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Fechados há cerca de um mês e meio, ginásios e academias estão entre os setores que aguardam instruções do Governo para a reabertura. Mas, mesmo sem terem ainda instruções concretas, já sabem que não deverão arrancar antes de junho, segundo José Carlos Reis, presidente da AGAP (Associação de Ginásios e Academias de Portugal).

Em nome dos associados — 1100 dos 1300 ginásios e academias a operar em Portugal — a associação entregou, a 16 de abril, uma proposta de medidas de retoma da atividade à Secretaria de Estado da Juventude e do Desporto. Ainda sem resposta, mas com as autoridades de saúde a avaliarem a evolução da pandemia no país todas as semanas, o dirigente acredita que o regresso será gradual e que os procedimentos sugeridos pela associação têm tudo para receber a aprovação da Direção-Geral da Saúde (DGS).

“Antecipámo-nos. O que fizemos foi apresentar ao Governo, com base no benchmarking [análise comparativa] feito com outras associações europeias do setor, o que pensamos serem as melhor normas. O objetivo é que todos os espaços que reabram sigam estas medidas, até porque é preciso restaurar a segurança das pessoas nos clubes”, afirma José Carlos Reis, em entrevista ao Observador.

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Confiante de que a proposta será a melhor base de trabalho para a deliberação da DGS (que calcula que esteja para breve) e enquanto aguarda a comunicação do Governo na sequência do Conselho de Ministros de dia 30 de abril, sobre as datas para a reabertura dos diferentes setores, o presidente da AGAP prevê ainda que sejam os próprios ginásios a encontrar a melhor data para a reabertura, o que poderá fazer com que muitos espaços reabram semanas depois do prazo estabelecido pelo executivo.

“Pior do que não abrir é abrir e ter de voltar a fechar”, assinala José Carlos Reis. “Haverá ginásios que, mesmo depois de o Governo permitir, vão continuar fechados. Não vamos esquecer que 35% dos ginásios já tinham fechado antes de o Governo decretar o seu encerramento, em março”, completa o presidente de AGAP, única associação do setor, que agrega as grandes cadeias a operar em Portugal, entre elas o Holmes Place, o Solinca ou o Fitness Hut.

A lista das regras a seguir

No documento entregue ao secretário de Estado da Juventude e do Desporto, João Paulo Rebelo, e posto à consideração da DGS, a AGAP sugere um conjunto de medidas para manter a segurança e a higiene de clientes e funcionários dentro de um ginásio ou academia.

A começar pela gestão dos próprios espaços. De forma a cumprir o distanciamento mínimo de dois metros entre clientes, a proposta sugere que a lotação de cada operador seja de uma pessoa por cada quatro metros quadrados. A regra permitirá controlar a concentração de pessoas no interior em todo o tipo de instalações, das maiores às mais pequenas. Este é válido ainda para aulas de grupo.

“As pessoas não vão poder ir ao ginásio quando lhes apetece, vão ter de marcar”, admite José Carlos Reis. Quanto à implementação destes limites, o representante diz ser uma parte simples do processo de adaptação destes espaços — será tudo “gerenciado com o software que os ginásios já têm e com o qual já gerem habitualmente as entradas”. Ainda assim, o documento prevê uma contagem extra de entradas e saídas. O sistema de reservas deverá ser usado por cada espaço, de modo a que não existam filas para acesso aos diferentes espaços do clube.

Nas salas de máquinas, o número máximo de clientes admitidos em simultâneo deverá corresponder a metade dos equipamentos em funcionamento nessa mesma área antes do encerramento do ginásio. Ou seja, metade das máquinas ou equipamentos disponíveis poderão ser vedados à utilização ou até mesmo retirados da sala. O tempo de permanência de cada cliente não deve ser superior a uma hora.

A associação prevê um cenário de “retoma gradual e potencialmente parcial da atividade” e compromete-se com “uma reabertura o mais rápida possível”. Isto implicará que, mesmo antes de receberem os sócios, as empresas terão de adaptar as próprias estruturas para conseguirem cumprir as seguintes regras:

  • Nas receções, a distância mínima entre pessoas deverá estar marcada no chão;
  • Deverão ser instaladas proteções de vidro ou acrílico nos postos de atendimentos presencial;
  • Os espaços devem informar os clientes sobre as recomendações de higienização imediata após a utilização dos equipamentos;
  • Fica proibida a prática de exercícios dois a dois;
  • O contacto físico entre técnicos e clientes deve ser evitado ao máximo;
  • As aulas de grupo terão intervalos entre elas para que se possa proceder à higienização e arejamento das salas — o presidente da associação fala em 15 minutos;
  • A proposta de medidas de remota de atividade dos ginásios e clubes prevê ainda “sempre que possível” a disponibilização de horários exclusivos para idosos.

Nos balneários há três regras que devem ser aplicadas, segundo o documento a que o Observador teve acesso:

  • A utilização destes espaços deva reduzir-se em 50%;
  • Deve haver dois cacifos vazios de intervalo entre os utilizados por clientes;
  • Durante as primeiras semanas após a reabertura, a AGAP recomenda que o acesso aos chuveiros seja vedado — o ideal é que as pessoas já entrem equipadas e saiam diretamente para a rua após o treino”, comenta José Carlos Reis.

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Os ginásios terão também a obrigação de fornecer soluções desinfetantes aos clientes, mas também às suas equipas. O serviço de limpeza será reforçado, “com atenção especial aos equipamentos desportivos”. As empresas terão ainda que intensificar a comunicação de regras de etiqueta respiratória e de medidas de higiene junto dos clientes.

Máscaras de proteção estão fora do plano

De fora do documento que aguarda revisão e aprovação da DGS fica o uso de máscara de proteção. A opção deve-se à falta de um consenso, mesmo dentro da Europa, sobre quem deverá garantir esta medida de proteção dentro dos ginásios. “Há países onde não é obrigatória para ninguém. Noutros, é para todos. E há aqueles onde é só para os funcionários”, esclarece José Carlos Reis, que refere Suécia, Dinamarca, Áustria, Bélgica e França como os casos tidos em conta.

Quanto a uma possível diminuição nas mensalidades pagas pelos clientes aos ginásios e academias, uma vez que a utilização dos espaços e serviços será, numa primeira fase, limitada, José Carlos Reis afirma que a opção caberá a cada empresa, pelo que a associação não emitirá qualquer diretriz.

Segundo a AGAP, o setor vai levar um ano a recuperar do impacto da pandemia. “As pessoas estão receosas”, reconhece o presidente da associação. E afirma que o volume de clientes a frequentar os ginásios neste período de reabertura não deverá ir além dos 30%, já que muitos vão optar por continuar a seguir os treinos à distância.

Numa outra proposta apresentada ao Governo, também a 16 de abril, a Associação de Ginásios e Academias de Portugal pede medidas específicas de apoio ao setor. Foi requerida uma redução extraordinária do IVA para 6% durante um ano, mas também outras mudanças fiscais. A AGAP propõe a aplicação de um benefício em sede de IRS, no valor anual máximo de 400 euros por contribuinte.

Além do incentivo à prática de exercício físico, a associação espera, caso a medida seja considerada e adotada pelo Governo, aumentar a taxa de penetração do setor, que neste momento é de 6,9% em Portugal, segundo dados de 2019. José Carlos Reis lembra ainda que os ginásios e academias empregam cerca de 17 mil pessoas em todo o país.

A abertura dos ginásios da Austrália à Dinamarca

Tal como em Portugal, o surto de Covid-19 obrigou ao encerramento dos ginásios em todo o mundo. Nos últimos dias, após ter iniciado o tão desejado regresso à normalidade, a China já se depara com a ameaça de uma segunda vaga, receio que levou a capital Pequim a encerrar novamente todos os ginásios e piscinas públicas.

Na Austrália, onde a reabertura de ginásios e academias começou por ser encarado como não prioritário, o setor afirma estar pronto para integrar a primeira fase de uma gradual retoma. Entre as medidas preparadas, embora ainda sem data para reabrir, há a medição de temperatura dos clientes na chegada às instalações, o aumento da frequência de limpeza e desinfeção do espaço e dos equipamentos, a disponibilização de material de proteção pessoal para os funcionários, a redução da lotação das aulas e a possibilidade de realizar treinos a céu aberto.

Nos Estados Unidos, os ginásios parecem estar oficialmente incluídos na primeira fase da abertura das atividades económicas, embora caiba agora a cada estado decretar a sua cadência. Na Geórgia, por exemplo, o governador Brian Kemp autorizou a reabertura destes espaços na última quinta-feira, dia 23 de abril. No total são 16 as medidas que têm de cumprir para poderem retomar a atividade, entre elas a medição de temperatura dos clientes — qualquer pessoa que apresente temperatura corporal acima dos 38 graus, tosse, falta de ar ou outros sintomas respiratórios são proibidas de entrar –, a diminuição da lotação e a interrupção de aulas e atividades com crianças. Já no Colorado, os ginásios continuam fechados, mas as sessões de treino acompanhadas profissionais são permitidas. No Oklahoma, a data de reabertura está marcada para dia 1 de maio. No Idaho, a primeira fase do regresso à normalidade também está marcada para o início de maio e inclui ginásios e academias.

Na Europa, José Carlos Reis afirma que as medidas sugeridas ao Governo pela AGAP estão em sintonia com as deliberações de outros países, onde, na generalidade, os ginásios não estão a ser englobados na primeira fase da reabertura.

Áustria e Dinamarca preparam regresso à normalidade. Por onde se recomeça?

Um desses países é a Dinamarca, que iniciou a abertura gradual das atividades económicas em meados deste mês. Ginásios e academias retomaram a atividade no passado fim de semana, praticando distancias de segurança entre clientes e limpeza frequente de equipamento, entre outras medidas. Na Áustria, as previsões de reabertura apontam para a segunda quinzena de maio ou para o início de junho. Na Suécia, nunca chegaram a encerrar. Em França, o levantamento do confinamento anunciado para 11 de maio não prevê a reabertura dos ginásios, à semelhança do que acontece com os espaços culturais.

No Reino Unido, o setor já pressiona o Governo no sentido de começar a preparar a reabertura. Sem datas nem um plano de medidas concretas, a organização UK Active já anunciou estar a trabalhar com as autoridades de saúde. Segundo a organização, o número de ginásios e centros desportivos sob o risco de encerrar definitivamente chega aos 2.800, ameaçando cerca de 100 mil postos de trabalho.