Terça-feira, 30 de janeiro de 1968. O então príncipe Juan Carlos de Borbón telefonou para o palácio El Pardo para comunicar a Franco o nascimento do seu terceiro filho. Sofia da Grécia havia dado à luz um menino. “É machote?”, perguntou o ditador. “Sim, muito, meu general, como o seu pai”, garantiu Juan Carlos. Seguiu-se uma gargalhada conjunta. Mas faltava definir algo: o nome. Felipe e Fernando eram as opções em cima da mesa, pois afiguravam-se como dois nomes emblemáticos da realeza espanhola. Juan Carlos escolheu Felipe. O general assinou por baixo. “Fernando VII está, todavia, muito proximo [na memória]; os Felipes são mais antigos”, assegurou Franco. Assim nos contou a história um artigo do El País em janeiro de 2013, precisamente na véspera do 45.º aniversário do herdeiro do trono espanhol.

Hoje acabou um reinado de quase 40 anos. Em 22 de Novembro de 1975, D. Juan Carlos foi proclamado rei perante as Cortes Espanholas e o Conselho do Reino. Após a morte do ditador, Franco, o espanhol seria o homem mais importante de Espanha. Não terá dormido a noite toda. “Senhores conselheiros do Reino, senhores procuradores: ao dirigir-me como rei, a partir das Cortes, ao povo espanhol, peço a Deus ajuda para todos. Prometo-vos firmeza e prudência. Confio que todos saberemos cumprir a missão para que estamos comprometidos. Se permanecermos unidos ganharemos o futuro. Viva Espanha!”, assim foi o discurso de D. Juan Carlos. Felipe tinha apenas sete anos.

ADEUS COM ESPANHA NO CORAÇÃO

O rei abdicou ao trono numa tarde soalheira em nome de “uma nova geração” que “reclama com justiça o papel de protagonista”. Na despedida, que aconteceu em direto na televisão nacional e estrangeira, o rei, que ficará eternamente ligado à solidificação da democracia em Espanha (juntamente com Adolfo Suárez), lembrou alguns desafios, a sua herança, o apoio da rainha Sofia e deixou palavras de esperança, que estão associadas à sua sucessão. “O meu filho Felipe, herdeiro da coroa, encarna a estabilidade, que é uma senha de identidade da instituição monárquica. Quando, em janeiro, completei 76 anos considerei que tinha chegado o momento de preparar durante alguns meses o terreno para deixar a quem se encontra em melhores condições para assegurar essa estabilidade”, afirmou. E continuou: “O príncipe das Astúrias tem a maturidade, a preparação e o sentido de responsabilidade necessários para assumir com plenas garantias a chefia do Estado e abrir uma nova etapa de esperança em que se combine a experiência adquirida e o impulso de uma nova geração. Contará para isso, estou certo, com o apoio que sempre terá da princesa Letizia.” A mensagem acabou de uma forma meio abrupta mas com palavras fortes: “Guardo e guardarei sempre Espanha no local mais profundo do meu coração.”

A hora de Felipe chegou. O rapaz que aos onze anos chegou a príncipe das Astúrias será rei. E o “mais bem preparado” que Espanha já viu, garantia de Juan Carlos, na última entrevista que deu à TVE. O futuro rei de Espanha é formado em Direito pela Universidade Autónoma de Madrid (instituição pública) e frequentou um mestrado em Relações Internacionais  na Universidade de Georgetown, em Washington. Felipe formou-se também na Academia Geral Militar de Saragoça, na Escola Naval Militar de Marin e na Academia Geral do Ar de São Xavier. Desde 1996 visitou as principais cidades espanholas e todas as comunidades autónomas.

Fez 206 viagens ao estrangeiro — 14 por cada ano. Representou Espanha em quase todas as tomadas de posse de líderes latino-americanos no último quarto de século, o que só pode ser positivo com vista a relações diplomáticas e económicas saudáveis e prósperas. De facto, o futuro rei de Espanha, Felipe VI, está a preparar-se para ser chefe de Estado desde que nasceu.

DESAFIOS E PEDRAS NO SAPATO

Este homem terá muitos desafios pela frente. Enquanto o pai herdou um país com o orgulho ferido, magoado e desgastado, resultado da ditadura de Franco, Felipe IV terá outros desafios. E bem complexos, diga-se. A situação financeira do país não está famosa, sendo que a maior dor de cabeça é o desemprego: 25,3% (em março). Quanto ao desemprego jovem o número dispara para 53,9%. Os anseios independentistas da Catalunha serão outra preocupação para o novo rei, ele que até criou a Fundação Príncipe de Girona para emprestar outra proximidade ao processo de inclusão e integração dos catalães.

A unidade nacional é vista como essencial para o ainda príncipe, mas a reação de Artur Mas, o presidente da Generalitat (Governo regional da Catalunha), não é encorajadora: “Haverá mudança de Rei mas não haverá no processo político que vive o povo da Catalunha. Seguirá em frente. (…) Desejo-lhe sorte [ao futuro rei], acertos e êxitos. Desejamos o melhor para Espanha mas também desejamos o melhor para a Catalunha. E o melhor para a Catalunha é poder decidir democraticamente e livremente o nosso futuro como nação.”

Outro dos desafios de Felipe VI é devolver a popularidade à monarquia espanhola, que terá ficado fortemente danificada depois do caso da alegada traição do rei com Corinna zu Sayn-Wittgenstein e o episódio da caça de elefantes no Botswana. Este último, que colocou a Corte espanhola no centro da polémica nacional e internacional, levou-o a pedir desculpa publicamente e a prometer que não voltaria a acontecer. O caso de corrupção do genro do ainda rei Juan Carlos é outra pedra no sapato que ajudou a empurrar para baixo a popularidade da família real. Iñaki Urdangarin, duque de Palma de Maiorca, foi acusado de fraude e má gestão de fundos públicos.

Ao seu lado, Felipe de Borbon y Grecia tem ao seu lado Letizia Ortiz Rocasolano, uma mulher que abdicou da carreira de jornalista a favor do amor. E de Espanha. Felipe e Letizia casaram em 22 de maio de 2004 na Catedral de la Almudena, em Madrid. A primeira viagem oficial como casal ocorreu um mês depois, aquando da visita a João Paulo II, no Vaticano. O casal teve a primeira filha, Leonor, a 31 de outubro de 2005 e a segunda, Sofia, a 29 de abril de 2007. A primeira será a próxima na sucessão ao trono caso os futuros reis não tenham um “machote”. Um filho.

“MUITO OBRIGADO”

“Quero dizer-vos que o rei está convencido de que este é o momento ideal para a mudança na liderança do Estado e para a transferência da coroa para o príncipe das Astúrias. É uma figura histórica a que está a renunciar ao trono, uma pessoa que esteve fortemente ligada à democracia. Não se pode entender uma sem a outra. Todos temos uma impagável divida de gratidão. Finalmente, desejo dizer-vos que este processo terá lugar de uma forma natural no contexto da estabilidade institucional e como mais uma expressão da maturidade da nossa democracia. Muito obrigado”, assim anunciou Mariano Rajoy, o primeiro-ministro espanhol, a abertura do processo de sucessão da coroa espanhola.

Felipe, fã de desporto – foi porta-estandarte de Espanha nos Jogos Olímpicos de 1992 (equipa de vela) – será rei Felipe VI. O monarca, um homem sereno e ponderado, tomará posse com 46 anos, dois a menos do que tem Guillermo da Holanda, o que fará dele o rei mais jovem da Europa. O jornal espanhol ABC avança que a coroação perante as Cortes terá lugar dentro de um mês. Esta terça-feira terá lugar um Conselho de Ministros Extraordinário que dará a luz verde ao processo.