como por exemplo o da Covilhã, da Altice, que está à venda. “Sinceramente, não é um dos nossos focos. Não estamos a pensar em aquisições neste momento“, garante.

A concorrência não assusta o CEO da Start Campus. “Trabalhei no setor dos data centers na Europa durante muitos anos. O que sempre vimos foi que, quando um data center começa a prosperar, desenvolvem-se outros à sua volta e chegam mais negócios a essa área”. Foi o que aconteceu, aponta, em Frankfurt, Amesterdão, Londres ou Paris. “Não vemos isso como uma ameaça“, pelo contrário. “É bom para nós e bom para Portugal”.

Fora do radar da Start Campus ficou também a gigafábrica de IA que o Governo e o Banco de Fomento estão a tentar atrair para Portugal, nomeadamente para Sines. A empresa optou por ficar fora do consórcio, apesar de Robert Dunn acreditar que Portugal é “o local perfeito para uma gigafábrica”. Mas, “nesta fase, a nossa política é não aceitar financiamento público”, diz. No entanto, ressalva, “é natural” que a concretizar-se, “queiram instalar capacidade dentro dos nossos data centers. Trabalharemos com eles se precisarem dessa capacidade, quando precisarem. Nesta altura, essa conversa não avançou muito”.

Uma carreira centrada na construção de centros de dados

↓ Mostrar ↑ Esconder

Robert Dunn trabalha desde abril de 2022 na Start Campus. Chegou a Portugal para liderar a área de design e entrega do projeto mas, em 2023, devido à renúncia do anterior CEO devido à Operação Influencer, assumiu o cargo de CEO interino. Meses mais tarde, já em julho de 2024, passou a CEO.

Dunn é australiano, com pais nascidos em Perth. Estudou engenharia mecânica e, desde 2007, está ligado à área dos projetos de construção e engenharia. Uma boa parte do percurso profissional é feito em Londres, onde trabalhou para a empresa de construção e engenharia Laing O’Rourke, durante cerca de quatro anos. Já ligado à área dos projetos de centros de dados — tem no currículo um projeto de um centro de dados em Yorkshire.

Em 2011, mudou-se para a Digital Realty, continuando nos projetos de centros de dados. Começou pela área de gestão de projeto, mas, entre 2016 e 2022, passou pelos cargos de diretor de construção e diretor sénior de construção.

Anúncio da Nscale pode atrair “negócios muito, muito maiores”

“Confidencial” será um dos termos mais usados quando se fala de centros de dados. Os clientes poucas vezes são conhecidos, por questões de segurança. Tal como os valores dos investimentos. Na última semana, a Start Campus revelou ter fechado um negócio relevante, o “maior negócio de data centers alguma vez fechado em Portugal”: a empresa britânica Nscale vai instalar 12.600 chips de última geração da Nvidia em Sines, sendo que a infraestrutura de computação vai ser usada pela Microsoft para o desenvolvimento de IA (inteligência artificial). Sobre os valores envolvidos, e o que fica em Portugal, nada se sabe.

“Não posso dar os valores exatos para este negócio em particular, pois é confidencial com o nosso cliente”, responde Robert Dunn. “O que posso dizer é que agora isto preenche a capacidade do primeiro edifício, no qual investimos mais de 275 milhões. Não consigo dizer quanto é que os clientes investiram nos chips específicos para este negócio”, acrescenta. Os restantes clientes do primeiro edifício também não são conhecidos. “Infelizmente não podemos partilhar estes nomes”.

Para o CEO australiano, o facto de este ser o maior negócio já fechado nesta área “proporciona uma plataforma para negócios muito, muito maiores”. O que será de esperar, visto que os próximos edifícios do Sines DC também serão muito maiores. “O que provamos com este acordo é que o projeto Start Campus em Portugal, no seu todo, é perfeitamente adequado para estas implementações de IA”.

“Antigamente, os data centers na cloud e os data centers empresariais sentiam a necessidade de não anunciar onde estavam localizados”, continua. “Mas acho que é importante isso acontecer com estes anúncios de IA, para que as pessoas percebam que estão a ser implementados em regiões da Europa, em Portugal, e que podem começar a adotar estes produtos nesses países”.

Centro de dados de Sines vai receber “a maior” vaga de chips da Nvidia da UE. Valor do negócio que envolve Nscale e Microsoft em segredo

Questionado sobre se esta capacidade de computação estará disponível exclusivamente para uso da Microsoft, Robert Dunn concretiza que a “Nscale disponibiliza a capacidade [de computação] à Microsoft”. Porém, “como é usada fica ao critério da Microsoft, mas é do meu entendimento que será usada pelos programadores europeus e portugueses”.

▲ Robert Dunn tornou-se CEO da Start Campus após a saída de Afonso Salema na sequência da Operação Influencer.

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Com cada vez mais empresas interessadas em explorar o filão da IA, a fabricante de chips Nvidia tem estado atarefada com o desenvolvimento das próximas gerações de GPU, as unidades de processamento gráfico. O centro de dados de Sines vai receber as GB300, da série Blackwell, mas desde março que a empresa de Jensen Huang tem já anunciadas mais duas gerações: a série Rubin, prevista para o segundo semestre de 2026, a série Rubin Ultra, prevista para 2027. E, já para 2028, uma nova arquitetura de chips, batizada de Feynman. Com um acordo já fechado para receber a geração Blackwell, Robert Dunn afirma que a Start Campus quer continuar a adaptar-se às novidades da gigante de chips. “Nos próximos anos, vamos mostrar que podemos implementar cada vez mais chips, até mesmo a próxima geração depois desta [Blackwell] e a seguinte”, explica.

Este é o primeiro anúncio de implementação de chips GB300 da Nvidia na União Europeia, que só devem chegar a Portugal no primeiro trimestre de 2026. Robert Dunn defende que ter esses chips em Sines “é um grande acontecimento, não só para Portugal mas também para a Europa como um todo”. “Permite que os programadores portugueses e europeus, os programadores de IA na região tenham alguma liberdade para usar estes GPU”, acrescentando que “assim não têm de estar dependentes de o fazer através de um centro de dados dos EUA”. “Podem fazê-lo no seu território.”

O tema da soberania da IA é “uma grande prioridade” no mercado, admite o gestor. Há cada vez mais países interessados em desenvolver os seus próprios projetos de IA, em vários casos com atenção à segurança dos dados e obedecendo a regras geográficas. “A equipa da Nscale e a equipa da Microsoft já deixaram claro que um dos seus objetivos passa por construir o máximo destes centros de dados de grande escala no maior número possível de países da Europa, para dar a soberania a esse país e soberania à Europa”. “Dá a esses países e aos programadores que estejam nesses países um pouco mais de controlo sobre a forma como os seus dados e as suas infraestruturas são usadas”, adianta. “Acho que é algo poderoso e que só poderá ajudar as economias europeias a ficarem mais fortes e a competir com os EUA também.”

“Em geral, os países europeus querem apoiar isto porque permite apoiar as suas indústrias locais, seja de tecnologias de informação, seja de IA. Permite que os negócios controlem um pouco mais o seu destino. E mais pessoas vão querer expandir-se no seu próprio país em vez de enviarem os seus dados para outro país”, reconhece.

Em parte, o debate sobre a soberania de IA e projetos tecnológicos intensificou-se com o regresso de Donald Trump à Casa Branca. As relações entre os dois lados do Atlântico tornaram-se mais tensas. Robert Dunn afasta preocupações com questões geopolíticas — pelo menos agora. “Portugal tem uma relação forte com os EUA”, diz. “No início do ano, houve alguma legislação que poderia ser aplicada — mas que não foi — sobre restrições ao envio de GPU para determinados países.” Esses planos do Departamento de Comércio dos EUA, com restrições aos chips para desenvolvimento de IA, incluiriam Portugal. Mais tarde houve alterações às regras, deixando o país a respirar de alívio.

“Portugal já não está na lista de países com restrições e os nossos clientes reagiram bem a isso”, explica Dunn. “Podemos ver que, sem essas restrições, estão a olhar para Portugal como um dos locais mais atrativos da Europa para implementar [projetos].” Questionado sobre se houve alguma alteração em conversações com clientes devido à incerteza sobre o tema, o CEO da Start Campus diz que “não houve oficialmente pausa, mas que houve risco de que se poderia tornar uma questão”. “Por isso, naturalmente, alguns clientes esperaram alguns meses para ver como é que se desenrolava“, admite. “Mas isso agora está no passado e ninguém tem quaisquer preocupações, o que é bom de ver.”

“Se começarmos a construção, é porque haverá clientes a chegar”

Com o primeiro edifício de Sines completo, a empresa prepara-se para lançar até ao final do ano as primeiras pedras do segundo. O arranque da construção chegou a estar previsto para o primeiro semestre de 2025, mas Robert Dunn não considera que o projeto esteja atrasado. “O nosso foco era garantir que o primeiro edifício estava totalmente ocupado. Isso proporcionava-nos a plataforma financeira e também a plataforma de clientes para, depois, lançar o resto do campus. Penso que disse em abril que tínhamos planeado avançar com o segundo edifício no segundo semestre do ano. Sei que estamos no final do segundo semestre, mas esse é ainda o plano”, revela.

Os esforços da Start Campus estão agora virados para captar clientes para o SIN02. “Esperamos tê-los muito em breve”, diz Robert Dunn sem desvendar mais. Se os nomes dos próximos clientes serão revelados, como foi a Nscale, vai “depender do cliente”. “Penso que basta dizer que, se começarmos a construção, é porque haverá clientes a chegar”.

A Start Campus não tem uma estimativa de quantos clientes podem caber no segundo edifício, até porque pode haver um só cliente que assuma a totalidade do edifício. O SIN02 terá três espaços separados. “Portanto, pode haver três clientes a ocupar este espaço. Mas pode haver apenas um cliente que queira ocupar todo o edifício para instalar um dos clusters de IA mais avançados. Nos EUA já estão a implementar clusters de IA com 100.000 GPU [unidades de processamento gráfico]. E esse é aproximadamente o tamanho do nosso próximo edifício. Assim, esperamos conseguir um cliente que queira instalar um destes grandes clusters neste próximo edifício”.

▲ O Sines DC, o campus de data centers da Start Campus, está em funcionamento desde outubro do ano passado.

Ao mesmo tempo, a Start Campus quer ter um espaço flexível. “Queremos criar um ecossistema neste campus. Trouxemos muitos fornecedores de rede. Quem se liga aos cabos submarinos e se liga ao resto da Europa através da rede cria um ecossistema nesta área. E depois liga-se a outros clientes no nosso edifício. E depois, se tivermos mais clientes, esses clientes falam com outros clientes. E isso atrai cada vez mais clientes. Mas também atrai cada vez mais oportunidades para os diferentes tipos de empresas de TI (tecnologias de informação) que querem trabalhar dentro e à volta do data center”, exemplifica.

O projeto inicial da Start Campus previa a construção de nove edifícios, que entretanto passaram a seis. Mas a capacidade prevista não diminuiu, pelo contrário. A capacidade inicial rondava os 500 MW, que entretanto passaram a ser 1,2 GW de potência. Robert Dunn admite que a evolução rápida do setor dos data centers, mesmo antes do advento da IA, faz com que seja preciso atualizar os projetos constantemente. “Falando com os clientes durante aquele primeiro ou segundo ano, percebi para onde estavam a ir as densidades. A IA ainda estava numa fase inicial, mas conseguimos perceber que os edifícios estavam a ficar cada vez mais densos, e era necessária mais energia”.

Nesse sentido, a opção da Start Campus passou por alterar o projeto inicial e fazer edifícios maiores. “Seria mais benéfico para os clientes ter mais computação num edifício. Assim, alterámos o nosso projeto há cerca de dois anos e solicitámos energia adicional no campus, porque percebemos que poderíamos utilizá-la com a crescente necessidade de implementações de IA”, explica. O que, segundo o CEO, pôs a Start Campus em vantagem perante a concorrência.

“Superámos muitos dos nossos concorrentes na implementação destes princípios de design e na obtenção de potência extra. E isso agora coloca-nos numa posição excelente para implementar o resto do campus muito rapidamente, enquanto outras empresas, não só em Portugal, mas em toda a Europa, estão a recuperar” o atraso. “Estão a perceber que há uma necessidade de grandes data centers de IA e precisam de passar por todas as etapas que nós seguimos há dois ou três anos: planeamento, design e licenciamento. Portanto, vemo-nos como estando na vanguarda nesse aspeto”.

Apesar da evolução constante da tecnologia e do negócio, Robert Dunn acredita que não vai ser necessário fazer grandes alterações ao projeto nos próximos anos, pelo menos na estrutura do edifício. “Acreditamos que o que projetamos agora é muito adequado para o que vai acontecer nos próximos dois ou três anos, mas também para daqui a cinco ou dez anos. As densidades vão aumentar? Sim, com certeza. Agora implementámos aqui os GB300 [chips de última geração da Nvidia para o desenvolvimento de inteligência artificial], que precisam de um rack [estruturas que alojam equipamentos como chips e servidores] de 130 quilowatts. No nosso próximo edifício, os racks podem ser duas vezes mais potentes”.

Mas o projeto está desenhado para ter isso em conta. “Em três anos, a capacidade pode voltar a duplicar. Pode chegar a meio megawatt de rack e, em cinco anos, a um megawatt de rack. O espaço para os dados, o espaço alocado aos dados, será reduzido, mas o espaço necessário para instalar todos os equipamentos elétricos aumentará. Portanto, temos alguma flexibilidade no projeto para isso. Mas o que posso dizer é que, depois de construirmos um edifício, ele vai lá permanecer durante muito tempo, mais de 15 anos. O que acontecerá dentro do edifício poderá mudar daqui a cinco ou dez anos”.

O plano da Start Campus continua a prever a conclusão de todas as obras em 2030. Cada edifício demora cerca de dois anos a construir. Mas alguns serão construídos em simultâneo. As obras arrancam quando a empresa sabe que tem clientes para entrar. “É muito provável que em breve tenhamos clientes para mais do que um edifício. Assim, começaríamos o próximo edifício e, alguns meses depois, quando a equipa de construção estiver pronta, poderiam passar para o próximo. Não é necessário esperar até que um edifício esteja pronto para iniciar o próximo, pois haverá muita atividade paralela”.

Encontrar mão de obra “qualificada e talentosa” tem sido um problema, mas que acontece “em todos os países”. Sempre que possível, diz Robert Dunn, “tentaremos recorrer a empreiteiros locais. Mesmo que contratemos outro empreiteiro, garantimos que este utiliza mão de obra local”. Nos próximos “cinco ou seis anos haverá muita atividade de construção” e haverá “milhares de pessoas a trabalhar no local” — no próximo edifício serão cerca de mil — com a Start Campus a querer garantir que “a maior parte destes empregos se destinam à população local”. Em paralelo, tem sido feito um trabalho em Sines para “tentar formar pessoas em algumas das áreas mais qualificadas, como os serviços elétricos, de dados e de segurança”.

"É muito provável que em breve tenhamos clientes para mais do que um edifício". 
Robert Dunn, CEO da Start Campus

Ainda nas áreas mais qualificadas, a empresa diz ter trazido “de volta muitos portugueses que estavam a construir data centers em todo o mundo, pelo que grande parte da nossa equipa é composta por pessoas que queriam voltar e viver em Portugal com as suas famílias”. Há também muitos estrangeiros atraídos pelo projeto, como o próprio CEO. “É tão único que faz com que muitas pessoas, como eu, queiram vir para um país como Portugal para implementar algo deste género. Temos uma equipa bem diversificada neste momento”.

Os desafios na construção não se limitam à mão de obra. Os custos dos materiais de construção aumentaram nos últimos anos. “Mas os edifícios estão a tornar-se mais eficientes. Assim, uma das principais métricas que analisamos é o custo por megawatt”, explica o CEO. O custo “normal” por megawatt de um centro de dados hoje em dia é de cerca de 10 milhões de euros, revela. “Mas estamos a encontrar formas mais baratas, porque estamos a construir a uma escala muito grande e de forma muito eficiente. Portanto, não estamos a instalar muitos equipamentos que são desnecessários para a IA. Estamos a incluir apenas o que é necessário para os nossos clientes”. Questionado sobre o real custo da construção por megawatt em Sines, Dunn diz apenas que “é menos que 10 milhões”.

Start Campus não procura “ativamente” novos investidores

Com o reforço da capacidade do data center, a Start Campus também reviu em alta, no ano passado, a necessidade de investimento no projeto, considerado o maior em Portugal desde a Autoeuropa, que passou de 3,5 mil milhões de euros para 8,5 mil milhões. A empresa conta com os mesmos dois investidores desde o início, o fundo de investimento norte-americano Davidson Kempner, “que é o nosso principal acionista e investidor e assim continuará“, e o britânico Pioneer Point Partners. Mas as exigências futuras vão obrigar a Star Campus a diversificar.

Um ano após a Operação Influencer, centro de dados de Sines começou a operar e prevê investir até 8,5 mil milhões

“À medida que crescemos, vamos procurando diferentes formas de angariar capital para o enorme montante de financiamento de que necessitaremos para as próximas etapas do projeto. Estamos a falar de milhares de milhões, pelo que haverá diferentes formas de angariar capital, através da abertura do capital e de dívida. Ainda não está decidido exatamente como será feito”, revela.

A empresa está “em negociações com bancos para obter dívida para as próximas fases de construção do próximo projeto”, sendo esta uma “parte necessária do financiamento de milhares de milhões de que necessitamos para o próximo projeto”. Mas não está “ativamente” em busca de novos investidores. “Estamos a avaliar a necessidade de financiamento para as próximas etapas. Mas a Davidson Kempner está a apoiar totalmente o projeto nesta fase”.

A possível entrada de novos investidores só acontecerá quando houver novos contratos com clientes para os próximos edifícios. “As conversas precisam de acontecer em paralelo, mas para tomar a decisão final sobre o mix de investimento, precisamos de saber que clientes vamos ter para implementar e de quanto dinheiro vamos precisar, considerando o número de edifícios que vamos construir”.

Assim, se o segundo edifício for inaugurado em 2027, é possível que no próximo ano já se consiga antecipar a entrada de um novo ou novos investidores. “Mas a Davidson Kempner continuará a ser o investidor principal. O mais importante, para ser sincero, será garantir que temos dívida suficiente para suportar o projeto de construção. Esse é o foco”, conclui Robert Dunn.

Potência garantida em Sines é “suficiente” pelo menos para cinco anos

Foi em setembro do ano passado que a Start Campus obteve uma grande capacidade de ligação à rede no único procedimento extraordinário realizado em Portugal para zonas com elevado consumo de energia elétrica, ao abrigo da famosa “lei do bar aberto“, termo que surge nas escutas da Operação Influencer. No total, foi atribuída à empresa uma capacidade de 1,43 GVA (gigavolt ampere, uma unidade de medida de potência), que foi toda a potência pedida à REN e que tem em conta, além dos 1,2 GW de carga real que os servidores usam, a carga mecânica, ou seja, o necessário para alimentar “o arrefecimento por ar e o arrefecimento por água do mar”.

"Depois de construirmos um edifício, ele vai lá permanecer durante muito tempo, mais de 15 anos. O que acontecerá dentro do edifício poderá mudar daqui a cinco ou dez anos".
Robert Dunn, CEO da Start Campus

“Isto está tudo garantido, e houve um processo muito longo, e acredito que muito bem conduzido, para ver que indústrias, que empresas da região estavam realmente a utilizar esta energia ou iriam utilizá-la, e penso que nós demonstrámos que estávamos a atingir os nossos objetivos e que estávamos no bom caminho para colocar os próximos edifícios em funcionamento. Com base nisso, obtivemos a energia”. Pelo menos para os próximos cinco anos, estima Robert Dunn, “será suficiente”.

Super-reforço da rede elétrica aprovado para Sines pode ter custos para os consumidores se projetos industriais não avançarem

O CEO não adianta a potência usada atualmente por cada cliente, mas desvenda que o primeiro edifício vai passar de uma utilização atual de cerca de 5 MW para 20 a 30 MW no próximo ano. “Os clientes não utilizam toda a carga imediatamente. Há um aumento gradual, que depende da rapidez com que instalam os seus equipamentos e depois da rapidez com que começam a utilizá-los, mas a capacidade aumentará para cerca de 30 MW no próximo ano ou algo do género”. O número já inclui os novos GPU da Nvidia.

O elevado consumo de energia do data center baseia-se na premissa, para a Start Campus, de que em Portugal a eletricidade é barata e renovável. Neste momento, a Start Campus já tem alguns contratos de compra de energia de longo prazo com produtores de renováveis, mas também planeia adquirir energia no mercado. “Há sempre alguma variabilidade a ter em conta, e uma vez que os PPA [contratos de compra e venda de energia a longo prazo] implicam geralmente uma carga base, e se acreditarmos que este edifício vai consumir mais de 20 MW, assinamos PPA para esta carga base e a parte variável vai ser adquirida no mercado, garantindo que a sua origem é 100% renovável”, explica.

Além disso, a Start Campus também está à procura, “numa escala muito maior, de potenciais parcerias onde possamos ter projetos de ligação direta, de energia solar e eólica, a chegar à nossa própria subestação Será uma combinação das três coisas”.

No início do projeto de Sines, a empresa também tinha a ambição de instalar painéis solares, fora do campus, para os quais chegou a assinar contratos de compra e venda de terrenos nos arredores de Sines. Mas a ideia ficou pelo caminho. “Há tantos projetos ambiciosos e incríveis na região que já estão planeados, projetos solares e eólicos… Não vemos necessidade, neste momento, de construir o nosso próprio. O que começaremos a fazer é ver com quem podemos fazer parcerias para sermos o principal comprador de energia, dadas as necessidades de carga que teremos”.

Para Robert Dunn, a energia já não é o principal desafio do Sines DC. “É um problema que já foi resolvido para este projeto, no sentido em que a capacidade da rede elétrica está lá”. Nem o apagão de 28 de abril fez o projeto vacilar. “De certa forma, foi um teste, mas a equipa já tinha testado” o cenário. “Nos data centers, antes de os clientes ligarem os equipamentos, asseguramo-nos de que todos os cenários imagináveis são testados, como apagões, faltas de água ou o disparo de um alarme de incêndio. Fazemos todos os testes para garantir que, em caso de imprevistos como este, tudo continua a funcionar e os clientes podem continuar a utilizar os seus equipamentos. Fico feliz por dizer que, no apagão, tudo funcionou como planeado, e os equipamentos funcionaram como deviam“.

Causa do apagão. Peritos apontam para uma série de subidas de tensão em cascata, inédita na Europa

O maior teste foi com as pessoas. E também aí não houve problemas, diz. “Podemos testar as coisas num cenário controlado, e as pessoas estarão controladas. Mas num cenário que não controlamos, queremos garantir que as pessoas reagem bem, e foram muito impressionantes. Durante todo o dia, todos estiveram muito tranquilos e certificaram-se de que tudo estava a funcionar na perfeição e os nossos clientes estavam muito satisfeitos”.

Assim, o maior desafio da Start Campus, revela o CEO, é “operar com velocidade”. “Há tantas coisas para fazer ao mesmo tempo. Passámos quase cinco anos a planear este projeto. E precisamos de o fazer metodicamente e ter tudo alinhado: os fornecedores, o financiamento, os clientes, para que depois possamos operar ao ritmo mais rápido possível”. Robert Dunn admite que vai ser “muito difícil” entregar o próximo projeto em dois anos. “Mas fizemos tudo para garantir que isso acontece. Estou confiante de que a equipa vai conseguir”.

Operação Influencer não teve “impacto operacional”

Em 2023, a Start Campus esteve no centro da Operação Influencer, que levou à queda do Governo de António Costa. Afonso Salema, então CEO, e Rui Oliveira Neves, advogado e administrador da Start Campus, responsável pelas área jurídica e pela área da sustentabilidade, foram detidos. Salema renunciou ao cargo, com Robert Dunn, até então ligado à área de engenharia e conceção de projeto, a assumir as funções de CEO interino. A Start Campus foi também obrigada a pagar uma caução de cerca 600 mil euros, que entretanto foi devolvida.

Robert Dunn não abre o jogo em relação ao processo. “Não posso falar sobre o processo”, realçando que “não houve qualquer acusação contra a Start Campus”. A investigação rebentou quando a empresa estava a “meio da implementação” do primeiro edifício “para os primeiros clientes”. O executivo australiano afirma que a operação “não teve impacto operacional” nos negócios. “Pudemos continuar o nosso trabalho.”

Confessa que houve “apoio” por parte “de fornecedores” e “clientes”. “Apoiaram-nos muito como empresa e quiseram continuar a trabalhar connosco”, adianta. “Sinceramente, desde então, mostrámos-lhes porque é que podem confiar em nós, por isso isso não teve um grande impacto.”

Apesar da dimensão mediática do processo, em Portugal e não só, o CEO garante que a Start Campus não teve de fazer nenhum esforço para recuperar a credibilidade após a polémica da Influencer. “Não, não precisámos”, afirma. “As pessoas que trabalharam connosco puderam ver o grande trabalho que estávamos a fazer e que estávamos a cumprir as nossas promessas, por isso não houve qualquer problema de credibilidade para elas”, insiste.

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.