É o governo com mais mulheres desde o 25 de abril, é o que tem mais ministros desde 1973. António Costa mudou algumas pastas de mão, criou outras novas, confirmou valores seguros e faz apostas surpreendentes. Pelo meio, reforçou um núcleo central de governantes que ficará encarregue da coordenação do executivo quando o primeiro-ministro e o ministro dos Negócios Estrangeiros tiverem de se dedicar a uma das prioridades da política externa portuguesa: a presidência portuguesa da União Europeia em 2021. Quem é quem neste novo executivo que Costa apresentou esta terça-feira a Marcelo Rebelo de Sousa e que toma posse já na próxima semana?

Os novos rostos (ou os mesmos com uma nova pasta)

Ana Mendes Godinho, ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social

Se se esperava que o Turismo fosse promovido a ministério, isso não aconteceu, mas a secretária de Estado do Turismo foi promovida a ministra. Do Trabalho. É uma mudança radical para Ana Mendes Godinho, que já há muito indicava ser uma aposta pessoal de António Costa (promoveu-a ao secretariado nacional do partido e nestas eleições foi cabeça de lista pela Guarda). Aos 47 anos, Mendes Godinho deixa uma pasta tranquila e popular como a do Turismo e passa para a conturbada pasta do Trabalho e Segurança Social, até aqui tutelada por Vieira da Silva, com todo o peso e currículo que isso implica. O salto é de gigante já que é neste Ministério que vai estar montado um dos principais palcos de negociações à esquerda, com o BE e o PCP a fazerem das alterações à legislação laboral a sua grande batalha. Ana Mendes Godinho vai ter de ser pivô entre a esquerda, a direita, os patrões e os sindicatos.

No currículo tem as funções de diretora dos Serviços de Apoio à Atividade Inspetiva e Inspetora do Trabalho da Autoridade para as Condições do Trabalho, cargo que exerceu entre 2012 e 2015.

É licenciada em Direito pela Faculdade da Universidade de Lisboa, com uma pós-graduação em Direito do Trabalho e Legística e Ciência da Legislação. Foi ainda vice-presidente do Turismo de Portugal, administradora da Turismo Capital, administradora da Turismo Fundos, vice-presidente do Conselho geral do Fundo Imobiliário de Apoio às Empresas e membro do Conselho Consultivo do INATEL.

Alexandra Leitão, ministra da Modernização do Estado e da Administração Pública

No último congresso do PS, António Costa surpreendeu ao integrá-la no Secretariado Nacional do PS, órgão de direção restrita do partido, e voltaria a surpreender ao escolher Alexandra Leitão como cabeça de lista do PS pelo distrito de Santarém. Ficava claro que era uma aposta do primeiro-ministro. Nos últimos quatro anos foi secretária de Estado da Educação, no ministério tutelado por Tiago Brandão Rodrigues, mas foi muitas vezes ela quem deu a cara em casos polémicos.

Foi o que aconteceu logo no início do mandato, com os famosos protestos das camisolas amarelas, quando o Governo decidiu cortar nos contratos de associação, com o objetivo de restringir o financiamento público em zonas onde a oferta do Estado era suficiente. Mais tarde, a então secretária de Estado da Educação foi também uma figura central na guerra com os sindicatos dos professores por causa da contagem integral do tempo de serviço congelado. Foi ela, juntamente com a secretária de Estado da Administração e Emprego Público, Fátima Fonseca, que se sentou à mesa das negociações com os sindicatos dos docentes. Agora, enquanto ministra da Modernização do Estado e da Administração Pública, com a tutela do Simplex, descentralização e recursos humanos, tem a tarefa de negociar todas as revisões de carreiras na função pública, incluindo professores. Trata-se de um reforço da Administração Pública, que sai da tutela das Finanças e passa para um ministério autónomo (a par com a Modernização do Estado).

Alexandra Leitão filiou-se no PS em 1995 e logo entre 1997 e 1999 foi adjunta de gabinete do secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros no governo de António Guterres. Formada em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, tem o mestrado e o doutoramento em Ciências Jurídico-Políticas pela mesma universidade, onde é professora auxiliar desde 2011. Quando se doutorou, em 2011, Marcelo Rebelo de Sousa escreveu um artigo de opinião no jornal Sol onde alertava para o nome de  Alexandra Leitão: “Vai ouvir-se falar dela”.

Maria do Céu Albuquerque, ministra da Agricultura

A nova ministra da Agricultura é licenciada em Bioquímica e tem uma pós-graduação em Gestão da Qualidade e Segurança Alimentar. Durante nove anos foi Presidente da Câmara Municipal de Abrantes e daí saiu para integrar o governo já na reta final da última legislatura, onde exerceu funções como secretária de Estado do Desenvolvimento Regional.  Desta breve biografia, percebe-se que poucas ligações tem à Agricultura. O que, por si só, não é um impedimento. Basta lembrar a outra mulher que já ocupou esta pasta, Assunção Cristas, que vinha do mundo académico do direito. Além disso, a pasta do Desenvolvimento Regional deu-lhe experiência em matérias como as negociações dos fundos europeus, essencial para a nova função. Ainda assim, é uma das surpresas desta recomposição de nomes a que Costa procedeu no novo elenco governativo.

Ana Abrunhosa, ministra da Coesão Territorial

Ana Abrunhosa, até agora presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (CCDRC), vai ser Ministra da Coesão Territorial. É uma estreia absoluta neste Governo. Aos 49 anos, a economista e professora da Universidade de Coimbra, vai ser um rosto de um Ministério que também é novo. Esta pasta passa agora a ser ministerial, pouco mais de um mês depois na Comissão Europeia Elisa Ferreira ter assumido a pasta da Coesão e das Reformas. A representante portuguesa vai negociar a atribuição de fundos em Bruxelas e será Ana Abrunhosa, por cá, que vai ser a interlocutora do Governo.

Este tipo de diálogo não é novo para a presidente da CCDR Centro. Ana Abrunhosa esteve na presidência desta entidade desde 2014. Ao longo dos últimos cinco anos foi responsável pela gestão de um orçamento de 2,2 mil milhões de euros, correspondente aos fundos comunitários do Centro 2020.

Antes, tinha sido vogal executiva da Comissão Diretiva do Programa Operacional Regional do Centro – Mais Centro (Fevereiro de 2010 a Maio 2014) e vice-presidente da CCDRC, responsável pelas áreas do Desenvolvimento Regional, do Apoio Jurídico e à Administração Local e da Comunicação, Gestão Administrativa e Financeira (Outubro 2008 a Fevereiro 2010).

Ganhou visibilidade no período pós-incêndios de Pedrógão Grande e de outubro de 2017, quando assumiu o processo de distribuição e alocação de fundos para a recuperação de casas danificadas. Esteve ainda envolvida num processo judicial onde era suspeita de ter difamado, em conluio com o seu marido, o seu antecessor na presidência da CCDR Centro para impedir que se candidatasse, deixando assim a via aberta para conseguir ocupar o cargo. Terminou absolvida — assim como o seu marido.

Ricardo Serrão Santos, ministro do Mar

Mal teve tempo para se (re)instalar nos Açores, onde reside. Ao longo dos últimos cinco anos esteve em Bruxelas como eurodeputado e terminou o mandato em junho. Mas terá de se mudar novamente e deixar o arquipélago. Aos 65 anos, vai assentar arraiais em Lisboa para ser Ministro do Mar.

Não foi candidato nas eleições europeias no lugar reservado para os  Açores, ao contrário do que acontecera em 2014, quando foi nas listas do PS como independente. Para o seu lugar foi André Bradford, que faleceu em julho. A sua não recondução pode ter neste novo cargo a explicação que muitos não conseguiram encontrar na altura da divulgação da lista de candidatos — já que numa eleição interna do Parlamento Europeu foi escolhido pelos seus pares como o melhor eurodeputado português.

Vai para o cargo que no último Executivo foi ocupado por Ana Paula Vitorino – embora sem o dossier das infraestruturas portuárias – e fica com uma pasta onde desde cedo se especializou, tornando-se professor universitário e investigador na área do Mar. Na Universidade dos Açores chegou a ser pró-reitor e era até agora professor do Departamento de Oceanografia e Pescas. É doutorado em Biologia e em Ecologia Animal pela Universidade dos Açores e pela Universidade de Liverpool.

A sua experiência política em Bruxelas também passou por estas áreas, tendo sido coordenador da Comissão das Pescas e membro efetivo da Comissão de Agricultura durante a última metade do mandato como eurodeputado.

Tiago Antunes, secretário de Estado Adjunto do primeiro-ministro

Tiago Antunes, 41 anos, está no governo desde julho de 2017, quando entrou para secretário de Estado da Presidência de Conselho de Ministros  (PCM) para substituir Miguel Prata Roque. Antes de chegar ao governo, Tiago Antunes estava no Parlamento Europeu como assistente do eurodeputado Pedro Silva Pereira, sendo próximo do antigo ministro de José Sócrates. Agora mantém-se no Governo, mas passa da PCM para São Bento e passa a ter assento nas reuniões do Conselho de Ministros como secretário de Estado Adjunto do primeiro-ministro.S.Bento é uma casa que Tiago Antunes conhece bem: foi assistente de Filipe Batista, no primeiro governo de Sócrates, e chefe de gabinete de João Almeida Ribeiro, no segundo mandato de Sócrates, precisamente quando estes ex-governantes ocupavam o cargo que agora vai ocupar.

Doutorado em direito desde 2015, Tiago Antunes foi também professor auxiliar na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Licenciou-se na mesma faculdade com 17 valores em 2001. Durante o mestrado fez um relatório sobre Direito Constitucional orientado pelo agora Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, no qual obteve 18 valores (nos relatórios orientados por Sérvulo Correia e Jorge Miranda teve 17 valores).

Quando era estudante Tiago Antunes fez Erasmus em Pisa, durante seis meses. Como professor deu aulas de Direito Administrativo e Direito do Ambiente. Na vida profissional, além de professor foi advogado na sociedade PLMJ & Associados entre 2001 e 2005 e investigador do CISDL – Centre for International Sustainable Development Law, entre 2011 e 2015.

Tiago Antunes é irmão do antigo diretor-geral da Energia, Miguel Barreto, que foi nomeado no tempo em que Sócrates era primeiro-ministro e Manuel Pinho ministro da Economia. Uma semana antes de Tiago Antunes entrar para o governo, o irmão foi constituído arguido no processo das rendas a EDP.

André Moz Caldas, Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros

Tem 36 anos e foi chefe de gabinete de Mário Centeno, nas Finanças. Há menos de três meses assumiu a presidência do Opart, organismo que gere o  Teatro São Carlos e a Companhia Nacional de Bailado e que estava a passar por um momento de especial turbulência sem Conselho de Administração. É agora o novo secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, cargo até agora ocupado por Tiago Antunes (que passa para a alçada direta de Costa, como secretário de Estado-Adjunto do primeiro-ministro). É Licenciado em Direito e Mestre em História do Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. É também licenciado em Medicina Dentária (2009). Exerceu advocacia até 2015, altura em que passou para chefe de gabinete de Mário Centeno. Foi presidente da junta de freguesia de Alvalade entre 2013 e 2018.

Os velhos conhecidos

Mário Centeno, ministro de Estado e das Finanças

Mário Centeno é das figuras mais populares do governo, de acordo com os estudos de opinião, e também uma das mais poderosas. É o Cristiano Ronaldo das Finanças e não só baixou o défice para mínimos históricos como corre o risco de ter excedente orçamental já este ano. A sua continuidade no governo não era uma surpresa já que tinha manifestado a vontade cumprir o mandato até ao fim no Eurogrupo, que só termina em junho de 2020. Ganhou estatuto de ministro de Estado, mas falta saber se ficará depois do fim do mandato que exerce a título europeu. Mesmo com o cognome de “o cativador” pela oposição, Centeno conseguiu ele próprio ser uma instituição dentro do governo. Costa tem em Centeno a garantia de rigor nas contas públicas.

Pedro Siza Vieira, ministro de Estado e da Economia

Pedro Siza Vieira, 55 anos, advogado de formação e um dos homens de maior confiança de António Costa, começou a exercer as funções de ministro em outubro de 2017, na remodelação provocada pela demissão de Constança Urbano de Sousa. À época, o primeiro-ministro aproveitou a substituição da titular do Ministério da Administração Interna para fazer algumas remodelações. Foi aí que o advogado amigo de Costa entrou para o Governo e logo para um lugar de destaque: Ministro Adjunto. Um cargo com peso político que foi desempenhando até 15 de outubro de 2018, data de uma outra remodelação governativa — desta feita provocada pela saída de Azeredo Lopes da pasta da Defesa, ferido de morte pelo caso Tancos. Siza Vieira assumiu a pasta da Ministro da Economia.

A subida na hierarquia do Governo conhece agora o seu pináculo. Siza Vieira mantém a pasta da Economia mas ganha o estatuto de Ministro de Estado. Mais: passa a número dois da hierarquia, o que significa que quando Costa estiver ausente de funções será Siza Vieira a assumir a Chefia do Governo. Se esta posição já é tradicionalmente relevante mais o é numa legislatura em que o Executivo vai assumir a Presidência rotativa da União Europeia — mais concretamente em 2021.

Augusto Santos Silva, ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros

Tem 63 anos, era ministro dos Negócios Estrangeiros e mantém-se à frente da mesma pasta. Mantém-se também como um dos pilares do núcleo político de António Costa, mas passa de número dois para número três do executivo, com Siza Vieira a subir a número dois. Ambos passam a ministros de Estado, completando com Mariana Vieira da Silva e Mário Centeno o leque de ministros de Estado deste novo governo (no anterior não havia esta categoria). A ideia, explicou o gabinete do primeiro-ministro em comunicado, é reforçar o núcleo central do Governo para Costa e Santos Silva poderem assegurar a condução da presidência portuguesa da União Europeia, que vai decorrer em 2021.

Pedro Nuno Santos, Ministro das Infraestruturas e da Habitação

Depois de negociar os quatro orçamentos do Estado com a “geringonça”, enquanto secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, Pedro Nuno Santos acabou por ser promovido a ministro com a pasta das Infraestruturas e Habitação. Uma mudança feita já na reta final da legislatura anterior com o objetivo de antecipar as pastas de um futuro executivo, o que agora se confirma. Foi o rosto de um dos momentos mais tensos da última fase da governação, a primeira greve dos motoristas de matérias pesadas e foi também o rosto da estratégia bem sucedida para lidar com a segunda greve, já em agosto. Nas pastas que permanecem sob a sua alçada incluem os investimentos rodo e ferroviários, os aeroportos e as telecomunicações, dossiers onde se prometem novos investimentos nesta legislatura. Herda ainda a gestão dos portos, que estava na tutela da anterior ministra do mar, e que comporta o complicado dossier dos estivadores que ocasionalmente dão dores de cabeça aos governos. Diz que nasceu e cresceu no PS, e no partido já foi secretário-geral da JS entre 2004 e 2008, líder de Federação em quatro mandatos e presidente de concelhia. Tem ambições políticas que não esconde para o dia em que se discutir a liderança do Partido Socialista.

Mariana Vieira da Silva, Ministra de Estado e da Presidência

Mantendo a mesma pasta, Mariana Vieira da Silva é uma das promoções no executivo, sendo que sobe a ministra de Estado. Para além de reforçar o núcleo central do governo, tem também dossiers a que Costa quer dar importância, cabendo-lhe a coordenação da Ação Climática, Demografia e Desigualdades. Na anterior legislatura, Mariana Vieira da Silva fez a maior parte do percurso como secretária de Estado-adjunta do primeiro-ministro. Foi uma presença discreta, mas importante, no governo enquanto braço direito de António Costa. Trabalhou, sobretudo, na sombra, num posto de coordenação da ação política e da comunicação de todos os ministérios e secretarias de Estado do governo, que nem sempre estão em total sintonia e quase sempre competem pelo espaço mediático. Mulher da confiança absoluta do primeiro-ministro, não surpreendeu a subida a ministra da Presidência na última remodelação governamental, em fevereiro deste ano, já a preparar o futuro. São-lhe reconhecidas a discrição e a lealdade, a inteligência e intuição políticas, que depois reforça com conhecimento da governação e das políticas públicas.

Eduardo Cabrita, ministro da Administração Interna

Em outubro de 2017, depois dos trágicos incêndios de Pedrógão e da zona centro, Eduardo Cabrita foi a solução de Costa para a pasta da Administração Interna: saiu Constança Urbano de Sousa e Eduardo Cabrita, homem de confiança política do primeiro-ministro, passou de ministro-Adjunto para ministro da Administração Interna, onde se manteve até ao fim do governo e com pasta que agora vai repetir. Era ele o responsável pela pasta quando rebentou a polémica das golas inflamáveis que estavam a ser distribuídas pela Proteção Civil num kit de emergência contra incêndios. O caso levou à demissão do seu secretário de Estado, José Artur Neves, que foi constituído arguido. Eduardo Cabrita, de resto, é casado com Ana Paula Vitorino, que era ministra do Mar no anterior executivo. António Costa fez questão de eliminar qualquer familiar direto do executivo na sequência da polémica do familygate, pelo que mantém Eduardo Cabrita e deixa cair Ana Paula Vitorino, que é substituída por Ricardo Serrão Santos.

Tiago Brandão Rodrigues, ministro da Educação


Tiago Brandão Rodrigues vai manter-se no cargo de Ministro da Educação e com isso consegue um feito raro: é o primeiro ministro da Educação a completar um mandato e a ser reconduzido a seguir. Já tinha mostrado abertura para a sua recondução mas fez sempre depender esta decisão da vontade do primeiro-ministro. Chegou a especular-se sobre a possibilidade de ser substituído por Alexandra Leitão, que foi sua secretária de Estado na última legislatura, mas acabou por manter-se à frente dum dos ministérios mais combativos — o que não impediu que Alexandra Leitão subisse a ministra, embora de outra área. Brandão Rodrigues foi acusado pelos sindicatos de estar a ser instrumentalizado por Mário Centeno, sobretudo na questão da contagem do tempo de serviço da carreira dos professores. Aliás, o líder da Fenprof, Mário Nogueira tinha chegado a dizer no início desta semana que se o ministro fosse reconduzido no cargo seria uma afronta para os professores.

Apesar de todas as dúvidas e ameaças, Tiago Brandão Rodrigues vai mesmo ser reconduzido como Ministro da Educação, desta vez sem Alexandra Leitão na equipa — uma das peças centrais da política de Educação do último Governo — e com os professores insatisfeitos.

Marta Temido, ministra da Saúde

A ministra da Saúde não terá tarefa fácil: o Serviço Nacional de Saúde é das áreas onde a oposição (que pode agora ser mais alargada) mais insiste. A ministra da Saúde é mais um caso de continuidade, mas não tem um desgaste de quatro anos de governação, pois só entrou no governo na remodelação de outubro de 2018, quando substituiu Adalberto Campos Fernandes. É doutorada em Saúde Internacional pelo Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa e tem mestrado em Gestão e Economia da Saúde, além de uma licenciatura em Direito.
Antes de ir para governo Marta Temido exercia os cargos de subdiretora do Instituto de Higiene e Medicina Tropical e de presidente não executiva do conselho de administração do Hospital da Cruz Vermelha Portuguesa. O próprio António Costa já tinha deixado escapar que Marta Temido continuaria no Governo quando disse durante a campanha, no comício de Coimbra, que a ministra “é mesmo temível e vai mesmo fazer mais e melhor”.

Francisca Van Dunem, ministra da Justiça

Depois de muita especulação, mantém-se no executivo tal como o Observador já tinha avançado. A ministra da Justiça ocupa o cargo desde o início do governo e teve nas mãos a revisão do estatuto e a nova tabela salarial de magistrados e juízes. Com carreira no Ministério Público, integrou o gabinete do Procurador-Geral da República entre 1999 e 2001, foi diretora do DIAP de Lisboa entre 2001 e 2007. Desde essa data e até ir para o governo era Procuradora-Geral Distrital de Lisboa. No seu gabinete tem um pequeno quadro da artista Susan Norris com o título “O Lobo na pele de Cordeiro” e exerce a sua tutela de forma discreta. Apesar de enfrentar alguns problemas na justiça, Van Dunem manteve a confiança de António Costa. Terá como prioridades neste mandato estabelecer um contrato para um serviço público de justiça, que fixe metas para o sistema judicial e para cada tribunal, implementar um regime de incentivos à produtividade das equipas dos tribunais que cumpram as metas e resolver os problemas e uma nova versão do sistema de gestão processual CITIUS.

João Gomes Cravinho, ministro da Defesa

Filho do histórico ministro do PS, já tinha sido governante como secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e Cooperação nos dois governos de José Sócrates. Na penúltima remodelação, em outubro de 2018, João Gomes Cravinho foi nomeado ministro da Defesa, substituindo Azeredo Lopes, já muito fragilizado pelo caso Tancos. Na altura em que Costa o foi buscar para ministro, Cravinho era embaixador da União Europeia no Brasil, cargo que ocupava desde 2015. Antes disso tinha sido embaixador da UE na Índia. Gomes Cravinho passou sempre ao lado do caso de Tancos e diz que o seu antecessor não lhe falou no memorando.

Nelson de Souza, Ministro do Planeamento

O ministério de Nelson de Souza foi criado no final da legislatura anterior e era um sinal (reforçado agora neste executivo) de que Costa queria dar grande importância aos assuntos comunitários e que via nos fundos europeus a mais importante fonte de investimento público nos próximos anos. Presença discreta no executivo, antes de ser ministro Nelson de Souza tinha sido o homem de Pedro Marques para a vertente de fundos comunitários para as empresas, sendo também uma mais valia no campo das candidaturas autárquicas aos fundos, já que tinha essa experiência da autarquia lisboeta. Foi por ele que passaram as negociações para o Quadro Comunitário de Apoio 2021-2027. O primeiro-ministro já apontou o seu ministério como um dos que tem uma amplitude transversal, focado na conclusão do PT2020 e no lançamento do novo Quadro e na reconstrução das competências de planeamento e análise prospetiva no Estado.

Matos Fernandes, ministro do Ambiente e da Ação Climática

João Matos Fernandes é o ministro com mais sentido de humor e tem uma excelente relação com o primeiro-ministro. Tem o desafio de iniciar uma luta de larga escala contra as alterações climáticas até para ir de encontro às exigências do eleitorado. A aposta nas renováveis, a redução dos combustíveis fósseis e a redução do plástico, onde o governo português quer ser pioneiro e ir além da comissão europeia, são pastas que terá nas mãos. Terá também a pasta da energia (com o lítio a ser um problema) e os transportes, que terão de continuar com uma política de passes sociais mais baixos, sob pena de haver uma ideia de retrocesso. O nome de Matos Fernandes até foi falado para a sucessão de Rui Moreira no Porto, mas — mesmo que seja uma possibilidade para a autarquia portuense — as autárquicas ainda estão longe.

Graça Fonseca, ministra da Cultura

Foi uma das protagonistas da remodelação de outubro de 2018, quando António Costa deixou cair Luís Filipe Castro Mendes na Cultura e fez subir àquela pasta a dirigente socialista e até então secretária de Estado da Modernização Administrativa. Graça Fonseca é doutorada em Sociologia pelo ISCTE — Instituto Universitário de Lisboa, com mestrado em Sociologia pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e licenciada em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Foi Investigadora do Centro de Estudos Sociais da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, entre 1996 e 2000, vereadora na Câmara Municipal de Lisboa com os pelouros da Economia, Inovação, Educação e Reforma Administrativa, entre 2009 e 2015. E, entre 2005 e 2007, foi chefe de gabinete de António Costa, quando era Ministro de Estado e da Administração Interna, no primeiro Governo liderado por José Sócrates.

Ainda secretária de Estado da Modernização Administrativa, Graça Fonseca foi a primeira governante a assumir a sua homossexualidade, numa entrevista ao Diário de Notícias, fazendo dessa uma questão política. Vai continuar na Cultura, com a sub-pasta da comunicação social, mesmo depois de algumas mini-polémicas, como quando estava no México em representação de Portugal como país convidado da mais importante Feira do Livro da América Latina e disse que achava “ótimo” não ler jornais portugueses há quatro dias.

Manuel Heitor, ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior

Manuel Heitor não é novato nas lides governativas. Começou por ser secretário de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior nos governos de José Sócrates, diretamente tutelado por Mariano Gago, então Ministro do Ensino Superior. Académico e professor universitário, chegou a ministro em 2015, assumindo a pasta da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. Quatro anos depois, aos 61 anos e com a redução das propinas na bagagem, vai voltar a desempenhar o cargo depois de muito se ter especulado acerca da sua continuidade — chegou mesmo a ser dado como carta fora do baralho, mas António Costa decidiu reconduzi-lo.

Duarte Cordeiro, Secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares

Duarte Cordeiro foi secretário-geral da JS entre 2008 e 2010, deputado socialista entre 2009 e 2013 e foi vice-presidente da Câmara de Lisboa, antes de entrar para o governo em fevereiro de 2018. Nessa altura, estado já fechados os quatro orçamentos da legislatura anterior, as negociações essenciais da “geringonça” estavam para trás e pôde acumular as funções que até esse momento estavam com Mariana Vieira da Silva e com Pedro Nuno Santos. Para além da confiança pessoal de Costa, a sua escolha para o governo permitiu sinalizar às esquerdas no parlamento que continuavam a contar com um interlocutor com um perfil político semelhante. Ainda assim teve dossiers complicados para fechar. Não só na lei de bases da habitação e na da Saúde, onde apesar de toda a tensão a “geringonça” funcionou, como na legislação laboral onde houve uma clara divisão entre o PS e os partidos à sua esquerda. Agora, o Parlamento volta a ser um ponto essencial da gestão política do governo e Duarte Cordeiro terá de negociar quer à esquerda quer, eventualmente, à direita. Por isso, Costa retomou a organização que vigorava durante grande parte da legislatura anterior com um secretário de Estado só para os Assuntos Parlamentares e outro como seu adjunto em São Bento.