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Dá pelo nome de Vítor Machado Ferreira, mas é através do diminutivo do nome próprio que personifica o sonho de menino com a bola nos pés. Nasceu a 13 de fevereiro de 2000, em Santo Tirso, cresceu na Vila das Aves e foi no Bairro do Iraque que começou a das os primeiros pontapés na bola, já depois de ter passado pelo futsal. É filho de um antigo futebolista que lhe deu o nome e, quiçá, a alcunha que carrega às costas na parte de trás da camisola do PSG, por cima do número 17. Com apenas sete anos, Vitinha participou num Mundialito no Algarve, ao serviço da AMCH Ringe, e destacou-se de tal forma que Aurélio Pereira disse ao seu treinador que tinha nas suas fileiras um futuro jogador de Seleção Nacional. Como em tantos outros casos, não se enganou.
A história é conhecida e liga um dos melhores médio do mundo na atualidade a um dos melhores guarda-redes do mundo. Diogo Costa e Vitinha começaram juntos na equipa tirsense e subiram os degraus que os levaram à equipa principal do FC Porto quase em simultâneo. A amizade de ambos perdura desde essa altura e, no início, era Vítor Manuel, o pai do médio, quem transportava os jovens jogadores para os treinadores, tal como contou o Observador numa reportagem em 2022, aquando do 30.º título de campeão nacional dos dragões. Antes, a primeira grande conquista a catapultar Diogo e Vítor para as manchetes dos jornais desportivos apareceu em 2019: a Youth League. O FC Porto tornou-se no primeiro clube português a vencer a prova, numa equipa em que militavam o guarda-redes e o médio.
Como não podia deixar de ser, seguiu-se a ascensão à principal equipa portista, mas o percurso nem sempre foi de crescimento. No caso de Vitinha, o médio teve mesmo que passar por diversos altos e baixos até se afirmar no PSG, com Luis Enrique, prontificando como um dos elementos mais fulcrais de uma equipa que, em 2025, vale mais pelo coletivo do que propriamente pelas individualidades, como acontecia quando o português deixou a Invicta e aterrou em Paris. Certo é que, no presente, o camisola 17 não é o único português em destaque no campeão francês que quer chegar ao topo da Europa.
Se, à sua esquerda, Nuno Mendes perfila-se como um dos melhores laterais da atualidade, João Neves, ao seu lado, precisou de apenas uma temporada para começar a quebrar recordes e, no que à Liga dos Campeões diz respeito, está a apenas dois desarmes de bater o recorde de Gennaro Gattuso (2007/08) numa única edição: 59. No ataque, Gonçalo Ramos aproveitou o estatuto de suplente de referência para se evidenciar como um dos avançados com mais golos por minuto. Na presente temporada, o jogador de 23 anos apontou 18 golos e seis assistências em 1.623 minutos, estando envolvido num golo a cada 68 minutos.
▲ Vitinha chegou ao PSG no verão de 2022
UEFA via Getty Images
Regressou, “esmagou” e foi “para um dos oito melhores clubes da Europa”
Se os primeiros anos da sua carreira foram pautados pelo crescimento, já que, depois dos Pinheirinhos de Ringe, esteve na Casa do Benfica da Póvoa de Lanhoso antes de chegar ao FC Porto e passar por empréstimos à Dragon Force e ao Padroense, o mesmo não se pode dizer dos primeiros anos no futebol sénior. Até lá, conseguiu ainda afirmar-se nas seleções jovens do futebol nacional, ainda que tenha ficado ligado à geração que perdeu as finais dos Campeonatos da Europa de Sub-19 (0-2, Espanha) e Sub-21 (Alemanha, 0-1). Apesar de não ter conquistado qualquer troféu coletivo, foi eleito jogador revelação do Torneio de Toulon em 2019 e esteve na melhor equipa do Europeu de Sub-21.
Vitor Ferreira (@selecaoportugal ???????? – @FCPorto) obtient le trophée de révélation du Tournoi Maurice Revello 2019 ☄️#TMR2019 pic.twitter.com/tFBSEIZg0A
— Tournoi Maurice Revello (@TournoiMRevello) June 15, 2019
Depois da estreia sénior com Rui Barros, em 2019, na equipa B do FC Porto, Vitinha chegou à equipa principal na mesma temporada, pela mão de Sérgio Conceição. Esteve em 12 encontros, mas só foi titular em dois. O médio acabou por não conquistar no imediato o técnico natural de Coimbra e, no ano seguinte, acabou por ser vítima da situação económica dos azuis e brancos, acabando emprestado ao Wolverhampton porque os dragões estavam em risco de incumprir com as normas do fair play financeiro da UEFA. Mais importante que isso, a equipa então de Nuno Espírito Santo ficou com uma cláusula de compra de 20 milhões de euros, mas acabou por não exercê-la, nem de forma autónoma nem automática, já que Vitinha, que até participou em 22 partidas, ficou aquém do número de jogos estabelecido no contrato. Essa acabou por ser a grande reviravolta da carreira do médio que voltou aos dragões à procura de despontar de vez no futebol europeu.
“Um dia, perguntei-lhe: ‘O que é que achas que vais fazer na próxima época? Ele estava emprestado pelo FC Porto, mas precisava de fazer 20 jogos como titular para o Wolverhampton ser obrigado a comprá-lo. Ele respondeu: ‘Marçal, vou voltar para o FC Porto, esmagar tudo lá e, na época seguinte, vou para um dos oito melhores clubes da Europa’. Eu disse para mim próprio: ‘Uau, o gajo não joga no Wolves e pensa que vai assinar pelo Manchester City ou por um desses clubes? É um bocado maluco! Mas não, não era”, revelou Marçal, colega de equipa de Vitinha em Inglaterra, em entrevista ao L’Équipe. A profecia cumpriu-se com pompa e circunstância, o médio explodiu com Conceição, esteve em 47 jogos e tornou-se num elemento fundamental no equilíbrio da equipa, mostrando uma excelente capacidade de construir e de pressionar, e acabou por sair a troco de 41,5 milhões de euros.
“Tem evoluído de uma forma fantástica, principalmente quando não tem a bola. Quando tem a bola, já sabíamos que ele é um jogador fabuloso, com uma técnica e uma qualidade na posse fantástica. Melhorou muito no passe mais longo, algo em que eu insistia muito, e no tempo de soltar a bola. Neste momento, parece-me um médio completo: é dos jogadores que recuperam mais bolas e dos que está mais presente a nível defensivo. Associando isso à qualidade técnica dele, temos um jogador que enche o campo, para nós é fantástico”, assumiu o treinador em março de 2022. Também Rui Jorge, selecionador dos Sub-21 que trabalhou de perto com o médio, não poupou nos elogios: “O Vitinha é um jogador tremendo, de um nível superior. Por alguma coisa tem sido invariavelmente titular connosco. Reconheço-lhe muita qualidade e espírito coletivo”.
Em entrevista à UEFA em novembro de 2021, Vitinha explicou, ao lado de João Mário, o “grande orgulho” que tinha por representar o FC Porto e recordou o passado. “Sentimos sempre um grande orgulho em carregar este símbolo ao peito e o facto de nós termos começado em miúdos fez-nos sonhar em chegar à equipa A. É incrível olhar para trás e ver que agora estamos aqui a dar uma entrevista à UEFA. Nesta sala fazíamos reuniões de fim de ano dos Sub-12. Muito poucos conseguem chegar cá. Felizmente conseguimos os dois e agora queremos mais. Víamos os jogadores na televisão e de um momento para o outro passarem a ser nossos colegas… é brutal”, lembrou, com o ala a acrescentar: “Os treinadores diziam-nos que queriam um funil e nós conseguimos chegar ao fim do funil”.
O “jogador discreto”, “perfecionista” e que tem a “raça de querer vingar no futebol”
As qualidades do internacional português não passaram indiferentes a quem se cruzou consigo ao longo das últimas décadas. Um desses casos foi o do treinador Luís Gonçalves, que treinou Vitinha nos Sub-15 do FC Porto e resume-o como “inteligência em movimento”, sendo um jogador que “torna o jogo muito mais simples com a sua forma de jogar”. “Está cada vez mais refinado e com cada vez mais qualidade na sua capacidade de decisão. Mostra sempre muita vontade de evoluir. Realmente, Vitinha está noutro nível. É um jogador discreto, mas sempre muito assertivo. Muito inteligente no jogo, antecipa as ações muito bem, lê o jogo muito bem, e tecnicamente é bastante evoluído. É um jogador muito completo. “Tem a capacidade física necessária para ser eficaz nas suas ações e para responder aos problemas que o jogo coloca. O futebol é decisão e o Vitinha decide muito bem”, analisou o treinador à Rádio Renascença.
Quanto aos tempos em que um jovem franzino, de baixa estatura e ainda sem barba na cara despontava nos iniciados dos dragões, Gonçalves revelou que o médio tinha “muita vontade de aprender”. “Uma vez interpelou-me e pediu-me: ‘Mister, as coisas não me estão a sair muito bem, não estou muito satisfeito. O que é que posso fazer para melhorar? Dê-me aqui uma ajuda, no sentido das indicações’. Isto vindo de um jovem, ou de um adolescente, que na altura já tinha boas performances, estava muito bem. Mostrava aquela vontade de melhorar e aperfeiçoar. No fundo, é um perfecionista. E quando assim é, naturalmente que, também devido à sua qualidade e ao seu talento natural, as coisas depois acontecem. Neste momento é um dos melhores médios do mundo. Nós esperamos sempre que um jogador atinja o máximo, mas há coisas que só com o tempo se vêm a confirmar. Ninguém tinha dúvidas da sua qualidade e do seu potencial, mas também acredito que superou todas as expectativas”, acrescentou.
▲ Vitinha, aqui com Daniel Bragança, despontou nas camadas jovens do FC Porto
Getty Images
“É um jogador que enche o campo, joga e faz jogar, com excelente leitura e visão e também com chegada [à área] e golo. É um jogador completo, mas sempre com vontade de crescer. Falando das capacidades volitivas, vemos um jogador que nunca desiste, que se entrega ao jogo sem reservas e que é capaz de imprimir grande dinâmica e intensidade no seu jogo, mas também pausar e gerir os ritmos que o próprio jogo pede. Vitinha é o cérebro do jogo de Portugal, é um regalo vê-lo jogar e orientar a equipa. Está muito perto do auge da carreira. Ao longo do tempo vai aperfeiçoar-se ainda mais. Quiçá até possa ser utilizado noutras posições mais ofensivas. Se bem que ele nesta posição do 6 é um jogador de um patamar muito elevado É um orgulho assistir a todo este trajeto, de um jovem jogador cheio de qualidade futebolística e humana. É um dos meus meninos”, concluiu, ao Jornal Desportivo.
A qualidade de Vitinha não deixou ninguém indiferente e, aquando da paragem internacional de março, levou o selecionador Roberto Martínez a deixar rasgados elogios ao seu jogador. “Acho que o Vitinha agora é o maestro do futebol europeu. O homem da batuta! Gosto muito disso, mas não é uma coisa nova. O Vitinha já foi o homem do jogo contra a Rep. Checa, no Europeu-2024. É muito importante ver os jogadores crescerem no clubes, mas também em relação ao que eles estão a fazer na Seleção. Estamos muito orgulhosos”, partilhou o técnico espanhol, numa mensagem também reproduzida por Mário Silva: “O Vitinha tinha uma grande mentalidade, tinha humildade e muita vontade de aprender o que lhe dava capacidades para ser um dos meus capitães. Naquela idade, muitos jovens faziam asneiras mas ele… o foco dele era uma coisa: o futebol. Ainda não era um jogador profissional, mas comportava-se como tal. Tanto no campo como fora, era exemplar. Mesmo na escola, era um bom aluno”.
Já Joaquim Faria, que foi presidente do AMCH Ringe, o clube onde tudo começou, explicou, ao Canal 11, que os valores que o médio agora demonstra começaram a ser transmitidos bem no início da sua carreira. “Transmitimos aquela humildade que se reconhece no Vitinha. Quando se fala no Vitinha vê-se aquela humildade, aquela vontade e aquela raça de querer vingar no futebol. É a raça daqueles que nada têm e que querem fazer por ter algo. O Vitinha é um jovem com valores muito enraizados, muito assertivo, sabe o que quer, é amigo do amigo e o que nos orgulha são essas qualidades que eles mantêm e que nós tentámos passar para eles”, partilhou.
O “parisiense no coração dos parisienses” que se tornou num “jogador perfeito”
A inteligência é, provavelmente, a maior qualidade do jogo de Vitinha e aquela que mais lhe é reconhecida. Ainda que estejamos a falar de um jogador que faz quase sempre tudo bem. Prova disso são os números que estão muito para lá do que se vê nas aplicações de resultados e se escondem atrás do marcador de um golo ou de quem fez o passe decisivo. Até esta final da Liga dos Campeões, Vitinha era o principal médio do futebol mundial a fazer progredir a sua equipa, com melhor registo de passes progressos, passes para a frente e com melhor eficácia de passes para a frente, segundo o DataMB. Para além disso, foi eleito melhor jogador em campo em três partidas da Champions, todas na fase a eliminar: nas duas mãos com o Brest, no playoff, e na primeira mão das meias-finais, em casa do Arsenal. Tudo isto não seria possível sem Luis Enrique, já que o português chegou a um PSG rodeado de estrelas e, apesar de até ter começado bem com Christophe Galtier, passou por dificuldades na segunda metade de 2022/23, alegadamente por desentendimentos com Lionel Messi e Neymar Jr. após uma derrota frente ao Mónaco.
????❗️Only one midfielder in the WORLD is in the 95+ percentile for progressive carries, progressive passes, forward passes, and forward pass % :
Vitinha (Paris Saint-Germain, 25) ????????
— 99th percentile for forward pass %
— 98th percentile for forward passes
— 98th percentile… pic.twitter.com/vW6B9yjXFs— DataMB (@DataMB_) May 25, 2025
Com a chegada de Luis Enrique surgiu uma limpeza no balneário e Vitinha tornou-se um dos principais elementos, não só pela idade, mas também pela personalidade. Com o técnico espanhol reconquistou o seu espaço no meio-campo e tornou-se num dos elementos mais influentes, mostrando versatilidade para atuar em qualquer posição do miolo. Para além disso, evoluiu como goleador – sem o ser – e, em 2023/24, apontou novo golos e cinco assistências, rubricando a melhor temporada da sua carreira nesse capítulo. Para além disso integrou o onze da Champions e foi 27.º na Bola de Ouro. Este ano leva sete golos em 51 jogos. Em outubro de 2024 chegou aos 100 jogos pelo PSG e, um dos dados que mais conquistou os adeptos rouge et bleus foi o seu francês quase perfeito que apresentou ao longo do primeiro ano em Paris e que se revela em entrevistas recentes.
“Nuno Mendes foi espetacular, mas este rapaz, peço desculpa, o Vitinha, joga um desporto diferente. Não é o mesmo futebol. Quando consegues controlar o ritmo e o tempo do jogo, isso tem de contar para alguma coisa. As pessoas falam muito dos jogadores que ganham os jogos e eu percebo isso, mas o Vitinha… a forma como controla o jogo e defende… joga um desporto diferente. João Neves, Nuno Mendes, Willian Pacho… foram todos excecionais. Luis Enrique é a pessoa certa para levar o PSG ao sucesso. Quanto às saídas do clube, muitos falam de Messi, Neymar, Mbappé, mas a decisão de deixar sair Marco Verratti foi muito corajosa, porque ele acreditava no Vitinha. Para ele estar a jogar no nível em que está, foi essencial que Luis Enrique permitisse a saída de Verratti. Vitinha está num nível superior”, partilhou Thierry Henry, na CBS Sports Golazo, depois do apuramento do PSG em Anfield.
Thierry Henry "This guy, Vitinha, he plays a different sport, it’s not the same football…" #PSG #LIVPSG #Liverpool pic.twitter.com/7wULrxAivp
— MOMINHO ???????????????????????????????? (@PSGX1970) March 12, 2025
Ao longo desta época, os elogios de Enrique a Vitinha também têm sido muitos e demonstram o estatuto que o português adquiriu com o treinador. “Ele é um dos melhores jogadores do mundo na sua posição, sem dúvida. Não vejo um jogador melhor do que ele no meio-campo em nenhuma equipa do mundo. Posso estar errado, mas raramente me engano. O Vitinha é um jogador perfeito para um treinador como eu. Não perde a bola, que é exatamente o que queremos. Depois, é capaz de se movimentar entre linhas, de desmarcar, de marcar… Só posso dar-lhe os parabéns e incentivá-lo a manter este nível. Ou até mesmo elevá-lo”, assumiu o espanhol em duas declarações aos jornalistas durante esta temporada.
???????????? Pour Luis Enrique, Vitinha est actuellement le meilleur milieu du monde :
???? "Je ne vois pas de joueur meilleur que lui en milieu de terrain. Je peux me tromper mais je me trompe assez peu souvent." pic.twitter.com/R66HKKUPCB
— RMC Sport (@RMCsport) April 24, 2025
Num vídeo recente partilhado pelo PSG, com os melhores momentos de Vitinha no clube e intitulado de “Vitinha, um parisiense no coração dos parisienses”, o médio explica que, ao longo da sua carreira, já viveu “muitas emoções”. “Já passei por altos e baixos e quero continuar a vivê-los. Não podemos ter apenas altos. Sei que também haverá momentos baixos e lá estarei. Não sou um ‘6’ de verdade, mas sinto-me confortável nessa posição. Jogar na Liga dos Campeões é um sonho de criança”, revelou. Certo é que, apesar de jogar numa das duas melhores equipas da Europa, Vítor Ferreira não perdeu a humildade e mantém os valores que mostraram ao mundo a qualidade do “pequeno” Vitinha. Em 2022 inaugurou o Campo de Futebol Vitinha na Escola EB/JI de Bairro em Vila Nova de Famalicão e, há um ano, doou uma camisola do PSG aos Pinheiros de Ringe, permitindo a muitos jovens viajarem até França.