É o rosto da oposição interna a Rui Rocha, representa o movimento Unidos pelo Liberalismo e vai lutar pela liderança da Iniciativa Liberal na convenção agendada para 1 e 2 de fevereiro. Não poupa críticas ao líder do partido, lamenta que não tenha colocado o lugar à disposição depois de ter falhado todas as metas eleitorais com que se comprometera e sugere que se a IL continuar por este caminho estará condenada à irrelevância política.
Nesta corrida eleitoral, vai somando a sua própria dose de controvérsias. Recentemente, lançou Carlos Guimarães Pinto como o seu candidato à Presidência da República, hipótese que Guimarães Pinto desmentiria horas depois. Agora, em entrevista ao Observador, no programa “Sob Escuta”, esclarece que, afinal, se referia apenas ao “perfil” do antigo líder do partido e não necessariamente à candidatura dele.
Também não se compromete com uma eventual expulsão de Tiago Mayan Gonçalves, o antigo líder do movimento Unidos pelo Liberalismo e que foi apanhado a falsificar assinaturas na junta de freguesia a que presidia, da Iniciativa Liberal. Ainda assim, vai reconhecendo que, se estivesse no lugar de Mayan, já se teria afastado do partido.
Diz que existe uma cultura de “nepotismo e favoritismo” no partido, mas recusa concretizar as acusações. Critica abertamente Carlos Moedas e defende que a IL não deve, por princípio, envolver-se em coligações que não garantam reformas. Ao mesmo tempo, aponta o dedo a Rui Rocha e diz que o atual presidente da Iniciativa Liberal tem sido tudo menos coerente na sua relação com Luís Montenegro.
No âmbito destas eleições internas, o Observador também convidou Rui Rocha para uma entrevista, mas não obteve qualquer confirmação. Também estava previsto um debate entre os dois candidatos, mas o presidente da Iniciativa Liberal manifestou indisponibilidade de agenda.
[Veja aqui na íntegra a entrevista a Rui Malheiro]
“Há vários Guimarães Pinto dentro da Iniciativa Liberal”
No lançamento da sua moção, disse que Carlos Guimarães Pinto era a “melhor aposta” para ser o candidato da IL à Presidência da República. Percebemos depois que nem sequer o contactou e ele fez saber imediatamente também que não está disponível. Como é que os membros do partido podem confiar em si quando sugere candidaturas que não estão fechadas, nem sequer conversadas, e cujos protagonistas também não foram informados de nada?
Deixem-me já partir para um esclarecimento. O que disse foi que o perfil de Carlos Guimarães Pinto era o meu perfil escolhido para um candidato às eleições presidenciais. Portanto, mencionei Carlos Guimarães Pinto enquanto perfil, não enquanto candidato. Pretendo, no final da convenção eletiva, convocar um Conselho Nacional onde será debatido esse perfil e depois encontraremos a pessoa certa para o fazer.
Mas estava a usar o nome de Carlos Guimarães Pinto para ganhar votos?
Não. Como perfil.
Há outras pessoas que têm sido faladas. Bernardo Blanco disse que Rodrigo Saraiva e Mariana Leitão eram dois bons nomes para as presidenciais. Eles também têm um bom perfil ou não?
Não irei comentar. Falaremos em sede de Conselho Nacional.
Se pode falar de um nome, pode falar de outros, ou não?
Já mencionei o perfil.
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Falou de Carlos Guimarães Pinto, que está indisponível. Diz que quer alguém com um perfil semelhante a Carlos Guimarães Pinto. Ora, não há duas pessoas iguais. Em quem é que está a pensar?
Mais uma vez, estou a pensar sobre um perfil e, acima de tudo, o que nós queremos é um perfil agregador. Carlos Guimarães Pinto tem tudo para ter esse perfil agregador, mas temos outras pessoas dentro do partido com esse perfil e também na sociedade civil.
Mas ao apresentar Carlos Guimarães Pinto como a “melhor aposta” não está a menorizar qualquer pessoa que venha a convidar a seguir?
Não, não. Mais uma vez, o que disse foi que o perfil de Carlos Guimarães Pinto será o meu perfil para um candidato presidencial.
Disse que era a “melhor aposta”. Isto é uma citação retirada da sua apresentação.
Mais uma vez: o perfil de Carlos Guimarães Pinto é o perfil ideal para um candidato às próximas presidenciais pela Iniciativa Liberal.
Que características procura, exatamente? Falou da capacidade de agregar. Que outras características é que procura num candidato a Presidente da República?
Um candidato que consiga levar a nossa mensagem à população em geral. O que trazemos nesta moção de estratégia global e a nossa visão para o partido é, na realidade, uma maior aproximação ao eleitorado. Se queremos crescer, e já disse que queremos um patamar sólido de 10% do eleitorado, a nossa mensagem tem que ser clara. Neste caso, por exemplo, Carlos Guimarães Pinto tem tido essa facilidade de chegar às pessoas, de explanar as nossas ideias liberais e é esse perfil que eu idealizo.
Mas Carlos Guimarães Pinto já disse não estar disponível. Porquê continuar a insistir num nome que já disse que não?
Novamente, estamos a falar do perfil de Carlos Guimarães Pinto e não da pessoa de Carlos Guimarães Pinto. Se estivesse especificamente à procura de Carlos Guimarães Pinto, tinha-o contactado. Não o fiz porque identifiquei o perfil.
Então há outro Carlos Guimarães Pinto dentro da Iniciativa Liberal?
Vários. Há vários Carlos Guimarães Pinto dentro da Iniciativa Liberal, felizmente. E essa também é uma parte interessante [da nossa moção]: a formação de quadros que temos dentro da Iniciativa Liberal tem de ser muito mais abrangente. Temos de criar muitos mais Carlos Guimarães Pinto dentro da Iniciativa Liberal. Nos últimos dois anos, Rui Rocha e a direção dele não têm conseguido criar muitos mais Carlos Guimarães Pinto, infelizmente.
Acabou de dizer que há muitos. Afinal, há muitos ou não há muitos?
Dentro do partido há muitos perfis como o de Carlos Guimarães Pinto. O que a direção de Rui Rocha não conseguiu foi dar-lhes palco, o que é diferente.
Então existem mas não são conhecidos, é isso?
Mas não são conhecidos. Por exemplo, toda a minha equipa tem créditos profissionais, são reconhecidos dentro dos seus setores, estão no partido há vários anos e muito poucos deles tiveram essa oportunidade dentro do próprio partido. Queremos, na realidade, dar palco a outras pessoas, queremos ser o adulto na sala.
E uma eventual candidatura de Mariana Leitão ou de Rodrigo Saraiva à Presidência da República seria a continuação desse erro que está a denunciar?
Tanto Mariana Leitão como Rodrigo Saraiva são duas pessoas que já fazem parte do partido há muitos anos, seguramente muito mais ligadas à atual direção do que propriamente ao nosso movimento.
Portanto, qualquer um deles seria um mau candidato presidencial?
O candidato que for escolhido terá o apoio seguramente de todo o partido. Não poderemos falar em ‘maus candidatos’.
“Se estivesse na posição de Mayan, já não estaria no partido”
Falemos sobre as questões internas da Iniciativa Liberal, que também estão em jogo nestas eleições. Tiago Mayan Gonçalves deixou a liderança do movimento “Unidos pelo Liberalismo” por falsificar assinaturas numa junta de freguesia a que presidia. Acredita que Mayan Gonçalves deveria ser expulso do partido?
Acredito que devemos dar espaço à justiça para atuar. Neste caso, a Iniciativa Liberal tem um Conselho de Jurisdição que se irá pronunciar. Os próprios tribunais também se irão pronunciar.
Mayan Gonçalves já reconheceu o erro.
Exatamente. Cabe neste momento à justiça, tanto dentro do partido como fora do partido, atuar. E iremos aguardar serenamente pela decisão.
Se a justiça concluir que Tiago Mayan Gonçalves, de facto, cometeu um crime, deveria então ser expulso do partido?
Terá de ser responsabilizado pelos seus atos.
Isso é um sim?
Terá de ser responsabilizado pelos seus atos como todos os membros do partido e como qualquer outro cidadão.
Mas o cenário alternativo é Mayan Gonçalves continuar no partido. É aceitável para um partido com as características da Iniciativa Liberal manter um militante nas suas fileiras nestas circunstâncias?
Temos de entender que o liberalismo também assenta na separação de funções. E se o Conselho de Jurisdição considerar que Tiago Mayan Gonçalves tem condições de se manter no partido, não será o presidente a ter uma opinião contrária. Portanto, devemos responsabilizar os órgãos pelas próprias decisões que tomam. Ao contrário do que faz Rui Rocha, já agora, nunca me ouviu falar deste tema.
Vamos colocar a questão, não do ponto de vista legalista, se quiser, mas do ponto de vista da moral. Entende que Tiago Mayan Gonçalves deve manter-se como militante da Iniciativa Liberal?
Posso responder-lhe da seguinte forma: se fosse eu nessa posição, já não estaria no partido.
“Nepotismo? Há sempre muitas nebulosas no ar”
Na moção que vai levar a votos na próxima convenção diz o seguinte: “Rejeitamos o nepotismo e o favoritismo, promovendo a seleção de representantes e candidatos baseados na competência, dedicação e capacidade de representar os valores liberais”. Quem é que na Iniciativa Liberal tem um cargo por nepotismo ou favoritismo?
Esta comissão executiva não conseguiu trazer para cima da mesa a questão da transparência. Continuamos a não ter transparência na Iniciativa Liberal. Transparência sobre as escolhas dos eleitos ou dos candidatos, sobre os fornecedores, sobre os próprios funcionários do partido. Portanto, enquanto não tivermos esta transparência, há sempre muitas nebulosas no ar e há espaço para dúvidas.
Sendo então um defensor da transparência, quer responder-nos quem é que dentro da Iniciativa Liberal tem um cargo por nepotismo ou favoritismo?
É uma questão que é sobejamente conhecida. Há várias relações pessoais dentro da Iniciativa Liberal. Quando for presidente da Iniciativa Liberal essas relações entre órgãos não podem [existir].
As pessoas não poderão ter relações pessoais e familiares dentro dos órgãos do partido?
Não, não. Privilegiamos a transparência e privilegiamos acima de tudo que os dados sejam conhecidos. Portanto, se há algum processo de intenções nestes casos eles têm de ser conhecidos.
Mas acabou de dizer que esses casos eram sobejamente conhecidos.
São conhecidos dentro do partido de forma informal.
No futuro, por exemplo, os membros da sua comissão executiva vão ter de assinar um documento, como acontece em algumas empresas, a garantir que não há relações familiares entre eles, é isso?
Sim. Temos a confiança de que iremos defender todo o aspeto mais transparente dentro do partido. Na minha Comissão Executiva não há relacionamentos pessoais conhecidos.
Conhecidos?
Oficiais, digamos assim.
Não vai dizer então a que casos se está a referir, certo?
Não irei revelar. Entendo que deveria ser uma função do próprio partido colocar os interesses de cada pessoa, sejam profissionais, sejam pessoais, em cima da mesa, para as pessoas também perceberem quem são, o que fazem, como fazem, e se calhar perceber algumas coisas que funcionam menos bem dentro do partido.
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
“Há desunião dentro da direção do partido”
Bernardo Blanco decidiu sair da direção da Iniciativa Liberal, já se posicionou para uma candidatura à liderança do partido. Falou-se muito da forma como se deu a passagem de testemunho entre João Cotrim Figueiredo e Rui Rocha. Acredita que a corrente da liderança está a preparar-se para fazer o mesmo com Bernardo Blanco?
O que consigo destacar da candidatura de Bernardo Blanco e também da sua lista é que houve uma desunião dentro da direção do partido. Caso contrário, Bernardo Blanco continuaria. E não foi só Bernardo Blanco. Tivemos António Costa Amaral também e Bruno Mourão Martins a sair.
Em virtude das regras internas, Bernardo Blanco não se poderia candidatar a presidente do partido se se mantivesse na Comissão Executiva por mais dois anos. Acha que sai para se preparar a sua candidatura à liderança?
Acredito que a chamada sucessão dinástica terminou há dois anos. Falo com Bernardo Blanco, falo com todas as pessoas dentro do partido, felizmente, para tentar unir o partido. Não me parece que esse cenário esteja em cima da mesa. O próprio Bernardo Blanco disse que um dia queria ser presidente da Iniciativa Liberal e há que louvar essa ambição. Espero contar com ele no Conselho Nacional, comigo a presidir o partido, para trabalharmos em conjunto.
Pode ter o seu voto no futuro para a liderança da Iniciativa Liberal?
Se calhar será ao contrário. Estou a contar com o voto do Bernardo Blanco para mais um mandato da minha renovação daqui a dois anos como presidente da Iniciativa Liberal.
Ele já disse em quem é que ia votar e será em Rui Rocha.
Nunca é tarde para mudar de ideias.
A oposição interna sempre acusou a linha oficial do partido de não conseguir unir a Iniciativa Liberal. Muitas das figuras que saíram foram diretamente para o Chega. Estamos a falar de nomes como Simões de Melo, Mariana Nina. Fazem falta ao partido?
Faz falta quem está. A minha ideia para a Iniciativa Liberal é ser a casa de todos os liberais.
Uma pessoa que vai para o Chega é liberal?
Não estou a falar de um caso específico. Estou a falar da minha ambição para o partido. Temos feito muitos contactos com membros da IL que dizem que ainda não saíram do partido porque têm que enviar um e-mail para se desfiliarem… Queremos que todos os liberais se sintam confortáveis com o partido e que todos os liberais que ainda não se filiaram no partido se sintam à vontade para dar um passo em frente e se filiem.
Uma pessoa que vai para o Chega é um liberal?
Esse partido não é nitidamente liberal.
Mas essa era a pergunta. Se foram diretamente para o Chega, fazem falta à IL? Gostaria de os ter de volta?
Não me vou pronunciar sobre a saída de nenhuma das pessoas. Nem temos essa vertente saudosista dentro do partido. Confiamos que as pessoas que estão cá dentro são suficientes para alcançar os nossos objetivos. Pretendemos também reforçar o nosso número de militantes e chegar às nossas ambições: 10% de eleitorado e a médio e longo prazo ser Governo em Portugal.
Se perder estas eleições, admite ir para o Chega?
Não e é um repto que quero deixar aqui bem claro: depois da convenção não pode haver membros a desistirem do partido. Independentemente de quem vença e de quem perca, todos vamos ganhar alguma coisa na convenção. Vai ser uma festa do liberalismo. O partido tem que ser a casa de todos os liberais e não podemos estar aqui sempre com a dicotomia conservadora ou progressista. Todas as pessoas têm de sentir que o partido faz parte da solução para Portugal e temos de entender que, neste momento, a Iniciativa Liberal é o único projeto liberal em Portugal.
“Rui Rocha deveria ter colocado o lugar à disposição”
Acusa Rui Rocha de ter “tiques socialistas”, mas foi a IL que o elegeu. Se Rui Rocha voltar a vencer, é sinal de que a IL se transformou num PS?
Os tiques socialistas a que me refiro são, por exemplo, Rui Rocha não se apresentar a debates. Rui Rocha não quer debater comigo. Estamos a duas semanas da convenção e temos um debate marcado numa rádio, o que é manifestamente pouco para esclarecer os membros. Isso é um tique socialista. Outro exemplo: responsabilização pelos resultados. Tivemos umas eleições legislativas onde Rui Rocha prometeu 7,5% e conseguiu apenas 5%. Ou seja, estagnou o partido. Se fosse eu, tinha colocado o meu lugar à disposição e depois os membros do partido que entendessem da melhor forma. É preciso fazer mais e muito melhor. Dessa forma apresentámos-nos com uma candidatura com muito menos tiques socialistas, predispomos-nos a debater. Temos uma moção estratégica global onde temos objetivos claros e concretos para todos os atos eleitorais.
A imigração, a segurança e a defesa são três dos temas mais falados neste momento. Em relação à imigração, defende que a entrada em Portugal deve estar dependente da prova de meios de subsistência. Isto é exatamente a posição da atual direção.
Vamos num caminho diferente, de integração dos imigrantes, queremos claramente que os imigrantes venham para Portugal porque precisamos de imigrantes. Precisamos de cerca de 130 mil imigrantes por ano, esse estudo é conhecido, e precisamos de acolher os imigrantes de uma forma digna.
Mas a direção de Rui Rocha também quer isso ou não?
Rui Rocha tem muitas posições semelhantes à nossa, continuamos a ser liberais e vai haver muitas posições que serão semelhantes. Mas entendemos que os imigrantes não podem sofrer do estigma que hoje em dia está a ser vincado.
E Rui Rocha acha que devem sofrer desse estigma?
Rui Rocha está a ser também uma peça importante para causar alarmismo na sociedade portuguesa.
Porquê?
Ainda agora com esta proposta do RASI, da identificação da nacionalidade.
É contra?
Acho que não deve ser o foco da Iniciativa Liberal, que tem de falar para os portugueses, tem de falar sobre qual é a forma de conseguir melhorar a qualidade de vida dos portugueses e não criar alarmismos. Portugal é um dos países mais seguros do mundo e esta não deve ser a nossa prioridade enquanto partido liberal.
Mas na sua moção defende a recolha de dados que “permitam identificar padrões de criminalidade”. Que dados são esses? Não incluem a nacionalidade?
Estamos a falar exatamente do mesmo, mas não estamos a dar o destaque…
Então está de acordo com a proposta desta direção. Além disso: põe na sua moção mas diz que não está a dar destaque?
Certo…
Então, afinal, está de acordo com a proposta de recolher os dados de nacionalidade de autores de crimes e vítimas?
A questão aqui é o que é importante para os portugueses e não o que é que devemos dar…
Mas está de acordo com a proposta de recolher informações sobre a nacionalidade dos autores e das vítimas dos crimes?
A questão é: qual é a necessidade disso?
Só lhe estou a perguntar se está de acordo.
Será estigmatizar os imigrantes…
É na sua moção que está isto. Está de acordo com isso ou não?
Certo, certo.
Mas está de acordo?
Entendemos que deve haver uma recolha de dados sobre os crimes e que estes devem ser conhecidos. A nacionalidade pode ser um dos dados.
É que estava a criticar e afinal está de acordo.
Não, não. A moção de estratégia global apresenta uma visão para o país e para vários setores, que é uma visão que depois será trabalhada dentro da Iniciativa Liberal. Portanto, não são propostas fechadas e essas propostas necessitam sempre de um melhor e maior estudo e temos pessoas qualificadas para o fazer, tanto na apresentação da nossa moção, como depois fora da nossa Comissão Executiva.
“Acredito que 2,5% do PIB deve ser alocado à Defesa”
Na Defesa, também defendeu a necessidade de um investimento mais forte e a necessidade também de reequacionar os esforços de defesa a conjuntos europeus. Também é o mesmo que diz a atual direção, não é?
Acho que não. Nunca vi Rui Rocha, por exemplo, a pronunciar-se sobre Defesa. Há vários tópicos que falamos na moção de estratégia global.
Quanto dinheiro é que acha que se devia gastar em Defesa? Já se fala em 5% do PIB.
No mínimo cumprir os 2% e tentar uma meta entre os 2% e 3%. Acredito que 2,5% do PIB deve ser alocado à Defesa.
E se fosse necessário aumentar impostos para chegar a isso?
Não vamos pela parte dos impostos. Na minha moção de estratégia global falamos numa redução da carga fiscal.
Como é que chega aos 2,5% de despesa em Defesa?
Lá está, temos que reduzir a despesa.
Onde?
A reforma do Estado é um bom exemplo. A simplificação fiscal é outro bom exemplo.
Mas o dinheiro fica no Estado na mesma. Vai reduzir num lado para depois o gastar em Defesa?
É uma realocação de prioridades. Por exemplo, o setor da Defesa move muito a indústria e essa aposta na indústria militar tem que ser uma realidade e deve ser uma realidade. Como já foi há vários anos.
Disse numa entrevista que enquanto a Caixa Geral de Depósitos estiver a dar lucro lhe parece “claramente aceitável” mantê-la na esfera pública. A TAP lucrou 118,2 milhões de euros até setembro, perspetiva-se que vai fechar o ano com resultado líquido positivo. Qual é a razão que o leva a olhar para estas duas empresas de forma diferente?
Neste caso, em relação à TAP, temos 3 mil milhões de euros de saldo negativo, coisa que não acontece com a Caixa Geral de Depósitos. Há bocado perguntaram como é que trazemos mais eficiência ao Estado. Por exemplo, no caso de Paulo Macedo, a diferença da gestão pública é um caso concreto. Neste caso, conseguiu trazer lucros muito interessantes. Mais uma vez, o que disse sobre a Caixa Geral de Depósitos é que neste momento os lucros são muito interessantes, mas também não vemos porque é que um banco público tem que ter lugar em Portugal.
Mas, no mesmo sentido, o Estado também injetou 2,5 mil milhões de euros na CGD em 2017 e recuperou esse dinheiro. Por que é que acha que com a TAP não pode acontecer o mesmo?
Porque a diferença de números é brutal.
É de 3,2 mil milhões para 2,5 mil milhões.
A questão da TAP é que demoraria muito mais anos, muito mais tempo de amortização.
Não está disposto a esperar? Um Paulo Macedo na TAP não era suficiente?
Portugal não tem tempo a esperar. E o negócio da aviação é muito diferente do negócio bancário. São dois setores diferentes e o negócio da aviação é muito mais volátil do que o negócio da banca.
Sugere, como a IL já fez, descer o IVA da construção para 6%, mas na sua moção acrescenta isto: “No atual contexto, o excesso de procura e relativa inelasticidade da oferta, grande parte da redução da receita fiscal decorrente destas medidas seria apropriada pelos promotores e empresas de construção sem se refletir nos preços”. Não é estranho um liberal desconfiar assim tanto da iniciativa privada?
É curioso que faça essa nota. Continuamos a acreditar na iniciativa privada, defendemos também, neste caso da Habitação, uma redução de prazo do licenciamento, por exemplo, defendemos que os proprietários e os senhorios tenham um papel fundamental na oferta da habitação, e, de certa forma, temos que olhar para estas medidas num ângulo de 360 graus e não apenas do ponto de vista público.
Se não for agora, que é necessária essa redução do IVA, vai ser quando?
Temos que avaliar, não entendemos que uma redução neste momento de 23% para 6% traga um efeito imediato, ou seja, acreditamos que há muitos processos antes para que haja mais habitação em Portugal e não uma medida imediata de redução do IVA, que pode não trazer o resultado desejado.
Está na sua moção, mas os eleitores da IL devem saber que esta não seria uma proposta do partido se chegar a presidente.
Não será uma proposta que iremos defender de imediato, mas ao longo de dois anos acredito que teremos essa possibilidade de a defender.
Não deixa de ser um princípio semelhante àquele que é defendido pelo Governo, que também anunciou a vontade de reduzir o IVA da construção para 6%, ainda que não a tenha calendarizado. Isto não tem um efeito perverso? Se dizemos aos construtores que no futuro o IVA vai ser reduzido para 6%, que incentivos são dados aos construtores para acelerarem a construção, se podem, daqui a dois anos, gozar de um benefício de 23% para 6%?
A redução dos prazos de licenciamento é uma medida que irá permitir seguramente à construção civil criar mais fogos e criar mais habitação para Portugal. Muito do que este Governo prometeu nas últimas eleições não se está a concretizar.
Mas no caso do IVA da construção é exatamente aquilo que está a dizer.
O que não sabemos é quando é que será aplicado por parte do Governo. O que eu disse, e já reafirmei, é que teremos de reequacionar quando é que isso será aplicado, porque há muito para fazer antes de pensarmos na redução da taxa do IVA da construção, mas entendemos, como é lógico enquanto liberais, que a redução de impostos é sempre bem-vinda.
“Já vamos muito atrás nas autárquicas”
Há quatro anos a Iniciativa Liberal decidiu ir sozinha a votos em Lisboa, falhou a eleição do vereador e ficou fora do executivo de Carlos Moedas. Considera que agora a Iniciativa Liberal devia fazer parte de uma grande coligação à direita?
Dentro da Iniciativa Liberal, e mais concretamente na nossa proposta, consideramos que os núcleos territoriais têm toda a autonomia, defendemos o princípio da subsidiariedade e tudo o que os núcleos defendam será a porta de entrada para esta discussão.
Mas um líder, lidera — e, portanto, tem uma opinião sobre coligações em Lisboa?
Seguramente a Comissão Executiva irá aconselhar os núcleos mediante as propostas que iremos receber.
Então imaginemos que já era presidente da Iniciativa Liberal, qual era o seu conselho aos núcleos?
O meu conselho aos núcleos é que as políticas liberais sejam de facto uma realidade e que não troquemos cargos por acordos. Neste momento há este slogan da Iniciativa Liberal: não trocamos cargos por Moedas. E isso deve ser não só para Lisboa, como para o Porto, como para Braga, como para Faro, como para Santarém.
Moedas tem sido um mau presidente da Câmara de Lisboa?
Moedas não tem trazido o reformismo liberal que pretendemos implementar dentro da Iniciativa Liberal e que a minha candidatura apresenta numa visão não só para Lisboa mas de uma forma transversal para o país todo.
Acredita que pode vir ainda a trazer?
Acredito que vai ser muito difícil.
Daí depreendo que não estaria interessado numa coligação com Carlos Moedas em Lisboa.
Mais uma vez, lugar aos núcleos, no princípio da subsidiariedade, vamos discutir essa situação com o núcleo de Lisboa da mesma forma que vamos discutir as eleições em Faro, em Coimbra, em todos os vínculos.
Se o protagonista é mau, se não acredita que venha a ser bom, qual é o sentido de fazer uma coligação com Carlos Moedas?
Defendemos sempre candidatos em pista própria, isto desde as autárquicas até às presidenciais.
E o mesmo vale para o Porto?
Defendemos sempre corridas em pistas próprias e é esse o conselho que temos a dar aos núcleos. Já temos assistido a várias notícias que falam de acordos com o PSD, algumas conversas…
… que foram desmentidas.
Tenho feito um périplo por Portugal, vamos estar presentes em todos os núcleos e temos falado com os dirigentes desses núcleos e há conversas com o PSD em várias zonas do país e, portanto, temos que avaliar seriamente que conversas são essas, o que é que se propõe nessas candidaturas
Está a referir-se a conversas de núcleos territoriais com concelhias do PSD?
Exatamente. Não sabemos qual é a envolvência da própria direção nessas conversas.
Há instantes, dizia respeitar profundamente a autonomia dos núcleos.
Sim, os núcleos estão a ter conversas hoje em dia — e bem, porque as autárquicas estão daqui a oito meses. Enquanto partido já devíamos a trabalhar nas autárquicas pelo menos há dois anos. Isso seria feito se esta direção tivesse a hombridade de falar com todos os envolvidos e, de uma forma serena, trabalharmos todos em prol do mesmo. Não faz sentido nenhum estarmos neste momento, no início de fevereiro, a arrancarmos para as autárquicas. Já vamos muito atrás.
Acredita que foi um erro a Iniciativa Liberal não ter integrado o Governo de Luís Montenegro?
Foi um erro Rui Rocha ter afirmado que a solução para o país estaria naquela mesa [do debate com Montenegro] e passado seis meses comparar o PSD ao PS. Acredito que a Iniciativa Liberal tem de ter um fio condutor e uma estratégia. Não pode estar a dizer que o PSD é a solução e, passado seis meses, não dar essa relevância a essa força política. Pelo contrário, menosprezá-la. Acredito que a IL tem tudo para ser governo em Portugal a médio e longo prazo e temos de nos focar nas nossas ideias e levar a mensagem liberal de forma muito clara aos portugueses, simplificando as nossas propostas para que o alcance seja máximo. Hoje em dia a mensagem da IL fala, em grosso modo, para 15 a 20% do eleitorado. Temos 5% de intenções de voto, o que responde, mais ou menos, a 33% de taxa de sucesso. Se estivéssemos a falar para um eleitorado de 100%, quase já poderíamos ser governo em Portugal. É esse o ponto-chave da nossa mensagem, da nossa candidatura, é falar para todos os portugueses de forma clara, de forma acessível e de forma liberal.
Disse que Rui Rocha afirmou que a solução para o país estava naquela mesa. Entre essa afirmação e as comparações com o PS estão oito meses de governação. Para si, a governação tem sido o suficientemente liberal como gostaria?
A governação tem sido com mínimos olímpicos e, claramente, estamos com uma força de bloqueio com o PS e com o Chega que não permite, obviamente, explanar sequer o programa político que foi apresentado pelo PSD.
A corrente da oposição andou muitos anos a criticar a direção por entender que os estatutos do partido são pouco liberais, houve oportunidade de os mudar numa convenção no verão passado e a oposição interna não teve votos suficientes para o fazer. Isso quer dizer que, afinal, o partido está confortável com os estatutos que existem?
Eu vou liderar a Iniciativa Liberal com os estatutos vigentes. Acredito que há necessidade de ouvir os mesmos sobre vários temas e sobre os estatutos também. Pretendemos efetuar vários referendos…
A questão é que os membros foram ouvidos e não concordaram, nem com uma opção nem com outra.
O processo foi muito mal conduzido por Rui Rocha e pela sua direção. O processo de revisão estatutário não tem que ser global, pode ser só sobre algumas alíneas e é nisso que queremos também ouvir dos membros, dar voz também aos membros.
Queixa-se muito de que esta direção não tem a capacidade de unir o partido, mas aquela que foi a sua número 2 ao Conselho Nacional desta vez vai candidatar-se por outra lista mais próxima da direção. Isso mostra que também tem dificuldade em manter as pessoas unidas?
Não. Revela claramente que há pluralismo dentro da Iniciativa Liberal e que as pessoas tomam as decisões que querem tomar mediante o seu pensamento, não há propriamente.
Então também é normal as pessoas apoiarem ou serem contra a direção.
É natural, muitas pessoas que estavam a apoiar a direção, neste momento estão na parte alternativa, não gosto da palavra oposição, mas temos uma proposta que é a abstenção do direito de voto no Conselho Nacional. Isso irá permitir devolver aos conselheiros o Conselho Nacional e que haja uma negociação com todos os conselheiros nacionais para todas as medidas propostas em sede do Conselho Nacional e, dessa forma, começar a unir o partido. O Conselho Nacional não pode ser uma divisão do partido, mas tem que ser uma construção para o partido.
“O meu trabalho é 0% ideológico e 100% comercial”
Numa entrevista ao Observador, quando era líder da IL, João Cotrim Figueiredo criticou a forma como foi feita a privatização da EDP e da REN e disse que a generalidade das empresas chinesas ou são detidas pelo Estado ou são controladas pelo Estado. Penso que trabalha para uma empresa chinesa chamada Chint Electric.
Correto.
A sua empresa é controlada pelo Estado chinês?
Não creio.
Mas o CEO da sua empresa foi um dos primeiros empresários privados a fazer questão de estabelecer um comité do partido dentro da empresa. Sente-se confortável em trabalhar para uma empresa que tem na sua estrutura uma representação do Partido Comunista Chinês?
Não creio que seja da forma como relata.
Não é verdade que o CEO da sua empresa criou um comité do partido dentro da empresa e defendeu que isso era importante?
Não creio que seja a prática hoje em dia. Mas, de toda a forma, trabalho para uma marca chinesa, mas tenho um contrato com uma empresa espanhola, portanto é diferente.
Tem um contrato com a sucursal espanhola desta empresa, que tem o mesmo nome com a palavra “Spain” à frente, não é?
Certo.
Portanto, trabalha para a Chint Electrics Spain. É isso, não é?
Certo, com muito orgulho. É bom que não discriminemos aqui nacionalidade.
Estamos a falar da forma de encarar a economia.
Estava a colocar a China como o lobo mau.
Não é por serem empresas chinesas, é pelo regime político, pelo regime económico que têm e de que forma é que isso está alinhado com…
Não podemos criar esse estigma se são americanos ou se são chineses.
Não é uma questão de estigma, é o que pessoas concretas defendem. O CEO da sua empresa, que é uma pessoa concreta, não é uma caricatura, escreveu que no desenvolvimento de uma economia como a chinesa, ter como única preocupação o lucro não é suficiente, porque é preciso garantir trabalho ideológico. Concorda que as empresas têm de estar preocupadas também com o trabalho ideológico?
Posso dizer que o meu trabalho é 0% ideológico e 100% comercial.
O Banco Africano de Desenvolvimento impediu a Chint Electrics de concorrer a contratos de financiamento durante 3 anos por ter realizado “várias práticas fraudulentas” quando concorreu a linhas de financiamento. Este histórico incomoda-o?
Como há-de compreender não irei comentar nada que tenha a ver com o sítio e com a empresa onde trabalho.
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR