“Esse olhar e esse sorriso matam-me”, “Agora mexeste muito comigo”, “Tenho o coração a tremer”. “Sinto algo muito especial por ti”, “Já terminaste com o teu namorado ou ainda não? Quantos anos vou ter que esperar por ti?”. A cada história no Instagram, uma resposta. Às vezes só corações ou sorrisos. As mensagens, quase sempre sem retorno, tornavam as conversas em monólogos. Mas nem a falta de resposta impedia que as mensagens continuassem a cair.
Um professor de dança está a ser acusado por dezenas de ex-alunas de assédio através de mensagens nas redes sociais. Alunas de várias escolas de ensino artístico relatam ao Observador contactos “persistentes” e “desconfortáveis” por parte deste docente, natural do Porto, incluindo enquanto eram menores de idade. O comportamento levou mesmo ao seu afastamento da Academia Contemporânea do Espetáculo (ACE) de Famalicão, que, a 19 de julho, emitiu um comunicado garantindo que a direção do estabelecimento de ensino tinha decidido cessar o contrato com o professor no passado mês de abril. Segundo apurou o Observador, esta é uma situação que pode configurar um crime de “stalking”.
“Sara” (nome fictício) chegou à ACE Famalicão em 2020. Tinha 15 anos. Fez as provas para a entrada na escola e rapidamente deu nas vistas. O professor em causa “cria sempre uma estrelinha, a preferida, e supostamente eu era a estrelinha dele”, conta ao Observador.
Os primeiros sinais de desconforto revelaram-se logo nas primeiras aulas: “Ele gravava os nossos solos com o telemóvel dele. Achei um bocadinho estranho, mas na altura não quis saber”. Depois começaram os “olhares insistentes”. “Estava sempre a olhar para mim. Sentia-me muito desconfortável com ele e nas aulas. Pediu-me amizade no Facebook, achei um bocadinho estranho… Os adolescentes hoje têm uma conta secundária no Instagram, a conta dos friends, e ele também pediu para me seguir. Até hoje tenho lá o pedido.”
As mensagens eram recorrentes, mas intensificaram-se quando Sara saiu da escola. “As respostas vinham com mais emoção, dizia que eu era incrível. Comecei por agradecer, respondia com carinho porque achava que era admiração de professor para aluna. Mas tudo piorou quando eu estava com um rapaz e ele começou a perguntar pela minha vida amorosa. E ele disse que estava apaixonado por mim, que tínhamos uma conexão… Foi muito estranho e fiquei assustada. Estava sempre a chamar-me para tomar um café e a responder às minhas stories.”
“Acredito mesmo muito em ti meu anjo. Nem imaginas o carinho e a adoração que tenho por ti. Mesmo…”, lê-se numa mensagem recebida numa quinta-feira à noite. Sara não respondeu. No dia seguinte, uma nova tentativa de interação: um still de uma cena de um beijo retirada de um filme, que também não obteve resposta. 24 horas depois, uma nova mensagem: “Beijinhos com muitas saudades”. De seguida, uma outra: “Estás bem meu anjo? Não ficaste chateada com a minha mensagem, pois não? Espero que não”. Sem resposta, no dia seguinte, uma nova mensagem, desta vez um vídeo com a legenda: “Quem diria que me apaixonaria pela [nome da aluna]”. Uns dias depois, o clipe de um outro filme. “Adoro este filme. Tenho me lembrado muitas vezes de ti linda. Estás bem, gosto muito de ti.” Dias depois, nova resposta a uma história: “Esse olhar e esse sorriso matam-me”.
Sara começou por tentar ignorar, mas acabou por ter de bloquear o já ex-professor. “Decidi bloquear por minha segurança.” Reportar à escola nunca lhe passou pela cabeça (“Não, não, não, nunca”, repete), por “medo”. “Não só por mim… Mesmo que as pessoas sejam más, eu não queria que alguém ficasse prejudicado por minha causa. Agora estou a começar a pensar de outra forma. Se tivesse falado das coisas que eu sei talvez não causasse outra vítima.” A última mensagem recebeu-a no ano passado: “Já terminaste com o teu namorado ou ainda não? Quantos anos vou ter que esperar por ti?”.
Não era preciso ser vista como a “estrelinha”. “Catarina” (nome fictício), hoje com 22 anos, também foi aluna da ACE Famalicão e deste professor. “Foi meu professor no meu primeiro ano da ACE e desde sempre fazia comentários extremamente desconfortáveis sobre a nossa aparência, tanto comigo como com outras colegas da minha turma”, recorda. “Ele exemplificava os exercícios sempre com alguma de nós, nunca com os rapazes, exercícios de toque, o que nos deixava extremamente desconfortáveis”, conta ao Observador. “Houve um dia em que ele me pediu para seguir no Instagram. Eu aceitei o pedido não vendo nenhum problema, porque nunca imaginei que ele estivesse constantemente a reagir às minhas histórias com o emoji da carinha do apaixonado, a fazer comentários nas minhas fotos.”
“Esta rapariga nasceu no tempo errado. Já não se fazem pessoas assim… ????❤️????”,Taaaaoao linda taaantasas saudades. ????❤️????”, lê-se em algumas das mensagens consultadas pelo Observador. “Estes comentários e estas reações às minhas publicações continuaram mesmo quando deixei de ser aluna dele, ele só parou quando o removi das minhas redes sociais, porque comecei a ficar extremamente incomodada”, explica Catarina. “Nunca falei disto com ninguém porque nunca tive coragem, porque achava que ninguém ia dar importância e que estava a ser exagerada…”
[É sábado. No lobby de um hotel de Albufeira um assassino misterioso espera junto ao bar por um convidado especial: representa a Organização para a Libertação da Palestina. Quando o vê entrar, o terrorista dispara quatro tiros e foge. “1983: Portugal à Queima-Roupa” é a história do ano em que dois grupos terroristas internacionais atacaram em Portugal. Um comando paramilitar tomou de assalto uma embaixada em Lisboa e esta execução sumária no Algarve abalou o Médio Oriente. É narrada pela atriz Victoria Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. Ouça o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]
“As aulas dele tinham um ambiente estranho, desconfortável”, recorda “Rita” (nome fictício), aluna na ACE há uma década. Tinha 15 anos quando teve a primeira aula com o docente em questão. “Logo de início a turma percebeu que ele parecia um pouco excêntrico, mas de início não assumi que fosse um predador… Ele frequentemente aparecia na escola em roupas de treino mesmo sem ter nenhuma aula marcada para aquele dia. Das primeiras vezes pensei que ele estaria por lá apenas para alguma reunião administrativa ou para algum tipo de assembleia de professores, mas com o tempo notei que ele em particular era o único formador com este tipo de comportamento. Ele chegava e não entrava para a sala dos professores ou para o gabinete da direção, simplesmente ficava a perambular pelos corredores da escola a fazer alongamentos e a importunar alunos durante o intervalo.”
▲ “As aulas dele tinham um ambiente estranho, desconfortável”, descreve uma ex-aluna ao Observador. "Ninguém gostava das aulas dele"
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
“A atmosfera de sala de aula era confusa”, descreve. “Lembro-me de expressarmos como turma muitas vezes o desconforto que sentíamos, mas ainda assim, ele continuava a ser sempre o primeiro da lista a prontificar-se para cobrir faltas de outros formadores… Ainda assim, ninguém gostava das aulas dele. Sempre que nos vinham comunicar uma mudança de horário já sabíamos que era garantido mais uma tarde extra com ele e apesar das tentativas de expressar o nosso ponto de vista e desconforto com as aulas de movimento, acho que o assunto nunca foi visto como algo além de ‘a turma do primeiro ano está a implicar com o professor de dança outra vez’”, diz, frustrada.
Um dos episódios “mais marcantes”, recorda Rita, terá acontecido durante o segundo período do mesmo ano letivo, quando o professor resolveu introduzir uma nova coreografia. “Era uma coreografia com toalhas, uma dança específica em que ele tinha participado com efeitos de luz e splashes de água. Até aí tudo bem, ninguém achou estranho, começamos então a aprender a coreografia como fazíamos em todas as aulas. Sabíamos que durante esta performance os bailarinos participantes estavam completamente despidos, foi uma das primeiras coisas que o professor mencionou”, conta. “Ainda assim, tudo bem, no meio adulto artístico este tipo de performance consegue ser apreciado com respeito e até à data estávamos apenas a aprender a dança utilizando uma pequena toalha de adereço e as nossas roupas normais de treino.” “Até que certo dia o professor chega à sala de aula com o seu computador pessoal com a finalidade de demonstrar o efeito dos tais splashes de água na coreografia. A turma logo de início recusou a proposta pois sabíamos que o professor fazia parte da dança e que todos os bailarinos estavam completamente despidos. Já na altura do ocorrido achámos que seria estranho e pouco saudável, não só para a dinâmica de sala de aula, mas também para a relação professor-aluno. O professor insistiu diversas vezes e nós dissemos que não queríamos ver o vídeo. Ele começou a aula, a marcar a coreografia como de costume, mas logo voltou a tocar no assunto do vídeo. O professor insistiu, alegando que com as luzes não dava para ver nada, o que se comprovou ser mentira, dava perfeitamente para ver tudo explicitamente, e para que não houvesse dúvidas ainda apontou para mostrar qual dos bailarinos era ele! Lembro-me que a grande maioria da turma, na época composta maioritariamente de menores de idade, ficou bastante desconfortável com a situação.”
“Rita” diz nunca ter sido abordada nas redes sociais enquanto era aluna na escola. “Na época era uma pessoa mais privada do que sou hoje em dia, nem sequer seguia todos os meus colegas de classe nas redes sociais”, lembra. Mas este ano, sem motivo aparente, recebeu uma mensagem no Instagram. “Era uma resposta a um story a dizer ‘super linda’ com uns emojis de uns corações apaixonados. Rapidamente reconheci o nome e a minha primeira reação foi pensar ‘este gajo passou-se’. Ainda pensei que ele não me tivesse reconhecido ou que fosse engano. Fiquei um pouco confusa, mas não seria possível não saber que sou uma ex-aluna da escola… Temos demasiados seguidores em comum. Este senhor nunca me seguiu nas redes sociais, mas sem sombra de dúvidas abriu os meus stories com plena certeza de que eu seria uma antiga aluna. Apesar de atualmente já ser maior de idade, algo nesta mensagem deixou-me completamente desconfortável. Pessoalmente, achei estranho ter alguém que me deu aulas e que me conheceu com 15 anos tão casualmente, slide into my DMs, como se simplesmente tivesse dado um trambolhão no perfil de uma antiga colega de faculdade com uma idade aproximada.”
Rita fotografou a tela do telemóvel. “Publiquei o print no meu close friends como forma de compartilhar com alguns amigos muito chegados esta bizarrice. Foi aí que uma amiga me contactou e vi que a situação era reincidente com este cidadão. A partir desse momento bloqueei-o automaticamente.”
A “reincidência” é atestada pelas dezenas de testemunhos que chegaram à página de Instagram @nãotenhasmedo. “Todos os dias recebo prints e testemunhos diferentes”, afirma ao Observador a responsável pela conta de Instagram que começou a partilhar relatos de jovens que dizem ter recebido mensagens constantes por parte do mesmo professor. “São mulheres, geralmente antigas alunas, alunas na época”, descreve. Todas escolhem o anonimato, por receio de represálias.
“Por decisão da direção” da ACE Famalicão, professor saiu da escola em abril
Grande parte dos testemunhos divulgados nas redes sociais são de alunas e ex-alunas da Academia de Artes do Espetáculo (ACE) de Famalicão. Após as partilhas por parte de personalidades digitais com dezenas de milhares de seguidores, a instituição de ensino reagiu com um comunicado nas redes sociais, esclarecendo que “por decisão da direção, o mesmo [professor] cessou o seu vínculo com a escola em abril de 2025”. A mesma publicação refere que na ACE “estão implementados vários mecanismos de despiste e prevenção de situações de abuso, assédio e discriminação, tais como a Comissão de Ética e o Canal de Denúncia”. No mesmo comunicado, em que refere o nome do professor, a ACE diz que assume “de forma inequívoca, o respeito pelas pessoas da sua comunidade escolar, agindo de forma clara e decisiva perante qualquer informação ou denúncia”. A conta de Instagram da escola desativou os comentários em todas as publicações.
O professor era “um dos rostos da escola”, como descreve a diretora pedagógica e artística da instituição, Helena Machado, numa publicação no seu Facebook pessoal, em 2022, descrevendo o mesmo professor como “intenso, generoso e criativo”. “Trabalha comigo há 12 anos”, escreveu na legenda de uma fotografia de ambos.
Contactada pelo Observador, a ACE Famalicão não esclarece o motivo da cessão do vínculo com o dito professor, mas o Observador sabe que os professores da instituição foram informados em abril, aquando do afastamento, de que “tinha havido um contacto informático com uma aluna” e que foi isso que ditou o despedimento. A comunidade docente terá sido “apanhada de surpresa”.
“É um caso falado há anos naquela escola. Toda a gente sabe como é que ele é, que ele lança olhares muito desconfortáveis. Isto é um caso conhecido na ACE Famalicão”, acusa “Sofia” (nome fictício). “A escola podia ter agido muito mais cedo do que agiu. Ninguém nos ouviu”.
A ACE Famalicão não respondeu a nenhuma das questões colocadas por este jornal, nomeadamente se receberam queixas, ao longo dos anos, relativas ao mesmo docente, ou como funciona a Comissão de Ética e o Canal de Denúncia referidos na nota publicada. O Observador contactou o Ministério da Educação sobre o conhecimento de eventuais casos de assédio a alunos da ACE Famalicão. Em resposta, o gabinete do ministério tutelado por Fernando Alexandre assegura que “segundo a Inspeção-Geral de Educação e Ciência (IGEC) não deu entrada nenhuma queixa ou denúncia sobre a ACE — Academia Contemporânea do Espetáculo, polo de Famalicão”.
Sofia entrou na ACE em 2020. Tinha 14 anos. Foi uma das alunas que durante as provas de aptidão conseguiu via rápida para a entrada na escola de ensino artístico. “As provas da ACE implicam prova de interpretação, entrevista, prova de inglês, de português e de movimento. São atribuídas várias notas. E alguém pode pôr-nos uma estrela. Atribuir-nos uma estrela significa que já entrámos na escola, não precisamos do resto das notas.”
A jovem, que “até já tinha notas suficientes para entrar”, garantiu entrada direta na ACE Famalicão com uma estrela atribuída pelo professor agora acusado por várias alunas. Mas a estrela, esse passaporte que tanta felicidade lhe trouxe, haveria de jogar contra a própria. “Ele usava uma técnica de manipulação que era o facto de me ter dado uma estrela. E a verdade é que eu sentia-me muito mal por impor limites”, recorda. “Acho que não quis ver o grave da situação”. Relata olhares insistentes e comportamentos que reconhece como “estranhos”. “A minha turma comentava que ele tinha comportamentos estranhos. Falava connosco só de boxers, vestia-se na sala. Mas o que nos era dito era que isso era normal no mundo artístico.”
O professor seguia-a nas redes sociais, mas quando Sofia saiu da escola as mensagens “começaram a ser de outro teor”. “A dizer que ele me queria ver e se queria declarar a mim, coisas desse género. O que me fazia confusão é que, mesmo não tendo resposta, ele continuava a insistir nas mensagens”, descreve. “Eu não lhe respondia e ele insistia.” O Observador teve acesso às mensagens. “Amo-te”, “A maior gata de Famalicão”, “Queres namorar comigo?”, “Matas-me”, foram algumas das mensagens recebidas. Outras eram conteúdos como um vídeo onde se diz: “Me empresta um beijo que eu te pago depois”.
Sofia diz que nunca ponderou reportar à escola e que desconhecia, como todas as alunas e ex-alunas que falaram com este jornal, qualquer canal de denúncias. “Achei que se tivesse alguma ação contra ele poderia piorar a minha carreira artística, mas acabei por ter só de o bloquear mesmo, comecei a ficar assustada”, conta. “Tenho medo de ser processada.”
“Chegava a casa e tinha 80 notificações e era tudo dele. Tinha likes em todas as fotografias, várias mensagens”
“Já nem pensava nisso quando comecei a receber mensagens de amigas” sobre as partilhas nas redes sociais, conta “Beatriz” (nome fictício), 28 anos. Quando diz “isso”, refere-se ao contacto com o mesmo professor de dança. Foi há mais de uma década, quando estudava no Centro de Dança do Porto. Corria o ano de 2011 e tinha 13 anos.
“Lembro-me de começar a receber uma atenção um bocado desmedida e despropositada”, recorda ao Observador. “Dizia-me que tinha um talento fora do normal, pintava-me como uma grande estrela.” “Na altura era bastante reservada e ficava bastante envergonhada com esta atenção.” Pouco depois, o “professor de contemporâneo” começou a enviar-lhe mensagens através do Facebook, a rede mais popular na época. “Chegava a casa e tinha 80 notificações e era tudo dele. Era no tempo em que havia álbuns de fotografias. Tinha likes em todas as fotografias, várias mensagens”, lembra.
A primeira mensagem que Beatriz recebeu foi em 2011. “Hola muito bom dia”, começa o texto, que termina com um pedido. “Seria a menina capaz de me mandar uma mensagem a desejar bom espetáculo logo à noite? Aqui o tem: [número de telemóvel]”. Beatriz retorquiu: “Posso te desejar bom espetáculo por aqui. Bom espetáculo!”
“Ao ver as mensagens, fiquei surpreendida com a minha abordagem. Tendo 13 anos, não tinha maturidade para perceber o que se estava a passar. Mas nunca dei grande trela.” Beatriz diz que a dada altura ficou de tal forma “desconfortável” que deixou mesmo de cumprimentar o professor na escola. Mas nem por isso as mensagens pararam, ao longo dos anos, noutra rede. “Recentemente, reage a todas as stories do Instagram e já o bloqueei”, conta. “Lembro-me de haver mais pessoas incomodadas com ele, mas ninguém foi tão perseguido como eu naquela escola”, recorda.
Nunca fez queixa. Por um lado, porque “não eram mensagens explícitas que percebesse que era grave, era uma pressão constante”, e, por outro, porque “sentia que havia uma proximidade maior entre ele e a direção da escola do que entre mim e o diretor da escola”. “Senti que se houvesse lados eles iam confiar mais nele. E porque o ambiente desta escola em específico é um ambiente de ballet tradicional, em que há uma certa distância em relação aos professores. Não era o ambiente mais confortável para uma pessoa falar das suas dúvidas ou inseguranças.”
Nos últimos dias, com a divulgação pública das conversas no Instagram, contou à mãe. “Quando isto ressurgiu falei com a minha mãe, porque não me lembrava do que lhe tinha dito. Um bocado por vergonha. Ela lembra-se só que eu não gostava nada dele, mas nunca percebeu porquê. Eu nunca lhe mostrei as mensagens.”
O Observador contactou o Centro Dança Porto, onde o professor em questão diz ainda trabalhar, segundo a sua página de Facebook. No entanto, de acordo com Teresa Vieira, diretora da escola, o profissional já não leciona no centro há vários anos. Mas “nunca houve queixas de nada”, garante, “pelo contrário, sempre foi muito educado e dedicado”, diz ao Observador, notando que o professor saiu da escola de forma “amigável”. Sobre as recentes mensagens divulgadas nas redes sociais, diz-se “chocada”.
“Ana” (nome fictício) tinha 16 anos e estudava na Escola de Ballet do Porto, na Foz, quando começou a ter aulas de contemporâneo com o mesmo professor. “As aulas eram muito boas, eu gostava muito, era muito diferente do ballet”, descreve. Tudo corria bem “até que ele começou a reagir aos meus stories com emojis com corações, isto enquanto eu era aluna”. Ana não respondia — como provam as mensagens a que o Observador teve acesso. “Entretanto, saí da escola e quando ele percebeu isso as mensagens começaram a ficar muito mais constrangedoras, as mensagens eram muito estranhas, do género ‘tenho muitas saudades tuas, sinto que tivemos uma conexão muito boa, muito linda’.”
“Entretanto fiz 17, e, com a minha inocência, ainda lhe respondi a algumas mensagens sobre a área da dança, as aulas… Mas ele levava sempre o assunto para outro lado. Na minha inocência, eu virava sempre para a dança. As mensagens ficaram ainda mais estranhas, sempre a reagir aos meus stories. Enviou-me dois vídeos muitos estranhos, com um tom de voz muito desconfortável, um era ele a falar para a câmara, outro era um vídeo em câmara lenta dele a fazer uma pirueta em casa e no final a enviar-me um beijo.”
O Observador teve acesso às mensagens trocadas durante anos, quase todas sem resposta. “És linda mesmo. Cada vez gosto mais de ti <3”, “Quem me dera que estivesses aqui para te dar um abraço”, “Estou apaixonado por esta rapariga”, “No fundo acho que sempre houve algo muito bonito e especial entre nós os dois…”, “A rapariga mais linda do mundo”, “Super gata”. A última mensagem enviada foi: “Quando é que terminas com o teu namorado para te pedir em casamento?”. “Foi aí que o bloqueei”, diz Ana.
▲ O professor recorria às redes sociais para falar com frequência com as alunas menores
NurPhoto via Getty Images
A Escola de Ballet do Porto confirma ao Observador que o professor em questão “foi professor da escola entre 2015 e 2020 de forma irregular e com uma carga horária reduzida” e que saiu durante a pandemia por redução da atividade da Escola na área da dança contemporânea. Cuca Anacoreta, diretora da instituição, garante ao Observador que a escola nunca recebeu qualquer tipo de denúncia relativamente ao comportamento do docente ao longo dos anos. “No entanto, quando este assunto surgiu, foi reportada à Direção da Escola uma situação que se encontra evidenciada nas redes sociais”, admite.
Questionada pelo Observador sobre os procedimentos tomados, a diretora diz que a escola contactou “várias alunas que participaram nas aulas de dança contemporânea para saber se eventualmente existia alguma situação que deveria ser reportada”. “De acordo com relatos obtidos por várias alunas, o professor reagia constantemente às stories publicadas no Instagram pelas alunas com emojis e comentários. As alunas acabavam por bloquear o professor por não gostarem ou por se sentirem desconfortáveis. Das diligências encetadas, não se apurou existir qualquer situação de comportamento incorreto em contexto de aula, nem foi reportado mais nenhum caso para além dos que já foram denunciados nas redes sociais.”
“Ana” tem agora 21 anos. Até há bem pouco tempo, nunca falara sobre o assunto. “Nunca contei a ninguém, nem aos meus pais, por vergonha. Sentia-me muito culpada por ter respondido, mesmo tendo respondido sempre sobre dança. Não queria que ninguém soubesse”, descreve.
Até que, no início deste mês, abriu o Instagram e viu “um screenshot de uma mensagem de uma menina com uma conversa com ele”. “Não acredito que ele está a fazer isto com outras pessoas”, verbalizou. “Comentei aquilo à mesa e até me ri. Os meus pais ficaram chocados a olhar para mim. Só agora é que percebi a gravidade disto.” A mãe motivou-a a marcar uma consulta com a psicóloga, “só para ter uma opinião profissional”. “Mostrámos as mensagens todas, os vídeos. Percebemos que foi um assunto que de certa forma me traumatizou e que não está de todo encerrado nem resolvido.”
Diz que “é assustador” ver tantos testemunhos online. “Sinto-me culpada por não ter falado logo”, mas “feliz por finalmente este assunto ter um fim, porque nunca pensei que em Portugal um assunto sobre assédio a menores tivesse um fim. Sinto-me aliviada, sinto que vai ser um final de um ciclo”.
“Resistência à denúncia pode ser maior” por “receio legítimo de prejuízo nas questões da avaliação”, diz psicóloga
“As situações de assédio sexual estão, muitas vezes, associadas a relações hierárquicas assimétricas. As pessoas agressoras, que frequentemente ocupam posições de poder, usam a sua autoridade ou influência para exercer controlo sobre as vítimas, criando um ambiente hostil e de intimidação. Quando as vítimas são menores de idade e o assédio sexual é perpetrado por pessoas adultas, com responsabilidades em matéria de educação, como é o caso de docentes, as situações são especialmente graves”, começa por dizer Sofia Neves, psicóloga e Coordenadora do Polo do Centro Interdisciplinar de Estudos de Género (ISCSP-ULisboa) da Universidade da Maia.
“Não só os impactos negativos da vitimação tendem a ser mais pronunciados, quer do ponto de vista psicológico, como social, como a resistência à denúncia pode ser maior, já que existe um receio legítimo de prejuízo, por exemplo, nas questões da avaliação”, nota. “As vítimas deste tipo de crimes devem, antes de mais, reconhecer que o desconforto e o medo que sentem são absolutamente válidos, e que a responsabilidade pelo sucedido é das pessoas agressoras e não sua. O estabelecimento de um plano de segurança é essencial, por forma a evitar a escalada do assédio”, frisa. “O bloqueio dos contactos das pessoas agressoras nas redes sociais é, também fundamental”, sublinha.
A psicóloga reforça a importância de que “todas as evidências sejam registadas e guardadas” e que as situações “sejam reportadas a pessoas de confiança como a família ou a escola e às autoridades policiais”. As escolas, reforça, “têm um papel decisivo na gestão destes processos de vitimação” e devem adotar “com caráter de urgência, procedimentos e medidas que visem a interrupção do assédio sexual e a proteção efetiva das vítimas”. Em alguns casos, “pode ser necessário apoio psicológico especializado, uma vez que sintomas depressivos ou de ansiedade são comuns, pelo que as vítimas não devem sentir vergonha de usar os recursos que têm disponíveis”.
Se o padrão no alvo dos contactos é alunas, “Teresa“ (nome fictício) não precisou de o ser para receber contactos não desejados por parte deste professor. “Ele dava aulas de dança na minha escola como extracurricular”, recorda. Estava no 8.º ano no Colégio Novo da Maia, tinha 14 anos, e o encontro deu-se no contexto de um espetáculo de final de ano, em que ia cantar enquanto alguns alunos do dito professor dançavam.
O contacto foi por “pouco tempo”, descreve, limitado ao período de ensaios para o espetáculo. “Depois desse momento em que contactei pouquíssimo com o [nome do professor] ele ofereceu-me um saco com chocolates da Arcádia e com uma dedicatória para mim. Achei simpático, mas, lá está, não o conhecia de lado nenhum. A dedicatória era cheia de elogios desmedidos como é costume dele, coisas que nunca levei muito a sério.”
A abordagem pelo Instagram não demorou. “Mal aceitei [o pedido para seguir] começou a responder a todas as minhas histórias e a comentar nas minhas fotos”, relata. Sempre que respondia, “todas as conversas com ele eram exaustivas, sempre a perguntar coisas e a querer saber de mim, sempre a elogiar exageradamente”. “Mandava-me fotos e vídeos dele sempre com a frase “não me julgues”, “não te rias de mim”. Eram fotos que não tinham necessariamente mal, mas que me deixavam confusa. Porque é que este homem que conheci aleatoriamente me manda fotos dele quando muda o penteado? As minhas respostas eram quase sempre “ahaha”, por estar desconfortável ou não querer dar continuidade.”
A primeira mensagem recebida, confirmou o Observador, foi em 2018, quando Teresa tinha 14 anos. “As tuas fotos matam-me. Aiaia [nome]. Beijinho grande com muuitas saudades”. Sem resposta no dia seguinte voltava à carga: “Oi linda. O meu insta não funciona. Manda por whatsapp: [número de telefone]. Não consegui receber a tua mensagem de insta.” Não fora um erro técnico, Teresa não respondeu mesmo. Um mês depois, eis uma nova mensagem. “Tens whatsapp, é que as minhas mensagens do insta não funcionam bem. Fica aí com o meu :[número de telefone].”
“Era várias vezes esta cena de querer o número sem que eu lhe tivesse mandado nada”, diz ao Observador. Na troca de mensagens, chegou mesmo a ficar explícito que Teresa era menor de idade. Em mensagens consultadas por este jornal, Teresa escreve que nasceu em 2003. “Tu só tens 17 anos?!?”, pergunta-lhe o professor. “Sim”, respondeu. E as mensagens continuaram.
“A partir daí, 2020, até setembro do ano passado continuou a responder as minhas histórias sempre ‘apaixonadíssimo’ e a querer novamente o meu número e sempre sem ter uma resposta minha. Entretanto bloqueei”, diz. Quando as mensagens surgiram nas redes sociais, “todas as minhas amigas se lembraram dele porque reparavam na dinâmica esquisita que ele tentava criar comigo”.
O Observador contactou o Colégio Novo da Maia, para confirmar se a escola recebeu algum tipo de denúncia relativamente ao comportamento deste professor. Num esclarecimento enviado após a publicação original deste artigo, esta instituição afirmou que o docente alvo de denúncias “não é nem nunca foi professor do Colégio, nem sequer seu prestador de serviços”. “Terá estado no Colégio, esporadicamente, em representação do Centro de Dança do Porto, com quem tinha sido celebrado protocolo de cooperação para o ensino de dança como atividade extracurricular”, avança o mesmo email. “Acresce que nenhuma atuação menos própria foi reportada à direção do Colégio no decurso das aulas extracurriculares de dança, muito menos de assédio aos seus alunos, sendo certo que se tivesse sido esse o caso, o Colégio teria tido uma intervenção imediata face à intransigência perante tais situações”, clarifica o Colégio Novo da Maia.
Amplamente mencionado nas redes sociais, este professor de dança não reagiu às acusações e tem-se remetido ao silêncio. Entretanto, trocou a fotografia de perfil nas redes sociais e tornou a página de Instagram privada. Contactado pelo Observador, disse apenas: “Não comento”. O Observador sabe que, após aconselhamento jurídico, o professor decidiu que não vai prestar declarações. Segundo as suas redes sociais, atualmente estuda Fisioterapia na Escola Superior de Saúde do Politécnico do Porto.
Situação pode configurar um crime de “stalking”. Número de inquéritos abertos pela PGR a crimes este tipo e crimes aumentaram 25% nos últimos cinco anos
Os textos das mensagens trocadas podem configurar um crime de stalking (perseguição ou assédio persistente), esclarece Miguel Matias, que foi o advogado dos jovens da Casa Pia, num processo também ligado a abusos sexuais.
O crime de perseguição encontra-se tipificado no artigo 154.º do Código Penal português, que visa proteger a liberdade e segurança da pessoa contra atitudes que a perturbem gravemente, nomeadamente, comportamentos obsessivos e invasivos. “Este crime é também conhecido como “stalking”, sendo um fenómeno caracterizado por um padrão de comportamentos repetidos que visam controlar ou assediar a vítima, geralmente sem o seu consentimento”, explica ao Observador. De acordo com o artigo 154.º, quem, por diversos meios, nomeadamente telefonemas, mensagens, seguimentos ou abordagens repetidas e não consentidas, provocar na vítima um temor grave quanto à sua segurança, à sua integridade física ou psíquica, ou mesmo à de seus familiares, comete o crime de perseguição.
Os comportamentos típicos do crime são: seguir a vítima, iniciar contactos repetidos (telefonemas, mensagens, cartas, e-mails), aparecer constantemente nos locais frequentados pela vítima, fazer ameaças ou colocar a vítima em situação de medo ou insegurança. “Este tipo de crime é caracterizado por ser persistente e por envolver um comportamento que, à primeira vista, pode não ser considerado grave, mas que, com o tempo, gera um impacto psicológico negativo na vítima”, sublinha Matias.
A moldura penal do crime é de pena de prisão até 3 anos ou pena de multa, sendo que se o agente for reincidente, ou se as circunstâncias forem mais graves (por exemplo, se a vítima for uma criança, um idoso, ou uma pessoa em situação de vulnerabilidade), a pena poderá ser agravada, esclarece.
Mais de cinco mil inquéritos foram abertos nos últimos cinco anos por crimes de perseguição, conhecidos de uma forma geral como stalking. Segundo o Público, desde 2020, houve um aumento de 25% dos inquéritos abertos pela Procuradoria-Geral da República (PGR) em relação a esta tipologia criminal.
Artigo atualizado às 19h45 de 31 de julho de 2025 com o esclarecimento do Colégio Novo da Maia, enviado por email ao Observador