“A Aliança não se conseguiu libertar da sua figura de proa.” Quem o diz é Ana Pedrosa-Augusto, ex-vice-presidente do Aliança, que deixou o partido ainda antes de Pedro Santana Lopes, logo depois do congresso em que houve uma mudança de direção. Desilusão é “uma palavra muito forte”, mas admite ter “pena” do que aconteceu ao partido, de não ter sido o projeto com que sonhou. Percebe quem se desfiliou, por acreditar que muitas pessoas foram “à procura de algo novo” e “não era aquilo que procuravam”.
Agora, depois da saída do fundador, ainda mais. “A partir do momento em que a figura de proa do partido deixa de estar presente claro que muitas pessoas também terão sentido que lhes faltava aquela figura em que acreditavam e perceberam que afinal não era ali que queriam estar.”
Em pouco mais de dois anos muito mudou. Após fundação do partido em outubro de 2018, o ponto alto aconteceu no congresso fundador, em Évora, a 9 de fevereiro do ano seguinte. A emoção tomava conta de Pedro Santana Lopes por sentir que estava a construir “algo de novo”, empenhado em estar do “lado bonito da política”.
Mais de 700 dias separam o “momento especial sem pieguices” em que entrou na Arena d’Évora, onde estiveram presentes 600 delegados, e o dia em que abandonou o partido, certo de que não iria desistir da intervenção política. “Não há nada melhor do que ser independente”, despediu-se Santana Lopes.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Foi Paulo Bento que assumiu a presidência da Aliança em setembro de 2020. Tal como Santana Lopes, também foi militante do PSD, trabalharam juntos na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e foi vereador da câmara de Torres Vedras.
O líder do Aliança afasta a ideia da debandada de militantes após o congresso e assegura que houve de facto saída de militantes, ainda que a maioria tenha tomado a decisão antes desse momento de viragem no partido. Chegaram a ser 2100 militantes, “mais de 500 saíram antes do último congresso”. Depois da reunião “saíram perto de 100 militantes e entraram mais ou menos o mesmo número”.
O líder do partido afasta a ideia de uma rutura com o passado, admite que “há sempre sobretudo mudanças de estilo”, contudo considera que “o espírito com que o partido foi fundado é exatamente o mesmo”, das convicções, aos princípios e aos valores. Não esquece o fundador como sendo um “líder carismático”, como tendo sido “à volta dele” que a Aliança nasceu mas crê que se construíram “ramificações por todo o país”, o que permitiu que “o partido esteja pujante, organizado e preparado para os desafios futuros”.
“É a vida normal dos partidos, teve a sua origem com uma figura que impulsionou a sua fundação e que entendeu dar outro rumo à forma de fazer política, é o percurso normal das instituições, uns saem, outros entram”, remata.
A advogada de Madonna e os “aliados” de um homem com uma “lábia filha da mãe”
Bruno Ferreira Costa concorda e sentiu que tinha de abandonar o partido depois de ter entrado uma “nova linha e novos protagonistas”. Justifica a opção com a “ideia de deixar espaço para quem acredita nessa linha” e para que as novas caras “pudessem afirmar politicamente o projeto”.
O ex-militante do PSD foi vice-presidente de Santana Lopes no Aliança e admite que havia uma “identificação” com o fundador e com o “caminho de afirmação de um novo partido no centro direita”. Aliás, hoje está certo de que esse espaço existia no espetro político português: “Havia espaço para afirmação de um partido político novo que pudesse representar uma alternativa a um conjunto de eleitores e isso confirmou-se, não foi com o Aliança, foi com outros partidos.”
Não foi o caso de Bruno Ferreira Costa, mas muitos dos nomes que saíram da Aliança acabaram ligados a outros partidos. Uns procuraram diferentes alternativas, outros tiveram convites e há até casos de quem esteja ligado a outros partidos mas sem a ficha de militante assinada.
É o caso de Ana Pedrosa Augusto, advogada de Madonna, que estava num “período de luto” da política desde que saiu da Aliança e, há uns meses, aceitou ser a número dois da lista da Iniciativa Liberal à Câmara Municipal de Lisboa. Vê no partido algo “irreverente”, com “sangue novo” e uma “forma de estar diferente”. “Preenche quase todos os requisitos” que a fizeram mergulhar na Aliança e não consegue apontar o que falta à IL por serem partidos “muito diferente” e o facto de não estar dentro do partido também torna “difícil comparar” as duas realidades.
Cláudia Gonçalves esteve nove meses na Aliança e chegou a ser coordenadora do Algarve. Sentiu-se “um bocadinho defraudada” por perceber que o partido “era mais do mesmo” que a tinha levado a sair do PSD. Tinha esperança numa “lufada de ar fresco daquilo que pensava que poderia ser o PSD de Sá Carneiro” mas acabou desapontada e acabou por, mais tarde, encontrar essa diferença no Chega e em André Ventura.
A ex-militante do Aliança olha para o passado e atribui algumas culpas a Pedro Santana Lopes, acredita que “deveria ter feito das bases o seu maior apoio, ouvir mais, falar mais com as bases e sentir os problemas do terreno”. Para Cláudia Gonçalves, Santana Lopes é um “bom político, bom orador”, mas nos projetos “não pode haver pessoas que estejam lá só para cargos”, o que acabou por sentir enquanto esteve na Aliança, onde sentiu “falta de liderança”. “Acho que a Aliança pecou e fez com que as bases saíssem”, reforça.
Apesar de gostar de Paulo Bento e de o considerar uma “pessoa de terreno”, Cláudia Gonçalves está certa de que “desde que Santana Lopes saiu o Aliança está condenado a desaparecer porque falta aquela figura de proa, todos sabemos que tem de haver um navegador em que as pessoas se revejam”.
Trajeto idêntico assumiu Rui Roque, que chegou a ser diretor de campanha na Aliança, esteve desde a fundação do partido e assume que o objetivo com o partido era conseguir “algo novo”, uma “alternativa no centro-direita, que saísse da esfera do PSD quase como uma cisão”. Acreditou que era o “partido certo”, mas hoje considera que “entre a IL e o Chega há muito pouco espaço para o Aliança poder ter alguns resultados”.
Das eleições à mensagem, o que falhou?
A opinião de que a Aliança tinha tudo para correr bem é quase unânime, bem como as justificações para que não tenha sido assim. Bruno Ferreira Costa assume que “o caminho que o partido se predispôs a fazer não foi conseguido” e aponta como “data marcante” as eleições legislativas, em que o partido “não consegue a representação parlamentar, a projeção mediática e o financiamento que advém disso”.
Ana Pedrosa Augusto junta ainda as eleições europeias à lista de momentos difíceis, já que havia um “marco muito grande em acreditar que era possível”. A ex-vice da Aliança recorda essa altura como de “muito difícil digestão”. “Mas fez-se”, afirma enquanto recorda que o partido se levantou para enfrentar as eleições legislativas, que se tornaram em mais um balde de água fria. “Foi mesmo muito mau não ter entrado”, relembra.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Bruno Ferreira Costa aponta para um “impacto elevado”, já que “a Aliança foi criada para ser um partido de média, grande dimensão” e não como um projeto de “eleição de um deputado”. Sem ter entrado sequer um representante na Assembleia da República, o ex-vice de Santana Lopes considera que o caminho atual “já não é de continuidade”, trata-se mais, realça, de “uma segunda vida para o partido”.
Para trás, fica “um sentimento de alguma desilusão por o projeto não ter sido compreendido num espectro político mais amplo”, mas também a certeza de que se falhou na mensagem. “Pode-se definir como um erro de comunicação de não ter sido percebido que era necessária uma maior rutura na mensagem para se atingir um determinado número de população”, admite.
O atual líder da Aliança não aponta “críticas a ninguém”, mas afirma que “a ter havido erros” apenas se pode olhar para dentro. “Provavelmente não conseguimos fazer chegar ao eleitorado a nossa mensagem, as nossas propostas e os caminhos que queremos trilhar”, ressalva.
Contudo, os olhos estão postos no futuro e Paulo Bento está convicto de que a Aliança terá “os seus primeiros eleitos” nas autárquicas, “um pouco por todo o país”, já que tem confirmado a presença em várias coligações a nível nacional, com partidos como PSD, CDS, IL, Nós, Cidadãos, PPM e PPT. O presidente do partido é ainda cabeça de lista à Câmara Municipal de Torres Vedras. “Só se houvesse uma catástrofe eleitoral” é que não seria eleito ninguém da Aliança, insiste Paulo Bento, frisando que foram negociados lugares elegíveis em várias listas.
Apesar da esperança em forma de certeza, o líder do partido não quer os louros para si. “Não é pelo facto de o partido ter uma nova liderança que vai eleger este número de pessoas, são eleições específicas e estou convicto de qualquer que fosse o presidente o partido iria eleger”, explica.
Apesar disso, admite que foi preciso uma “reorganização interna muito grande” quando chegou à direção. O partido “cresceu pelo telhado” e só depois foi sendo feito “o prédio”. Foi preciso um passo atrás.
“O que está a acontecer neste momento é que estamos a criar as nossas estruturas, a nossa base, os caboucos, como se diz na construção civil, e vamos conseguir, a partir de baixo, a criar representatividade que nos permita crescer para que em futuras eleições possamos ter representantes no Parlamento”, explica.
Sem financiamento e a viver das quotas dos militantes, a “receita é muito baixa” e foi preciso “tomar opções drásticas”. A Aliança abdicou da sede nacional por ser uma “despesa muito grande” e dos funcionários. Nesta fase, a pandemia até veio ajudar porque “passou tudo a ser online”.
É quase um regresso às origens, como que um renascimento de um partido (ainda) novo, agora sem uma figura como Pedro Santana Lopes, capaz de, por si só, captar a atenção até dos menos atentos à política portuguesa. A atual direção do partido está disposta a fazer esse caminho, mesmo depois de ter perdido mais do que um líder.
A questão que se impõe é como o fará, se as ambições de eleger nas autárquicas se vão tornar uma realidade e qual o caminho que será feito para o ataque à Assembleia da República nas próximas legislativas.