Índice
Índice
Celebrações com fogo de artifício e euforia. Esta sexta-feira, nas ruas de Hargeisa, milhares de pessoas entoaram cânticos e envergaram bandeiras e faixas tricolores. A população da Somalilândia, território localizado no Corno de África, festejava o primeiro reconhecimento formal de um país: o de Israel. Desde a década 90, a região que a esmagadora maioria da comunidade internacional não reconhece pretende obter legitimidade que oficialize a sua independência da Somália, que rejeita por completo conceder autonomia política a uma parte do país que vê como sua.
Mas à revelia da maioria da comunidade internacional, Israel avançou e vê agora a Somalilândia como um Estado de facto independente e soberano. No X, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, prometeu também “expandir relações com a República da Somalilândia através de uma cooperação externa nos campos de agricultura, saúde, tecnologia e economia”. E não só isso: este território deverá em breve juntar-se aos Acordos de Abraão, a iniciativa norte-americana que normalizou as relações de vários Estados de maioria muçulmana e Israel.
Tal como vários países na região, quase toda a população da Somalilândia é muçulmana sunita. Mas isso não impediu que recebesse com grande satisfação a notícia do reconhecimento de Israel. “Sou a pessoa mais feliz do mundo”, afirmou o Presidente de facto Abdirahman Mohamed Abdullahi num discurso esta sexta-feira, em que assumiu o compromisso de “cooperação regional e coexistência pacífica” com os países vizinhos — incluindo a Somália: “A Somalilândia mantém-se aberta a qualquer diálogo baseado em respeito mútuo destinado a reduzir tensões, promover compromissos e avançar com os interesses regionais partilhados”.
▲ Milhares de pessoas em Hargeisa a celebrar o reconhecimento de Israel da Somalilândia
AFP via Getty Images
Apesar destas promessas, nenhum país alinhou com Israel — nem mesmo os Estados Unidos da América (EUA). Os países fronteiriços, a Liga Árabe e a União Africana referem que Israel “violou o Direito Internacional” e que não existe base legal para o reconhecimento da Somalilândia. Já o parlamento da Somália declarou “nulo e sem efeito” o anúncio de Israel, argumentando que a “Somalilândia é parte inalienável do território da República Federal da Somália” e que “o reconhecimento de Israel é um ato ilegal que viola a independência e a soberania da República Federal da Somália”.
After more than three decades of peaceful self-governance, constitutional order, and democratic practice, Somaliland has received its first formal international recognition as a sovereign and independent state.
This development affirms an objective reality that has long existed.… pic.twitter.com/Kw0JrhfZKM
— Presidency | Republic of Somaliland (@Presidencysl_) December 26, 2025
Somalilândia. O que Israel pode ganhar ao reconhecer a independência do território
Numa zona do mundo marcada por vários conflitos e pelo extremismo islâmico, esta decisão de Israel pode exponenciar a instabilidade no Corno de África. E as consequências podem ir além disso: e afetar particularmente os houthis. A costa da Somalilândia está a cerca de 300 quilómetros dos territórios ocupados por aquele grupo xiita no Iémen — e pode ser uma base para preparar novos ataques. Essencial para o comércio internacional, o Mar Vermelho pode transformar-se, dessa forma, numa nova arena de confronto.
Desde o 7 de Outubro e o início da guerra na Faixa de Gaza, os houthis têm levado a cabo múltiplos ataques em direção a Israel, alguns com impacto em território israelita. Este grupo xiita têm também apreendido e atacado várias embarcações no estreito de Bab el-Mandeb — que liga o Golfo de Aden ao Mar Vermelho. Esta é uma passagem marítima de elevada importância para o comércio internacional, em particular para o transporte de petróleo.
▲ Somalilândia (a vermelho)
No início do conflito na Faixa de Gaza, as Forças de Defesa de Israel (IDF, sigla em inglês) estavam mais focadas em desmembrar a estrutura do Hamas e do Hezbollah no Líbano. Mais recentemente, os esforços militares de Telavive estão concentrados no Iémen, embora a distância geográfica se mantenha um obstáculo. As IDF têm, ainda assim, eliminado vários líderes e infraestrutura do grupo xiita com o recurso a ataques aéreos.
Ganhar um aliado no Golfo de Aden poderá ser uma forma de Israel aumentar o cerco aos houthis. Como expôs David Makovsky no X — diretor do departamento relações israelo-arábes do think tank Washington Institute of Near East Policy —, o reconhecimento do território pode “abrir a porta” ao acesso israelita “das infraestruturas militares” da Somalilândia para “combater os mísseis e drones dos houthis”.
Num artigo publicado no Times of Israel, o analista José Lev Alvarez Gomez explicou que “geograficamente desde a costa da Somalilândia, o Iémen deixa de ser abstrato”: “É visível, mensurável e capaz de ser monitorizado”. “A proximidade permite alertas precoces, consciência marítima e profundidade operacional”, prossegue o mesmo analista. “Estrategicamente, esta mudança expõe a rede de aliados iranianos no Mar Vermelho, dilui a influência chinesa no Djibouti [país fronteiriço da Somalilândia] e reduz a opacidade dos houthis no Golfo de Aden.”
Ainda não são totalmente claros os objetivos israelitas — e, oficialmente, não foi divulgada qualquer intenção de usar os portos e infraestruturas da Somalilândia como bases militares ou para recolha de informações secretas. Em todo o caso, o território pode revelar-se bastante útil para Israel, caso o país deseje aumentar os ataques contra os houthis. Além disso, os Emirados Árabes Unidos já usam uma base militar do território separatista em Berbera.
Num artigo publicado no think tank israelita INSS em novembro de 2025, já se elencava as oportunidades estratégicas que Israel pode obter com a Somalilândia: “Pode servir como base para uma série de missões; recolha de informações confidenciais e monitorização dos houthis; apoio logístico para o governo internacional do Iémen na sua guerra contra os houthis; operações diretas e intercetação de ataques dos houthis por mar e com drones”.
Por tudo isto, não é de estranhar o sério aviso dos houthis. Num comunicado citado pela Al Jazeera, o líder do grupo xiita, Abdel-Malik al-Houthi, deixou o alerta: “Consideramos qualquer presença de Israel na Somalilândia um alvo militar para as nossas forças armadas, uma vez que constitui uma agressão contra a Somália e contra o Iémen e uma ameaça para a segurança da região”. Para estes aliados do Irão, o reconhecimento do território é uma “postura hostil que tem como alvo a Somália e os seus vizinhos africanos, assim como o Iémen, o Mar Vermelho e os países que têm costa no Mar Vermelho”.
Vários líderes árabes também se opuseram a esta decisão. A Liga Árabe reuniu-se de emergência e condenou inequivocamente a decisão de Israel, apontando para “as graves repercussões desta ação sem precedentes para a paz e a segurança no Corno de África e na região do mar Vermelho”. Num comunicado, recordaram ainda a possibilidade que pairou no ar nos últimos tempos: os habitantes de Gaza serem levados para a Somalilândia como uma forma de Israel ocupar o enclave palestiniano. Essa hipótese é inaceitável para os 22 membros da organização “na forma e no conteúdo”.
Por sua vez, o governo da Somalilândia recusou que o reconhecimento de Israel venha a obrigar a aceitação de milhões de palestinianos no seu território. E o governo israelita nunca o confirmou, ainda que pudesse ser uma solução que contentaria as fações mais extremistas do executivo liderado por Benjamin Netanyahu, que tem vindo a rejeitar qualquer autonomia de um eventual Estado Palestiniano.
De qualquer forma, o reconhecimento da Somalilândia tem outro alvo na mira do governo israelita: a Turquia. Não é toa que, após a decisão de Israel, o Presidente da Somália, Hassan Sheikh Mohamud, tenha anunciado uma visita oficial a Ancara para discutir a “atual situação da Somália na luta contra o terrorismo e nas medidas tomadas pelo governo federal somali em relação à unidade nacional e aos desenvolvimentos regionais”.
▲ Presidente da Somália Hassan Sheikh Mohamud e Presidente da Turquia Recep Tayyip Erdoğan
Anadolu via Getty Images
O governo da Turquia, aliás, foi um dos mais duros a reagir contra a decisão de Israel: “É um exemplo das ações ilegais do governo de Netanyahu destinadas a criar instabilidade quer a nível global, quer a nível regional”. As relações entre os dois países têm-se deteriorado significativamente desde o 7 de Outubro: Telavive nunca perdoou o apoio turco ao Hamas, ao passo que a diplomacia da Turquia tem denunciado as ações israelitas — que descreve como sendo parte de um genocídio — na Faixa de Gaza.
Ora, a Somália tem sido um dos maiores aliados turcos em África. O governo de Recep Tayyip Erdoğan tem investido milhões de liras na economia somali e tem feito vários acordos com o governo do país africano, da defesa à construção de infraestruturas. Ancara tem também apoiado o governo somali na luta contra o Al‑Shabaab, o grupo jihadista ligado à Al‑Qaeda que mantém presença e influência armada em amplas zonas rurais do sul e do centro do país.
Israel poderá pretender acicatar os ânimos junto de um aliado de um inimigo regional. Num artigo escrito pelo analista Abdirashid Diriye Kalmoy no jornal turco pró-governo Daily Sabah, lê-se que o reconhecimento israelita de Somalilândia não “representa um gesto neutral diplomático”, mas antes um “desafio deliberado à influência regional de Ancara”. Já na região do Mediterrâneo, Benjamin Netanyahu aprofundou as relações com a Grécia e a República do Chipre — que também olham para a Turquia com muita desconfiança.
▲ Primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu quis vulnerabilizar um aliado da Turquia
ABIR SULTAN/EPA
Somalilândia. Além de Israel, quem são os aliados do território separatista?
É certo que Israel foi mais longe do que qualquer Estado: foi o primeiro a reconhecer a independência da Somalilândia. Mas o território separatista tem outros aliados. Um deles é Taiwan, que também não é reconhecido pela generalidade da comunidade internacional e sobre o qual a China reclama a soberania. O governo taiwanês foi dos poucos a elogiar a ação israelita por oficializar a soberania de um “parceiro que partilha os valores da democracia, da liberdade e do Estado de direito”.
Outro improvável parceiro da Somalilândia são os Emirados Árabes Unidos, que fazem parte dos Acordos de Abraão e que estabeleceram relações diplomáticas com Israel em 2020. Contrariamente à maioria dos países do mundo islâmico, ao longo dos últimos anos, o governo dos Emirados cultivou boas relações com o executivo separatista em Hargeisa. Abu Dhabi usa mesmo o porto de Berbera como base militar, integrada na sua rede de apoio logístico e operacional à intervenção e às forças aliadas no conflito do Iémen.
Mais além do que estes três países, a Somalilândia sonha com o reconhecimento de um membro permanente do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas. A ligação com Israel pode ajudar a concretizar uma das grandes ambições das autoridades do território separatista: o reconhecimento por parte dos Estados Unidos da América (EUA).
▲ Porto de Berbara na Somalilândia
AFP via Getty Images
Vários republicanos, aliás, já incentivaram o Presidente norte-americano a avançar com essa decisão. Em agosto de 2025, o senador Ted Cruz enviou uma carta a Donald Trump para o aconselhar a reconhecer a Somalilândia. “É um aliado confiável dos Estados Unidos, está a integrar-se com os nossos aliados globalmente e está comprometido a ajudar-nos a conter os esforços da China de minar a segurança e prosperidade dos norte-americanos”, defendeu o político do Partido Republicano.
Ainda assim, Donald Trump garantiu esta sexta-feira que não seguirá Israel no reconhecimento da Somalilândia. O Departamento de Estado assegurou, na mesma linha, que vai continuar a respeitar a integridade territorial da Somália, que “inclui o território da Somalilândia”. Os Estados Unidos mantêm relações amigáveis com o governo somali e tem-no apoiado na luta contra o grupo Al‑Shabaab — e dificilmente vão quebrar a relação com este aliado no Corno de África, num contexto de crescente competição com a China e a Rússia na região.
Somalilândia. Que território é este e porquê é que quer a independência da Somália?
Final do século XIX. Numa altura em que as potências europeias dividiram territórios africanos, ficou decidido que o Reino Unido controlaria o Protetorado da Somalilândia, ao passo que Itália geriria o que corresponde hoje em dia à Somália. Este foi mais ou menos o status quo até ao início da Segunda Guerra Mundial, quando, em 1941, Londres ocupou os territórios anteriormente controlados por Roma no Corno de África. Após o conflito, os italianos, juntamente com as Nações Unidas, criaram um estatuto especial com gestão italiana que prepararia a Somália para a independência.
▲ Militares britânicos numa expedição no Protetorado da Somalilândia em 1936
Bettmann Archive
Em 1960, em pleno movimento de descolonização de África, a Somalilândia britânica tornou‑se independente. Na altura, as autoridades do território decidiram unir‑se à recém‑independente Somália Italiana para formar a República Federal da Somália. Mas desde logo começaram os problemas: as autoridades regionais de Somalilândia acusavam Mogadíscio (a atual capital somali) de centralizar o poder e de marginalizar o território.
Em termos étnicos, a Somalilândia é dominada pelo clã Isaaq, que se dizia alvo de repressão do poder central somali. Nos anos 80, o regime do antigo Presidente Siad Barre lançou uma campanha que muitos classificam como genocídio contra os Isaaq, incluindo bombardeamentos de cidades como Hargeisa. As estimativas vão desde dezenas de milhares até aproximadamente 200 mil mortos. Foi a partir daí que começou a surgir um movimento independentista: o Movimento Nacional Somali, que ambicionava a autonomia política da Somalilândia.
Em 1991, num período muito conturbado na história da Somália e numa iniciativa liderada pelo Movimento Nacional Somali, foi declarada a independência do território que tinha sido um protetorado britânico. Formou-se um governo autónomo de Mogadíscio em Hargeisa, que se tornou a capital. Desde aquele ano que a Somalilândia passou a funcionar como um Estado autónomo: tem forças armadas próprias, uma moeda diferente da Somália, uma Constituição aprovada em referendo e eleições, mesmo que internacionalmente não tenha sido reconhecida.
▲ Mercado de Hargeisa na Somalilândia
AFP via Getty Images
A Somalilândia é hoje considerada, pela organização Freedom House, uma democracia com falhas e com um regime parcialmente livre (com eleições regulares), ao contrário da Somália — considerado um Estado autoritário e marcado por uma elevada fragilidade institucional. Além disso, a região separatista tem uma maior estabilidade política e não combate diretamente contra as forças jihaditas. Por sua vez, o governo somali vê parcelas do seu território a ser geridas pelo grupo Al‑Shabaab. Economicamente, ainda assim, ambos enfrentam desafios semelhantes: baixos níveis de desenvolvimento e uma forte dependência da agricultura.
Com forças jihadistas a controlar parcelas do território e um histórico de pirataria internacional, a Somália é frequentemente descrita como um Estado falhado: as instituições estatais funcionam mal e a população enfrenta inúmeras dificuldades. Em contraposição, a Somalilândia desfruta de uma estabilidade política, mas falta-lhe o reconhecimento internacional — e espera agora que Israel dê o pontapé de saída para obter credibilidade no resto do mundo.