Na manhã de quinta-feira, António José Seguro ia sentado no comboio que o levava desde uma ação de campanha em Sintra até Sete Rios e em pouco mais de três minutos de declarações aos jornalistas evitou por cinco vezes confrontos com o Governo. Um retrato rápido do que tem sido a sua campanha, em que já elogiou o PSD, puxou pela direita e evitou sempre o confronto com Luís Montenegro.
Duas mortes durante a espera por socorro médico poderia levar (como noutras candidaturas) a um fogo cerrado sobre o Governo, mas Seguro tem evitado qualquer corte ou melindre com o Executivo em funções. Mesmo quando é crítico, como tem sido com a situação na saúde que diz que será a sua “causa e prioridade” se chegar a Belém, trava quando chega a Montenegro ou à sua ministra.
Na tarde de quarta-feira já o tinha feito, quando falou na primeira morte desta semana, desviando a agulha da ministra e recusando o “passa culpas”. Esta quinta-feira usou a mesmíssima fórmula — “a história do passa culpas não é comigo” — quando os jornalistas insistiram com a questão. Nem mesmo no dia em que o primeiro-ministro vai estar no Parlamento para um debate quinzenal: “É um problema entre o Governo e os deputados”.
Não se desviou do guião nem mesmo quando foi desafiado a dizer se chamaria o primeiro-ministro a Belém, como disseram antes dele João Cotrim Figueiredo ou Henrique Gouveia e Melo. “Não, eu se fosse Presidente já tinha tomado a iniciativa de haver um compromisso entre todos os partidos para resolver a situação inaceitável e indigna“.
Com os jornalistas a insistirem na possível demissão da ministra da Saúde, Seguro nem deixou terminar a pergunta e disse que isso era “um assunto dos partidos”, centrando-se no seu papel: “Como Presidente tratarei disso diretamente com o primeiro-ministro”. À terceira pergunta, desta vez sobre responsabilidades, o candidato voltou a cortar para dizer logo que “a história do passa-culpas” não era com ele; a ele cabe-lhe, disse, “encontrar soluções”.
“Lealdade institucional significa ter uma reunião com o primeiro-ministro. O meu foco não tem a ver com A ou B, mas que se encontrem soluções para resolver estes problemas”, afirmou António José Seguro, referindo-se à postura que pretende levar para Belém e que diz que o obriga a uma contenção nas apreciações sobre a ação do Executivo.
VASCO COELHO/OBSERVADOR
À tarde, em Évora, a mesma linha, mas num tom acima. Os jornalistas insistiram cinco vezes com a responsabilidade governativa na saúde e da ministra em particular e nas respostas o candidato foi subindo o tom até gritar mesmo: “A minha urgência é rapidamente, depois de tomar posse, convocar os partidos e depois conversar com o primeiro-ministro para encontrar soluções sólidas e duradouras para uma situação que é indigna de um país europeu no século XXI”. Seguro irritou-se com a insistência, mas manteve a tese de uma situação que não é só responsabilidade deste Governo e que a solução tem de passar também pelos partidos.
“A minha preocupação como candidato não é fazer o jogo partidário, mas exigir ao Governo em particular, mas também aos partidos, que olhem para o sofrimento e dificuldades do país”, afirmou antes de seguir para a loja de capotes e experimentar um deles — que não levou.
VASCO COELHO/OBSERVADOR
Reagir com pinças
Esta prudência também acaba por colocá-lo na área da moderação e da estabilidade política, argumento que um dos seus adversários, Luís Marques Mendes, tem usado para tentar fragilizar as candidaturas que vêm de outras áreas políticas. Seguro já disse que não dissolve a Assembleia da República em caso de chumbo de Orçamento do Estado — ao contrário do atual Presidente — e tem reagido com pinças aos casos do dia, evitando aparecer como um provocador de instabilidade.
Logo na segunda-feira, em Loulé, quando foi confrontado com a presença de Luís Montenegro e as críticas que fez à sua candidatura, António José Seguro saltou por cima evocando o “dever de reserva”. “Não faço comentários às palavras do primeiro-ministro, porque espero recebê-lo dentro de dois meses no Palácio do Belém, na qualidade de Presidente da República.”
Nas suas intervenções tem mesmo usado uma imagem para o ilustrar a relação que pretende manter, ao jurar que não será “um primeiro-ministro sombra”. Afasta-se de alguns dos antigos Presidentes, incluindo um do seu próprio partido, Mário Soares, com as suas “Presidências Abertas”, muito criticadas pelo então primeiro-ministro, Aníbal Cavaco Silva. Nesta campanha, Seguro já anunciou que vai regressar “às presidências abertas e às presidências de proximidade em todo o território nacional”, mas sempre “cooperação” com o Governo.
Ao mesmo tempo, também já avisou por várias vezes que não tenciona ter o primeiro-ministro às quintas-feiras em Belém “para tomar chá” com Luís Montenegro. Afinal, à sua esquerda, vai sentindo também a pressão e as críticas sobre o seu estilo de liderança e a relação pouco dura que manteve com as forças de direita. Um legado que vem dos tempos como secretário-geral do PS, entre 2011 e 2014, e em que Pedro Passos Coelho governava com a troika no país.
No Parlamento, PSD e CDS não precisavam dos votos de mais ninguém, mas mesmo assim, o socialista Seguro anunciava uma “abstenção violenta” ao Orçamento da sua bancada. Essa decisão pesa até hoje, sobretudo nas investidas da esquerda sobre a sua candidatura. Jurar que não “vai tomar chá” com Montenegro e que será exigente é uma tentativa de provar a esse eleitorado mais à esquerda que, em Belém, não facilitará a vida ao Governo.
Objetivo: manter todas as vias abertas
Até agora, Seguro foi verdadeiramente incisivo na crítica à reforma laboral de Montenegro, assumindo aliás que a vetaria se chegasse tal como foi apresentada a Belém. “Não foi apresentada aos eleitores na campanha eleitoral, depois falhou na concertação social”, foi repetindo o socialista. Seguro tem mantido a posição crítica e aproveitado para apontar a alguns adversários que “já mudaram de opinião” desde que o ouviram admitir o veto.
Ainda que tenha entrado na campanha com o foco no voto útil, sobretudo à esquerda, a sua área política e onde há mais três candidatos em disputas, António José Seguro não deixa de tentar entrar também em alguma direita. Em Santarém, na noite de quarta-feira, o socialista aproveitou a contenda entre Mendes e Gouveia e Melo, sobre clientelismo político, não só para se diferenciar como para alargar o apelo ao voto. “Venham de onde vierem, da esquerda, da direita ou do centro, cada português é muito bem vindo porque todos fazemos o país”, afirmou, tentando chegar ao voto de indecisos mas também dos descontentes com o desempenho dos candidatos até aqui.
Durante os primeiros dias de campanha, António José Seguro até começou por diabolizar a direita, mas evitando sempre colocar o PSD ao nível do Chega. E até tem sido especialmente gentil com o partido de Montenegro que refere sempre como “fundador da democracia” quando usa o argumento da necessidade de “equilibrar” o sistema político com a sua eleição como Presidente.
Ainda na segunda-feira fez isso mesmo ao almoço, na Vidigueira, e depois novamente à noite, no comício de Portimão — quando dramatizou a hipótese de uma revisão constitucional à direita com o eventual crescimento da influência de André Ventura no país. O problema, disse, “não é o PSD, mas o outro partido extremista que está a colonizar com as suas ideias e propostas essa mesma direita”. Separar as águas e preservar todas as vias abertas com os sociais-democratas.
VASCO COELHO/OBSERVADOR