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▲Isaac Nader sagrou-se campeão do mundo dos 1.500 metros ao Ar Livre

AFP via Getty Images

▲Isaac Nader sagrou-se campeão do mundo dos 1.500 metros ao Ar Livre

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Quer ser melhor todos os dias, tornou-se o melhor do mundo: Isaac Nader, o menino que não tinha sapatilhas e estava destinado ao futebol

Começou nas caminhadas, seguiu as pisadas da família no futebol, mas a escola deu-lhe a conhecer o atletismo. Mudou-se para Espanha à procura de evoluir, superou o ex-técnico Rui Silva e fez história.

Isaac Nader transformou-se numa das principais esperanças do atletismo português nos últimos anos, que ansiava por encontrar um ídolo e uma figura depois de Rui Silva se ter despedido das pistas. Curiosamente, foi com o antigo atleta olímpico que começou a trabalhar e despontou nos palcos internacionais, levando consigo uma espécie de passagem de testemunho. Já sem o contributo de Rui Silva e longe do território nacional, o meio fundista português saltou para as primeiras páginas dos jornais na última quarta-feira, ao surpreender tudo e todos com a conquista do título de campeão do mundo dos 1.500 metros, prova em que não era apontado às medalhas e onde fez uma recuperação fabulosa nos últimos 100 metros. “Finalmente, Nader!”, foi a frase que ecoou na cabine do Eurosport Portugal imediatamente após o português cortar a linha de meta no primeiro lugar, carregada da emoção de um país que esperou décadas para viver aquele momento. Isaac viveu-o como ninguém, e mereceu-o.

“É um sonho de criança. Tive de me controlar um pouco, não queria chorar, não é muito a minha coisa, mas não se explica. A medalha de ouro permite ouvir o hino nacional. No futebol ouve-se no início do jogo, mas nós só ouvimos se ganharmos. Estou um pouco cansado, emocionalmente muito em baixo, mas muito contente, muito feliz. Já levo algum tempo a dizer que este é o meu sonho: ganhar uma medalha. Já tenho duas. Hoje sou campeão do Mundo! Só há um título maior que este: ser campeão olímpico. Até acredito que ser bronze nos Jogos é melhor que ser campeão [do mundo]. Já calei muita gente que dizia que o Isaac não podia ganhar, mas o que importa é que eu, a Salomé [Afonso, a namorada], a minha família, o meu treinador e as pessoas que acreditam realmente em mim, sempre tivemos paciência. Cada vez tenho menos nervosismo e cada vez coloco menos pressão em mim próprio. É uma corrida de cada vez”, explicou Nader à Federação Portuguesa de Atletismo (FPA), após a conquista do ouro.

“Nos últimos 100 metros acho que vinha em sétimo, pensei em dar tudo até final porque ainda podia ser campeão mundial e porque ninguém me tinha de passar. Desta vez, a meta tinha de ser o foco e não podia olhar para trás. Hoje ninguém pode criticar o Isaac por olhar para trás. Foi até ao último metro. Nem sei com quanto [tempo] ganhei. O que importa é que ganhei. No final, faltavam 200 metros, tinha energia e não sabia quanta ainda tinha no tanque… Às vezes, as pessoas não percebem porque olho para trás. Quando não posso passar ninguém, olho ao menos para assegurar o lugar que tenho. Aconteceu nos últimos Mundiais de Pista Curta. Não é por insegurança, foi um tique que ganhei. Se é bom ou mau… é o que é. Nos últimos 40 metros, acreditei bastante e achava que tinha tanta energia que me surpreendi”, disse, ainda, à agência Lusa.

Um sprint na reta final que encontrou um lugar na história: Isaac Nader sagra-se campeão mundial dos 1.500 metros em Tóquio

Do começo nas caminhadas, à escolha que mudou a sua vida

Nascido a 17 de agosto de 1999, em Faro, no Algarve, Isaac Zambujeiro Nader é fruto do casamento entre um homem marroquino, Youssef Nader, e uma mulher portuguesa, Ana Zambujeiro, que podiam fazer com que o atleta tivesse as duas nacionalidades. Não aconteceu porque Isaac sempre se demarcou de Marrocos. “O meu pai é marroquino mas eu nasci em Portugal, a minha mãe é portuguesa, e não tenho qualquer tipo de ligação a Marrocos. É sempre chato ouvir esses comentários”, contou em 2023, numa entrevista à RFI. “O pai do Isaac é marroquino, eu sou portuguesa. O Isaac nasceu em Faro. Tinha dois ou três anos de idade e eu ia fazer caminhadas com amigas, ou às vezes até sozinha, e levava o Isaac. E o Isaac sempre mostrou ser aguerrido, ser lutador e aguentar. Tinha estofo. Mostrava realmente ter uma grande aptidão física para o desporto e muita resistência“, retratou a mãe à Rádio Renascença.

Isaac Nader despontou no atletismo, mas foi o futebol que marcou a sua vida. Foi graças ao desporto-rei que o pai se fixou em Portugal, no sul do país, e conheceu a sua mãe. Youssef representou clubes como Farense, Santa Clara e Tirsense, tendo sido treinador adjunto do Lordelo até 2024. Mais bem sucedido foi Hassan Nader, irmão de Youssef e tio de Isaac, que passou por Farense e Benfica nas décadas de 90 e 2000. Ponta de lança de origem, Hassan foi o melhor marcador do Campeonato em 1994/95, com 21 golos, ao serviço dos algarvios. Nas águias esteve na conquista da Taça de Portugal de 1996, frente ao Sporting. Atualmente está ligado à equipa de legends dos leões de Faro.

Para além do pai e do tio, também o primo Mohcine Hassan Nader, filho de Hassan, ingressou no futebol, estando atualmente ligado à Liga da Indonésia, no PSBS. Antes, o ponta de lança de 30 anos representou Anadia (até à época passada), Alverca, Olhanense, V. Setúbal, Pinhalnovense, Casa Pia e Inter de Almancil, onde começou. Por outro lado, o gémeo Diogo Nader também é futebolista e representou CD Montenegro, Farense e 11 Esperanças, embora jogue como lateral esquerdo. Por tudo isto, tornou-se inevitável que a caminhada de Isaac Nader não passasse pelo futebol, onde começou com nove anos e ao lado do irmão, no Clube Desportivo Montenegro, da cidade de Faro. A atuar na posição de médio ou ala, Nader seguiu para o Farense, onde esteve até 2016 e ser juvenil de segundo ano. Ali, foi colega de Leandro Andrade, extremo que representa Cabo Verde e que, na última semana, se destacou no Estádio da Luz, ao marcar pelo Qarabag. Foi nessa altura que trocou o relvado pelos tartans e enveredou por outra carreira desportiva.

O primeiro contacto com o atletismo deu-se na escola, através do programa Desporto Escolar, numa altura em que “não tinha sapatilhas adequadas” para competir no “Campeonato Nacional de Desporto Escolar”, explicou à RTP Francisco Soares, diretor do Agrupamento de Escolas Pinheiro e Rosa, que dá apoio a diversos estudantes que são atletas de alto rendimento. Isaac foi um desses casos, tendo recebido da escola o equipamento que precisava. Anos mais tarde, já como atleta de alta competição, retribuiu o gesto, oferecendo sapatilhas a crianças desfavorecidas da escola. Em 2012 começou a competir e a treinar no CD Faro XXI, seguindo-se o Areias de São João e o Benfica, o seu clube do coração, que representa desde 2017.

Foi nessa altura que escolheu entre as duas paixões da sua vida. “Ainda não levava o atletismo a sério. Já competia, num clube de Faro, ganhava umas provas, mas ainda não tinha feito a escolha entre o futebol e o atletismo. Joguei futebol no Farense, até aos juvenis, e esse convite para vir para o Benfica é que determinou a escolha de um caminho. Optei pelo atletismo e ainda bem que o fiz. É justo dizer que a escolha pelo atletismo não foi difícil, porque, no futebol, a bola atrapalhava um pouco. Do que eu gostava mesmo era de correr”, contou ao jornal A Bola.

“A quem dizia que não podia ganhar, já calei muita gente”: a emoção de Isaac Nader, o campeão mundial que só olha para trás “por tique”

Quando chegou às águias, Nader ainda não era atleta a 100%, mas sabia que o seu futuro ia passar pela modalidade. Prova disso foi a forma como evoluiu e como, com apenas 18 anos, chegou aos 3.55,87 nos 1.500 metros. No ano seguinte, melhorou o melhor tempo em mais de oito segundos (3.47,68) e começou a afirmar-se como uma das maiores esperanças de Portugal no meio-fundo, embora faltasse a afirmação no cenário internacional, já que os dois registos foram conseguidos em provas nacionais: os Nacionais de Sub-20, na Marinha Grande, e o meeting da Maia. Esse “salto” deu-se em 2020, quando chegou aos 3.39,97 no Memorial José Antonio Cansino, em Castellón. Dois anos depois, já estava no segundo 36 (3.36,50) e prometia baixar dos 3.33, algo que Rui Silva conseguiu fazer em dez ocasiões. O objetivo passava ainda por bater o recorde nacional do treinador: 3.30,07, batido em julho de 2002, no Mónaco.

epa12384891 Isaac Nader (L) of Portugal beats Jake Wightman of Great Britain on the finish line to win the Men's 1500m final at the World Athletics Championships 2025 in Tokyo, Japan, 17 September 2025.  EPA/FRANCK ROBICHON

▲ Isaac Nader bateu o britânico Jake Wightman em cima da linha de meta

FRANCK ROBICHON/EPA

O treinador dos campeões colocou Nader (e a namorada Salomé) no caminho dos recordes

2022 acabou por ser o ano de mudança para Isaac Nader. Já depois de se ter estreado em Campeonatos do Mundo, em Eugene, no EUA, onde não passou das eliminatórias, o atleta ficou sem treinador, depois de Rui Silva ter abandonado essa função e de já não ter marcado presença nos Mundiais. Nesse sentido, Nader decidiu rever a sua preparação com os responsáveis do atletismo das águias e, juntamente com a namorada Salomé Afonso, que representava o Sporting, optou por começar a trabalhar com Enrique Pascual, treinador espanhol que já tinha orientado campeões olímpicos e mundiais, como Abel Antón e Fermín Cacho. O casal de meio-fundistas mudou-se, então, para o norte de Espanha, instalando-se em Sória, onde Pascual tem a sua academia de treinos, em Los Pajaritos. O salto qualitativo foi gritante e, apenas num ano, Isaac melhorou cinco segundos e tornou-se no segundo melhor português de sempre (3.31,49).

A tão procurada afirmação internacional estava cada vez mais perto e Isaac Nader começou a ser apontado com o sucessor de Rui Silva. Faltava bater o tempo do antigo treinador e baixar dos 3.30. Desde a mudança de treinador, Nader começou a aparecer em praticamente todas as finais das grandes competições, registo que também começou a ser frequente em Salomé, que decidira congelar o curso de medicina para partilhar casa e todo o espaço de treinos com o namorado. Para além disso, a partir de outubro do ano passado, a atleta de 27 anos assinou pelo Benfica, depois de um período em que chegou a competir como individual, devido à sua saída do Sporting. No que concerne a Isaac, o atleta das águias tornou-se no primeiro português a correr abaixo dos 3.30 em junho deste ano, ao colocar o recorde de Portugal nos 1.500 metros em 3.29,37, em Ostrava, marca que não era batida há 15 anos. Os recordes não se ficam por essa distância, já que Isaac Nader é, por esta altura, o recordista nacional dos 800 metros (1.43,86, feitos em junho), dos 10 quilómetros na estrada (28.01, feitos em janeiro) e dos 800 metros (1.46,18) e dos 1.500 metros (3.32,59) em pista coberta, marcas que também alcançou em 2025.

Tentou o futebol com o irmão gémeo, apaixonou-se pelo atletismo, congelou Medicina: Salomé Afonso, a atleta que “corre por gosto”

Para o agora campeão do mundo dos 1.500 metros, as medalhas e os registos só foram possível porque “dois atletas resolver da zona de conforto” e “mudar de país”, partilhou depois dos Europeus deste ano. “É a cereja no topo do bolo. Hoje em dias, os atletas têm que sair da zona de conforto. O estágio em altitude é muito importante. Os melhores do mundo fazem-no e nós também temos de fazer. Tomámos essa decisão em 2022, depois de uma época de verão menos conseguida, porque achámos que faltava algo na nossa carreira para chegarmos onde chegámos: às medalhas. Para estarmos onde estamos hoje, a lutar com os melhores do mundo e a um grande nível, esse era o passo importante. Em Portugal continuo a não ver essa possibilidade, em termos de treinadores e de mentalidade. Aquilo trabalhamos muito para chegar a um grande Campeonato através do ranking. Nós temos de procurar fazer os máximos e melhor ano após ano. Benfica? Tenho todo o apoio para chegar ao patamar onde estou. O clube ajudou-me a fazer esta mudança em termos monetários”, revelou em entrevista à BTV.

Enrique Pascual tem 68 anos e é natural de Brías, localidade da província de Sória. É especialista nas provas de fundo e meio-fundo, tendo começado a trabalhar na vertente do treino em 1991, na seleção espanhola, depois de se ter licenciado em Educação Física. Em 2004 fez parte da criação do Centro de Alto Rendimento e Promoção Desportivo (CAEP), instituição que se tornou numa referência internacional e que tem um plano específico para atletas estrangeiros, o Grupo Internacional de Alto Rendimento em provas de fundo, que desenvolveu em 2023. Como treinador, o espanhol opta por trabalhar com atletas maduros e tende a apostar num processo de treino contínuo, regulado e sistemático, que coloca à prova os seus atletas. “A ideia é simples: se o atleta tiver paciência, treinar todos os dias e criar uma rotina, vai conseguir bons resultados”, partilhou o treinador. “Treinar todos os dias não é muito fácil. Há que ser resiliente e gostar daquilo que fazemos”, assumiu Nader em declarações ao Comité Olímpico de Portugal (COP).

Atualmente, Isaac Nader ocupa o oitavo lugar do ranking mundial nos 1.500 metros e soma, entre outros, um título de campeão do mundo, um título de campeão do Campeonato Ibero-americano, dois títulos de campeão da Europa por equipas, sete títulos nacionais de pista coberta e oito ao ar livre, para lá da medalha de prata nos Jogos Europeus de 2023 e do bronze em Apeldoorn, no início deste ano, ambas nos 1.500 metros. Na sua apresentação para os Jogos Olímpicos de Paris-2024, Nader confessou que Mo Farah é o seu ídolo, que o que mais gosta no atletismo são as “competições de alto nível” e que, fora do desporto, gosta de “ver séries” e “ir ao café”. “Não tem nada a dizer de menos bom” sobre a modalidade e, quando acabar a sua carreira, ainda não sabe o que vai fazer. “Ser um pouco melhor todos os dias” é a sua frase inspiradora, que cumpre com distinção. Isaac deixo de ser o melhor atleta português de sempre na sua categoria. Passou a ser o melhor do mundo.

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