Negar a identidade católica de Portugal vem sendo uma tarefa ingrata para todos aqueles que o tentam há mais de trezentos anos – e não se entenda identidade como unanimidade, mas como traços genéricos. Com a incerteza duma vida trágica ombro a ombro com a morte, os portugueses, oscilando entre a pobreza e a fortuna, construíram ao longo da História neste recanto periférico da Europa o seu bastião, um porto seguro. Do seu catolicismo, de Jesus Cristo e de Nossa Senhora, colheram a razão de ser da sua persistência na luta contra toda a sorte de adversidades — fossem as tempestades no mar, a fome nos campos ou as epidemias nas cidades. E se o mundo iluminista preferiu apelidar esta profunda religiosidade de ignorância e superstição, enganou-se rotundamente – como se sabe o problema maior veio sempre dos fundamentalistas recém-convertidos à religião da novidade. Quem não acredita em Deus está disposto a acreditar em qualquer coisa.
A velha tese do “atraso português”, tantas vezes alimentada por um olhar estrangeirado e condescendente (quantas vezes imbuído de sentimentos obscuros de inveja), habituou-nos à caricatura de um país tacanho, violento, perdido em visões místicas e numa luxúria de sacristia. Esta imagem satírica e redutora carece, contudo, de uma revisão urgente — uma abordagem que os nossos historiadores tenderam a desprezar, embrenhados por demasiado tempo numa miopia ideológica perante as manifestações culturais e religiosas do seu povo. Felizmente, a historiografia contemporânea, menos ideológica, mostra sinais de recuo, de reajustamento.
Mais do que alimentar debates estéreis sobre o subdesenvolvimento crónico do país face à Europa iluminista, o que importa decifrar é a matriz da nossa coesão nacional. A chave da unidade portuguesa reside, precisamente, nessa mundividência assente no sobrenatural e na transcendência. Olhar para o Portugal de outrora obriga-nos a reconhecer a impossibilidade de separar a esfera religiosa da própria sobrevivência quotidiana – uma razão de ser. Perante as grandes provações históricas e a manifestação do trágico, o sobressalto dos portugueses nunca foi apenas material; foi, acima de tudo, uma batalha espiritual pela dignidade e pela procura de um propósito existencial.
Quando analisamos os detalhes do quotidiano antigo — os fragmentos de experiências esquecidas e o pulsar das classes mais humildes e da antiga aristocracia —, deparamo-nos com uma religiosidade que ultrapassa o factual. Tratava-se de uma consciência do sagrado que moldava toda a vivência diária. Esta devoção expressava-se através de rituais, gestos e preces que funcionavam como um idioma comunitário. Era um mecanismo colectivo de defesa, uma espécie de terapia espiritual que servia para esconjurar o sofrimento, as misérias e a imprevisibilidade do mundo terreno.
Nesta comunhão com o divino, esbatem-se as fronteiras políticas ou as fracturas sociais: ricos e desvalidos fundem-se num mesmo homo religiosus, como refere Mary del Priore na sua obra sobre o Grande Terramoto de Lisboa, “O Mal Sobre a Terra” (Objectiva, 2020) que inspirou este texto. Este é o verdadeiro alicerce da nossa herança cultural. Os vestígios simbólicos e as dinâmicas sociais da época revelam aquilo que o Marquês de Pombal, os liberais e os republicanos de 1910 foram incapazes de antever: a existência de uma densa e inabalável teia de convicções espirituais que unia a tradição e o povo numa profunda e grata cumplicidade. Ela está patente por este país fora, gravada há séculos na pedra das igrejas e das catedrais, dos castelos, solares e casas senhoriais. Tudo muito difícil de apagar de um dia para o outro.
Daí o rasto de destruição ontológica causado por todas as vãs tentativas de extrair a religiosidade e o catolicismo do ADN português. Os resultados foram sempre desastrosos. Cada investida ideológica contra a fé dos portugueses acabou por ferir a própria carne da Nação.
Resta saber se estamos condenados a ser pastoreados por catequistas da laicidade e das virtudes do individualismo e do materialismo. Resistirá, face à crise demográfica, a alma portuguesa que cresceu e persistiu por quase 900 anos aos desafios dos nossos dias de atomização cultural e identitária? Desconfio que temos de rezar muito.