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Paulo Cafôfo é o líder do PS na Madeira
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▲Paulo Cafôfo é o líder do PS na Madeira

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

▲Paulo Cafôfo é o líder do PS na Madeira

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

PS-Madeira dá tudo para montar puzzle difícil com a oposição. JPP quer garantias escritas

Cafôfo anda na rua, sente que as pessoas "perdem o medo" da mudança, convida oposição quase toda. Mas dentro do PS há reservas. JPP quer garantias de que possível acordo é menos frágil desta vez.

Quando os políticos saem à rua para fazer campanha encontra-se de tudo: há quem passe para trás do balcão de pastelarias e cafés para servir bebidas (ponchas, no caso) como se trabalhasse ali desde pequenino, quem faça conversa sobre a árvore genealógica inteira de qualquer eleitor que lhe passe à frente e quem se dedique a oferecer canetas para disfarçar a timidez. Há os que entram em lojas e perguntam como vai o negócio e os que distribuem abraços e beijos repenicados. No caso de Paulo Cafôfo, líder do PS-Madeira que daqui a uma semana voltará a tentar conquistar o poder ao PSD, a conversa de rua é calorosa e sai-lhe com naturalidade — mas escorrega rapidamente da conversa casual para os problemas políticos que a Madeira, e a oposição em particular, enfrentam, e que está longe de poder garantir que se resolvam no dia das eleições.

Numa esplanada da rua dom Fernão de Ornelas, passeio clássico de campanha que vai desembocar no também clássico Mercado dos Lavradores, Cafôfo aborda um homem e uma mulher que tomam café, perguntando-lhes há quantos anos estão casados (de novo, a estratégia da árvore genealógica). Mas comete um erro de análise: são, afinal, sogro e nora. “Já estou a arranjar confusão!”.

A ponte para a política ocorre-lhe de imediato: “A gente não quer é mais confusões na Madeira, para termos um Governo duradouro sem eleições”. A conversa, tal como esta arruada no geral, parece correr-lhe bem: o homem garante que vota PS há muitos anos e que “já chega” de PSD; Cafôfo aproveita imediatamente para agitar um papão do pós-eleições: “Já chega? Não se pode dizer isso, diga já basta! Que depois o Chega junta-se ao PSD, e isso é que não convém”.

▲ Paulo Cafofô a interagir com os poucos madeirenses que estavam na rua dom Fernão de Ornelas, no centro do Funchal.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Os cenários pós-eleições são, a uma semana da ida às urnas marcada para 23 de março, o tema mais recorrente na campanha da Madeira — uma vez que nada indica, até ver (haverá novas sondagens nesta segunda semana de estrada) que o tabuleiro político possa mudar radicalmente e oferecer soluções óbvias e estáveis à população madeirense. No passeio feito num sábado de sol, Cafôfo vai-se animando: recebe várias demonstrações de apoio rua fora, diz aos jornalistas que os madeirenses estão a “perder o medo”.

Mas também sabe que os partidos regionais vivem uma espécie de competição particular, que passa por mostrar quem é que promete mais estabilidade para o day after de uma região agastada por crises políticas em série. Ou pelo menos quem representa menos perigo de prolongar a instabilidade.

Para Cafôfo a resposta é fácil: Albuquerque, que caiu às mãos da oposição quando uma moção de censura — cuja aprovação neste timing confuso não é consensual dentro do PS-Madeira — foi aprovada por proposta do Chega, não traz respostas. É, aliás, uma verdadeira “bomba relógio”.

Desde logo, por causa dos casos judiciais em que é arguido: “Ou queremos um governo duradouro do PS ou teremos novamente um governo a prazo. Se querem que alguma coisa mude temos de fazer diferente para nada ser igual”, atira, alterando a frase do clássico siciliano adorado por tantos políticos, o “Leopardo” (“É preciso que tudo mude para que tudo continue como está”, lê-se no original). “Albuquerque ainda tem sobre ele pendente um processo judicial. A qualquer momento poderá ser levado pela justiça e criaremos outra situação de crise e instabilidade”, avisa.

Entre o medo de que a justiça se pronuncie entretanto e que o governo regional volte a cair e o papão de um PSD que se junte ao Chega (confiando nas garantias do Chega, só acontecerá se Albuquerque se retirar da equação), o PS vai assim pedindo uma oportunidade: o PSD tem “testado várias soluções” e elas não resultaram; chegou a vez de o PS tentar formar governo. E é aqui que a oposição se depara com um problema óbvio: é que o PS, juntamente com o JPP, também tentou criar uma solução de governação após as últimas eleições, há menos de um ano — e não teve apoio maioritário nem nenhuma consequência prática.

O risco é que o cenário se repita. Em maio do ano passado, dois dias depois das eleições, Cafôfo e Élvio Sousa, líder do JPP (um com onze deputados eleitos, outro com nove) chegaram a aparecer numa conferência de imprensa em que juraram que daquela sala sairia uma solução que, com o apoio dos partidos mais pequenos, pudesse retirar o PSD do governo.

No entanto, antes do fim das declarações já a mesa onde iriam assinar um acordo ainda incerto e cujo sucesso dependeria de outras forças políticas tinha sido retirada. A ideia morreu antes de poder ser posta em prática, com Miguel Albuquerque a ser indigitado chefe do governo pelo representante da República, Ireneu Barreto, acabando assim com os sonhos da oposição de reverter a situação. E o PS voltava a ficar no banco.

Confrontado com o fracasso dessa tentativa, Cafôfo aponta o dedo a Ireneu Barreto: “Chegámos a ter acordo com o JPP, mas não houve tempo para isso, para estender a outros partidos, porque o representante da República indigitou logo o PSD”, que não tinha maioria absoluta mas alargava um pouco a sua maioria graças a uma aliança com o CDS, argumenta o líder do PS regional.

É por isso que o apelo ao voto útil agora é claro e repetido até à exaustão em declarações aos jornalistas, diretos para as redes sociais e notas de imprensa: “É preciso convergir o voto no PS. Nada de divergir”, pede, dirigindo-se aos eleitores descontentes. Mesmo reconhecendo que “o tempo das maiorias absolutas acabou”, com uma solução tão frágil como a que tentou no ano passado o PS sabe que não terá hipótese de ir mais longe. Agora, só exclui de possíveis acordos PSD e Chega e admite várias soluções possíveis: “Pode ser uma solução múltipla, de governação ou de incidência parlamentar. O que é importante é que não continuemos nisto”.

JPP quer “tempo”, um documento com garantias escritas e uma consulta à população

Em conversa com o Observador, Élvio Sousa concorda com a análise do socialista sobre os motivos que levaram a última tentativa de união da oposição a fracassar. “Depois de serem conhecidos os resultados vamos precisar de tempo, ao contrário da última vez, em que o representante da República na terça-feira de manhã pediu logo que os partidos fossem auscultados”. Talvez, se voltasse atrás no tempo, tivesse decidido não participar logo nessas audições, concede o candidato do JPP. “Precisávamos de tempo para falar com os outros partidos e um dia não é suficiente”.

Até porque o JPP continua a jurar que não conversará com ninguém antes de conhecer os resultados — pelo que o tempo de cozinhar possíveis acordos pós-eleitorais terá de acontecer mesmo no pós-eleições.

Se o “breve entendimento” com o PS caiu por terra graças ao timing da decisão, outro problema foram as garantias de estabilidade que Albuquerque levou ao representante da República, argumenta, e que “não se confirmaram”: o JPP defende agora que exista um “documento escrito”, com uma confirmação dos partidos que apoiarão o executivo que entra em funções; depois, promete ouvir os órgãos do partido e “questionar o que a população deseja” que faça, para tomar a decisão que seja mais coincidente com a vontade do seu eleitorado.

No interior do PS, e especialmente entre a ala menos afeta a Cafôfo (teve uma votação esmagadora — 98,3% — no congresso regional que o elegeu, mas não havia oposição), regista-se agora um novo receio: que o JPP possa até ficar à frente dos socialistas nestas eleições.

Se o JPP alimenta, naturalmente, esta ideia, garantindo que está a “concorrer diretamente” contra o PSD pela liderança do governo, há mesmo socialistas que não desvalorizam esta tese. Albuquerque também a subscreve, tendo já declarado que se não tiver maioria desta vez pode vir aí uma coligação PS-JPP liderada pelo segundo (“Fugiu-lhe a boca para a verdade”, comenta Élvio Sousa ao Observador, acrescentando que Albuquerque tenta colá-los à esquerda — o partido, que os adversários acusam de ser populista, não se assume de esquerda nem de direita — para “alimentar o medo” do eleitorado, mas “não tem resultado”).

▲ Élvio Sousa durante uma ação de campanha do JPP.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Cafôfo vê vontade de mudança, socialistas têm receios

Assim, se na rua Cafôfo mostra otimismo, dá beijos a lojistas, comenta até com turistas que é preciso mudar de governo e regista que os madeirenses “estão a manifestar a vontade de mudança de forma espontânea” — “não via isto há tanto tempo, há uns meses não vi isto” –, o otimismo não se estende de forma completamente homogénea por todo o PS Madeira. Albuquerque puxa, aliás, por essas discordâncias — este domingo, respondia que Cafôfo é que é a verdadeira “bomba relógio”, porque tem uns “amigos” no partido que querem “correr com ele”.

Entre os socialistas da Madeira há quem note que, sem mudança de protagonista, não há razão para que esta eleição traga resultados substancialmente diferentes da anterior, em que os casos judiciais que envolvem o governo já eram conhecidos; e quem tema que mais uma vez um acordo que junte a oposição quase toda caia por terra, embora se assuma que nesses casos, e se o poder estiver finalmente perto de chegar às mãos do PS, “a necessidade aguça o engenho”.

O outro cenário que se vai colocando, e que é tido por credível nos corredores de vários partidos — o PS incluído — é que o PSD possa mesmo governar mas sem Albuquerque, caso este não obtenha uma maioria suficiente para formar governo. Pelo menos, com partidos que já juraram que com o atual líder do PSD se aplica mesmo um “não é não” irrevogável.

Se esse passo for dado e a liderança do PSD puder mesmo estar em causa, o cenário muda radicalmente: partidos como o PAN, Iniciativa Liberal e Chega só afastam conversas com o PSD se Albuquerque estiver à frente do partido; ao Observador, Rui Rocha chegava, este sábado e em campanha pela Madeira, a lançar o “apelo” para que o PSD analise friamente a situação e considere a hipótese de trocar de líder.

Tal como todos os outros cenários que se colocam — maioria PS-JPP, ou JPP-PS, com apoio de outros partidos; Albuquerque a governar com uma minoria instável; PSD a governar com um sucessor de Albuquerque — será preciso esperar pelo dia 23 de março para descobrir o que pode acontecer nos dias seguintes, já que a única forma de fechar imediatamente o assunto seria que um dos partidos conseguisse chegar ao número mágico (24 deputados) que garante uma maioria absoluta. Até lá, Cafôfo e companhia terão muitos abraços para distribuir e muitas ponchas para beber (e servir). A missão da oposição passa por tentar, pela primeira vez na história da Madeira, seduzir eleitores suficientes para mudar o rumo das ilhas.

▲ Material de campanha distribuído pelo candidato do PS.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

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