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iStockphoto/vchal

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Quer tirar plástico dos oceanos? Tem de lavar menos a roupa e deixar de usar toalhitas /premium

É prático e barato. Faz parte do nosso dia a dia, mas há muito que contamina os oceanos. Chegou a hora de vivermos sem o plástico? Entrevista ao responsável pelos oceanos da Greenpeace UK.

As roupas que usamos contêm microfibras que representam um terço do plástico que contamina os oceanos do planeta. De cada vez que as lavamos, estamos a contribuir para propagação desses pedacinhos de plástico (com menos de 5 milímetros de diâmetro), que viajam até ao fundo do mar e chegam a entrar na cadeia alimentar. O mundo em que vivemos foi invadido pelo plástico, produto flexível e barato que se esconde nos produtos mais banais do nosso dia a dia — nem as toalhitas, que usamos para tirar a maquilhagem ou para limpar os bebés, estão imunes.

Este é parte do discurso de Will McCallum, responsável pelos oceanos da Greenpeace UK e autor do livro Viver sem plástico (editora Objetiva), recentemente lançado em Portugal. Em entrevista ao Observador, McCallum conta como encontrou plástico em 90% das amostras colhidas quando viajou ao oceano mais remoto do planeta, na Antártica, e garante que “4 a 13 milhões de toneladas chegam aos oceanos todos os anos“, um número que é bem capaz de duplicar nos próximos 10 anos e quadruplicar até 2050.

O livro não se limita a apresentar números avassaladores e procura incutir um sentido de dever nos seus leitores, que também se devem juntar à causa. E isso começa precisamente por mudar o estilo de vida e ajustá-lo a um dia a dia com menos plástico: “Usar sacos e garrafas de água reutilizáveis e pôr de lado as palhinhas. São as coisas mais fáceis de fazer. Depois, é andar pela casa e escolher uma ou duas coisas de plástico para substituir — a escova de dentes pode ser de bambu, as fraldas podem ser reutilizáveis. Na cozinha há alimentos que podemos comprar a granel, para não estarmos sempre a comprá-los em embalagens de plástico. Estas são coisas fáceis que as pessoas podem fazer atrás de portas fechadas, nas suas casas”, diz.

O livro tem um pvp de 14,90€.

No livro escreve que estamos numa situação “ridícula”, ao criarmos um material sem termos um plano para lidar com ele posteriormente. Não há mesmo um plano?
Não, não ao ritmo a que estamos a produzir plástico. Atualmente, estamos a produzir mais de trezentos milhões de toneladas por ano de plástico. Isto são estimativas, mas pensamos que 4 a 13 milhões de toneladas chegam aos oceanos todos os anos. Esse número é capaz de duplicar nos próximos 10 anos e quadruplicar em 2050. Não há infraestruturas no mundo e não há tecnologia, até ao momento, para lidar com essa quantidade de plástico. O único plano real — e o único viável — é reduzir dramaticamente a quantidade de produção. Nós podemos ter diferentes sistemas de reciclagem, mas com números como estes… Não vamos conseguir lidar com isto.

Como é que chegámos até aqui?
Chegámos até aqui porque as pessoas não olham para o futuro. Porque os produtores de plástico não foram responsabilizados pelo que faziam. Eles podiam culpar o consumidor e podiam até culpar os governos. Agora, estamos numa situação em que pessoas em todo o mundo estão a despertar para esse facto, de que não devem ser responsabilizadas por este problema. As empresas que produzem muito plástico têm de assumir maior responsabilidade pelo que fizeram.
“Como é que é possível um lavagante acabar com o logótipo da Pepsi ‘tatuado’ na casca? Eis uma pergunta com que ninguém imaginaria ver-se confrontado.” Viver sem plástico, pág. 38

"Vemos o aumento de cheias em cidades porque os resíduos de plástico entopem esgotos e canalizações; vemos plástico na superfície dos oceanos; vemos centenas de milhares de animais marinhos emaranhados ou a sufocar em plástico; já 90% das aves marítimas têm plástico nas entranhas…"

Que cenário conseguimos adivinhar para 2050? Como será o mundo dos nossos filhos e dos nossos netos?
Acho que já existem vislumbres desse futuro em todo o mundo. Vemos o aumento de cheias em cidades porque os resíduos de plástico entopem esgotos e canalizações; vemos plástico na superfície dos oceanos; vemos centenas de milhares de animais marinhos emaranhados ou a sufocar em plástico; já 90% das aves marítimas têm plástico nas entranhas… Começamos a ver o impacto do plástico que começa a entrar na cadeia alimentar. Esses são os impactos que conhecemos. O que não conhecemos, o que é assustador, é se isto poderá afetar a saúde humana. Ainda não temos conhecimento sobre isso, mas sabemos que o plástico contém toxinas e sabemos que, quando o plástico chega aos oceanos, eles acumulam mais toxinas. Ou seja, o plástico já está a deixar o ambiente marinho mais tóxico para os peixes e para o marisco que chega ao nosso prato. Num estudo recente no Reino Unido, 100% dos moluscos tinham plástico no interior. Esse já é o mundo em que vivemos. Quando fui à Antártica, ao oceano mais remoto no mundo, encontrei plástico em 90% das nossas amostras. O mundo que espero que exista em 2050 é um em que já tenhamos reduzido massivamente a quantidade de plástico que estamos a produzir. Aí sim, podemos focar-nos em limpar. Agora, precisamos de parar de produzir tanto plástico.

A reciclagem não é a única solução?
A reciclagem vai estar sempre mais direcionada para os plásticos de maior valor e vai sempre haver um limite de plástico que conseguimos reciclar. A única solução viável é produzir menos. Basta olhar para os produtos que estão excessivamente embalados ou para os produtos que não precisam de embalagens de todo. Podemos começar a pensar sistemas de entrega alternativos: será que podemos transportar as coisas em embalagens reutilizadas, será que podemos ter uma cadeia de fornecedores mais curta, de maneira a não sermos tão dependentes de embalagens de plástico?

“Mesmo que se desfaça do seu plástico de forma responsável, este poderá acabar por ser vendido e enviado para outro país, para ser reciclado, incinerado ou depositado noutro sítio, caso fique contaminado. No final de 2017, a China anunciou que iria deixar de receber resíduos de plástico enviados por outros países, dado que os seus sistemas de gestão já não são capazes ou não estão dispostos a tratar do plástico provindo do exterior (…) Os países da Europa e da América do Norte vêem-se agora obrigados a procurar novos destinos para os seus resíduos.” Viver sem plástico, pág. 53

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A reciclagem é, em si, um negócio?
Apenas os plásticos de maior valor monetário são reciclados, porque são vendidos por mais dinheiro. A não ser que haja grandes apoios estatais alocados às infraestruturas da reciclagem, não se vai lidar com plástico de baixo valor. A reciclagem existe para servir um propósito muito específico e, infelizmente, a produção de plástico está a ultrapassar esse propósito.

Sabe dizer quais são as marcas mais poluentes no mundo?
Em outubro vamos divulgar um relatório para o qual fizemos inquéritos às maiores empresas de bens de consumo rápido no mundo. Não sabemos ainda quais vão aparecer no topo. Sei que em termos de garrafas, a Coca-Cola produz 120 mil milhões de garrafas por ano, são os maiores produtores de garrafas de plástico. Mas em outubro saberemos melhor quem são os grandes produtores.

Que países já estão a agir contra o plástico?
A União Europeia está a tomar algumas medidas muito boas em relação ao plástico. Existe uma boa lista com itens que vão ser banidos na nova legislação. Não tem tantos itens como nós gostaríamos, mas…  Há países a fazerem coisas interessantes: a Alemanha tem um esquema de “depositar e devolver” garrafas extremamente eficaz, recolhe 90% das garrafas produzidas. Há também províncias na Índia que estão a banir o plástico de uso único.

O que são microplásticos?

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Segundo o autor, os microplásticos são “pedacinhos de plástico com um comprimento inferior a 5 milímetros, de acordo com algumas definições. Alguns microplásticos — como, por exemplo, as microesferas — são concebidos de raiz com esse tamanho diminuto. No entanto, há muitos microplásticos que são fragmentos de objetos de plástico de maiores dimensões, como sacos ou garrafas, que se vão desfazendo aos poucos em pedaços cada vez mais pequenos”.

O que é isto do plástico invisível?
Plástico invisível são todos os plásticos com menos de 5 milímetros. Podem ser plásticos de maior dimensão que se dividem em peças mais pequenas. A forma mais comum de microplásticos são as microfibras, isto é, fibras muito finas e pequenas, que dificilmente conseguimos ver sem um microscópio. Elas representam um terço de todo o plástico nos oceanos. Uma grande proporção das microfibras vem das nossas roupas — acho que isso é uma coisa que surpreende sempre as pessoas. Cerca de 60% da nossa roupa é feita com fibras sintéticas — nylon ou poliéster — e, de cada vez que as lavamos, elas libertam microfibras que são desenhadas para irem ralo abaixo até aos esgotos e até aos oceanos. Essa é, muito provavelmente, a maior fonte individual de plástico invisível. Outra coisa que penso que as pessoas muitas vezes não sabem é que os pneus de plástico nas estradas também libertam essas microfibras que vão parar aos oceanos. Com a roupa, a melhor coisa a fazer é comprar menos roupa feita com fibras sintéticas. Mas, tendo roupas com fibras sintéticas, estas devem lavadas a uma temperatura muito reduzida, usando um detergente líquido. Outro conselho é lavar mais roupa de cada vez… É mesmo preciso lavarmos a roupa tantas vezes? De cada vez que lavamos a roupa estamos a pôr microfibras nos oceanos.

“A maior parte das pessoas, entra as quais me incluo, nunca ouvira falar em microesferas: trata-se de minúsculos fragmentos de plástico, com menos de 5 milímetros de diâmetro, que começaram a ser sorrateiramente adicionadas a muitos produtos domésticos e que foram concebidos especificamente para serem escoados pelas águas de lavagem, sem que ninguém fizesse ideia do destino que iriam ter. Até que, em dezembro de 2013, foi publicada uma nova pesquisa que revelava o grau de poluição provocado pelo plástico na região dos Grandes Lagos do Canadá (…). Estimava-se que o lago Ontário, o mais pequeno deles, contivesse 1.1 milhões de microesferas por quilómetro quadrado.” Viver sem plástico,  pág. 23

"Cerca de 60% da nossa roupa é feita com fibras sintéticas — nylon ou poliéster — e, de cada vez que as lavamos, elas libertam microfibras que são desenhadas para irem ralo abaixo até aos esgotos e até aos oceanos."

Que outros produtos mais improváveis que contêm plástico?
Acho que muitas pessoas não sabem que as toalhitas [para tirar a maquilhagem ou usadas na higiene dos bebés] são feitas na sua maioria com fibras sintéticas não recicláveis. O principal a fazer com as toalhitas é não as deitar para a sanita, porque vão parar aos oceanos. No Reino Unido, no rio Tamisa, em Londres, a forma do leito do rio mudou por existirem muitas toalhitas no rio. Elas também são frequentemente encontradas nas praias porque as pessoas metem-nas pela sanita abaixo. A melhor coisa a fazer é voltar a usar um pano de flanela, mas se isso não for possível, já ajuda não meter as toalhitas na sanita.

O que procurar no contra-rótulo dos cremes e dos cosméticos

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  • Polietileno (PE)
  • Polipropileno (PP)
  • Politereftalato de etileno (PET)
  • Polimetilmetacrilato (PMMA)
  • Politetrafluoretileno (PTFE)
  • Nylon

As microesferas de que fala no livro estão presentes em produtos cosméticos, como os esfoliantes para a pele?
Sim, mas elas estão na diretiva da União Europeia, pelo que vão ser banidas. Mas a melhor maneira de perceber se a maquilhagem ou os cremes que usamos têm microesferas é ir ao site www.beatthemicrobead.org. Eles têm uma lista muito completa de produtos.

O tema não é novo e, apesar dos números alarmantes, parece que estamos em negação. Porque acha que existe tanta resistência em mudar o presente estilo de vida?
Acho que isso acontece por preguiça das empresas. Temos um modelo e, de momento, ele serve, apesar de as empresas produtoras de plástico estarem a sentir mais pressão. Acho que existe resistência porque as empresas sabem que isso vai implicar uma mudança no presente modelo de negócio. Acho que nós, pessoas normais, podíamos estar a fazer mais pressão. Já tivemos um bom começo e existem progressos, mas há mais coisas que podemos fazer.

“A produção de plástico subiu vertiginosamente nos últimos 20 anos, tendo chegado a 320 milhões de toneladas em 2015, um peso superior ao da população inteira da Terra atualmente.” Viver sem plástico, pág. 51

A culpa também será nossa?
Não é fácil para os consumidores, não nos é dada grande escolha. Há pessoas que tentam implementar estas mudanças, mas depois vão às lojas, sem terem muito tempo para planear as compras, e é tudo muito difícil. No livro tento ajudar ao máximo as pessoas a fazerem esse tipo de escolhas. Mas é muito difícil. A coisa mais eficaz que as pessoas podem fazer é falar do problema e queixarem-se às empresas.

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5 regras para acabar com o plástico

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No livro “Viver sem plástico”, o autor disponibiliza cinco medidas consideradas essenciais para adotar um estilo de vida menos dependente do uso de plástico. São elas:

  1. Ir às compras sem plástico (porque não levar uma sacola ou uma simples mochila?);
  2. Livrar a casa dos produtos de plástico: “Comece pala casa de banho, passe para o quarto e, a seguir, para a cozinha. Consulte as listas de ingredientes dos seus produtos de cosmética para verificar se são isentos de microesferas; abra os seus armários e retire tudo o que é palhinhas e talheres de plástico descartáveis”;
  3. Aconselhar os outros a prescindir do plástico;
  4. Fazer planos para acabar com o plástico: “Se perto do seu local de trabalho só existem lojas de fast-food, gaste algum tempo a fazer refeições pré-embaladas que dêem para uma semana inteira”;
  5. Iniciar uma campanha para acabar com o plástico.

O que podemos realmente fazer?
Usar sacos e garrafas de água reutilizáveis e pôr de lado as palhinhas. São as coisas mais fáceis de fazer. Depois, é andar pela casa e escolher uma ou duas coisas de plástico para substituir — a escova de dentes pode ser de bambu e as fraldas podem ser reutilizáveis, por exemplo. Na cozinha há alimentos que podemos comprar a granel, para não estarmos sempre a comprá-los em embalagens de plástico. Estas são coisas fáceis que as pessoas podem fazer atrás de portas fechadas, nas suas casas. Se vamos ao mesmo café todos os dias, podemos falar com o gerente para saber se, por exemplo, é possível parar de usar copos de plástico. Se somos clientes regulares de um estabelecimento, o nosso impacto pode começar precisamente por aqui. E no trabalho porque não falar com o gerente para deixar de usar os copos de plástico para beber água? Isto são sugestões de como começar.
Todos temos a responsabilidade de fazer o que podemos em prol do ambiente. Em causa estão as futuras gerações. Infelizmente, estamos numa posição em que já mudámos o mundo. Mas ainda há muito que podemos fazer. O plástico vai duplicar nos próximos 10 anos. Temos de fazer alguma coisa agora para garantirmos que isso não acontece. É a mesma coisa com o clima. O que está em causa é o mundo que queremos ver no futuro e que queremos deixar às gerações que estão por chegar.

A era das redes sociais, no sentido em que existe mais visibilidade, pode ajudar à causa?
Absolutamente. Temos mais poder agora do que alguma vez tivemos, poder para termos acesso e sermos ouvidos. Todas as pessoas podem ter acesso às redes sociais. Todos podemos ser parte da mudança num sentido mais conectado. Não temos só de fazer as coisas nas nossas casas, podemos amplificá-las.

Porque é que a nossa sociedade depende tanto do plástico?
Porque o plástico começou por ser um produto muito barato e flexível, que fazia todo o sentido se não considerássemos o impacto a longo prazo. O que aconteceu foi uma escalada muito dramática [de produção e consumo] que nos deixou muito dependentes. Pessoas com mais de 40 anos conseguem recordar-se com facilidade de um mundo onde o plástico não era tão visível. Isso dá-me alguma esperança, de que talvez possamos reverter esta realidade. Se é um fenómeno recente, nós deveríamos ser capazes de o reverter.

Dados estatísticos sobre o plástico:
120 milhões de garrafas de plástico fabricadas pela Coca-Cola todos os anos;
330 milhões de toneladas de plástico produzidas todos os anos;
12,7 milhões de toneladas de plástico vão parar ao mar todos os anos;
450 anos é o tempo que demora uma garrafa de plástico a decompor-se no mar.

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