Dark Mode 194kWh poupados com o Asset 1
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica. Saiba mais

Logótipo da MEO Energia
i

PEDRO PINA

PEDRO PINA

Quem atacou quem: a noite do bullying presidencial /premium

Ana Gomes carregou na tinta, Ventura esqueceu que queria "esmagar" a esquerda e a troika Ferreira-Marisa-Gomes poupou-se. No primeiro e único debate a sete, o alvo foi um: Marcelo Rebelo de Sousa.

O debate entre todos os candidatos arrancou morno, mas, depois do intervalo, era tempo de bater em Marcelo Rebelo. A certa altura, impávido, de máscara e ausente do estúdio, o atual Presidente parecia estar apenas a ser alvo de um bullying político coletivo, mas sem se importar com isso. Marcelo foi alvo de 38 ataques, quase um terço (22) vindos de Ana Gomes e André Ventura, que, apesar do ataque cerrado a Marcelo, mal tocou na esquerda.

Todos alinharam no roast a Marcelo Rebelo de Sousa, que apenas fez um ataque coletivo ao seis (todos menos Tino), quando acusou os “de esquerda e de direita” de quererem que tivesse sido por um dos lados. Os tiros vieram da esquerda e da direita e também de Tino, para quem estes lados variam de acordo com o sentido em que desce a rua. Começando pela direita, Tiago Mayan Gonçalves atacou Marcelo seis vezes e logo na primeira oportunidade, quando disse que “entre Marcelo e Costa já não se sabe onde acaba um e começa outro“. André Ventura, por seu lado, apontou para o ecrã para dizer que “aquele senhor tem o apoio do PS”.

À esquerda, Ana Gomes, entre tantas outras críticas, lembrou a Marcelo que “não é o Rei de Espanha” e que devia utilizar o magistério de influência. João Ferreira atirou-se aos afetos do Presidente, que diz estarem “mal distribuídos” e voltou a acusá-lo de não cumprir a Constituição. Marisa Matias acusou-o de ajudar o PS a bloquear avanços que a ‘geringonça’ podia ter feito. E até Vitorino Silva disse que, por ele, ninguém falava como Costa falou de Marcelo na Autoeuropa.

André Ventura esteve muito mais contido no tom, ainda que tenha realizado 11 ataques a Marcelo. Fez um referência ténue, quase meio ataque, a Ana Gomes, numa referência ao sistema de saúde alemão, e outros dois ataques, sem grande convicção, a João Ferreira sobre a CGTP e países de inspiração comunista (Cuba e Venezuela).

Já a troika de esquerda não se atacou, mas apontaram ao liberal Mayan, que apontou à esquerda. Marisa não atacou João Ferreira nem Ana Gomes. Ana Gomes não atacou João Ferreira nem Marisa. E João Ferreira não atacou Marisa e Ana Gomes.

Marcelo, o isolado: em casa e como alvo de todos os ataques

Ataques a Ana Gomes: 1
Ataques a André Ventura: 1
Ataques a Marisa Matias: 1
Ataques a João Ferreira: 1
Ataques a Tiago Mayan Gonçalves: 1
Ataques a Vitorino Silva: 0

O candidato-Presidente que tem estado mais como Presidente-candidato apareceu ao longe e “irritado” com as autoridades de saúde que não lhe deram alta do isolamento para que pudesse comparecer no debate. Resultado: Marcelo, através de um monitor colocado naquele que seria o seu lugar na roda do debate, a servir de saco de pancada para todos os outros.

Esteve sempre de máscara e em silêncio até que o moderador se dirigisse a ele, invariavelmente para responder a rajadas de críticas que correram todos os seus adversários. E não se pode dizer que Marcelo tenha atacado alguém. Houve apenas aquela provocação, depois de ter estado longos minutos calado a ouvir os ataques que lhe iam sendo dirigidos, em que atirou: : “Uns e outros queriam um Presidente mais alinhado à direita e outros à esquerda. O papel do Presidente é ser um fator de união e de estabilidade”.

Também houve ali um aviso a uma figura de outro cenário: António Costa. Tem sido uma constante ouvi-lo falar na “bazuca europeia” que chegará este ano para recuperar o país, mas Marcelo não quer ninguém a acenar “com uma bazuca milagrosa que vem aí”. Sem acreditar em milagres e com sempre vigilantes: Portugal, avisou Marcelo, deve “fazer tudo para que o financiamento europeu possa vir mais cedo do que tarde e de uma forma consistente e não às pinguinhas, nem de forma esporádica”.

Ainda se dedicou ao auto-elogio: não só aprsentando-se como fator de estabilidade — como repete a cada aparição pública — mas também por ser o primeiro Presidente recandidato que se presta a um debate nestes termos: com todos. Pouco mais houve de Marcelo.

Ana Gomes não desperdiça balas contra parceiros da esquerda

Ataques a Marcelo Rebelo de Sousa: 11
Ataques a André Ventura: 2
Ataques a Tiago Mayan Gonçalves: 2
Ataques a Marisa Matias: 0
Ataques a João Ferreira: 0
Ataques a Vitorino Silva: o

Ana Gomes foi logo a primeira a abrir hostilidades: criticou Marcelo por desvalorizar a eleição e encarar isto como uma “coroação”, criticou-o por inação em desígnios importantes para o país (“O PR não é o rei de Espanha”), por nunca falar de combate à evasão fiscal nem de combate às alterações climáticas, por ter feito pressão a favor dos privados da Saúde, prejudicando a negociação do Governo, e por ter sido “obstáculo” à regionalização desde o primeiro dia.

Os ataques eram muitos e de todos os lados. Mas Ana Gomes liderava. Um Presidente da República (“ou uma Presidente”) tem de ser garante de estabilidade, sim, mas ser o garante de estabilidade não é o mesmo do que dizer que tem de defender o “bloco central de interesses”, do qual Ana Gomes se exclui e para o qual empurra o Presidente da República. Ser garante de estabilidade também não é “normalizar a extrema-direita”, como acusa Marcelo de ter feito nos Açores. Isso é ser garante não de estabilidade mas de “insegurança, incitamento à violência e discurso de ódio”.

Quase exclusivamente focada em Marcelo, Ana Gomes só guardou duas balas para os outros dois rostos da direita, Tiago Mayan e André Ventura. A Mayan reservou a ironia, e os sorrisos irónicos de quem não vai em “fantasias neo-liberais” e aos eleitores de Ventura, a quem não deu o gosto de atacar vorazmente, reservou um aviso: “A extrema-direita, aqui e em todo o lado, não é só mais uma corrente de opinião, é um perigo”.

Quem Ana Gomes poupou foi mesmo João Ferreira e Marisa Matias, os parceiros da geringonça que Ana Gomes tanto defende (e, aqui, nova crítica a Marcelo, que em 2019 devia ter pedido acordo escrito para dar forma à “geringonça 2”). Com eles até concordou várias vezes, e vice versa. Não era momento para disputar o eleitorado. Era momento de sobressair.

Ventura em modo best-of e quase sem se lembrar da esquerda

Ataques a Marcelo Rebelo de Sousa: 11
Ataques a João Ferreira: 2
Ataques a Ana Gomes: 1
Ataques a Marisa Matias: 0
Ataques a Tiago Mayan Gonçalves: 0
Ataques a Vitorino Silva: 0

Debate atípico para o líder e candidato do Chega. Habituado ao ‘bola cá, bola lá’, a interromper o adversário, a apoucar dos argumentos alheios, a gritar por cima do outro, a dominar o mise en scène, André Ventura teve no seu maior adversário o modelo escolhido para o confronto. Ficou largos minutos em silêncio, enquanto a ronda pelos restantes seis candidatos era concluída, e só depois conseguiu intervir, sempre muito condicionado pelo tema escolhido pelo moderador. Não foi, de resto, o único adversário de Ventura: ao contrário do que aconteceu nos frente a frente em que participou (e noutros debates em que, não participando, foi o elefante no meio da sala), desta vez o Chega não foi o centro das atenções; e isso não permitiu capitalizar e partir para o contra-ataque.

Ventura apostou então numa espécie de best-of de todos os ataques que já fizera contra Marcelo Rebelo de Sousa: a passividade do Presidente em matérias como a Lei de Bases da Saúde, um fruto do “preconceito ideológico” da ‘geringonça’; a cumplicidade com o Governo na não recondução de Joana Marques Vidal e Vítor Caldeira; os elogios a Mário Centeno e a António Costa; a falta de autoridade junto do primeiro-ministro; ou, por exemplo, a pouca exigência com o Governo para reduzir a carga fiscal ou cumprir com o que prometeu nos apoios às empresas. Críticas que podem ser resumidas numa ideia (Marcelo é refém de Costa) e em duas frases: “Aquele senhor que está no ecrã tem o apoio do PS. António Costa não quer saber [dos erros que comete] porque sabe que Marcelo Rebelo de Sousa nunca terá coragem de o enfrentar.”

Uma nota contrastante em relação a todos os debates anteriores: se os confrontos mais quentes de André Ventura foram com os três candidatos de esquerda (Ana Gomes, João Ferreira e Marisa Matias), desta vez o líder do Chega fez uma única crítica tímida a João Ferreira (sobre a defesa da nacionalização da Galp pela CGTP), uma referência negativa a Cuba e à Venezuela — debate que marcou o frente a frente entre o candidato do Chega e João Ferreira — algumas acusações de “preconceito ideológico” da esquerda na Saúde e uma resposta a Ana Gomes sobre o papel dos privados também na Saúde. Fora isso, nada mais.

Os bloqueios e os mitos que Marisa quis desfazer

Ataques a Marcelo Rebelo de Sousa: 3
Ataques a Tiago Mayan Gonçalves: 2
Ataques a André Ventura: 1
Ataques a Ana Gomes: 0
Ataques a João Ferreira: 0
Ataques a Vitorino Silva: 0

Marisa Matias entrou no debate disposta a denunciar as desigualdades sociais provocadas pelas políticas de direita e não esqueceu de agitar o papão de Pedro Passos Coelho e Paulo Portas para deixar o aviso: o filme pode repetir-se se uma outra direita, com outros protagonistas, subir ao poder. “O país vale todo o mesmo e as pessoas são todas iguais”, chegou a dizer, numa espécie de recado para André Ventura e para a definição que o líder do Chega tem vindo a utilizar de “portugueses de bem”.

As críticas centraram-se sobretudo no Presidente da República. Apesar de admitir que a relação que Marcelo Rebelo de Sousa teve com as instituições ao longo dos últimos anos foi, no geral, “correta”, não deixou de apontar falhas, desde logo pelo caso que envolveu agentes do SEF e a posterior audiência com o diretor da PSP.

Segundo Marisa, Marcelo foi também um dos fatores de “bloqueio” da esquerda na Saúde, no combate à precariedade ou na relação com a banca, por exemplo. Marcelo não só não soube “desbloquear para resolver problemas” como trabalhou “no sentido de manter esses bloqueios”. Foi o encosto à direita que Costa precisou para fugir dos braços da esquerda.

Entre as referências à direita, Marisa Matias não esqueceu os adversários mais liberais, dizendo que, se havia dúvidas, esta pandemia deixou-as “desfeitas”: dizer que um “SNS que custa menos aos portugueses é mais eficiente” é um “mito”.

João Ferreira com Marcelo e votos socialistas na mira

Ataques a Marcelo Rebelo de Sousa: 5
Ataques a Ana Gomes: 1
Ataques a André Ventura: 0

Ataques a Marisa Matias: 0
Ataques a Tiago Mayan Gonçalves: o
Ataques a Vitorino Silva: 0

João Ferreira tem o adversário bem definido — Marcelo Rebelo de Sousa. Mas para o debate levou também a intenção de conquistar mais uns votos socialistas. E deixou-o bem claro quando quis demonstrar que Ana Gomes não está assim tão politicamente distante. Num dois em um, tocou no tema da fraude e evasão fiscal e mostrou que uma das bandeiras da candidata para esta campanha também é uma preocupação sua. Isto já depois de ter começado o debate a contrariar a ideia de seria legítimo adiar eleições — solução que Ana Gomes admitiu, naquilo que foi uma espécie de primeiro ataque.

Depois, aproveitou todas as intervenções para atacar o alvo número um: Marcelo. Numa mão cheia de críticas ao atual Presidente da República, João Ferreira pôs em evidência a diferença de atuação que teria tido na promulgação ou vetos em áreas como a legislação laboral e a proteção dos mais jovens e usou o slogan do “Presidente dos afetos” para uma analogia com a riqueza do país: “Existem, mas estão mal distribuídos”.

Em sentido contrário, João Ferreira ainda recebeu dois ataques de André Ventura, mas nem ofereceu resposta. Depois de um debate a dois muito exaltado, João Ferreira optou esta terça-feira por ignorar o do Chega.

Mayan prego a fundo contra Marcelo

Ataques a Marcelo Rebelo de Sousa: 6
Ataques a Marisa Matias: 1
Ataques a Ana Gomes: 1
Ataques a André Ventura: 0
Ataques a João Ferreira: 0
Ataques a Vitorino Silva: o

Clone de António Costa. Obcecado e movido por popularidade. Corresponsável por fazer de Portugal “o país mais pobre da Europa”. Promotor de desigualdades como as 35 horas de trabalho na função pública e as 40 horas de trabalho no setor privado. Cúmplice de uma governação que promoveu “estagnação económica, podridão do sistema político, interferências em órgãos de supervisão e regulação” como a PGR e o Tribunal de Contas”. Permissivo com a ‘geringonça’.

Para Tiago Mayan Gonçalves, Marcelo Rebelo de Sousa é tudo isto. O candidato da Iniciativa Liberal partiu para o debate a sete na RTP, com uma estratégia: colar Marcelo Rebelo de Sousa à governação socialista e a António Costa. Mas não só — quis colar Marcelo a todo um sistema de “décadas” de “visão estatista e socialista para a economia”, alguém que preconiza um modelo de desenvolvimento que não é o dele, à base de “receitas que estão a destruir o país”, que se for reeleito “vai terminar o mandato como presidente do País mais pobre da Europa”.

À esquerda, as críticas que deixou neste debate foram quase todas para o Governo: impreparado a gerir a segunda vaga (“já sabíamos que ia existir”), mostrando “incapacidade de previsão”, mostrando-se incapaz de ponderar “um conjunto de outras circunstâncias”, como o voto por correspondência. A toda a esquerda, sem distinções, deixou a acusação de preconceitos ideológicos contra os privados. Chegou mesmo a ser irónico, dizendo que “basta pôr o público em concorrência e a esquerda atingirá o seu sonho de acabar com o privado”.

Nos ataques diretos a candidatos presidenciais oriundos da esquerda, porém, poupou João Ferreira — já atacara o PCP, quando falara na “clientela” que Costa teve de satisfazer neste Orçamento —, concentrando-se em Ana Gomes e Marisa Matias. À socialista, mais destacada nas sondagens que os dois candidatos à sua esquerda, disse que só conseguia “produzir a palavra neoliberal” mas não conseguia explicar como essa visão foi aplicada em Portugal “porque nunca foi”. A Marisa Matias associou desigualdades promovidas pela esquerda que a bloquista defende: as 35h no setor público face às 40h no privado, ter de esperar pela “lista de espera” nos hospitais públicos por não se ter dinheiro para hospitais privados, “meter o filho numa escola sem meios e sem motivação de professores” enquanto os mais ricos podem frequentar escolas melhores. Do debate, saiu a tentar impor um liberalismo novo para a economia — que não é certamente o de Marcelo.

Tino contra consórcio AC&MRS

Ataques a Marcelo Rebelo de Sousa: 4
Ataques a Ana Gomes: 0
Ataques a André Ventura: 0
Ataques a Marisa Matias: 0
Ataques a João Ferreira: 0
Ataques a Tiago Mayan Gonçalves: 0

Mais um debate feito de ideias soltas e pouco concretas. Desta vez, ainda assim, Vitorino Silva focou-se no “consórcio António Costa-Marcelo Rebelo de Sousa”, como classificou, e lançou uma série de provocações sobre a “sintonia” entre os dois.

Aliás, Tino de Rans teve o seu momento alto quando sugeriu que Marcelo e Costa se andaram a embalar um ao outro. “Tenho a certeza que se fosse a uma fábrica como a AutoEuropa, não dava confiança ao primeiro-ministro para dizer ‘candidate-se’. Pela minha cabeça ninguém fala. Foi um consórcio e às vezes não sabíamos quem mandava mais. Embalaram-se um outro. Jogaram sempre, nunca se zangaram porque havia estas eleições”, criticou. O momento alto deste debate e de todos em que participou.

Recomendamos

A página está a demorar muito tempo.