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Nik Storonsky é o co-fundador da Revolut, um banco digital que tem 500 mil clientes em Portugal (Ilustração: ANA MARTINGO/Observador)

Nik Storonsky é o co-fundador da Revolut, um banco digital que tem 500 mil clientes em Portugal (Ilustração: ANA MARTINGO/Observador)

“Revohell”. O “inferno” de quem trabalhou na Revolut em Portugal /premium

Investigação. O banco digital Revolut, que tem um "call center" no Porto, é criticado por ter uma "cultura de trabalho tóxica". O fundador prometeu "aprender com os erros". Mas repetiu-os em Portugal.

Chamávamos àquilo o RevoHell“, o ‘Revo-Inferno’, recorda uma ex-colaboradora da Revolut em Portugal. A mesma ex-colaboradora que se despediu da unidade da empresa em Matosinhos alegando ter sido vítima de assédio sexual após uma festa com colegas – num caso que a empresa viria a considerar, oficialmente, ser um caso “pessoal” entre ela e um superior hierárquico. “Tratam as pessoas como lixo, sempre a ameaçar toda a gente com despedimento – é pior do que trabalhar em telemarketing”, diz quem lá trabalhou. E em vez de corrigir os processos e “aprender com os erros”, como já várias vezes prometeu o fundador – o russo Nik Storonsky – os problemas agravaram-se nos últimos meses, com a necessidade de cortar custos devido à crise económica e à Covid-19. Mas a empresa garante ter agido sempre de acordo com a lei e jura que pretende continuar em Portugal, onde já soma 500 mil clientes.

A AICEP ajudou a Revolut a instalar-se em Matosinhos, em maio de 2019, num escritório onde a maioria das pessoas trabalha em chats de apoio ao cliente, ajudando utilizadores de todo o mundo com os problemas que tenham com as suas contas no banco digital. A proficiência em línguas, a proximidade de boas universidades e o clima foram, disse a Revolut na altura, as principais razões para a decisão – Portugal era o “equilíbrio perfeito entre o custo e a qualidade das operações”.

Mas a investigação do Observador revela que a gigante fintech sediada em Londres trouxe para o país a “cultura de trabalho tóxica, de alto a baixo” pela qual há anos é criticada por quem lá trabalha ou trabalhou – basta ler algumas das críticas no portal GlassDoor, que ajuda as pessoas a antecipar o ambiente e condições de trabalho nas empresas. “Uma cultura em que não se dá apoio a ninguém e uma cultura baseada no medo que faz com que não exista colaboração nem abertura – não existe nem a mais vaga compreensão de como se estimula o talento, para tirar o melhor de cada pessoa. Um caos completo“, diz uma dessas críticas no GlassDoor.

Um artigo publicado no início de junho na revista Wired – assinado pelo jornalista Emiliano Mellino – falava sobre os problemas na unidade polaca (e também sobre alguns em Portugal). Daí, o Observador partiu para uma investigação própria que desvendou casos tão ou mais graves do que aqueles que foram relatados pela revista. As 17 questões enviadas à empresa tiveram, inicialmente, respostas vagas – mas, após insistência, a Revolut defendeu-se dizendo, por exemplo, que nos casos em que se tornou inevitável dispensar funcionários se “lutou para que essa experiência seja o menos dolorosa possível”, frisando: “Em cada caso e em cada país cumprimos com todas as obrigatoriedades legais”.

Em Matosinhos, saíram 10 pessoas por mútuo acordo nos últimos meses, além de mais uma que saiu por eliminação do posto de trabalho. Segundo um desses ex-colaboradores, a empresa funciona com uma “vergonhosa falta de ética para com as pessoas” — no seu caso, saiu em meados de maio depois de a Revolut o ter abordado com uma proposta que “só quem é estrangeiro ou não conhece as leis é que, na inocência, pode cair na esparrela”. Esse foi um caso em que a empresa invocou quebra de performance para tentar pressionar o trabalhador a assinar uma saída por mútuo acordo – o que não faz sentido à luz da lei portuguesa.

O Observador ouviu histórias de pessoas que dizem ter sofrido uma pressão sufocante, nalguns casos terminando em baixas médicas por exaustão psicológica. E pessoas que denunciam uma desorganização grave, com histórias como as de trabalhadores convidados com um salário e contratados por outro, bem mais baixo. E houve o tal caso de alegado assédio sexual que a empresa garante ter investigado: mas no final, disse ter ficado “satisfeita” porque, entre outras iniciativas, o alegado agressor aceitou fazer um teste de polígrafo. Só que, segundo a documentação a que o Observador teve acesso, as perguntas que terão sido feitas nem sequer correspondiam às alegações em causa.

Um trajeto marcado por escândalos

Em menos de cinco anos, desde a criação do que começou por ser uma startup, a Revolut tornou-se o maior símbolo das fintech, as empresas inovadoras de banca digital que mordem os calcanhares dos bancos tradicionais. Atingiu esse estatuto – e chegou a um valor de cinco mil milhões de euros – começando por oferecer aos clientes um cartão em que se cobra zero, ou perto de zero, por uma série de operações (como conversão cambial e envio de dinheiro para outros países) pelas quais os bancos sempre cobraram comissões, por vezes elevadas. “Os bancos levam-vos o couro e o cabelo”, disse Nik Storonsky quando o Observador o entrevistou em Lisboa, em novembro, à margem da Web Summit.

“Os bancos levam-vos o couro e o cabelo”, diz fundador da Revolut em entrevista

Mas o trajeto da Revolut tem sido, também, marcado por vários escândalos – um dos piores foi a notícia de que a empresa teria desligado, durante alguns meses, um importante controlo de segurança contra o risco de branqueamento de capitais. O caso resolveu-se, mas foi um duro golpe para este banco digital que começou por ser muito popular entre os jovens que viajam muito, mas que já obteve licença bancária na zona euro e quer afirmar-se cada vez mais como um banco para o dia-a-dia de qualquer pessoa, não só para viajantes.

O que parece estar a ser bem mais difícil de resolver é a “cultura laboral tóxica”, “soviética”, como descreveram ex-colaboradores portugueses e estrangeiros. Isto apesar de há cerca de um ano, quando surgiram as primeiras notícias, Nik Storonsky ter reconhecido que a empresa tinha cometido “erros” dos quais não se “orgulhava”, mas que tinha passado a dar uma maior importância à “cultura laboral” e ao bem-estar dos colaboradores. “Cometemos erros, mas estamos a aprender“, garantiu o co-fundador.

Mesmo tendo obtido quase 500 milhões de dólares numa ronda de financiamento recente (realizada poucas semanas antes dos lockdowns mundiais), a pandemia levou a Revolut a dispensar oficialmente 62 trabalhadores, no total – 11 foram em Portugal. Mas terá havido mais pessoas a sair da empresa, com recurso a métodos que fazem com que já há quem tenha decidido fechar a conta e recomende a outros que façam o mesmo. É o caso de Paul Armstrong, colunista da Forbes.

Colunista da Forbes fechou a conta na Revolut depois de ler artigo publicado na revista Wired.

O repto lançado pelo colunista da Forbes tinha como base a investigação publicada na revista Wired que denunciou no início de Junho que vários funcionários da Revolut na Polónia tinham sido pressionados a escolher entre duas hipóteses: despedirem-se ou serem despedidos.

Foi o caso de uma funcionária do apoio ao cliente em Cracóvia que foi surpreendida, numa videoconferência com o seu líder de equipa, com a informação de que iria ser despedida. Era o mesmo líder de equipa que duas semanas antes lhe tinha dito que ela estava a ter um ótimo desempenho. Poucos dias depois, nessa videoconferência que se previa perfeitamente banal, foi informada de que tinha de sair e que tinha duas opções: ser demitida por mau desempenho (é possível e legal, na Polónia) ou, em alternativa, uma saída por mútuo acordo com um pequeno pagamento por indemnização.

A funcionária, referida no artigo pelo nome fictício “Elena”, respondeu que, como não era polaca e não conhecia bem os seus direitos, precisava de algum tempo para contactar um advogado que a pudesse aconselhar. Mas foi-lhe dito que não havia tempo para isso porque tinha de assinar um dos dois papéis nos minutos seguintes. Temendo ficar com uma mancha na carreira, acabou por assinar a saída por mútuo acordo.

Já há cerca de 500 mil pessoas a utilizar o banco digital Revolut em Portugal, segundo informação recolhida pelo Observador.

SOPA Images/LightRocket via Gett

Em Portugal, porém, é mais difícil despedir alguém por alegado mau desempenho. “O mau desempenho não é fundamento para despedimento por justa causa”, sublinha Filipa Lopes Galvão, advogada da TM Legal. “Para existir justa causa de despedimento por facto imputável ao trabalhador a lei requer um comportamento culposo do trabalhador, cuja gravidade e consequências coloque em causa a subsistência do vínculo laboral”, acrescenta a advogada.

Ricardo, nome dado pelo Observador a um funcionário que saiu em maio, em plena crise Covid-19, diz que “por acaso” sabe que é isto que está na lei. “Tentaram terminar o contrato comigo da forma mais barata, com má fé, uma falta de ética gigante. Um estrangeiro, infelizmente, pode cair na esparrela e assinar aquilo, na inocência, mas comigo não tiveram a mesma sorte”. Inicialmente, a empresa ter-lhe-á oferecido apenas o salário daquele mês, pressionando o funcionário com indicadores de queda de desempenho e exigindo uma resposta “nos minutos seguintes”. Mas Ricardo, que estava na empresa há cerca de um ano, contrapôs com uma proposta de ser indemnizado com o equivalente a três meses de salário. Dois, respondeu a Revolut. Depois, dois e meio. “Parecia que estavam na feira a regatear o preço de uma camisola”, recorda.

Ricardo acabou por assinar a rescisão – com os três meses de salário de indemnização, como tinha exigido desde o início. Não tem filhos nem responsabilidades financeiras muito grandes e, não achando que fosse ter grande dificuldade em arranjar outro local para trabalhar, virou costas. “Não sou pessoa de querer ficar, à força, num sítio onde não me querem. Não preciso disso. Mas foi completamente vergonhosa e imoral a forma como fui tratado, além de vários outros casos de colegas que conheci”.

O jovem saiu, mas há pelo menos um caso de uma pessoa que rejeitou sair e continua a trabalhar na Revolut. Isto embora tenha visto ser bloqueado, por alegado erro informático, o acesso ao computador e ao e-mail enquanto estava na reunião com os recursos humanos em que a convidaram a sair.

"Tentaram terminar o contrato comigo da forma mais barata, com má fé, uma falta de ética gigante. Um estrangeiro, infelizmente, pode cair na esparrela e assinar aquilo, na inocência, mas comigo não tiveram a mesma sorte."
Ricardo, nome fictício de um ex-trabalhador que saiu em maio.

Patrícia despedida à frente de todos (e o porquê de ter chegado atrasada)

Ricardo foi dispensado de forma privada, através de uma videoconferência (foi já na altura em que, devido à pandemia, as pessoas estavam em teletrabalho) e pôde negociar os termos da sua saída por e-mail e através de outras formas reservadas. Já com Patrícia, outro nome fictício, as coisas passaram-se de forma bem diferente: ainda antes da pandemia, foi dispensada à frente de colegas, sentada com o líder de equipa e um representante dos recursos humanos num local de passagem de pessoas.

“Estavam outras pessoas ali mesmo ao lado, a trabalhar, pessoas a passar atrás de nós, podendo ouvir tudo”, diz Patrícia ao Observador. Foi uma forma “traumatizante” de terminar a primeira experiência profissional da jovem, que estava quase a terminar o período experimental do contrato. “Foi ridículo, disseram que eu estava a ser despedida porque cheguei um dia atrasada sem avisar. Tinha de assinar o papel imediatamente”, recorda. O que aconteceria se Patrícia não assinasse o papel? “Não disseram… Só me disseram que podia ficar mais uma semana ou aproveitar dias de férias e sair já”. Confrontada com o caso específico desta ex-colaboradora, a Revolut não comentou.

Sentindo-se pressionada, Patrícia assinou o papel e saiu imediatamente. Só mais tarde falou com uma contabilista que lhe terá dito que as contas tinham sido mal feitas e que deveria ter recebido mais dinheiro. “Mas o mais importante não foi isso. Foi o aspeto emocional, a forma como fui tratada”. Até porque vale a pena voltar um pouco atrás na história, para perceber porque é que Patrícia chegou atrasada ao trabalho nessa manhã.

O banco digital começou por ser muito popular entre os jovens que viajam muito. Mas hoje já é muito mais.

Patrícia lembra que se atrasou porque estava medicada com um conjunto de anti-depressivos fortes, receitados pelo mesmo médico que um mês antes lhe passou uma baixa médica, por exaustão psicológica. Ou seja, foi despedida poucos dias depois de regressar dessa baixa médica. Algum tempo antes, a ex-funcionária da Revolut sentiu-se ir abaixo, pelo stress de cada dia, pela pressão de indicadores de desempenho difíceis de atingir, por ver “pessoas a serem despedidas a toda a hora, em todo o lado” e ver “líderes de equipa, durante pausas para um cigarro com outros colegas, a comentar quem ia ser o próximo a ser despedido”.

A certa altura, falou com o líder de equipa e explicou que não andava bem, psicologicamente. “Ele começou a ser ainda mais duro comigo, depois de ter falado com ele sobre como me sentia”, garante.

A baixa médica de Patrícia acabou por surgir depois de um episódio delicado que envolveu uma outra colega, também estrangeira, que foi uma das primeiras pessoas contratadas para trabalhar na Revolut no Porto. Uma colega que também falou com o Observador, pedindo para não ser identificada pelo nome verdadeiro.

O caso do alegado assédio sexual

Laura, polaca, saiu da Revolut em julho, poucos meses depois de ter sido contratada. No e-mail que enviou às chefias e aos recursos humanos explicou que não podia continuar por várias razões, sobretudo pelo facto de não se “sentir segura” por ter de trabalhar com um superior hierárquico que trabalhava sobretudo na Polónia mas vinha frequentemente a Matosinhos, para dar formação a quem trabalhava em Portugal.

A jovem não se sentia segura porque alega ter sido vítima de assédio sexual por parte desse superior hierárquico, numa noite no final de maio em que os funcionários se organizaram para uma festa perto da praia. Foi uma festa promovida pelos que estavam “de visita”: usaram o Slack da empresa para combinar e foram eles que terão patrocinado os custos da festa. “Havia imenso vinho, compraram umas 20 garrafas, mais vodka, havia álcool por todo o lado”, recorda Laura

A jovem polaca tinha acabado de terminar uma relação. Lembra que não estava emocionalmente bem, enquanto procurava adaptar-se a um novo país. Acabou por beber demais. E, no final da festa, o superior hierárquico – Peter (também um nome fictício) – e Laura acabaram a partilhar um táxi até ao centro da cidade. Mas Laura conta que acabaram por ir até ao apartamento AirBnB alugado pela empresa para a curta estadia do formador.

Isto foi o que Laura contou também à Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), como demonstra a queixa apresentada à associação e consultada pelo Observador: “Subi com ele mas quando cheguei lá acima senti-me mal, por ter bebido demais. Fui à casa de banho, indisposta, e comecei a vomitar. Foi depois disso que ele se aproximou de mim, começou a tocar-me e eu disse-lhe para parar, estava indisposta, ele parou mas logo a seguir recomeçou. Eu disse ‘não’, várias vezes, disse-lhe para parar, mas por duas duas ou três vezes ele insistiu. Nunca o beijei ou demonstrei qualquer interesse nisso. E, a certa altura, ele começou a tocar-se a ele próprio”.

"Começou a tocar-me e eu disse-lhe para parar, estava indisposta. Ele parou mas logo a seguir recomeçou. Eu disse ‘não’, várias vezes, disse-lhe para parar, mas por duas duas ou três vezes ele insistiu. Nunca o beijei ou demonstrei qualquer interesse nisso."
Laura, ex-colaboradora da Revolut que saiu alegando não se sentir segura.

Nesse momento, Laura terá conseguido “escapar” – é nestes termos que descreve a experiência, ao Observador. Acabou a noite com o vestido rasgado, embora não possa garantir com certeza se foi Peter que o puxou. Quando saiu do apartamento, enviou uma mensagem a uma amiga, que também trabalha na Revolut, dizendo que tinha “fugido”. Em choque, sem conhecer a parte da cidade onde estava, chegou a ser abordada por estranhos que se ofereceram para ajudar, por verem uma mulher sozinha a chorar na rua.

Não foi à polícia, recorda. Não fala português, não fazia ideia daquilo que devia fazer, de que tipo de polícias ia encontrar e não sabia se as autoridades iam fazer alguma coisa tendo em conta que nada tinha, afinal, sido consumado. “Só o trauma.”

"Laura" conta que saiu do AirBnB onde estava Peter estava alojado (pela empresa) a chorar, sozinha, sem saber em que parte da cidade estava.

FERNANDO VELUDO/LUSA

Só passado uma semana foi à APAV. Inicialmente, o seu instinto foi contactar as pessoas que conhecia, desde logo procurar o aconselhamento da empresa pela qual tinha vindo para Portugal trabalhar. E a reação deixou-a ainda mais desmoralizada, recorda. “Falei com as pessoas dos recursos humanos de cá, que foram compreensivas, mas as decisões ali são todas tomadas em Cracóvia e em Londres – e percebi que na Polónia estiveram-se a marimbar para o que aconteceu”, recorda.

Deram-lhe dois dias de folga – pagos, recorda – mas valeu de pouco. Quando voltou, Laura “chorava todos os dias”. O desempenho baixou, os KPI [os famosos indicadores-chave de desempenho] pioraram. Ver Peter, entretanto regressado à Polónia, falar a toda a hora para a equipa, no Slack, estava a tornar a situação ainda pior.

9 perguntas e respostas sobre assédio sexual (e 6 histórias de vítimas)

Pouco tempo depois, foi chamada para uma reunião, para falar sobre a performance que, subitamente, se tinha tornado um problema – os KPI tinham caído para 4,3 pontos (em cinco). “Eles queriam 4,75, pelo menos. Claro que os meus números caíram, estava exausta e sentia-me sozinha e traumatizada. Nunca senti aquele tipo de pressão, toda a gente focada em conseguir a porcaria dos objetivos, ninguém fala com ninguém. Parece uma fábrica de produção na China, é pior do que trabalhar em telemarketing”.

À distância de um ano, considera hoje que deveria ter tido muito mais apoio por parte da empresa, incluindo ser mais pró-ativa com apoio psicológico. Ainda assim, nas semanas seguintes, início do verão, Laura recorda que se sentiu um pouco melhor, pelo menos com força para recuperar no desempenho. Diz ao Observador que chegou aos 4,75 – “só para lhes mostrar que conseguia” – e, nesse momento, despediu-se.

"Claro que os meus números caíram, estava exausta e sentia-me sozinha e traumatizada. Nunca senti aquele tipo de pressão, toda a gente focada em conseguir a porcaria dos objetivos, ninguém fala com ninguém. Parece uma fábrica de produção na China, é pior do que trabalhar em telemarketing."
Laura, ex-colaboradora da Revolut que saiu alegando não se sentir segura.

No e-mail que enviou aos recursos humanos, explicou que não se sentia segura, até porque sabia que o colega Peter estaria prestes a voltar ao Porto por mais alguns dias, um superior hierárquico descrito por Laura à empresa assim: “Tenho 100% de certeza de que teria abusado de mim, se eu não tivesse conseguido escapar”.

E na resposta ao pedido de demissão, num e-mail visto pelo Observador, a Revolut disse que tinha “investigado” as “alegações” que Laura tinha feito. Uma “investigação” que tinha apurado, antes de mais, que “na festa, [a Laura] foi vista a consumir álcool e foi vista a flirtar com Peter. No fim da festa, tomou a decisão pessoal de partilhar um táxi com ele e, por razões alheias à empresa, decidiu ir ao apartamento dele”, asseverou a empresa.

Continuava a resposta formal: “Ainda assim, apesar disto, a empresa investigou as alegações e ficou satisfeita pelo facto de Peter ter aceitado submeter-se a um teste de polígrafo, garantindo que não existiu qualquer contacto sexual não-consensual nem qualquer ato sexual entre os dois”. Não era exatamente isso que Laura alegava ter acontecido, mas é isso que aparece descrito no e-mail da empresa como as perguntas que terão sido feitas a Peter.

E mais, lê-se no e-mail: “Mesmo que esses atos tivessem ocorrido, como a Laura alega, teriam sido uma questão pessoal entre a Laura e o Peter”.

“Mesmo que esses atos tivessem ocorrido, como a Laura alega, teriam sido uma questão pessoal entre a Laura e o Peter.”
Recursos humanos da Revolut, em e-mail formal enviado a Laura.

Laura acertou os termos financeiros da saída e deixou a Revolut, lembrando na resposta a este e-mail formal que, na sua ótica, ela é que era “a vítima” naquele processo. “Falar com alguém numa festa não lhe dá o direito de me tocar quando eu digo repetidamente que não quero.”

A polaca acabou por ficar pelo Porto e hoje trabalha noutra empresa. Mas mostra-se ainda traumatizada pelo que aconteceu há cerca de um ano. Peter continua a trabalhar na Revolut.

Questionada, a Revolut acabou, após insistência do Observador, por comentar este caso. A empresa garante que “encara com total seriedade qualquer reporte de assédio sexual e qualquer caso é investigado de forma rigorosa”. Existe, diz a empresa, um “painel de investigação que inclui um mix de dois advogados e dois representantes de Recursos Humanos — que incluem homens e mulheres — para asseverar um processo mais justo e compreensivo”.

Neste caso, argumenta, “depois de uma investigação completa, incluindo declarações de testemunhas, este painel concluiu que não era possível dar provimento à queixa”. E continua: “Apesar de a queixosa não ter querido apresentar queixa junto das autoridades competentes, iremos sempre garantir total cooperação com qualquer investigação das autoridades, caso estas aconteçam, e estamos comprometidos no apoio dado a todos os nossos colaboradores”. E terminava: “Orgulhamo-nos de garantir que a Revolut é uma organização aberta, segura e colaborativa”.

Assédio sexual não é só nas quatro paredes da empresa (ou nas 8 de horas de um turno)

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Na lei portuguesa, “o assédio tem sido caracterizado como qualquer comportamento indesejado que seja baseado em fatores de discriminação que tenha o objetivo ou que seja apto a perturbar ou constranger o trabalhador, afetando a sua dignidade ou criando um ambiente intimidador, degradante, humilhante ou desestabilizador”, explica Filipa Lopes Galvão, advogada na TM Legal.

A advogada sublinha que o “Código do Trabalho prevê a proibição do assédio, sancionando tais comportamentos com a aplicação de contra-ordenação muito grave e conferindo à vítima o direito a uma indemnização por danos patrimoniais e não patrimoniais”.

E há uma questão importante, que contrasta com o teor do e-mail enviado pelos Recursos Humanos: “Tais comportamentos não deixam de ser sancionáveis no âmbito laboral mesmo que sejam perpetuados fora do local e do tempo de trabalho, desde que criem ou sejam aptos a criar um ambiente de trabalho hostil, intimidatório, humilhante ou desestabilizador que afecta a dignidade do trabalhador”.

Convidados por 1.500/mês, contratados por 900

Enquanto tudo isto se passava com Laura, Patrícia ia-se também cada vez mais abaixo, já que o caso que se passou com a amiga a fez recordar traumas anteriores sobre abuso sexual por que a própria passou quando era mais nova.

Comunicou à empresa que estava, ela própria, a ficar com receio. Responderam-lhe, recorda, que “não havia provas” das alegações feitas por Laura e que Patrícia não tinha “razões para ter medo”. Mas sentia-se desconfortável de cada vez que Peter escrevia no Slack da equipa, sabendo Patrícia o que tinha acontecido. “Aquilo mexia comigo…”, diz.

Patrícia cansou-se da forma como a empresa funcionava, nomeadamente o facto de toda a gente receber ordenados diferentes, sem que “ninguém percebesse porquê”, de haver sempre problemas com o cálculo das horas extra, dos horários noturnos. “Nunca recebi o meu ordenado correto, à primeira, em todo o tempo que lá trabalhei… Como é que uma empresa que se diz financeira não consegue pagar corretamente aos funcionários?”, pergunta.

"Os créditos laborais apenas prescrevem um ano após a cessação do contrato de trabalho, o que quer significar que os trabalhadores podem pedir e contestar os créditos de toda a relação laboral até um ano após a saída da empresa."
Filipa Lopes Galvão, advogada da TM Legal.

Uma outra ex-colaboradora levanta a mesma questão, mas noutro contexto: quando foram convidados a ir trabalhar para a Revolut vários colaboradores receberam propostas de emprego a ganhar muito mais do que o ordenado que acabariam por ter. Foi o caso de Laura, por exemplo, mas também de vários outros: tiveram uma proposta a ganhar cerca de 1.500 euros por mês mas receberam uma nova offer letter de cerca de 900 euros mensais. Só assinou contrato quem quis, mas alguns já tinham anunciado a saída nos anteriores empregos.

A empresa terá atribuído o sucedido a um erro humano, cometido nos escritórios de Londres, que trataram dos processos das primeiras contratações para Matosinhos. A solução apresentada aos trabalhadores surpreendidos pela mudança de condições salariais foi o pagamento de um bónus equivalente à diferença entre os dois salários — mas apenas durante três meses.

Mais tarde, outro erro, desta vez atribuído pela empresa a um fornecedor de serviços externo: vários colaboradores receberam nos seus e-mails o recibo de vencimento de outros colegas, em vez do seu. A Revolut garantiu que estava a “tomar todas as medidas para assegurar que nunca voltaria a acontecer”. Joana, outra ex-funcionária que falou com o Observador pedindo que se utilizasse nome fictício, acrescenta: “Nunca acertavam com os valores, não pagavam a horas, por vezes pagavam o ordenado e o subsídio de alimentação mais tarde”. O pior, porém, era a volatilidade dos horários, que eram escalados de uma forma que também “ninguém percebia”.

“Dei por mim a ser escalada para fazer horário noturno várias semanas, quando outros colegas nunca eram escalados. E não valia a pena perguntar porquê. Era como falar com uma parede, não nos ouvem – até que um dia me queixei e obviamente não gostaram. Ali valia o queres, queres; não queres, vais-te embora”, recorda Joana.

"Escalas que ninguém compreendia... Um dia queixei-me, e não gostaram. Ali valia o 'queres, queres, não queres vais embora".

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Houve casos de pessoas contratadas com horário fixo – um diabético e uma mãe solteira, com uma criança pequena – que acabaram por ter de sair por não poderem fazer os horários rotativos que, a dada altura, passaram a ser prática na unidade de Matosinhos. Passar a fazer horários rotativos implicou as pessoas assinarem uma adenda no contrato – a trabalhadora que tinha a filha pequena aceitou, numa primeira fase, mas acabou por não conseguir equilibrar a vida profissional e a vida familiar e saiu da empresa.

Oficialmente, a Revolut respondeu ao Observador que a empresa se “esforça por criar uma cultura positiva e uma workforce motivada”. “Apoiamos os nossos funcionários por forma a atingir todo o seu potencial e oferecemos formação e guidance e tentamos acomodar, sempre que possível, os seus pedidos e necessidades”, acrescenta, notando que “nos casos em que os colaboradores abandonam a empresa trabalhamos para que essa experiência seja o menos dolorosa possível” – e “operamos sempre de forma transparente e em conformidade com a lei local aplicável”.

Joana recorda que acabou por ficar fisicamente esgotada pela rotatividade excessiva de horários – acabou por desenvolver um problema de saúde que, diz-nos, poderá ter sido provocado ou agravado pela instabilidade dos turnos de trabalho. “Mesmo assim, quando comuniquei que ia sair ficaram todos de trombas”, recorda.

Despedimentos, cortes e críticas aos apoios do Governo. Um raio-x ao impacto da pandemia nas startups portuguesas

Márcio, nome fictício, também diz que atingiu o ponto de saturação: “Fiquei cansado de estar todo o dia a pedir desculpa às pessoas – na maior parte do tempo não estávamos realmente a resolver problemas, mas apenas a pedir desculpa às pessoas”. Muitas vezes, zangados com a Revolut (e não, necessariamente, com Márcio ou outro dos seus colegas), no final da interação os clientes “vingavam-se” com uma pontuação de uma ou duas estrelas (em cinco) – e lá iam os KPI por aí abaixo. “Era muito frustrante”.

Márcio entrou em rota descendente. “Uma vez senti-me mal e não consegui ir trabalhar”, recorda, admitindo que não avisou em tempo útil que não conseguiria ir. Foi chamado para uma reunião com o seu team leader por ter faltado e explicou que “não andava bem”: “Fui-me abaixo com as mudanças de horários e com o trabalho, estou um pouco desanimado com isto”.

“Em vez de me perguntarem se podiam ajudar-me de alguma forma, perceber como podia ficar mais satisfeito com o trabalho, passaram ao ataque. Perguntaram se eu achava correto faltar ao trabalho sem avisar antes, foi mais uma conversa no sentido de dizer ‘nunca mais voltes a fazer isto’”, como uma ameaça e não como o que podia ter sido um momento para dar algum apoio e motivação”.

Márcio não fez grande caso – algum tempo depois surgiu outra oportunidade e virou costas. “Achávamos que era uma empresa inovadora, jovem, multicultural, cool e ótima para ter no CV… Mas quem pensar em ir trabalhar para lá tenha muito cuidado e procure saber exatamente onde é que se vai enfiar”, avisa um outro ex-colaborador, “Ricardo”.

Das 22 pessoas que entraram na primeira vaga de contratações, em maio de 2019, apenas 9 continuam na empresa, numa equipa que entretanto cresceu para as 105 pessoas atuais.

Das 22 pessoas que entraram na primeira vaga de contratações, em maio de 2019, apenas 9 continuam na empresa, numa equipa que entretanto cresceu para as 105 pessoas atuais.

O “sacrifício” de parte do salário em troca de ações da empresa

O artigo da Wired coloca em causa, também, o controverso plano de “sacrifício” de parte do salário em troca de ações da empresa – um programa que a Revolut lançou nos vários países onde está para poupar nos custos: segundo a empresa, permite poupar 900 mil euros, a cada mês, nos próximos 12 meses.

A Wired revelou que embora alguns funcionários tenham aceitado participar, outros sentiram-se pressionados. “As pessoas estão assustadas, a todo o momento, que alguém as vá despedir. Falei com vários colegas que disseram que abdicaram de 10% do salário só porque têm medo de que, mais tarde, venham a marcar aqueles que não aceitaram”, disse uma fonte do artigo da Wired.

“Obviamente eles não dizem que vão despedir as pessoas [caso não participem no programa] mas, no final, a mensagem acabava por ser um pouco essa: se vocês sacrificarem parte do vosso ordenado, nós paramos de despedir pessoas”. Problema: em Portugal não é permitido baixar o salário-base de alguém, mesmo que exista um acordo. O programa não está a ser aplicado em Portugal – ainda assim, segundo informação recolhida pelo Observador, a empresa continua a trabalhar para oferecer algum tipo de programa de sacrifício salarial que esteja em linha com a legislação laboral portuguesa.

Revolut lançou programa de sacrifício de salário em troca de ações da empresa – mas em Portugal não é legal. Está a procurar-se uma alternativa.

SOPA Images/LightRocket via Gett

A poupança de custos foi, na cabeça de Ricardo, a razão pela qual lhe ofereceram a saída por mútuo acordo: por falar várias línguas recebia mais de bónus, portanto não era dos colaboradores mais baratos. “Estou convencido que olharam para os mais caros e começaram a cortar por aí”, acredita Ricardo, admitindo que nos últimos tempos, com a crise, os seus KPI estavam longe do melhor. “Mas estavam os meus e estavam os de toda a gente”, assegura.

Embora admita que a Revolut não fez nada de ilegal, olha de forma crítica para o que aconteceu: “Eu era cliente, achava a marca uma coisa muito cool, mas depois entrei e fiquei em choque… Parecia uma empresa meio a brincar”.

Numa nota enviada aos colaboradores, na sequência do artigo da Wired, o russo Nik Storonsky admitiu: “Enquanto atravessávamos este período [de quebra no negócio por causa da pandemia] estávamos todos sob pressão para reduzir custos rapidamente, já que as nossas receitas estavam a cair”. Mas, escreveu o co-fundador da Revolut, numa nota citada pelo mesmo jornalista que escreveu para a Wired, Emiliano Mellino, essa pressão súbita para cortar custos “não deve permitir que ‘atalhemos caminho'”: “Quero assegurar-vos que vamos rever as situações relatadas com muito cuidado, para ver se há coisas que podemos fazer melhor”.

Questionada pelo Observador, fonte oficial da Revolut confirmou: “Como em muitos negócios, este ano sofremos uma redução nas receitas que impôs a necessidade de corte de custos e ajustes nas operações de forma transversal na empresa”. Mais: “Reduzimos custos e encargos com outsourcing na medida possível para proteger emprego e os colaboradores”. Mas não foi suficiente: “Apesar destes esforços, e como último recurso, tivemos que fazer 62 redundâncias globalmente, o que representa menos de 3% do nosso staff”.

Apesar da crise, a Revolut termina com uma garantia: “Temos muito orgulho nas nossas equipas em Portugal e estamos comprometidos com o país”.

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